quinta-feira, novembro 30, 2006

quinta-feira, 30 de novembro de 2006

Acho que eu nunca escrevi a palavra xixi. Urina sim. Mas o popular xixi, nunca. Quer dizer, não que me lembre. Talvez eu até tenha escrito enquanto aprendia a escrever, só para ver como ficava ‘desenhada’ no papel. Assim, tipo criança repetindo palavrão. Ocorre que, se o fiz, não me lembro. E não apenas xixi. Tem um monte de palavras cotidianas com que convivo sonoramente que são ignoradas graficamente por mim, que ganho a vida escrevendo palavras dignas como inconstitucional, desenvolvimento, presidência, intransigentemente, etc

Estava pensando em bobeiras que nunca escrevei quando me lembrei de um outro episódio envolvendo palavras que me surpreendeu. Mas desta outra vez foi algo que ouvi. Apesar da palavra - na verdade, um nome – me ser familiar, me dei conta de nunca tê-la pronunciado alto antes. Estava sentado no meio-fio esperando pela minha mãe. Ao meu lado, alguém que não me lembro quem (devo estar com algum problema de memória!) a chamou: “Nair”. Pensei comigo, “Vejam só. Não é que o nome da minha mãe é bonito".
Me dei conta de que durante toda minha vida, eu só a chamei por mãe. E fiquei imaginando como devia ser conviver com um nome bonito durante boa parte da vida e, de repente, perdê-lo.

segunda-feira, novembro 27, 2006

segunda-feira, 27 de novembro de 2006

Databus informa: Em Belo Horizonte, a passagem de ônibus mais barata custa R$ 1,85.

Tem oito dias desde minha chegada à capital mineira, de onde retornei no último sábado e onde passei a última semana trabalhando de onze a treze horas diárias. Direto, sem pausa. Não deu para conhecer muito além do trajeto Aeroporto/hotel/UFMG, onde acontecia o 3º Encontro Educacional do Mercosul. Por sorte - ou, azar - o Aeroporto de Confins faz jus ao nome. Fica, realmente, próximo aos confins do mundo. De van, são cerca de 40 minutos sacudindo pelas ruas em obra até o centro.

Pela janela do táxi, ou nas rápidas caminhadas noturnas pelo centro, para ir jantar, deu para sacar que a cidade é dinâmica, que o barato é louco, o vapor é total e, principalmente, que é verdade factual a história de que Belô é uma das cidades com a maior concentração de mulher bonita do país. Lógico que, diante da relatividade do conceito, não vou eu, semi-fosco afetado pela saudade da namorada e pelo cansaço de uma semana ouvindo falar em integração dos povos do bloco, querer que me acreditem. Para los chicos, vale a pena conferir com os próprios olhos. Recomendo uma mesa do Western House, de preferência na calçada da Rua Guajajara, altura do 466, no Centro.

De mais a mais, não tenho muito mais o que escrever. Poupo-os, eventuais leitores e amigos, dos detalhes das discussões infinitas, das deliberações e recomendações dos intermináveis grupos de trabalho, das falas ministeriais. Sim, voltei de bode. Cara amarrada e abatido. Não quero nem ouvir falar em desarollo, en la educación como um bien público y en la integración de la educación de los hermanos. Cansei. Como diz a atriz do Terças Insanas, "Me deixem ser burro. A inteligência dói".

quinta-feira, novembro 16, 2006

quinta-feira, 16 de novembro de 2006

Perigos Capitais

Brasília é uma capital muito perigosa. E olha que eu nem mesmo estou me referindo ao entorno, às cidades-satélites da capital federal. Não. Falo unicamente da Ilha da Fantasia composta pelo Plano Piloto e pelos Lagos Sul e Norte.

Enquanto caminha pelas entrequadras, se o sujeito incauto escapa de ser atingido por uma jaca, é vitimado por uma manga. Ou por um abacate. Ou, no melhor dos casos, por um jambolão que, ainda que eventualmente lhe manche a roupa, pelo menos não oferece o risco de um traumatismo.

É realmente necessário andar esperto em Brasília. E não pensem que o perigo se resume à flora. Não! A fauna também oferece sérios riscos à saúde, principalmente dos novos candangos. Quando não à integridade física, aos nervos dos mais sensíveis. Por exemplo, as cigarras de Brasília (aliás, no início de cada primavera, melhor seria dizer Brasília das cigarras, pois é como se todas migrassem para cá. Pelo menos minha namorada garante que em Florianópolis não há cigarras. Segundo ela, lá é terra de formiga, de trabalho).

Seguindo o raciocínio, as cigarras, em Brasília, distraem, irritam e fazem mal ao sono. Não bastasse elas começarem a cantar tão logo o sol aparece no horizonte, elas não respeitam a lei do silêncio e, vez por outra, se põem a cantar tarde da noite. E não apenas uma. São milhares. No meio do dia você já se esqueceu de como soa o tráfego, as ruas, o aspirador de pó, sem o fundo sonoro das cigarras.

Eu, semi-fosco que sou, dia destes consegui ser atingido por uma nos olhos. Isso porque eu uso óculos. Pois nem assim. A desgraçada conseguiu entrar entre meus olhos e a lente do óculo. E ficou ali, batendo asas, eu sentindo o frêmito na pálpebra do olho esquerdo...


É, Brasília é realmente muito perigosa.

segunda-feira, novembro 13, 2006

segunda-feira, 13 de novembro de 2006

Voltando após quase duas semanas sem postar. E, como de hábito, segunda-feira é dia de despretensiosamente comentar algo sobre o que li, assisti, ouvi durante a semana. Pois bem...

UM LIVRO - O Alienista. Será o melhor conto de Machado de Assis? Não saberia dizê-lo, pois além de entender pouco do riscado (na verdade, em se tratando de literatura, entendo apenas do que gosto e não gosto), conheço quase nada de Machado. Até bem pouco tempo, gostava de polemizar menosprezando a unanimidade em torno de sua obra. Dizia a todos que preferia Lima Barreto (ainda prefiro, mas, hoje, já admito que isso é pessoal). Acho que a culpa por esta minha rebeldia era das professoras do ensino médio, que nos obrigam a ler livros inacessíveis - pelo menos, na época, para mim - à nossa sensibilidade de adolescentes criados em meio à cultura audiovisual.

