quinta-feira, julho 05, 2012

Celebração Cacófona


Convidado a fazer um balanço sentimental dos dez anos da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), o escritor Luis Fernando Veríssimo alimentou a já folclórica fama de ser avesso a falar à plateias - que ele carinhosamente chama de "o monstro". Ao mesmo tempo,  em menos de sete minutos, provou que o domínio do discurso textual é capaz de superar inclusive a timidez.

"Vocês começam a entender porque fui eu o escolhido para fazer esta apresentação da 10ª Flip. Em primeiro lugar [os organizadores] queriam alguém que falasse pouco e não atrasasse a festa. Em segundo lugar, desconfio que a Flip quis me dar outra oportunidade de me redimir do vexame", disse Veríssimo, fazendo graça com o episódio ocorrido em 2008, quando, convidado para atuar como mediador do bate-papo com o dramaturgo inglês Tom Stoppard, se referiu ao festival como Clip, ao invés de Flip.

"Não foi uma gafe. Troquei o F pelo C confiando que a plateia entenderia minha sutileza. Quem errou foi a plateia, que não me entendeu", brincou o escritor. "Com [o uso equivocado do] c eu quis dizer que o que acontece aqui é uma conspiração. Há dez anos a [editora e idealizadora da festa literária] Liz Calder conspira para nos deixar mais inteligentes, pois o que acontece aqui, na cidade, é um conluio de ideias, uma convergência de tipos e talentos, uma catarata de conceitos, um carrossel de criações, uma catarse, uma catequese".

Leia abaixo a íntegra do texto de Veríssimo.

“Há exatamente quatro anos eu fui convidado pela Flip para apresentar e entrevistar o dramaturgo inglês Tom Stoppard. Apesar do meu pavor de enfrentar o monstro, que é como eu chamo, carinhosamente, a plateia, qualquer plateia, me enchi de coragem, coloquei um Isordil preventivo embaixo da língua e subi no palco com o Tom Stoppard. E minhas primeiras palavras foram: “ É um grande prazer estar de volta aqui na CLIP”.

Na hora, não me ocorreu nenhuma maneira de consertar meu erro. E vocês começam a entender por que fui o escolhido para fazer essa apresentação na décima Flip. Em primeiro lugar, queriam alguém que falasse pouco e não atrasasse a festa. Em segundo lugar, desconfio que quatro anos depois, a Flip quis, generosamente, me dar outra oportunidade de me redimir do vexame de ter trocado o F pelo C. Tive quatro anos para pensar numa explicação para minha gafe. Que, sem esta oportunidade, me perseguiria, inexplicada, até o túmulo.

E depois de pensar durante quatro anos decidi adotar uma máxima muito usada no futebol e por políticos  sob investigação, segundo a qual a melhor defesa é o ataque. Minha explicação para a gafe é que não foi uma gafe. Troquei o F pelo C conscientemente, confiando que a plateia entenderia minha sutileza. Quem errou foi a plateia, que não me entendeu.

Com o C eu quis dizer que o que acontece aqui em Paraty todos os anos é uma conspiração. Há dez anos Calder e cúmplices conspiram para nos deixar todos mais inteligentes. O que acontece aqui é um conluio de idéias, um convênio de cérebros, uma convergência de tipos e talentos, uma catarata de conceitos e cantares, um carrossel de criações e catarses e contestações e casos e catequeses.

Meu C também aludia ao fato de grande parte do charme e do brilho do evento acontecer nas mesas dos bares e restaurantes em Paraty. Também era um C de comilança, de convescote e de conversa noite a dentro.

O caráter internacional do evento resulta num vibrante embate de línguas mediado por intérpretes atarefados, em que no fim todos se entendem, ou se desentendem magnificamente.  Meu C também era de cacofonia, maravilha cacofonia.

E como quase tudo se passa sob essa grande tenda, onde vemos desfilar feras do pensamento, números de emocionante acrobacia intelectual e prestidigitação verbal, cuspidores de fotos e alguns palhaços no bom sentido, o C também era de circo.

Mas acima de tudo, o C que ninguém entendeu era de celebração  – um termo quase religioso para o que vem acontecendo em Paraty todos estes anos. Celebração do livro. Celebração da literatura, esse território livre onde o espírito humano se expande e se impõe. Um dos últimos livros do Stephen Greenblatt – que, aliás, é um dos convidados desse ano – se chama “Shakespeare’s Freedom” e começa com essa frase: “Shakespeare como escritor incorpora a liberdade humana.” Para Greenblatt Shakespeare é o maior exemplo na história do poder da linguagem de conjurar mundos, inventar universos e examinar e emular qualquer emoção humana. Mas todo escritor tem acesso a esse território em que a linguagem tudo pode e a imaginação não tem limites. Cada livro, cada frase, cada palavra e eu diria até cada vírgula e cada ponto é um exercício de liberdade, e isto também é o que se celebra em Paraty.

E aqui também se celebra a permanência do livro. Não duvido que em algum momento deste encontro surgirá uma pergunta sobre a iminente morte do livro, vítima dos novos tempos e da nova tecnologia. Na verdade, a morte do livro vem sendo preconizada há tempo, e nunca acontece. É uma das mais longas agonias de que se tem notícia. E mesmo que o livro esteja moribundo, podemos buscar consolo numa analogia que li há pouco tempo, feita por outro americano, o romancista e ensaísta John Barth. Para Barth a morte do livro se parece com a morte de certas personagens da ópera, que vão definhando por três atos até falecerem no fim, mas não sem antes encontrarem fôlego para uma última ária. E Barth lembra que geralmente a última ária é a mais bonita da ópera. É esse o nosso consolo: como as sopranos tísicas, a literatura ainda nos reserva uma ária final, de uma grandeza hoje inimaginável. E que em algum lugar do mundo alguém está escrevendo esse trágico e belo último ato.

Pronto. Não sei se cheguei a desagravar a minha gafe, mas pelo menos tentei. E tudo isso foi apenas um preâmbulo para dar boas-vindas a todos e dizer que é um grande prazer estar de volta aqui, inaugurando a décima edição da Clip. Ahn, da Flip!”

terça-feira, julho 03, 2012

Primeiras Imagens



Faltando pouco menos de 24 horas para o início da 10ª edição da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), os principais responsáveis pelo sucesso do evento começam a chegar à cidade do litoral fluminense. São eles, os anônimos, como eu, que tomam as ruas, se acabam na "marvada" parati, viram a noite tentando se equilibrar sobre o irregular piso pé-de-moleque e ainda encontram disposição para acompanhar o bate-papo literário. Nem que somente umas poucas mesas.

Até esta terça-feira (3) a noite, a cidade história ainda estava tranquila. Salvo o habitual burburinho dos bares da Praça da Matriz, a maior parte das ruas estava vazia. A expectativa, contudo, é grande. Como este ano a festa chega ao seu décimo ano homenageando o poeta Carlos Drummond de Andrade, os organizadores prometeram uma promoção especial. Incluindo o aguardadíssimo show de abertura, nesta quarta-feira (4), que ficará a cargo de Lenine.


sexta-feira, junho 29, 2012

Preparativos


Por Ana Liz Justo *

Neste sábado, 30 de Junho, às 20 horas, acontecerá a abertura da exposição “Lucio Cruz Convida Júlio Paraty”, no Atelier Lucio Cruz, que ficará até o dia 29 de julho. O encontro desses dois grandes artistas, certamente contribuirá para o enriquecimento do acervo artístico e cultural paratiense, e é uma oportunidade única de ver as expressivas obras desses dois artistas juntos.

Julio Paraty é um dos artistas-plásticos mais reconhecidos da região. O corpo de sua obra pode ser considerado uma documentação da cultura popular de sua terra, da qual ele inclusive adotou o sobrenome. É nela que ele encontra inspiração – em suas tradicionais festas, em seus casarios históricos, em seus santos e relicários.

Lucio é paratiense, e um dos artistas-plásticos mais reconhecidos da região. Suas obras, elaboradas em papel machê e coloridas com tinta acrílica, são inspiradas na cultura popular, nas festas tradicionais da cidade (profanas e religiosas), e nas formas das pessoas de sua terra.

Seu trabalho tridimensional emociona pela resignação nas expressões das figuras representadas, e pelas cores vibrantes, que transmitem a alegria e simplicidade de seu povo.

