Há mais de 40 anos exercendo o jornalismo, Zuenir Ventura já escreveu que o jornalista leviano é tão nocivo à profissão quanto um censor, com a desvantagem de que o primeiro finge servir à imprensa. Não é de estranhar, portanto, que no mesmo dia (23/09) em que a mídia noticiava com destaque a tese de que a liberdade de imprensa estaria sendo ameaçada, o autor de `1968 – O Ano Que Não Terminou´ afirmasse não ver qualquer risco à democracia brasileira.
“Apesar de a democracia brasileira ainda ser frágil, eu não
acho que haja qualquer ameaça no horizonte. Ela ainda não está consolidada, é claro, mas esta é uma das características da democracia em qualquer parte: a de estar em permanente aprimoramento”, disse Zuenir pouco antes de participar, no último dia 23, em Santos (SP), da 2ª Tarrafa Literária – Festival Internacional de Literatura (leia mais sobre o evento nos posts abaixo)Ventura esteve na cidade litorânea acompanhado pelo escritor e amigo de quase duas décadas Luis Fernando Verissimo e do também jornalista Arthur Dapieve, com quem acaba de lançar o livro `Conversa Sobre o Tempo´, transcrição das conversas gravadas durante os cinco dias em que os três passaram em uma fazenda a cerca de 100 quilômetros de distância da capital fluminense falando sobre amizade, família, paixões, política e morte.
No livro, Ventura comenta que, do ponto de vista político, o país avançou bastante nos últimos 40 anos, mas que ainda necessita resolver o problema das diferenças e injustiças sociais. E ao mesmo tempo em que afirma haver uma má-vontade da imprensa com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, cobra que Lula “não pode ter essa leniência em relação à corrupção”.
“Não acho que devemos ter uma posição corporativa de achar que a imprensa é intocável e não deva ser criticada. Não defendo a impunidade ou qualquer tipo de imunidade para a imprensa. Acho que ela está sim sujeita à críticas, até para que melhore. Agora, óbvio que censura é outra coisa e sempre que houve censura isso fez mal a toda a sociedade”, disse Ventura.
Assim como no livro, em nossa conversa Ventura também se referiu ao seu desconhecimento sobre o sindicalista e ambientalista Chico Mendes à época em que este foi assassinado, em dezembro de 1988, para indicar o que considera um problema nacional: nossa dificuldade de criar e reconhecer novas lideranças. Apesar de já ser um repórter experiente na ocasião, Zuenir admite que, até então, não sabia direito quem era Chico Mendes, mesmo ele já tendo recebido alguns prêmios no exterior e estando jurado de morte. Entre os cinco temas de Conversa Sobre o Tempo, Ventura considera que os momentos em que ele, Verissimo e Dapieve refletiram sobre a essência da amizade foram os mais agradáveis e os que resultaram nas considerações com maior potencial de surpreender os leitores. Para Ventura, por exemplo, a amizade é mais importante inclusive que o amor.
O autor de 1968 - O Ano Que Não Terminou ri quando questionado se nenhum dos três participantes do encontro chegou a sugerir que a política fosse englobada ao tema paixões, algo que não causaria estranheza aos leitores de nenhum dos dois articulistas. "Para mim - e acho que também para o Luis Fernando [Verissimo] - a política não é uma paixão. Não no sentido de fanatismo, do sectarismo e do radicalismo, que é algo que faz muito mal. Logicamente eu estou falando da política partidária, de que eu não gosto. A Política, lógico, é algo fundamental", concluiu Ventura.












fotos tiradas ontem (18), em uma padaria do canal 5, em Santos (SP)


