Mas voltando à dica, muitos afirmam ser o melhor conto do autor. Para quem não leu ou não lembra do que leu apenas para fazer a prova, a editora LP&M disponibilizou a obra através da coleção Pocket, que é boa e barata. Além disso, para os mais preguiçosos, o conto tem uma vantagem. Exige folêgo curto, já que tem apenas 86 páginas, tamanho pequeno. Ao menos um livro do Machado já se poderá dizer ter lido.

UM VÍDEO - Tudo bem. Chamem-me de obsessivo, de exagerado. Até de quinta-coluna. Mas volto a indicar um filme argentino. O Cachorro, de Carlos Sorín.
O filme não é o melhor da recente leva de produções argentinas, mas tem muitas das qualidades que as têm caracterizado. Uma história simples, tocante e muito bem contada por um diretor capaz de escalar excelentes atores para os papéis principais. Atores estes capazes de representar a diversificada e complexa gama de sensações e emoções que caracterizam a todos nós. Deixando de viadagem e sendo mais objetivo, O Cachorro é a história de um frentista desempregado que, aos 52 anos, sobrevive às custas de pequenos bicos e dos favores da filha. Tudo vai mal até que, ao prestar um favor a uma desconhecida, ele ganha como pagamento um dogue branco chamado Bombom. Com o cachorro pela coleira, sua sorte vai mudar.
Portas se abrem, cartões de visita e números telefônicos - importantes patrimômios em uma cultura que valoriza o QI, de Que Indica - se multiplicam e, enfim, o protagonista terá a chance de ir além de seus até então estreitos horizontes . Que, vale anotar, em termos naturais, se trata da bela e agreste paisagem da Patagônia. Enfim, mais um belo filme argentino.
UMA EXPOSIÇÃO - Olha só, Cibele. Esta é para os poucos amigos de Brasília que me lêem. Como acho que você e minha namorada são as duas únicas, mas ela já foi comigo, então fica aqui registrada uma dica unicamente para você.
A mostra inédita do indiano Anish Kapoor, Ascension. Embora Kapoor seja basicamente um escultor, quem visitar o Centro Cultural Banco do Brasil, em Brasília, não deve esperar pelas clássicas reproduções em pedra ou outros materias convencionais. O artista brinca com as leis da física e utiliza materiais empregados por pintores para propor um jogo com quem vê sua obra. Ou então, recorre à equipamentos emprestados à indústria aeronáutica para, com a ajuda de alguma fumaça, esculpir o vento. Sim, o vento.
Não ficou muito claro? Pois acredite, vai ficar ainda menos óbvio para quem for à exposição de Kapoor, de terça a domingo. Ou você acha fácil explicar a sensação de colocar a cabeça dentro - sim, dentro - de um quadro? Ou ser surpreendido por uma parede aparentemente branca e plana que, súbito, se revela grávida?Pois vá lá e experimente ser envolvido pela fumaça para interferir nas formas de uma escultura. É de graça.
Fica para outro dia o comentário sobre Volver, o novo filme de Pedro Almodovar.

segunda-feira, outubro 30, 2006

segunda-feira, 30 de outubro de 2006

Esta semana a preguiça venceu.

Queria ir à exposição do artista plástico e escultor indiano Anish Kapoor, em cartaz até o dia 7 de janeiro no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), mas os dias passaram, a semana acabou e eu não fui. No cinema, a mesma coisa. Pretendia assistir ou a Elza e Fred - Um Amor de Paixão ou O Buda. Derrotado pela preguiça, não fui a nenhum dos dois. Não assisti à apresentação do grupo de dança de Florianópolis, Cia. 11, nem à peça de teatro que estava em cartaz a poucos metros da minha casa.

E por que tanto cansaço? Talvez pela batalha que travei para comprar o meu primeiro celular. Se bem que desconfio que foi mais de fundo moral. Abri mão do único título que me distinguia e me tornei mais um cidadão rastreável.

Assim, por hoje, tudo que tenho a sugerir é o vídeo Três Enterros de Melquiades Estrada, dirigido por Tommy Lee Jones e que só fui me animar a assistir após atentar para o detalhe que o roteiro foi escrito por Guilherme Arriaga, o mesmo do excelente Amores Brutos e 21 gramas. No fim das contas, descobri que a direção e a interpretação de Jones também são certeiras.

Já para ler, bem, descobri João Gilberto Noll. Mas sobre este eu prefiro falar numa outra hora, porque agora bateu uma preguiça.

quarta-feira, outubro 25, 2006

quarta-feira, 25 de outubro de 2006






Midiótica
Não pude escrever antes a respeito da discussão resultante da reportagem de capa da edição de CartaCapital da semana passada (ver o post de 17 de outubro). Quando, nesta quarta-feira, reproduzi as capas desta semana, queria fazê-lo. Mas só hoje (sexta) pude comentar algo. Durante todo este tempo, as acusações sobre o papel desempenhado pelos veículos de comunicação nestas eleições causaram a irritação ou a indignação de vários profissionais que se posicionaram ao sabor de suas convicções políticas.

Resumo da ópera para os que não sabem do que se trata: o experiente repórter político Raimundo Rodrigues Pereira publicou na edição de CartaCapital de 18/10 a primeira matéria de, até agora, duas, sobre o tratamento dado pela mídia aos fatos que antecederam a realização do primeiro turno. Leia-se, a exibição das fotos tiradas pela Polícia Federal do dinheiro apreendido na operação que deteve os militantes petistas envolvidos na compra do Dossiê Vedoin.

Em linhas gerais, a reportagem “Os Fatos Ocultos” procura demonstrar que a mídia, em especial a Globo, omitiu informações cruciais ao divulgar as fotos e, assim, contribuiu para que houvesse um 2º turno, prejudicando a candidatura de Lula. Dada a riqueza de detalhes apurados pelo repórter, os editores imaginaram estar, com a matéria, dando sua contribuição a um eventual Dossiê da Mídia.

Além de algumas revelações de bastidores (jornalistas teriam sido avisados da prisão dos petistas por um dos donos da produtora de marketing político que presta serviços a José Serra e a Geraldo Alckmin; as fotos do dinheiro foram entregues a alguns repórteres pelo mesmo delegado da Polícia Federal que, duas semanas antes, havia prendido os petistas), Raimundo levanta dúvidas sobre os procedimentos técnicos e éticos dos profissionais de comunicação. (Por que o Jornal Nacional de sexta-feira (29) teria dado tanto destaque à divulgação das imagens quando concorrentes já falavam do acidente com o avião da Gol?).