Meu Point. Meus Conterrâneos. Nossas Ondas

Com direito a vislumbres da Prainha (meu local de surf preferido), até o feioso paredão de prédios que bloqueou o avanço da brisa do mar ficou fotogênico. Música apropriada e Andrew Serrano surfando de alaia (pranchas de madeira, finas, simples e sem quilhas).

"Acaba de sair do forno o primeiro episódio da série Quebra-Mar, produzido pela Fluence Vídeos. Com todas as imagens registradas no tradicional pico de Santos (SP) (popularmente chamado de Píer, no José Menino), o vídeo conta com a participação dos surfistas Andrew Serrano, Cássio Sanchez, Renato Wanderley e Rodrigo Metrinho" - (Herbert Passos Neto - Site Waves)

terça-feira, junho 26, 2012

Notícias de Um Sequestro






Apesar dos problemas persistentes que vez por outra surgem na mídia, a Colômbia já esteve muito pior. É o que nos lembram obras como o filme PVC ou os desenhos, telas a óleo e aquarelas pintadas por Fernando Botero entre os anos de 1994 e 2004, expostos na mostra Dores da Colômbia (e que ilustram este post), que percorreu várias capitais brasileiras. Só que nenhuma obra artística dedicada ao registro do período negro da história colombiana da segunda metade do século passado cala tão fundo quanto o livro Notícias de Um Sequestro, escrito por um dos maiores nomes da literatura universal de todos os tempos, o colombiano Gabriel Garcia Márques. 

Jornalista destacado antes de se consagrar como um dos maiores expoentes do chamado realismo fantástico, Garcia Márques dá impressão de se conter a fim de se ater exclusivamente aos fatos. Ocorre que, como o próprio autor afirma em dado momento, o dia a dia colombiano, principalmente durante tempos incertos, está muito além do que o mais imaginativo artista pode conceber. Até porque, se alguém ousasse botar no papel a imagem preconcebida de sequestrados e sequestradores jogando dominó ou xadrez, ou de bolos sendo servidos no cativeiro para comemorar a notícia da breve libertação de uma vítima soltura, seria acusado de ingênuo ou sensacionalista. Garcia Márques, contudo, está amparado no que de fato aconteceu e lhe foi contado pelos próprios protagonistas do jogo e, posteriormente, do livro. 

Garcia Márques se incumbiu de escrever Notícias em 1993, por sugestão de Maruja Panchón, que passou seis meses nas mãos de sequestradores a serviço do narcotraficante Pablo Escobar e seu grupo, autodenominado Os Extraditáveis (por razões explicadas no livro de 318 páginas publicado pela editora Record). Com uma prosa arguta e objetiva, o escritor já havia avançado bastante quando se deu conta de que era impossível desvincular o sequestro de Maruja e sua assistente Beatriz, de outros oito que aconteceram na mesma época. Vistas em conjunto, as vítimas, na maioria, jornalistas, compunham um grupo de "pessoas muito bem escolhidas", capazes de servir como elemento de pressão para que o governo aceitasse negociar com os grupos terroristas condições especiais para que os criminosos se rendessem e tivessem suas vidas asseguradas.  

Felizmente, a Colômbia parece ter conseguido superar (não totalmente) o mais difícil. Meu próprio amigo surfista prego brasiliense Carlos Leite visitou o país há coisa de três anos e disse que se sentia mais seguro andando pelas ruas de Bogotá do que em São Paulo. Ainda assim, Tal como Garcia Márques disse a respeito dos depoimentos que lhe deram várias pessoas envolvidas direta ou indiretamente com os fatos narrados, seu livro salvou do esquecimento o drama bestial que, por desgraça, foi apenas um episódio do holocausto bíblico em que a Colômbia se consumiu por mais de vinte anos. E que muitos países, como Brasil e México, ainda se consomem.      

"Em Medellín, somente nos dois primeiros meses de 1991, tinham sido cometidos mil e duzentos assassinatos - vinte diários - e um massacre a cada quatro dias. Um acordo de quase todos os grupos armados havia iniciado a escalada mais feroz de terrorismo guerrilheiro da história do país e a cidade onde se escondia o temido e procurado Pablo Escobar foi o centro da ação urbana.Quatrocentos e cinquenta e sete policiais foram assassinados em poucos meses. O Serviço Especial estimava que duas mil pessoas das comunidades estavam a serviço do narcotráfico e muitas delas eram adolescentes que viviam de caçar policiais. Por cada oficial morto recebiam cinco milhões de pesos. É provável que o mais colombiano dessa situação fosse a assombrosa capacidade do pessoal de Medellín para se acostumar com tudo, bom ou mau, demonstrando um poder de recuperação que, talvez, seja a fórmula mais cruel da temeridade".


segunda-feira, junho 25, 2012

Micróbio do Samba


... vai que se materializa o meu sonho dourado
vai que me espera com boas notícias o inesperado
Eu vivo a sorrir. Eu vivo a sorrir.


Confesso que, ainda no ano passado, reagi com indiferença à notícia de que Adriana Calcanhoto estava lançando um álbum com supostos sambas compostos por ela própria. Daí só agora estar tocando no assunto, depois de tanto tempo e de tantas publicações apontarem o cd como um dos melhores trabalhos de 2011. Ouvi várias vezes ao cd Micróbio do Samba durante o último final de semana e,  de fato, achei as músicas muito boas. Independente de serem ou não sambas, conforme estou vendo algumas pessoas discutindo na internet, ótimo som para esta primeira semana de inverno.


Até ontem (24), dava para ouvir Micróbio do Samba na íntegra, clicando aqui


sexta-feira, junho 22, 2012

Mau Desempenho Paraguaio


Assistimos hoje a um golpe de Estado sendo transmitido, ao vivo, pelas tvs internacionais. Golpe branco, porque desferido pelo Congresso paraguaio, mas nem por isso menos antidemocrático. Golpe que, infelizmente, não parece ser tão fajuto quanto o whisky vendido por lá. E que atesta o quanto anda desacreditada a tal da "opinião da comunidade internacional" e como ainda é limitado o poder de influência, ou mediador, da União das Nações Sulamericanas, a Unasul

quinta-feira, junho 21, 2012

Carmen, de Bizet, encerra festival brasiliense


O 2º Festival de Ópera de Brasília chega ao fim neste final de semana, com a apresentação do espetáculo Carmen, do francês Georges Bizet (1838-1875). De hoje (21) a sábado (23), a apresentação, gratuita, começa às 20h. No domingo (24), às 18h. É preciso chegar ao Teatro Nacional com antecedência para retirar o ingresso.

Para o público, é a oportunidade de assistir, de graça, à interpretação da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional para o drama protagonizado por uma das mais populares personagens da história da ópera, a cigana Carmen. Com seu talento para a dança e o canto, ela seduz os homens à sua volta, entre eles o rígido e conservador cabo do Exército Don José, e o toureiro Escamillo, que disputarão a atenção da cigana.

Bizet morreu poucos meses após Carmen estrear nos palcos parisienses, e não pôde testemunhar o reconhecimento de público e crítica que a ópera em quatro atos alcançaria em pouco tempo. Quase 140 anos após ter sido composta, mesmo o público pouco habituado ao gênero artístico certamente reconhecerá o famoso trecho inicial da obra, o Prelúdio, e a ária (música solo) Habanera.

Regida pelo maestro Cláudio Cohen, a Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional se apresentará com nove solistas, entre eles Mere Oliveira e Janette Dornellas – que interpretam Carmen – e o tenor Juremir Vieira. Além disso, estarão no palco um coro de 56 vozes e 28 bailarinos coreografados por Gisele Santoro.

Aberto no último final de semana de maio, o festival brasiliense atraiu mais de 9 mil espectadores às apresentações das óperas La Bohème, do italiano Giacomo Puccini (1858-1924), e Cavalleria Rusticana, do também italiano Pietro Mascagni (1863-1945). Com 1.307 assentos e capacidade para mais 100 lugares extras, a Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional, atingiu o limite de sua capacidade nas seis apresentações anteriores, o que não surpreende o diretor cênico de Carmen, Francisco Mayrink.

“Não me surpreende o teatro estar lotando, mas sim a forma como a ópera é encarada, como se fosse algo elitista. Originalmente, a ópera era um espetáculo popular ao qual as pessoas iam para se divertir”, lembra Mayrink, que, este ano, também atuou como figurinista da ópera La Bohéme e como diretor de palco de Cavalleria Rusticana. “[Montar uma ópera] não é um trabalho fácil. É bastante complicado, mas também muito prazeroso.”