A principal questão, porém, é por que os jornalistas teriam omitido de seus leitores/ouvintes/telespectadores a informação de como o cd com as fotos chegara as suas mãos?

Qualquer pessoa minimamente esclarecida sabe dos interesses políticos e econômicos que permeiam a atividade jornalística. Sabe, também, que a credibilidade de um veículo é proporcional a sua capacidade de manter a isenção e a objetividade, possíveis apenas por meio da fidelidade à verdade factual e à compreensão do que é notícia de interesse público (e não do público). Pois então, neste caso, qualquer um saberia também que a informação divulgada com alarde só estaria completa caso os jornalistas revelassem as condições em que haviam obtido as cópias das fotos.

Não se tratava de revelar uma fonte, mas de deixar claro que um delegado da Polícia Federal havia entregue a cinco jornalistas um cd com 23 fotos cuja exibição havia sido desautorizada pela Justiça. Que havia lhes recomendado afirmarem ter recebido o material de alguém que o teria roubado dele próprio. E que, para dar verossimilhança ao álibi, ele, o próprio delegado, disse que forjaria um boletim de ocorrência e insinuaria aos seus superiores que o autor do furto poderia ser um jornalista mais ousado. Segundo Raimundo Pereira, o delegado chegou a recomendar que as fotos fossem editadas a fim de suprimir detalhes e despistar sua origem.

O pior. Toda a conversa entre o delegado e os jornalistas a quem entregou o cd estava gravada e foi apresentada a outros profissionais. Um deles, o repórter da Tv Globo, Luiz Carlos Azenha, chegou a veicular em seu blog (http://viomundo.globo.com) trechos desta gravação. Em uma das passagens, o delegado deixa clara sua principal preocupação ao entregar o material. “Tem de sair hoje à noite na tevê. Tem de sair no Jornal Nacional”.

É como diz Azenha na apresentação de seu blog. "Não dá para mostrar tudo na tevê".

Então, vá à net e tire suas próprias conclusões:


Os Fatos Ocultos – (a reportagem que originou a polêmica)
http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=5457

Rede Globo: os fatos – (a réplica do diretor-executivo de jornalismo da Central Globo de Jornalismo, publicada inclusive na CartaCapital desta semana, como matéria publicitária paga)
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=403JDB010

Tartufo trabalha na Globo? - (a tréplica de Mino Carta à carta-resposta de Ali Kamel)
http://www.cartacapital.com.br/index.php?funcao=exibirMateria&id_materia=5459

O Fantasma do Paredón – (a opinião do jornalista Alberto Dines sobre a matéria de CartaCpital)
http://observatorio.ultimosegundo.ig.com.br/artigos.asp?cod=404JDB001

De onde veio o Dinheiro – (texto que o jornalista global Luiz Carlos Azenha publicou em seu blog sobre a montagem cenográfica em torno do dinheiro apreendido pela Polícia Federal)
http://viomundo.globo.com/site.php?nome=PorBaixoPano&edicao=359

Réquiem do jornalismo – (o elogio a Raimundo Pereira, a crítica ao antijornalismo e a opinião do jornalista Luis Nassif)
http://z001.ig.com.br/ig/04/39/946471/blig/luisnassif/2006_10.html#post_18660494

O 1º Golpe já houve. E o segundo? – (a opinião de Paulo Henrique Amorim fica explícita no título)
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/394501-395000/394778/394778_1.html

Quase mais uma ... (A notícia do ‘laranja’ que não era ‘laranja’ e da jornalista que não era jornalista, ambos à serviço do PSDB, foi divulgada como verdadeira pelos principais veículos da imprensa, ocupando as primeiras páginas de sexta-feira, 27. Para entender, é necessário, após assistir ao vídeo –primeiro link – ler a entrevista que o delegado da PF concedeu a Paulo Henrique Amorim – segundo link)
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/397001-397500/397246/397246_1.html
http://conversa-afiada.ig.com.br/materias/397001-397500/397257/397257_1.html

segunda-feira, outubro 23, 2006

segunda-feira, 23 de outubro de 2006

O que li, vi e ouvi e recomendo embora ninguém tenha pedido
Na telona - A estréia nacional Pequena Miss Sunshine, comédia on the road sobre uma famíla autenticamente norte-americana que, apesar da esquisitice e desequilíbrio de seus membros - paranóicos por estarem à altura das promessas do american way of life - se assemelha demais à média das famílias ocidentais.
Particularmente, apesar de achar os personagens carismáticos e o filme divertido, tenho algumas ressalvas. Primeiro, após sugerir o que poderia ser entendido como a crise do modelo familiar tradicional, o filme defende-o da forma mais conservadora possível. Segundo, me parece pedante e desnecessária a opção por sustentar, ou mesmo relacionar, as idiossincrasias do adolescente que se recusa a falar após ter feito voto de silêncio, ou do tio homosexual, às figuras do filósofo alemão Nietzsche e do escritor francês Marcel Proust.
Mas minha principal ressalva é quanto ao fato de ambas as idéias centrais do filme, ou seja, a crítica ao modelo de sucesso imposto pela cultura norte-americana, aqui representado pelo concurso de beleza infantil (Miss Sunshine) e a própria possibilidade de superação dos problemas familiares através da união para atingir um objetivo comum, ou da simples fuga do cotidiano, já terem sido exploradas ao extremo pelo cinema norte-americano. De cabeça, lembro, no primeiro caso, Miss Simpatia. No segundo, Férias Frustradas, um filme também engraçado com o 'mala' do Chevy Chase.
Apesar desta minha rabugice, a platéia parece ter gostado muito do filme e eu próprio dei boas risadas. De forma que fica valendo a indicação. Melhor ainda que, no Brasília Shopping, até o dia 26, o ingresso é promocional, custando a metade do preço.
Na telinha - Um argentino. Sim, qualquer um argentino. A Nuvem, Nove Rainhas, O Pântano, O Filho da Noiva, Menina Santa, Clube da Lua, O Cachorro...Tudo bem. Talvez O Pântano e Menina Santa não sejam palatáveis à qualquer sensibilidade, mas uma década de ótimos filmes me fez concluir que não há, hoje, produção cinematográfica como a argentina.
Nessa semana, assisti a O Abraço Partido (El Abrazo Partido - 96 min.), dirigido por Daniel Burman e vencedor de dois prêmios do prestigiado Festival de Berlim. Conta a história de Ariel, descendente de judeus-poloneses que migraram para a Argentina fugindo aos horrores da Segunda Guerra e ao extermínio de judeus. Criado pela mãe após o pai ter abandonado à família para ir defender Israel durante a guerra do Yon Kipur (1973), o garoto cresce em meio à bugigangas made in china, às histórias pessoais e aos desencontros dos lojistas de uma galeria comercial decadente de Buenos Aires, onde sobrevive a loja de tecidos criada e deixada pelo pai e administrada pela mãe. Sem horizontes após ter largado a faculdade e abandonado a namorada, Ariel planeja tentar a sorte na Europa como cidadão polonês, porém, para isso, tem de remontar seu passado e o de sua família.
Um filme emocionante, engraçado, de atuações carismáticas e roteiro inteligente.
Para ler - A Louca da Casa (Ediouro, 196 pág.). Não li o romance em forma de ensaio da espanhola Rosa Monteiro durante a semana que passou, mas o fiz em igual tempo, no início deste ano. Após muito tempo, foi o primeiro livro que li de um só fôlego.
A louca a que a escritora alude é a imaginação. E o livro é, a bem da verdade, indefinível. Misto de romance, com elementos autobiográficos e, no fundo, um ensaio sobre a importância da imaginação para os criadores, sobretudo para os que lidam com a literatura, e desta para a humanidade. Tudo isso sem a chatice da erudição, como um bom bate-papo.
Para ouvir - Digam o que disserem, Deus salve o E-mule e similares programas de compartilhamento de arquivos. Pois graças a ele, e à dica valiosa de um amigo conhecedor de samba, fui apresentado à malandragem de Roberto Ribeiro (1940 - 1996). Estranho que eu nunca tivesse ouvido falar do carioca, nascido em Campos, ex-jogador do Fluminense e puxador de samba da Império Serrano. Na internet há muito dele para baixar. Eu fiz minha seleção. Mel pra minha dor; Todo menino é um rei, Acreditar, Conto de areia, Viola da Serrinha, Vazio, Favela, Só pra Chatear, Recordações de um Batuqueiro (com Elza Soares), Cartas Marcadas, Proposta Amorosa, Viva meu Samba, Me engana que eu gosto, Sereno da madrugada, Estrela da madureira, Ingenuidade, Cinzas da solidão, Desalento, Triste desventura e Ingenuidade. Só pérolas que, não fosse a democratização possibilitada pelas novas tecnologias, estariam jogadas nos espúrios arquivos das gravadoras multinacionais.

sexta-feira, outubro 20, 2006

sexta-feira, 20 de outubro de 2006


Octopus Surfer
Pelé, Schumacher, Michael Jordan, Robert Scheidt, Muhammad Ali, o belga Eddy Merckx (e não o norte-americano Lance Armstrong), Tony Hawk....O esporte produziu uma seleta lista de atletas cujos feitos transcenderam os limites de suas respectivas modalidades, transformando-os em mitos. Na esteira de vitórias e novos recordes, vieram a fama, o dinheiro, as mulheres – o que contribuiu para que, além de darem o devido retorno a seus patrocinadores, se tornassem ainda mais populares e, conseqüentemente, angariassem mais fama, dinheiro, mulheres....No surf, este cara se chama Kelly Slater.

Apontado como o melhor surfista de todos os tempos, Kelly se destaca por ser completo, dominando qualquer tipo de onda, em qualquer condição. Seja voando sobre a junção de merrecas, seja dropando atrasado e entubando fundo em ondas grandes ou perigosas como Teahupoo, no Taiti, o norte-americano parece sempre pronto a expandir os limites do esporte.

Não bastasse ter igualado, ainda no início da temporada 2006, o recorde de seu conterrâneo Tom Curren, outra lenda do esporte que venceu 33 etapas do circuito mundial, Kelly, na semana passada, ensinou jornalistas e surfistas a pronunciarem a palavra OCTACAMPEÃO.

Não é pouca coisa. Merecidamente, o floridiano (estado conhecido pela má qualidade de suas ondas) é o profissional mais bem-sucedido da história do surf – esporte em que os atletas só começaram a colher os benefícios da profissionalização no final da década de 70. Desde que, em 1992, com 20 anos, se tornou o mais jovem campeão mundial, Kelly foi capa de revistas extra-surf como Interview, participou do seriado Baywatch, namorou a ‘siliconizada’ atriz Pamela Anderson e a ubermodel Gisele Bundchen, emprestou seu nome para um jogo de vídeo-game, estrelou dezenas de vídeos de surf e campanhas publicitárias, publicou uma precoce autobiografia e surfou por quase todo o mundo. Agora, com 34 anos, ao vencer seu oitavo título, Kelly se torna o surfista mais velho a conquistar o tour mundial.

Mesmo que os jornais não tenham noticiado seus feitos, diga, ele é ou não o cara? Caso concorde, me faça um favor. Se acaso esbarrar com um pretenso jornalista esportivo, pergunte a ele sobre a trajetória de Kelly. Caso ele não o conheça, mande-o à merda.

terça-feira, outubro 17, 2006

terça-feira, 17 de outubro de 2006

AGENDA SETTING


"O mundo parece diferente para pessoas diferentes, dependendo do mapa que lhes é desenhado pelos redatores, editores e diretores dos jornais que lêem."
(Bernard Cohen, The Press and Foreign Policy, 1963)

segunda-feira, outubro 16, 2006

segunda-feira, 16 de outubro de 2006

Aquilo não era um cachimbo, não era a mamãe, e isto não é um blog cultural. Mas mesmo que minha opinião não valha à pena, me dêem a chance de brincar de crítico cultural, nem que por exercício. Amigos, aguardo comentários, opiniões e críticas de quem já tenha lido, assistido, ouvido ou visitado a qualquer uma das sugestões que eu indicar, se tudo der certo, a cada segunda-feira.