Pela qualidade artística, o festival possibilitou o reencontro entre a cantora e atriz Sara Sarres e o público de sua cidade natal. Há 13 anos vivendo em São Paulo, a brasiliense é uma das mais requisitadas cantoras de musicais, já tendo atuado nas montagens brasileiras de Os Miseráveis, Cats, A Família Addams e O Fantasma da Ópera, espetáculo com o qual ficou dois anos em cartaz em São Paulo, com casa lotada. A última vez que se apresentou na capital federal foi em junho de 2009, em um tributo ao maestro Silvio Barbato e à cantora Juliana Aquino, que morreram no acidente com o voo 447, da Air France, que caiu no Oceano Atlântico, no dia 31 de maio daquele ano. No festival, ela se apresenta, entre outros, com o brasiliense Leonardo Vieira, que também deixou Brasília para fazer carreira.

“Fico muito feliz de poder voltar a me apresentar na minha cidade, onde muitos dos meus amigos e parentes nunca tinham me visto me apresentando. E estou muito orgulhosa. Não é fácil fazer espetáculos como esses. Em termos artísticos, as produções estão impecáveis, embora, em termos cenográficos, ainda seja possível melhorar bastante. Só que, para isso, é importante que outros setores, como os empresários, abracem o festival como um presente a cidade”, disse a cantora à Agência Brasil.

Clique e ouça Andrea Bocelli - Carmen - Duets & Arias

terça-feira, junho 19, 2012

WADO EM BRASÍLIA


Amor Não Há
Em Quase Nenhum Recanto
Ainda Assim Eu Canto
E Ergo A Voz
Por Você
Por Mim
Por Nós



Florianopolitano, ou manézinho, residente em Alagoas, o músico Wado fez um ótimo show na boate La Ursa, de Brasília, no último dia 15. Apresentação generosa pra pouca gente. O que, longe de prejudicar, deixou a coisa mais, digamos, intimista. Mesmo o som da casa ainda não estando adequado, deu pra curtir letras (mais ou menos) e melodias (deliciosas). A surpresa, pra mim, foi saber que Wado tem duas músicas - “Estrada” e “Hercílio Luz” - assinadas em parceria com o escritor moçambicano Mia Couto.

Para os interessados em conhecer o trabalho do cara, seu mais recente disco, SAMBA 808, está disponível para dowload gratuito no site http://wado.com.br/ São sambas algo melancólicos com levadas eletrônicas e as participações de Marcelo Camelo (ex-Los Hermanos), Mallu Magalhães, Zeca Baleiro, Chico Cézar e André Abujamra (ex-Karnak). Auxílio luxuoso que deu o colorido necessário para que alguns veículos especializados tenham apontado o disco como um dos melhores de 2011.




segunda-feira, junho 18, 2012

Coincidência ou redenção


"Há cerca de 20 estudos sobre LSD em andamento no mundo, um renascimento do uso terapêutico da droga", afirmam os jornalistas Marcelo Osakabe e Marcelo Moura na revista Época desta semana. (clique aqui para ler a íntegra da matéria).

Não tenho interesse particular no assunto, mas chamou minha atenção a coincidência de os repórteres também resgatarem a figura de Timothy Leary (veja texto sobre as memórias do norte-americano publicado pelo semifosco há mais de mês) para sustentar a tese de que o medo e o conservadorismo surgido na segunda metade do século passado como resposta aos movimentos liberais ofuscou e impediu o prosseguimento de pesquisas acadêmcias que tinham o intuito de verificar os efeitos do uso terapêutico do LSD e de outras drogas. 

"Um detento da prisão de San Luis Obispo sobe até o telhado e, pendurado em cabos de telefonia, atravessa o pátio e pula o muro. Do lado de fora, um carro o aguardava. Dias depois, ele chegou à Argélia, sob os cuidados do grupo revolucionário Panteras Negras. O fugitivo era Timothy Leary, doutor em psicologia formado pela Universidade Berkeley e professor de Harvard" - Época

Reforço a dica: concorde ou não com a tese, o livro de memórias de Leary - Flashbacks: LSD, a Experiência Que Abalou o Sistema é um verdadeiro quem foi quem nas últimas quatro décadas do século passado.

domingo, junho 17, 2012

Filmes que nos aborrecem apesar de...


Os sensíveis que me desculpem, mas um filme nacional despertou o cafajeste que há em mim.

Como, graças a Deus, ainda não é proibido zombar de filmes chatos, eis minha desfaçatez de admitir que só recomendaria que amigos como o surfista brasiliense Carlos Leite assistissem, em dvd, ao filme Budapeste, de Walter Carvalho, pela chance de admirarem as belas atuações, nuas, de Giovanna Antonelli, Débora Nascimento (sim, a Tessália, de Avenida Brasil), da húngara Gabriella Hámori, e, principalmente, da inacessível Paola Oliveira (quem diria! que pernão). Não sei se é verdade que o único idioma que o diabo respeita é o húngaro, mas que até ele deve louvar ao Senhor por desvelar tamanho talento, isso deve.

Já às amigas, eu diria que, tirando a bela fotografia de Lula Carvalho e a trilha sonora composta por Leo Gandelman, o filme é chatíssimo.

(Por que terá a roteirista Rita Buzzar modificado o controverso trecho inicial do livro de Chico Buarque, no qual o filme é baseado, optando por escrever "a primeira vez que fui parar em Budapeste" ao invés do original alvo de piadas "Fui dar em Budapeste"?)




E por falar no que deveria se chamar de categoria "pretension movies", está em cartaz, em Brasília, o filme Deus da Carnificina, mais uma legítima obra da última safra de Roman Polansky. Que, inacreditavelmente, alguns veículos tem classificado como uma comédia.

Embora, do ponto de vista do pedantismo, O Deus da Carnificina não seja tão aborrecido quanto o filme anterior de Polansky, o Escritor Fantasma, é mais uma obra em que o diretor polonês parece expressar conclusão pessimista em relação à humanidade e à sociedade moderna, fruto, talvez, de uma vida marcada por tragédias (a mãe de Polanski foi morta em um campo de concentração alemão; sua esposa, a atriz Sharon Tate, foi assassinada, grávida, por seguidores do maníaco Charles Manson e o diretor foi condenado por ter estuprado uma garota de 13 anos, razão pela qual deixou os Estados Unidos para não ser preso). Paradoxalmente, o mesmo pessimismo e cinismo que torna o filme, no geral, aborrecido, é responsável pelo que ele tem de bom, como o sarro em cima do politicamente correto.

Se é verdade que a plateia do festival de Veneza "caiu na gargalhada" quando o filme foi apresentado, em 2011, eu talvez não tenha entendido nada. E pode ser que o texto original (que não conheço), escrito para o teatro pela dramaturga Yasmina Reza, seja engraçado e não soe tão pedante e aborrecido, mas saí do cinema achando que, infelizmente, o filme não está à altura dos esforços de Kate Winslet, Jodie Foster, Christoph Waltz e John C. Reilly (este sim, excelente).

quarta-feira, junho 13, 2012

Imperfeccionistas retratados à perfeição



Poucos autores devem ter tido a felicidade de Tom Rachman. Em 2010, o inglês, então com 35 anos, lançou seu primeiro livro, o romance Os Imperfeccionistas, com o qual conseguiu atingir um excelente resultado. O que rendeu a sua obra, entre outras coisas, uma menção na lista de livros notáveis elaborada pelo New York Times. E uma eficiente propaganda boca-a-boca feita pelos seus leitores.
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Recém-lançado no Brasil pela editora Record, Os Imperfeccionistas (384 pág.) trata de jornalistas e de um jornal (não-nomeado). Dito de outra forma: Rachman mescla as ficctícias histórias pessoasi de dez funcionários e de uma leitora de um jornal à história do próprio periódico, lançado em 1954 como "um jornal internacionalista, escrito em inglês, embora produzido em Roma".
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Rachman, hoje com 37 anos, conhecia bem o tema escolhido para seu primeiro romance. Já, trabalhou como correspondente internacional da prestigiada Associated Press, foi editor do Herald Tribune, em Paris, e já esteve escrevendo reportagens no Japão, na Coréia do Sul, na Turquia, no Egito, entre outros lugares.
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De forma ácida, irônica e muito bem-humorada, Rachman cria personagens desiludidas, raivosas, competitivas, auto-destrutivas, que as vezes não tem qualquer traço de qualquer auto-estima, outras são egoístas e prepotentes, ou que então estão cansadas da pretensiosa rotina de tentar resumir o mundo nas páginas de um jornal. E todos os defeitos pessoais são potencializados pela corrida contra o relógio para fechar mais uma edição, pela falta de estrutura da publicação e pelos mais mesquinhos motivos.
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"Notícia é, com frequência, uma forma educada de dizer `os caprichos dos editores´", conclui um desmotivado escritor de obituários. "Nada simboliza melhor a futilidade da luta humana que o aspartame", filosofa a repórter de economia que, cansada da rotina solitária, assume um namoro com um hippye desagradável. Há ainda um velho jornalista que, diante do ocaso profissional, se dá conta de não ter mais fontes, amigos e nenhuma intimidade com a família. O herdeiro do jornal, sujeito frágil que, embora só consiga se relacionar com seu cachorro, se vê diante da obrigação de tocar a publicação. E outras...
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Sem dúvida, vale muito a pena ler o livro de Rachman.

sábado, junho 09, 2012

Yael Naim, uma boa surpresa franco-israelense


... deixe a água se desenrolar.  Não
lute - lute - o rio está certo. Deixe
ir - ir - finalmente você irá crescer


Basta ouvir uma vez a algumas das deliciosamente pegajosas músicas de Yael Naim para entender o porque de um público paulistano antenado ter lotado o bar do Sesc Pompéia durante recente apresentação da cantora franco-israelense (filha de tunisianos) mesmo ela ainda sendo pouco conhecida por estas bandas.


Com dois (três) discos já gravados, Yael desponta em meio a onda de cantoras de new-soul/jazz, gênero que tempera muito sutilmente com as influências que incorporou da música israelense (nascida na França, a cantora viveu dos quatro aos 21 anos em Israel, onde estudou música erudita em um conservatório e chegou a tocar na banda do Exército).

Yael lançou seu primeiro disco, In a Man’s Womb, em 2001. Apesar de bem acolhida, o segundo disco, Yael Naim, só foi lançado em 2007, três anos depois dela ter conhecido e começado a compor com o percussionista indiano David Donatien, com quem toca e produz até hoje, tendo lançado, em 2010, She Was a Boy.

Para ouvir mais de Yael Naim, clique aqui









Festival de Ópera de Brasília



Após o sucesso da apresentação durante a primeira edição do evento, em 2011, o público brasiliense tem, neste final de semana, uma nova chance para assistir, gratuitamente, à montagem da ópera Cavalleria Rusticana, do italiano Pietro Mascagni (1863-1945).

Dirigida pelo professor da Escola de Música de Brasília Francisco Frias e regida pelo maestro Abel Rocha, a história de amor, traição, vingança e machismo é um dos três espetáculos programados para o 2º Festival de Ópera de Brasília, na Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional.

Aberto no último final de semana de maio, com a apresentação de La Bohème, de Giacomo Puccini,o festival brasiliense também trará ao palco brasiliense a montagem da ópera Carmen, composta pelo francês George Bizet e que será apresentada entre os próximos dias 21 e 24.


Para facilitar a compreensão da história, todas as apresentações contam com tradução simultânea do texto (libreto). A expectativa da Secretaria de Cultura do Distrito Federal é que cerca de 10 mil pessoas assistam às apresentações.


Composta em um único ato, embora dividida em duas partes, Cavalleria Rusticana (Cavalheirismo Rústico, em livre tradução) foi encenada pela primeira vez em 1890, obtendo sucesso imediato. Em Brasília, terá Janette Dornellas, Juremir Vieira, Leonardo Páscoa, Maria Schramm e Valdenora Pereira como solistas.


Hoje (9), a apresentação começa as 20 horas. Amanhã (10), as 18h. A entrada é gratuita, de acordo com a ordem de chegada.



Leia Também: Brasília realiza seu primeiro festival de ópera

sexta-feira, junho 08, 2012

Após 55 anos inspirando leitores, `biblia´ beat chega aos cinemas

"A publicação de On The Road é um evento histórico, na medida em que é o surgimento de uma genuína obra de arte que concorre para desvendar o espírito de uma época. É a mais belamente executada, a mais límpida e mais importante manifestação feita até agora pela geração que o próprio Jack Kerouac, anos atrás, batizou de beat. E da qual ele próprio é o princial avatar" - Crítica de Gilbert Millstein, publicada no jornal The New York Times, em setembro de 1957, após o lançamento do livro On The Road.

"Eu era um jovem escritor e tudo o que eu queria era cair fora. Em algum lugar ao longo da estrada eu sabia que haveria garotas, visões e tudo o mais. Na estrada, em algum lugar, a pérola me seria ofertada". - Trecho de On The Road.

Foi necessário que se passassem 55 anos e que um brasileiro produzisse, com sucesso, um filme (Diários da Motocicleta) sobre as viagens do guerrilheiro cubano Che Guevara para que um clássico da literatura do século XX, considerado a bíblia de ao menos duas gerações de jovens desencantados com "o sistema", chegasse às telas de cinemas de todo o mundo.

Enfim, estreia ainda este mês o mais recente filme de Walter Salles, On The Road - Pé Na Estrada, baseado no livro homônimo do escritor norte-americano Jack Kerouack, o "pai" do movimento beat.

Por alguma razão, livros muito mais difíceis de serem adaptados, como Almoço Nu (Naked Lunch - adaptação de David Cronenberg para o livro de William Burroughs, autor também associado ao movimento beat)já haviam virado filmes, e nada das personsagens Saul Paradise e Dean Moriarty (respectivamente, Kerouack e seu parceiro Neal Cassady, "que possuía a energia vibrante de uma nova espécie de santo americano") ganharem vida.

Culpa, talvez, do desafio de transpor para o cinema a prosa espontânea e a autenticidade que caracterizam o estilo de Kerouac - razão maior do culto ao livro que, cerca de dez anos após ser lançado, foi adotado por hippies pacifistas e demais defensores de um utópico "drop out" sistêmico que se identificavam com a proposta hedonista da "geração beat", movimento inicialmente literário que, além dos três nomes já citados, incluía ainda Lawrence Ferlinghetti, Allen Ginsberg, Gregory Corso, entre outros. E que, em maior ou menor grau, seguiu influenciando autores como Charles Bukowski e logo se tornou um fenômeno comportamental.

Em linhas gerais, a trama do livro se resume às lembranças de duas viagens que Kerouack e Cassady fizeram, ainda na década de 1940, de costa a costa dos Estados Unidos, ao longo da mítica Route 66, parando em postos de beira de estrada para comer as folclóricas tortas de maçã norte-americanas e buscando sábios vagabundos e aloprados e garotas bonitas a fim de diversão. Gozando de uma liberdade pós-Guerra Mundial, mas já desconfiados em relação ao questionável "american way of life".

A questão é que, em literatura, importa mais o como se diz do que o que se quer dizer. E a forma como Kerouack narrou suas lembranças e conclusões, cuspindo as palavras em uma única bobina de papel para telex de 36 metros de cumprimento (diz a lenda que em apenas três semanas), dando livre fluxo a sua imaginação, resistindo ao máximo à auto-censura, fez a cabeça de milhares de jovens ao longo destas cinco décadas de mudanças às quais o livro resiste dignamente.

"Embarcamos juntos numa viagem tremenda. Estamos tentando nos comunicar com absoluta honestidade, transmitindo com absoluta exatidão tudo que se passa pelas nossas cabeças", diz o alter-ego do autor, no livro.

Sexo livre, drogas, filosofia oriental, desencanto político... Cada página do livro que melhor retratou parte importante do espírito norte-americano dos últimos 50 anos) traz algo destes elementos, descritos em um estilo literário que procurava se apropriar da liberdade inspiradora do aceleradíssimo jazz bebop... "que, nessa época, se alastrava loucamente pela América e estava em algum ponto entre o período ornitológico de Charlie Parker e outro período que começou com Miles Davis [...]. E enquanto eu estava sentado ali ouvindo aquele som, pensei nos meus amigos espalhados de um canto a outro da nação. E pela primeira vez na minha vida, na tarde seguinte, segui para o Oeste".