Para assistir na telinha - De início, indicarei dois, pois não estou certo de que o primeiro, a produção hispano-argentina Na Cidade Sem Limites, de 2002, esteja disponível em vídeo, já que o assisti no Cine Brasília, durante a Mostra de Cinema Espanhol. De qualquer forma, o filme de Antonio Hernandéz surpreende ao tornar um drama familiar em um excelente suspense onde nada é óbvio, sejam as relações familiares, seja a própria doença que acomete o pai e motiva a reunião familiar em um hospital de Paris.
Na impossibilidade de encontrar esta fita, fica valendo o brasileiro Nina (www.ninaofilme.com.br), primeiro longa-metragem do diretor Heitor Dhalia . Livremente inspirado no romance Crime e Castigo, do russo Dostoievski, o filme recorre aos traços do igualmente atormentado desenhista Lourenço Mutarelli para dar vida às angústias e alucinações da personagem principal, excelentemente interpretada pela atriz de A Grande Família, Guta Stresser. Além disso, o diretor mostra ter credibilidade e ser bem-relacionado, pois pode se dar ao luxo de contar com um elenco de feras: Selton Mello, Wagner Moura, Lázaro Ramos, Matheus Nachtergaele, Renata Sorrah, Juliana Galdino e a ótima Myriam Muniz, um assombro no papel da velha Eulália.

Para assistir na telona – Já indiquei, anteriormente, o indie Eu, Você, Todos Nós. Assim, atualizo a dica com um filme que acaba de estrear. Dália Negra, o novo policial do diretor Brian de Palma é pipoca, mas das que têm a qualidade de proporcionar prazer momentâneo. Além de trazer beldades como Scarlett Johansson, Hilary Swank e Mia Kirshner (tudo bem, vá lá! Para as garotas, tem também o atual queridinho Josh Hartnett), prende a atenção do espectador. Algumas cenas violentas são dispensáveis, mas, afinal, isso é Hollywood.

Para ouvir em casa – Nem que seja por ocasião dos dez anos de morte de seu vocalista e letrista, Renato Russo, acho que vale a pena (re)escutar com atenção os discos da Legião Urbana. Nem que seja para verificar se suas músicas e as letras escritas por aquele que, a meu ver, foi o maior letrista do rock brasileiro, continuam dizendo algo sobre nosso tempo.

Para ler no Parque da Cidade ou na praia – Os textos são bons, embora sejam o que, em jornalismo, se chama de frios, ou seja, que não tem data de validade porque não são factuais. De qualquer forma, o lançamento da revista Piauí (R$ 7,50) foi “o fato” para o mercado editorial. E como é uma empreitada do diretor de videodocumentários João Moreira Salles (Notícias de Uma Guerra Particular, Entreatos), filho de banqueiro e irmão do Walter Sales de Central do Brasil, é lógico que a revista vai virar assunto obrigatório de mudérnos, estudantes de jornalismo e afins. Mas o que me incomodou foi o fato de que continuamos em desvantagem frente à geração anterior. O melhor texto é do Ivan Lessa, o mesmo que, em 60, escrevia para O Pasquim. Ironia fina.

sexta-feira, outubro 13, 2006

sexta-feira, 13 de outubro de 2006

LERO-LERO
Reproduzo aqui as 10 perguntas de ordem moral consideradas realmente relevantes pelo editor do fanzine carioca Outros Baratos - “uma despretensiosa tentativa de registrar em celulose o tom da conversa-fiada que livreiros e clientes do sebo Baratos da Ribeira (www.baratosdaribeiro.com.br) mantém”.

“Já que excesso de cultura pode tornar a vida mais infeliz quando não se tem coragem de errar...porque conhecer melhor o mundo costuma tornar as decisões mais lentas, uma vez que aumentam os detalhes, as alternativas e as consequências a serem consideradas... as perguntas que realmente merecem sacrifício e empenho para serem respondidas, as respostas que nos repartem em partidos e que pesarão no momento de julgarmos e sermos julgados são meia dúzia. Ou um pouco mais. Aqui seguem dez delas:

01 – Em que ponto o resultado de uma fecundação se torna uma pessoa?

02 – O corpo de cada um é um patrimônio pessoal sobre o qual somos absolutamente soberanos ou recursos biológicos que nos são emprestados por um prazo limitado e pelo qual há alguma obrigação de zelo?

03 – Dentro de quais condições e em que medidas a humanidade deve usufruir os recursos naturais?

04 – Qual o máximo de recursos monetários que se deve permitir que uma pessoa ganhe sem que ela tenha trabalhado para tanto?

05 - A privacidade, no sentido do espaço onde estamos livres de sermos julgados, consiste num modo de fazer ou naquilo que se faz?

06 – Qual o tamanho do esforço que a sociedade deve despender para tornar um indivíduo auto-suficiente quando as oportunidades que a média das pessoas recebe não são o bastante?

07 – Quando um crime ou pecado causa tanto estrago que torna impossível ao culpado compensar o mal cometido?

08 – Até onde é possível transformar quimicamente a personalidade de alguém sem que suas vontades e desejos se tornem as do fabricante ou as do psiquiatra?

09 – Quais idéias são tão perigosas que não valhem a pena deixar circular e discutir, já que proibí-las não as tornarão menos convincentes?

10 – Para que serve a Arte?”

quarta-feira, outubro 11, 2006

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

Há dez anos, neste mesmo horário, o telefone do hotel onde eu trabalhava, em Santos, começou a tocar. Atendi-o. Era minha então namorada. As duas chamadas que se sucederam também eram pessoais, de amigos muito próximos. Um deles ligava de São Paulo. Os três tinham o mesmo tom de voz embargado e denunciavam a mesma hesitação em reproduzir a notícia que tinham acabado de ouvir: Renato Russo, vocalista da Legião Urbana e principal letrista do rock brasileiro durante a década de 80, estava morto.

Não tenho vergonha de dizer que quando atendi a quarta chamada - esta, de trabalho - estava chorando. Da mesma forma que para meus amigos e para milhares de fãs da Legião Urbana, eu parecia ter perdido alguém muito próximo. Lembro de diversos apresentadores da MTV, Soninha entre eles, consternados, apresentando seus programas com as pálpebras inchadas. Por quase dois dias, shows, entrevistas e clipes da Legião ocuparam quase que a totalidade da grade da emissora.

Hoje, entendo porque. Renato Manfredini Júnior (1960 – 1996) foi realmente muito próximo e teve influência direta sobre a educação sentimental de milhares de pessoas.

Por mais de uma década, desde que, em 1985, o primeiro disco da banda chegou às rádios e estourou sucessos como Ainda é Cedo, Geração Coca-Cola, Soldados e Por Enquanto, as letras de Renato e a postura da banda conquistaram não apenas a simpatia do público, mas uma admiração que levou jornalistas a atribuírem a seu vocalista uma liderança quase messiânica sobre os fãs. Ledo engano. Estes ouviam-no e assimilavam quando ele dizia não haver nada de especial em si mesmo. Ainda que isso contribuísse ainda mais para que o achassem especial, impedia que se tornassem tietes. Assim, Renato não era adorado por ser famoso, por dar entrevistas ou porque aparecia na tevê. Em geral, era admirado pela capacidade de se comunicar com quem o ouvia.

Hoje, lógico, ouço Legião de outra forma. Mas a admiração por suas mensagens não diminuiu. Pelo contrário. Ao ver garotos e garotas que estavam nascendo em 1996 cantando as mesmas músicas que eu cantava nas rodinhas de violão de meus tempos de adolescente, acompanhado por meus amigos, sei que Renato Russo e a Legião deixaram uma obra perene.

segunda-feira, outubro 09, 2006

segunda-feira, 09 de outubro de 2006

A Outra Revolução Necessária
Apartado do Ministério da Educação (MEC) em 1985, o Ministério da Cultura (MinC) cumpre o importante papel de ‘desesconder’ o Brasil. Traduzindo em ações, isso significa, por exemplo, mapear e proteger as expressões culturais locais e elaborar políticas de proteção diante da avalanche produzida pelos conglomerados de mídia e entretenimento. É esse o objetivo quando o ministério se propõe a valorizar a capoeira; a defender o samba-de-roda; a criar pontos de cultura em comunidades carentes a fim de democratizar o acesso aos bens culturais ou ao patrocinar os filmes que vêm sendo produzidos nas periferias, comunidades indígenas e quilombolas: preservar nossa identidade cultural.

Porém, a fatia do bolo que cabe ao MinC é de apenas 0,5% do orçamento total da União. Em 2005, isso significou menos de R$ 350 milhões. Não fossem os recursos arrecadados graças às leis de incentivo fiscal e, provavelmente, o ministério morreria de inanição. A Lei Rouanet, por exemplo, só no ano passado movimentou mais de R$ 600 milhões de reais ao permitir que empresas invistam em cultura parte do que teriam de recolher aos cofres do Estado sob a forma de impostos. Impostos que se transformariam – ou deveriam – em investimentos em Educação, Saúde, Saneamento Básico e...Cultura.

O problema deste modelo, segundo alguns especialistas da área é que, com isso, o governo deixa a cargo da iniciativa privada a responsabilidade por definir o que vale a pena ser visto, lido, ouvido, enfim, conhecido.
Segundo estes mesmos especialistas, o que está ocorrendo, além da privatização da gestão cultural, é que, como nunca, os produtos da indústria cultural se tornaram “mercadorias”. Portanto, valem conforme sua capacidade de oferecer retorno. Daí decorre que o departamento de marketing - a quem geralmente cabe a palavra final sobre quais projetos merecem o aporte financeiro em troca da exposição do logo da empresa - privilegiam o que já é conhecido das massas. No teatro, para ficar em apenas uma expressão artística, são, em geral, os atores já conhecidos graças à tevê os que conseguem amealhar o maior percentual de patrocínios. O pior é que, na certeza de contarem com teatros lotados, estes mesmos atores, ignorando os patrocínios que obtiveram graças à renúncia fiscal, cobram uma exorbitância do público.

Some-se à falta de dinheiro a carência de recursos humanos do MinC (hoje, são 2,5 mil servidores. Correção: A exemplo da CartaCapital, escrevi que há 20 anos o MinC não realiza concurso público. Na verdade, após duas décadas sem contratar, no início deste ano o ministério fez um novo concurso. Os aprovados estão sendo convocados) e está criado o cenário para que surja o abismo entre as propostas apresentadas pelos sucessivos ministros e a real capacidade de ação da pasta.
Como bem lembrou o atual ministro, Gilberto Gil, “a recomendação da Unesco é de que as instituições culturais recebam 1% do orçamento nacional”.
(fonte: CartaCapital, ed. nº 411, 20/09/06)

quinta-feira, outubro 05, 2006

quinta-feira, 05 de outubro de 2006

QUANTO VALE OU É POR QUILO
O que interessa mais ao leitor? A periodicidade ou a informação precisa e atualizada?
Época,Veja e Istoé (R$ 7,90 cada) chegaram às bancas de todo o país no domingo (1º) em que os brasileiros decidiam os rumos políticos dos próximos quatro anos. CartaCapital (R$ 7,50) preferiu atrasar a publicação da edição semanal. Graças a isso, trouxe uma primeira radiografia do resultado das urnas de todo o país. Sem falar das notícias mais atuais a respeito do acidente aéreo em que morreram 155 pessoas.

quarta-feira, outubro 04, 2006

quarta-feira, 4 de outubro de 2006

Ando sem tempo para escrever. E pouco disposto a falar sobre o resultado das eleições. Gostaria de comentar um pouco mais sobre os personagens brasilienses, mais especificamente sobre os que habitam este diversificado centro comercial - e, por que não, cultural - que é o Setor de Diversões Sul (SDS), informalmente chamado por CONIC. Como tenho citado-o repetidamente em meus posts, acho que devo ao menos uma explicação para os amigos que não são de Brasília ou não conhecem o lugar. Mas isso exigiria o tempo e a paciência que andam escassas. Então, fica aqui a sugestão de leitura da pesquisa etnográfica A “SOCIOLOGIA” DE UM EDIFíCIO URBANO: O CONIC NO PLANO PILOTO DE BRASÍLIA, publicada em http://www.unb.br/ics/sol/urbanidades/brasilmarnara.htm
Para quem aceitar a leitura, duas ressalvas. a) Impossível apreender o real significado e a importância de um local como o CONIC - ainda mais em uma cidade como Brasília - em uma visita de fim-de-semana. b) O subsolo do conjunto, à época abandonado, hoje abriga, além de lojas de roupas e quiosques dedicados à venda de cds de rap e hip-hop, uma movimentada praça de alimentação, onde inclusive acontecem, nas noites de quintas e de sexta-feira, happy-hours.