NÃO OBSTANTE ... Kerouac mais tarde se revelaria um caipira nacionalista e alcoólatra fortemente influenciado pelo catolicismo. Vivendo como um eremita junto a sua mãe, antes de morrer, em 1969, o escritor concedeu raras entrevistas em que mencionava à ameaça comunista, destacava a distância entre o movimento beat e o escapismo hippie e apontava a deturpação do que considerava os ideais do movimento que ajudara a criar.

"Como bom católico, eu nunca usei as palavras rebelião ou insurreição [associadas ao termo] beatnik. A idéia que eu tinha imaginado era de que a "geração beat" seria uma geração de beatitude, de pessoas que amavam o prazer, a vida e a ternura". 

Agora, é esperar que Hollywood tenha dado liberdade ao diretor Walter Salles. E que o brasileiro tenha feito juz ao convite e ao desafio de dirigir o filme, que lhe foi feito por ninguém mais, ninguém menos, que o "Poderoso Chefão" Francis Ford Coppola. A conferir. 

quarta-feira, junho 06, 2012

Os Seis Manés



Feriado?

Eu vou é ficar quietinho no meu canto, fuçando velharias no youtube, como o oportuno vídeo abaixo, da banda de um único sucesso, Os Kmaradas.

domingo, junho 03, 2012

Ligue-se, Sintonize-se, Libere-se


"Em mais um ou dois anos, todos os que tivessem ambições filosóficas e um desejo consciente de desenvolver sua inteligência poderiam aprender como utilizar as drogas de maneira efetiva. O contexto seria educacional. Cursos básicos em currículos das escolas serviriam para treinar os estudantes em como ativar seus próprios sistemas nervosos de acordo com as instruções dos fabricantes".

Embora colocado no papel no início dos anos 1980, o devaneio acima era uma reflexão a respeito da ingênua disposição de espírito com que muitos haviam encarado os distantes anos 1960, que muitos acreditavam ser o advento da "imaginação no poder". Kennedy não havia sido assassinado. Colônias africanas lutavam por sua independência. Milhares de jovens ocidentais pareciam encontrar sua voz junto ao rebelde rock´n´roll. A geração dos baby-boomers (nascidos após o fim da Segunda Guerra Mundial) logo começaria a reivindicar seus postos. A Guerra Fria esquentava: Hiroshima Meu Amor. A cultura de massas se consolidava. E a política do êxtase surgia.

Junto a tudo isso, muitos passaram a defender publicamente a tese de que as drogas seriam a "chave" para as pessoas interessadas acessarem uma forma superior de inteligência. E, inicialmente, não eram os hippies maluco-beleza os que a defendia. Ao contrário. Eram os que, hoje, chamaríamos "formadores de opinião" ou "analistas qualificados". 

A declaração com que abro este texto, por exemplo, é de um ex-professor de psicoterapia da prestigiada universidade norte-americana de Harvard. Um jovem profissional careta que já fora cadete da conservadora academia militar de West Point e que tinha um futuro promissor a sua frente, até ter sua primeira experiência com os "cogumelos sagrados" mexicanos, ou seja, com a psilocibina. Só então Timothy Leary se deu conta de que, mesmo do alto de toda sua erudição, só conseguia acessar a uma ínfima parcela de seu potencial criativo e emocional. E se tornou o chamado "papa da lisergia", uma das figuras mais controvertidas dos loucos anos 1960. 

"Nas quatro horas que se seguiram a minha primeira experiência com os cogumelos sagrados, aprendi mais sobre o cérebro, a mente e suas estruturas do que nos anos precedentes, enquanto aplicado psicólogo", conta Leary no livro de memórias Flashbacks: LSD, a Experiência Que Abalou o Sistema. Um livro que é um verdadeiro "quem é quem" da contracultura e das quatro últimas décadas do século passado, até que os yuppies, a cocaína e o império do consumismo varressem da face da terra qualquer expectativa quanto ao ser acima do ter. 

"Naquele instante, sob efeito dos cogumelos, aprendi que o cérebro é um biocomputador subutilizado, contendo bilhões de neurônios cujo acesso é vedado. Aprendi que a consciência normal é apenas uma gota dentro de um oceano de inteligência, que a consciência e a inteligência podem ser expandidas sistematicamente, que o cérebro pode ser reprogramado e que o conhecimento de como o cérebro opera é uma das mais importantes descobertas científicas de nosso tempo", lembra Leary, atraído desde o primeiro momento pela possibilidade de "reprogramação do cérebro". 

A reprogramação, ou re-imprinting (reimprimir) de novos sistemas de crenças e atitudes, defendia Leary, permitiria as pessoas reprogramarem suas estruturas psíquicas para lidar com traumas e eventuais problemas que, de outra forma, não conseguiriam sequer acessar conscientemente. O próprio Leary destaca que, cinquenta anos antes, Freud frisara que uma conversa no consultório médico jamais conseguiria reproduzir a intensidade original da fixação emocional infantil (?), sugerindo que estímulos fisiológicos (isto é, químicos) eram necessários para libertar as amarras neurológicas. 

Além do mais, antes mesmo de mesmo de experimentar drogas, Leary já defendia que o psicólogo deveria trabalhar com seus pacientes em situações de vida real, como um naturalista em campo - "devemos tratar as pessoas como elas são naturalmente e não a partir da imposição de um modelo médico ou qualquer outro" -, nos envolvendo e nos engajando nos eventos estudados, sempre preparados para mudarmos tanto ou mais do que os indivíduos que estamos atendendo". Daí não ter sido espantoso que sua primeira experiência para além dos muros da universidade tenha acontecido em um presídio. 

Ainda contando com o aval da universidade de Harvard, Leary levou a cabo a experiência de administrar ácido lisérgico a presos. Segundo ele, quase todos os que participaram do experimento não voltaram a reincidir no crime. "Parecia que havia duas forças muito grandes que impeliam os detentos para a mudança: a primeira era a percepção de novas realidades que os ajudava a reconhecer a existência de outras alternativas além da vida de ladrão versus tira. A segunda, a empatia gerada em meio aos membros do grupo, que os ajudava a manter sua opção por uma nova vida". 

Na mesma época, Leary tomou conhecimento da existência de uma rede internacional de cientistas e intelectuais que estavam experimentando a psilocibina, o LSD e a mescalia (fora, óbvio, a maconha). E, mais uma vez, não se tratavam de malucos-belezas. "Muitos desses homens e mulheres eram psiquiatras que haviam experimentado pessoalmente uma ou mais drogas e esperavam encaixá-las em alguma espécie de tratamento médico".

Infelizmente, nos anos subsequentes, Nixon chegaria ao poder e os Estados Unidos encabeçariam uma guerra infrutífera contra as drogas. Além disso, o debate conservador e rasteiro em reação à aparente "libertinagem" comportamental encobriu as implicações éticas e científicas do uso individual de substâncias alteradoras da percepção, uma prática comum a todas as sociedades ao longo da história humana. 

Ao contrário do que acreditava Leary e outros defensores do indíviduo dispor de seu organismo e sistema nervoso, desde que sem causar mal a terceiros, a repressão às drogas inviabilizou o uso controlado de tais substâncias, além de provocar milhares de mortes e o desperdício de milhões de dólares, sem com isso impedir que o narcotráfico se tornasse um dos negócios mais rentáveis do último século. Os resultados da pesquisa conduzida pelo grupo de Leary na Prisão Estadual de Concord, por exemplo, jamais foram colocados à prova. 

Ainda assim, Leary seguiu por quase três décadas provocando e testando os limites do sistema. E ora protagonizando, ora testemunhando o melhor de seu tempo. Pelas 400 páginas de sua autobiografia, desfilam escritores, intelectuais, artistas, músicos, ativistas e políticos como Allen Ginsberg, Jack Kerouac, Aldous Huxley, Willian Burroughs, Arthur Koestler, Marshal McLuhan, Ralph Metzner, John Lennon, Charles Manson, agentes da CIA, do FBI, Panteras Negras e os integrantes da improvável Confraria do Amor Eterno - "gente bronzeada que distribuía praticamente de graça um fumo forte e um ótimo ácido [...] um bando de vinte homens e mulheres, foras-da-lei, que criaram uma lenda global e então desapareceram silenciosamente, sem jamais serem julgados, embora fossem conhecidos e caçados pela polícia".

"Com o tempo, começamos a perceber que algumas pessoas se sentem mais inclinadas a mudanças pessoais que outras. A maior parte de nossos voluntários voltaram de suas experiências dispostos a tornar a expansão da consciência parte de suas carreiras, de suas vidas. Infelizmente, para nosso degosto, quanto mais velha a pessoa, maior é seu medo da experiência visionária".