terça-feira, outubro 03, 2006

terça-feira, 3 de outubro de 2006

A gente se vê por aqui

No Plano Piloto, é no Conic que o povo se encontra. O pernambucano Francisco Gonçalves da Silva, o Zé do Pífano, sabe disso. Afinal, não há nada mais povo que um pernambucano que viva da venda dos pífanos que fabrica. Assim, lá vai ele pelos corredores do Conic, entre a admiração e a surpresa dos que param para ouvir sua arte.

sábado, setembro 30, 2006

sábado, 30 de setembro de 2006

7 METROS ABAIXO DO CHÃO
O lugar se chama Espaço Galeria. Um antigo puteiro que foi reformado e transformado em uma pequena e soturna boate escondida no má-afamado Conic. Pra ser exato, no subsolo do Conic (espaço que, por si só, merece um texto que ainda irei escrever).
A festa da vez foi denominada Cicciolina e custava R$ 10 só a entrada. O nome da famosa italiana, estrela de filmes pornôs da década de 80 e, mais tarde, eleita deputada, foi tomado emprestado para, segundo os organizadores do evento, protestar de forma bem-humorada contra as eleições deste domingo. Não foram só as razões do protesto que não ficaram claras. Se alguém se manifestou durante a noite, o fez às escondidas. E ninguém pareceu sentir falta disso. A bem da verdade, a molecada nem deu atenção às imagens exibidas no telão; trechos de discursos, de entrevistas e de campanhas políticas.
Uma dj que prometia tocar música brasileira e ritmos cubanos atendia pela sugestiva alcunha artística de Sarah Vah! (assim mesmo, com exclamação). Além dela, outros três djs dividiam as carrapetas. Todos nominalmente inspirados. Somdubom seleciona funk. Mas funk das antigas, saca aquela coisa de Parliament e Funkadelic. Nada a ver com bondes e tigrões. Já os djs DX e Cookie Valentino! (também exclamativo) apostam ambos na música eletrônica.
Apesar de haver pouca gente - algo positivo, já que a casa é pequena e não comportaria um terço dos habitués da festa que acontece na garagem da Faculdade Dulcina, também no Conic - deu para se divertir. Principalmente para quem, como eu, vindo da festa de despedida de um amigo, já havia entornado uma garrafa e meia de vinho de boa qualidade.
A pista sobrou para quem quis dançar. Para quem preferiu "segurar a criança" (e havia várias delas!), sofás na laterais resgatam os tempos de inferninho da boate. Além do palco onde, lá pelas três da manhã, uma dançarina desnudou seu constrangimento. No jornal haviam anunciado que uma "dançarina provocante iria bailar" e garantir o clima de sensualidade da festa. Não sei se foi a falta dos meus óculos ou se foi o vinho, mas me pareceu que a intenção ainda era debochar de algo. Talvez de mim. Sendo assim, resolvi enfiar o pé na jaca e chamar a atenção de todos para minha dança epilética. Realmente, o pogo não combina em nada com ambientes alternativos como este. Mas a garotada blazé, mistura de lésbicas, gays, roqueiros, descolados, moderninhos e outros, não deu a mínima.
Na próxima sexta (06) rola outra festa neste mesmo local. Irá se chamar Sbornia. Não sei se fará juz ao nome. Mas para preencher a ausência da dj Sarah Vah!, os organizadores escalaram a dj Megera. É, realmente. Estes djs sabem escolher seus nomes artísticos.

sexta-feira, setembro 29, 2006

sexta-feira, 29 de setembro de 2006

A Ponte JK vista do avião

DIVERSÃO E ARTE

Hoje, Lenine bate papo e toca de graça no pocket show da FNAC. Infelizmente, o local comporta apenas 50 pessoas. No Arena Futebol Clube, o Cordel do Fogo Encantado lança seu novo álbum, Transfiguração (R$30). Seguindo a programação musical, tem ainda Jorge Mautner de graça em Taguatinga, Jah Live no Minas Brasília Tênis (R$15), Alzira Espíndola na Funarte (R$5) e o concerto sinfônico gratuito da Orquestra Sinfônica do Teatro Nacional.

Três festas: Cerrado Rock in Concert, Fashion Club e minhas sempre elegidas festas no Conic - a da vez se chama Cicciolina (R$10), uma provocação às eleições deste domingo (Cicciolina, para quem não se lembra, é o nome da estrela pornô Illona Staler, que, em 1980, foi eleita para o parlamento italiano). Se não bastasse acontecer no Conic, o local mais diverso e democrático da capital, tem entre suas atrações uma dj que atende pelo nome artístico de Sarah Vah! rs,rs,rs,rs,rs.

Tem teatro também. Segue a Cena Contemporânea - Festival Internacional de Teatro de Brasília, que ocupa, além de duas salas do Teatro Nacional, a Funarte, o teatro do Centro Cultural Banco do Brasil, o da Caixa e o Sesc Garagem da 913 Sul.

Some-se a isso os 47 títulos atualmente em cartaz nos diversos cinemas de Brasília e mais a penca de exposições e fica fácil de concluir que a vida cultural brasiliense não é tão incipiente quanto pode parecer a quem não procura por boas opções.

quarta-feira, 27 de setembro de 2006

Ele toca violão, canta, discorre sobre passagens bíblicas, discute a natureza da espiritualidade e manteve centenas de internautas na expectativa se conseguiria vencer à distância entre Cachoeira Paulista, no interior de São Paulo, e Brasília, para onde viajou disposto a processar o criador de uma comunidade com seu nome no orkut. Conheça Frei Tim, uma quase celebridade virtual que tem seus passos monitorados pela rede mundial.