Foram, segundo o próprio Leary, sete décadas de mudanças rápidas, durante as quais ele praticou o "surf em cada uma das ondas dos século XX com algum sucesso e diversão", numa louca trajetória que o levou da casa no subúrbio, bebendo martinis, à prisão por tráfico de drogas. E que passou inclusive pela fase de entusiasmo com a tecnologia, principalmente dos computadores. Com o tempo, como não poderia deixar de ocorrer, Leary foi cada vez mais associado à figura do "tio doidão", seu discurso desqualificado e, em muitos momentos, ele próprio adotou posturas muito próximas ao charlatanismo. Ainda assim, reler Flashbacks pela terceira vez em quase 20 anos ainda provoca em mim boas e pertinentes dúvidas quanto a eficácia do combate às drogas

 

Hellblazer

A editora Panini lançou, há duas semanas, o terceiro volume da coleção Hellblazer - Origens, sobre a qual já escrevi entusiasticamente aqui. São sete histórias publicadas entre os anos de 1988 e 1989, reunidas em quase 200 páginas fundamentais para compreender a saga do mago-punk inglês John Constantine, que trapaceou inclusive ao demônio (Nergal, "um dos arquiduques da Perfídia"), de quem carrega parte do sangue nas próprias veias. Escritas pelo roteirista Jamie Delano, destacam-se pelas características que tornaram o anti-herói cínico e pragmático uma das personagens mais carismáticas do universo da DC Comics, ou seja, o tratamento de assuntos polêmicos como política, ameaça de guerra, desemprego, ambientalismo, economia, como pano de fundo para o desenrolar das histórias sobrenaturais, negociatas de almas e idas e vindas ao inferno. "Mesmo passados mais de vinte anos, a influência de Delano segue e continuará viva [...] enquanto um mago encapotado cruzar Londre ao sabor do destino, cum um sorriso sarcástico (e talvez um cigarro aceso) em seus lábios".

segunda-feira, maio 28, 2012

Nó na Orelha


Apresentação do Criolo, de graça, em Brasília. 

Sem palavras.

Ou melhor, umas poucas palavras: um dos melhores shows a que já assisti. Na verdade, uma celebração que atraiu cerca de 12 mil pessoas ao CCBB. Celebração principalmente  de reconhecimento ao talento do (ex-??) rapper paulista Kleber Gomes, 36 anos, 24 deles dedicados ao rap (se fosse pra ter medo dessa estrada eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada). Se acham que estou exagerando, cliquem aqui para ler parte da avaliação da reportagem do Correio Braziliense, que classificou o episódio como "uma noite memorável".

Minha dúvida quanto a me referir a Criolo como rapper ou ex-rapper se deve ao fato de que seu último disco, o hypado Nó na Orelha, vai do samba ao reggae, passando até por um impensável bolero. E foi justo este ecletismo,  aliado à qualidade musical e  ao frescor das letras, que  motivaram várias publicações especializadas a elegerem Nó na Orelha o  melhor disco de 2011. Com isso, Criolo ampliou seu público (acho que) para muito além do que, a esta altura do campeonato, ele podia esperar.  Tanto que sempre diz que, inicialmente, este seria seu último trabalho, pois pretendia abandonar a carreira musical. 

Agora, depois de tudo que lhe aconteceu nos últimos meses (Chico Buarque cantando a versão do rapper para sua música, Cálice; Caetano convidando Criolo para um show; toda a atenção da mídia), o desafio vai ser corresponder e não se deixar levar pela expectativa em torno de seus próximos trabalhos.






Com recorde de público no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a esperada apresentação de Criolo foi antecedida por duas atrações locais. A primeira a tocar foi a excelente baixista Paula Zimbres. Conhecida por tocar na banda que acompanha Ellen Oléria, a Pret.utu, Paula desta vez subiu ao palco na companhia de sua banda, a Água Forte, com que toca os jazz com influências de MPB e música erudita que ela própria compõe. O público diversifica que a esta altura já lotava o gramado do CCBB ouviu respeitosamente, entendendo a proposta do evento, que não à toa se chama Todos Os Sons. Infelizmente, não gravei. 

Em seguida, veio outra atração local, o Sistema Criolina, que tocou no esquema Live P.A, ou seja, em português claro, djs como Pezão e Barata tocando com músicos da qualidade do multiinstrumentista Dillo Daraujo. O público se acabou de dançar, ficando no ponto para Criolo. 




E para aqueles que insistem em dizer que em Brasília não há grande opções de cultura (leia dois posts abaixo), enquanto os três shows aconteciam no CCBB lotado (demorei cerca de 20 minutos para conseguir deixar o local, tamanho era o congestionamento), ao lado do Museu da República, na região central, rolava o show da já histórica banda Little Quail. Também de graça. Também muito bom. E com fãs entusiasmados gritando junto as conhecidas letras da banda de rock formada em 1988 por Gabriel Thomaz (guitarra e vocalista, hoje na Autoramas), Zé Ovo (baixo) e Bacalhau (bateria, hoje também no Ultraje a Rigor). 




Tudo isso num só domingo. E olha que sábado a noite já tinha rolado, na quadra da Acadêmicos da Asa Norte, o divertido show da banda Del Rey, projeto "paralelo" do vocalista e apresentador da MTV, China (ex-Sheik Tosado) com os integrantes da banda pernambucana Mombojó e que homenageia os tremendões Roberto e Erasmo Carlos, tocando em ritmo rock´n´roll alguns dos maiores clássicos da dupla. 



E há quem diga que fica em casa por falta de opções...

quarta-feira, maio 23, 2012

Kassin na área



Provando, como afirmo no post abaixo, que Brasília tem sim opções culturais além do que alguém minimamente responsável é capaz de dar conta, hoje (23), além do bloco carnavalesco Sargento Pimenta, na choperia Stadt Bier, a capital federal também recebe o compositor e produtor musical Kassin, que apresenta o bem-recebido disco Sonhando Devagar, lançado no ano passado e apontado por muitos críticos como um dos melhores trabalhos autorais de 2011.

Caçando o que fazer


_  Ah! Brasília não tem o que fazer".

_ Sério. E o caderno de 30 páginas encartado toda sexta-feira no jornal, com a agenda cultural da semana? É ilusão minha?

_ Ah, mas nem se compara com São Paulo. 

_ Puta que pariu. Não, não se compara. Assim como os 140 quilômetros de trânsito paulistano lento também não se compara com nada.

_ ...

 ******

Depois de sete anos vivendo na capital federal, com um breve intervalo de dez meses em que não mais me readaptei à cidade de São Paulo, conclui que o Distrito Federal é vítima de duplo preconceito.

O primeiro, externo, é perpetuado por quem não conhece ou conhece superficialmente a cidade. E, mesmo assim, sai reproduzindo clichês. Além disso, os estereótipos e chavões também são disseminados por muita gente que, como eu, veio morar na cidade em busca de oportunidades de emprego ou estudo, mas segue desprezando-a. 

(Não que Brasília - e o Distrito Federal como um todo - não mereça ser criticada. Mas há motivos e motivos para tanto. E, sinceramente, ouvir quem insiste em compará-la com a capital paulista, por exemplo, é algo que, hoje, me torra a paciência) 

Na semana passada, em três situações, me vi sentado à mesa diante de pessoas saudosas da pauliceia desvairada, apontando a falta de opções culturais em Brasília. Irritado, no sábado de manhã, me propus a ver o que havia para ver e fazer na cidade e do que eu dava conta.

Para começar, escolhi um dos 32 filmes atualmente em cartaz na cidade. Lógico que, entre eles, há muita porcaria, mas isso não é uma exclusividade brasiliense. Para meu teste, por acaso, me dei bem. Aliás, superbem. 

Assisti ao excelente Habemus Papum, do diretor italiano Nanni Moretti, um filme sensível e engraçado que narra as incertezas com que o Vaticano tem que lidar quando o papa recém-eleito sofre uma crise e um bloqueio no dia em que se apresentaria aos fieis. Quando as luzes se acenderam, constatei que quase todos na plateia tinham um sorriso no rosto.

Sai do cinema e tive que correr para chegar a tempo do segundo programa escolhido, o primeiro dos dois espetáculos do Festival Teatro Brasileiro, que, até o dia 3 de junho,  trará 16 peças gaúchas a quatro cidades do Distrito Federal e a outras quatro de Goiás.

Primeiro assisti a Automákina - Universo Deslizante, do grupo De Pernas Pro Ar. A interação do ator Luciano Wieser com a bem bolada máquina-cenário (que também faz às vezes de instrumento musical (!)) e com os bonecos-autômatos com máscaras que lembram o rosto do próprio ator é interessante, mas tenho dúvidas se compreendi a questão central da peça, "a arte da sobrevivência". 

Na sequência, sem intervalo, seguiu-se a apresentação do espetáculo Miséria, Servidor de Dois Estancieiros, da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, que conquistou o público com a bem-humorada história do ferreiro Miséria, seus dois patrões e os personagens que lhes cercam.

A noite de sábado ainda reservava vários shows. Para mim, o  que mais prometia era o do Sargento Pimenta, bloco carnavalesco carioca que toca clássicos dos Beatles como All You Need is Love e Yellow Submarine em ritmo de samba (e que, hoje (23), se apresenta na choperia Stadt Bier). Fora as festas, como a sempre bombada Makossa, apresentações musicais em bares e shows , para mim, de gosto duvidoso, como o do "romântico" Tiaguinho.

No domingo, perto da hora do almoço, peguei a bicicleta e fui conferir a exposição de fotos Laços de Família: Etnias do Brasil, na Biblioteca Nacional. Pedalando pelo Eixão fechado ao tráfego de veículos, pensava em ir também ao Conjunto Cultural da República (aquele em formato de bola, no centro da Esplanada dos Ministérios), onde estão em cartaz as exposições O Egito Sob o Olhar de Napoleão e outra de quadros do artista plástico Willy Bezerra de Mello. No final das contas, como tinha uma almoço marcado e perdi algum tempo apenas vendo o movimento de pessoas caminhando pelo Eixão, acabou não dando tempo. 

A tarde, segui para a Caixa Cultural para assistir a mais uma peça do festival de teatro. A da vez foi O Amargo Santo da Purificação, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, que levou algumas pessoas às lagrimas com o excelente e comovente espetáculo sobre a vida do político e líder da luta armada contra o regime militar, Carlos Marighella.

Para ver um filme, três peças e uma exposição, (mais um dvd em casa) durante apenas um dia e meio, tive que preterir quase uma centena de outras opções. Mas, entre um programa e outro, tive o privilégio de rodar a pé, de ônibus e de bike pelo arborizado Plano Piloto, sob sol e céu azul, enquanto, em boa parte do país, as pessoas tiritavam de frio. No fim das contas, comprovei para mim mesmo que, conforme afirmava, Brasília tem sim o que oferecer.  Inclusive barato ou de graça. Basta disposição e acesso à informação.

sábado, maio 19, 2012

Racionais canta Marighella

Enquanto não solta seu aguardado novo disco, o mais influente grupo do rap brasileiro, o Racionais, antecipa, na internet, um aperitivo do que vem por aí. Musicalmente, nem é tudo isso, mas em um tempo em que o rock nacional já não cumpre o papel de catalizar (nem que para fins comerciais) a rebeldia artístico-musical, ver os caras musicando "pros mano, pras mina e pros boy" o discurso "extremista" do militante - ou "terrorista"- de esquerda", Carlos Mariguella, não deixa de ser provocador.

segunda-feira, maio 14, 2012

Correio ressucita Brandon Lee


Desatenção. Em seu site, o Correio Braziliense usa foto de ator morto em 1993, durante as filmagens do filme O Corvo, para ilustrar o programa do recém-lançado O Corvo, protagonizado por John Cusack e que nada tem que ver com a personagem maquiada abaixo.

O corvo (The raven, Hungria/Espanha/EUA, 2012) 

Sinopse: O escritor Edgar Allan Poe está à procura de um assassino que se espelha nos crimes dos contos escritos por ele. 

Diretor: De James McTeigue Gênero: Suspense Duração: 111 minutos

Elenco: Com John Cusack, Luke Evans e Alice Eve


sexta-feira, maio 04, 2012

Românticos do Planalto Central


Ando preguiçoso. Levei quase um mês para editar e disponibilizar os vídeos e escrever algo sobre as apresentações dos brasilienses Alysson Takaki e Ingrid Cardozo no teatro da Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em Brasília (DF), no dia 5 de abril. Enfim, aqui estão.

O show foi o primeiro do ano do projeto GRV360º|ConectandoCriações, promovido pelo selo GRV Discos, empresa brasiliense que conta com mais de 30 artistas em seu catálogo e opera também uma loja e uma agência promotora de eventos.

Gratuito, o show lotou o excelente Teatro Eva Herz e serviu para que Takaki lançasse seu segundo cd, Querer Sem Fim. Produzido pela competente Larissa Vitorino (que, no show, se destaca tocando guitarra ao lado da afinada banda que acompanha Takaki), o disco pode ser ouvido na íntegra no site da GRV. Não é muito minha praia, mas deu pra notar que Takaki agrada em cheio àquela  parcela do público que curte um som mais intimista e romântico. Ouça aqui e tire suas próprias conclusões.

A meu ver, no entanto, a surpresa da noite ficou por conta da voz cristalina e grave da jovem Ingrid Cardozo, que surpreendeu e conquistou a atenção do público. Mesmo sem entender nada do assunto (o que me dá a possibilidade de escrever besteiras subjetivas), eu diria que a menina promete, faltando-lhe apenas definir logo sua identidade artística e se projetar mais no palco, dando mais de si à interpretação. Nem só de momentos delicados e de voz afinada se faz um bom show.










quinta-feira, maio 03, 2012

Deputado do DF pode ser processado por tortura

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) inocentou a auxiliar de ensino infantil Tatiane Alves de Jesus da acusação de denúncia caluniosa contra o atual vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Márcio Michel Alves de Oliveira (PSL). A auxiliar afirma ter sido torturada na época em que o deputado, conhecido como Doutor Michel, chefiava a 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho (DF). O caso chegou à Corregedoria da Polícia Civil que inocentou o então delegado e determinou que Tatiane respondesse pelo crime de denúncia caluniosa. 

Com a decisão da Justiça em favor de Tatiane, cabe agora ao Conselho Especial do tribunal decidir se o deputado responderá criminalmente às acusações de tortura. Michel nega as acusações. O caso ocorreu em 2009. À época, Tatiane cursava o segundo semestre de pedagogia e trabalhava como empregada doméstica em uma casa de um condomínio em Sobradinho. 

No dia 15 de julho de 2009, a residência foi assaltada por homens encapuzados que fizeram Tatiane refém, trancando-a em um quarto. No dia seguinte, Tatiane compareceu à delegacia para prestar depoimento na condição de vítima e testemunha. Entretanto, segundo ela, os policiais queriam que ela admitisse participação no assalto. A ex-empregada doméstica afirma ter sido mantida incomunicável das 13h do dia 16 (dia seguinte ao assalto) até as 18h do dia 17 de julho. 

Depois de ser ameaçada e coagida pelos policiais, ela foi levada para a sala do então delegado Michel. Ela afirma que o delegado bateu em suas mãos por duas ou três vezes com um cassetete de borracha. Ele também ameaçou bater nos pés, caso ela não dissesse os nomes dos assaltantes. Sob tortura, Tatiane acabou assinando um termo de confissão. 

“Eu contei o que havia acontecido, mas o Doutor Michel não acreditou na minha versão. Eu fiquei por mais de 24 horas na delegacia e durante esse tempo fui torturada psicologicamente e fisicamente, com golpes de cassetetes nas palmas das mãos”, contou à Agência Brasil. Três dias após ter sido solta e orientada por um advogado, ela prestou queixa contra o delegado na Corregedoria da Polícia Civil. No local, Tatiane disse que sofreu ameaças por parte dele, que ordenou que ela não contasse o que havia ocorrido para ninguém. 

A denúncia também foi apresentada ao Núcleo de Controle da Atividade Policial do Ministério Público do Distrito Federal. No mesmo dia, Tatiane se submeteu a exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal (IML), mas, como já tinham se passado três dias da prisão, nenhum hematoma foi encontrado. Sem provas concretas, a corregedoria concluiu que a professora não havia sido torturada e que Michel era inocente. Tatiane acabou sendo denunciada pelo crime de denúncia caluniosa, cuja pena varia de dois a oito anos de prisão. 

Para o promotor de Justiça, Mauro Faria, contudo, os autos do processo demonstram que “longe de ser o fato noticiado inexistente e de ser o [ex] delegado inocente, […] o crime de tortura ocorreu”. Em audiência no dia 28 de março, o promotor argumentou que Tatiane deveria ser absolvida e uma ação penal ajuizada contra Michel. 

“Mesmo que a acusada tivesse sido autora do roubo na casa da ex-patroa, o procedimento policial seria criminoso, pois não se pode torturar nem mesmo aos denunciados culpados para, assim, descobrir práticas criminosas.” 

Na última sexta-feira (27), o juiz Carlos Pires Soares Neto, da 4ª Vara Criminal, considerou improcedente a denúncia contra Tatiane e decidiu pela absolvição da auxiliar. O juiz também determinou que cópias do processo sejam remetidas ao Conselho Especial do TJDFT, órgão competente para processar e julgar, nos crimes comuns e de responsabilidade, os deputados distritais, além do governador, vice-governador e secretários de governo do Distrito Federal e Territórios.

Procurado pela Agência Brasil, o deputado distrital negou as acusações. “Não houve nada disso. Eu não torturei ninguém e se ela [Tatiane] foi absolvida [da acusação de denúncia caluniosa] é porque as provas não foram suficientes para condená-la. Agora, cabe apurar se as acusações que ela atribui a mim ocorreram e eu vou me defender se o conselho julgar necessário.” 

Composto por 17 desembargadores, entre eles os representantes dos advogados e do Ministério Público, o conselho é presidido pelo presidente do TJDFT, o desembargador João de Assis Mariosi. Em função do feriado, até esta quarta-feira (2), a documentação ainda não havia sido encaminhada.


Deputado nega ter torturado ex-empregada doméstica

Vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o deputado distrital Márcio Michel Alves de Oliveira, o Doutor Michel, nega ter torturado a ex-empregada doméstica Tatiane Alves de Jesus em 2009, período em que ele chefiava a 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho (DF). 
Na última sexta-feira (27), o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) absolveu Tatiane da acusação de denúncia caluniosa contra o ex-delegado e determinou que cópias do processo sejam remetidas ao Conselho Especial do tribunal, órgão competente para processar e julgar, nos crimes comuns e de responsabilidade, os deputados distritais. Caberá ao conselho decidir se o deputado responderá criminalmente à acusação de ter torturado Tatiane para, segundo ela, obter uma falsa confissão de participação em assalto.

“Eu não torturei ninguém e se ela [Tatiane] foi absolvida [da acusação de denúncia caluniosa] é porque as provas não foram suficientes para condená-la. Agora, cabe apurar se as acusações que ela atribui a mim ocorreram. Eu vou me defender se o conselho julgar necessário e provar que o que ela diz não passa de uma falácia”, disse o deputado e delegado aposentado a Agência Brasil.

Michel diz estar convencido da participação de Tatiane no assalto à casa onde ela trabalhava como empregada doméstica. “Mesmo a Justiça tendo absolvido, eu tenho certeza de que ela participou do roubo junto com as pessoas que entraram na casa. Os indícios e as contradições no depoimento dela me levaram a não ter dúvidas quanto a sua participação”, comentou o deputado, que admite que nenhum dos assaltantes presos confessou a participação de Tatiane.

“Ela disse que os assaltantes a prenderam sozinha em um quarto da casa, mas era um cômodo com uma janela com menos de 1 metro de altura que dava para um matagal. Por que ela não fugiu? Além disso, é muita coincidência que os assaltantes morassem no mesmo bairro da Cidade Ocidental em que ela vivia e fossem praticar o roubo em Sobradinho. Enfim, o delegado não trabalha com provas reais e, sim, com indícios e o conjunto de indícios nos levaram a crer que ela estava de conluio com as pessoas que praticaram o roubo”, contou.

Ao longo de 27 anos na Polícia Civil, 15 deles como delegado, Michel respondeu a pelo menos cinco denúncias por abuso de poder, tendo sido inocentado pela Corregedoria da Polícia Civil em todas elas. “Só não responde a denúncias quem não trabalha. Agora estão querendo manchar minha imagem. Como não me pegam em negociatas, estão querendo me pegar pela minha vida profissional. Não vão conseguir.”

Para Michel, o resultado do exame de corpo de delito deixou claro não haver provas de que Tatiane tenha sido torturada. “Ela foi ao IML e nada foi constatado. Como uma pessoa que diz ter sido torturada não tem marcas? Por isso ela foi indiciada por falsa comunicação de crime. Se não há marcas, como provar a tortura? Eu teria que ser muito hábil para torturar sem deixar marcas. E eu nem sou hábil nem torturador. Eu era delegado.”

Tatiane e seu advogado, Gilberto Gonzaga, afirmam que o exame não constatou as marcas das agressões com cassetetes porque foi feito quatro dias depois da prisão.

"Só quero meu nome limpo", diz ex-empregada que acusa deputado do DF de torturá-la

A ex-empregada doméstica Tatiane Alves de Jesus disse que se sentiu aliviada quando soube, pela Agência Brasil, que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) a absolveu da acusação de caluniar o deputado distrital e ex-delegado de polícia Márcio Michel Alves de Oliveira, o Doutor Michel (PSL). Tatiane de Jesus afirma ter sido torturada pelo deputado distrital em 2009, quando ele ocupava o cargo de delegado em uma delegacia de polícia da capital do país.

Procurada esta manhã (3), Tatiane comentou jamais ter entendido como, de vítima e testemunha do assalto à casa onde trabalhava em 2009 e de autora da denúncia de que o delegado a teria torturado para que ela confessasse participação do roubo, acabou respondendo à acusação de denúncia caluniosa, crime cuja pena varia de dois a oito anos de prisão e da qual foi inocentada na última sexta-feira (27).

“É uma pergunta que nem mesmo o juiz soube responder quando eu fui denunciada. Eu pensei comigo: este é o Brasil. Um inocente pode ir pra cadeia enquanto vários culpados estão soltos”, lamentou a ex-empregada doméstica que, hoje, trabalha como auxiliar de ensino infantil. Ela espera que, com a absolvição do crime de denúncia caluniosa, Doutor Michel “pague por toda a mudança na minha vida”.

“Eu só queria meu nome limpo. Até porque preciso disso para prestar um concurso público. Para mim, o caso se encerrou aqui, embora eu espere que a Justiça seja feita”.

Na entrevista a Agência Brasil, Tatiane de Jesus lamentou que a ex-patroa dela tenha acreditado na versão da Polícia Civil. A ex-empregada repetiu tudo o que narrou nos vários depoimentos que prestou desde julho de 2009. Naquela data, sustenta, três homens armados invadiram a casa em que trabalhava, em um condomínio de classe média na cidade satélite de Sobradinho.

“No dia seguinte ao roubo eu fui à delegacia para servir de testemunha. Contei o que tinha acontecido, mas o Doutor Michel não acreditou na minha versão. Eu fiquei por mais de 24 horas na delegacia e, durante esse tempo, fui torturada psicologicamente e fisicamente”.

De acordo com Tatiane, o delegado e hoje vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal pegou um cassetete e bateu nas palmas das mãos dela ao menos quatro vezes. “Ele dizia que sabia que eu não era bandida, mas que eu tinha cometido uma falha e que era melhor eu confessar ou, então, ele passaria a bater também nos meus pés e a situação ainda iria piorar. Ele queria [provar] que eu era a mandante do roubo. Eu assinei uma confissão admitindo ter ajudado os assaltantes, mas nem me lembro direito do conteúdo da confissão porque eu estava apanhando”.

A ex-empregada disse que ficou incomunicável na 35ª Delegacia de Sobradinho das 13h do dia 16 às 18h do dia 17 de julho.

À Agência Brasil, o deputado distrital Doutor Michel negou a acusação de tortura. Ele garantiu que, durante este tempo, Tatiane falou com várias pessoas que estiveram na delegacia. “Quando ele me soltou, ameaçou me matar se eu contasse a alguém o que tinha acontecido. Só que eu não tenho medo. Sinceramente, eu não tenho medo”, comentou Tatiane. Depois de liberada, Tatiane prestou queixa contra Michel na Corregedoria da Polícia Civil e se submeteu a exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML).

“O resultado apontou um laudo impreciso porque, além do tempo que havia passado, as mãos têm uma facilidade maior de esconder hematomas”, explicou Tatiane de Jesus.