ORKUT ON THE ROAD
Frei Tim é quase uma celebridade. Mas não é frei e poucos sabem o que exatamente ele é. Apesar disso, há quem diga que não existe cidadão que não o conheça no município paulista de Cachoeira Paulista. Segundo a estudante Gisele Laurindo, na cidade, Tim é mais famoso do que quentão em festa junina. E, no mundo virtual, mesmo que os números do orkut sejam mais modestos, não são menos expressivos. Já são 310 os fãs cadastrados na comunidade criada em sua homenagem. Pelos tópicos postados, ele com certeza deve ter deixado muitos outros pelo caminho que percorreu nos últimos sete meses.
Após tomar conhecimento de que sua foto estava sendo exibida na internet, Tim decidiu pôr os pés na estrada e seguir em direção a Brasília, onde pretendia processar o responsável por expôr sua imagem e seus causos na rede mundial. A partir daí, a comunidade virtual ganhou outra dimensão. Internautas de diferentes cidades e estados começaram a acompanhar e relatar a peregrinação de Frei Tim. Estava comprovada a justificativa do próprio Adriano para apagar as mensagens pessoais de seu perfil, "neste Admirável Mundo Novo você está sempre sendo observado".
Em março, após deixar Cachoeira Paulista, cidade onde vivia, Tim foi acolhido por moradores do município de Miguelópolis, ainda no interior de São Paulo. Em seguida, Priscilla o conheceu em Varginha, sul de Minas Gerais. Dias depois, chegou a Uberaba (MG), onde bateu um papo de mais de meia hora com Michel.
"Durante nossa conversa ele me contou que é milionário, tocou violão e trompete imaginários, falou algo em pelo menos nove idiomas, me disse que havia tomado seis tiros e, lógico, não deixou de se queixar por estarem usando sua figura para arrecadar dinheiro na Internet. Ele me disse que já teriam conseguido R$ 15 milhões".
Ainda em Uberaba, Frei Tim, apelido com o qual está se tornando famoso o cidadão Luiz Fernando da Silva, foi atendido na Secretaria de Defesa da Pessoa e do Cidadão. Dizendo ser um "ícone de sua cidade natal", ele se queixava por estarem indevidamente usando sua foto em um site. E entregou ao promotor um disquete contendo cópia da comunidade Frei Tim: Eu o Conheço. A comunidade foi criada em abril de 2005 pelo jovem Adriano Santos Godoy, com a intenção de homenagear "o mais célebre andarilho desocupado de Cachoeira Paulista". Segundo o próprio Adriano, "Ele não podia me ver na rua. Perdi a conta das vezes em que ele me atormentou".
No dia 7 de abril, ele estava em Uberlândia (MG), onde deixou Fábia tonta com o teor alcólico de sua conversa. No dia 11, foi visto por Vivaldo em Araguari (MG), pedindo dinheiro e segurando uma sacola plástica com disquetes e uma folha impressa do profile da comunidade do orkut.
Os testemunhos foram se sucedendo à medida que Tim avançava país adentro. Catalão (GO), Campo Alegre de Goiás, Cristalina. Até que, no dia 30 de abril, a fisioterapeuta Rute Rocha deu a notícia. Frei Tim havia chegado à capital. E continuava furioso com Adriano, dizendo que iria encontrá-lo a qualquer custo. "Ué, mas ele estava aqui, na mesma cidade que eu, e foi me procurar em Brasília?", questionou o agora receoso autor da homenagem que provocou esta verdadeira saga.
Desde então, Tim tem perambulado por Brasília, influenciando pessoas e fazendo amigos. "Cheguei em casa às 23h50, guardei minha moto e quando olhei para o lado, o vi. Sujo, com bafo de pinga e me pedindo um pão. Levei um susto e tentei me afastar. Mas quando dei por mim, já estava íntimo desta figura" conta o brasiliense Gelson Gomes. "No começo eu não entendia nada do que ele dizia. Mas descobri que é um ser humano especial, inteligente e bacana. Ele inclusive me ajudou psicologicamente. Sei que ele só foi embora após umas quatro horas de conversa".
Moradora de Cachoeira Paulista, a estudante Tais Mattos diz que ninguém sabe ao certo a história de Luiz Fernando antes de se tornar Frei Tim. "Uma vez perguntei de onde ele era e ele respondeu que era de Vinde e Vede. Foi engraçado". De acordo com a versão mais crível, seu apelido vem do hábito de cumprimentar as pessoas tocando-as com o dedo e dizendo alto, "tim".
Segundo Adriano, por conta de sua simpatia e inteligência, muitas pessoas já tentaram o ajudar. "Você não tem noção da quantidade de gente que já tentou ajudá-lo. Ele não quer ajuda", respondeu o paulista ao brasiliense Liandro Baião, que demonstrou disposição para auxiliar Tim após ter se sensibilizado com seu estado. "Ele apareceu na casa do meu primo pedindo luvas e uma touca para se proteger do frio. Estava alcoolizado e tinha os pés rachados. Carregava quatro ou cinco folhas com todos os recados deixados na comunidade".
Apesar de todo o folclore em torno da figura de Tim, muitos de seus 'fãs' reconhecem sua inteligência. Adriano Sattim conta ter aprendido a respeitá-lo após um bate-papo transcendental. "Conversamos sobre espiritualidade. Ele conhece e respeita muitas religiões e possui um pensamento bem filosófico. Vale a pena explorar suas idéias. Sou fã do Tim".
Porém, como toda celebridade, Tim é uma personalidade controversa. "Encontrei com ele aqui em Brasília uma vez e ele me pediu ajuda, dizendo que precisava entrar na igreja porque o demônio estava falando com ele. Não tinham deixado ele entrar porque ele estava falando outras línguas e rogando pragas. Foi realmente assustador", conta Letícia Dutra.
Os últimos depoimentos dão conta de que Tim está bem, continua em Brasília e que foi aceito na igreja. E que, em breve, sua foto irá se tornar ainda mais conhecida. Mas agora, com sua permissão.
"Meu ministério de música toca todo sábado na Paróquia Nossa Senhora das Dores, no Cruzeiro Velho. Como o Tim gosta muito da gente e nós gostamos dele, fizemos uma votação e decidimos que ele vai virar capa do nosso cd. Claro, isso se ele nos conceder os direitos autorais. Outro dia, depois da missa, ele pegou o violão depois da missa e cantou "Tu és minha vida, outro Deus não há".
Ao que tudo indica, Frei Tim pode vir a se tornar famoso. Entretanto, se por acaso você encontrá-lo pelas ruas de Brasília ou em qualquer rincão do país, pense duas vezes antes de tomar qualquer liberdade. Adriano, que diz ser um dos poucos que já o encontraram sóbrio, garante "Quando não está bêbado ele fica sério e não gosta de brincadeiras".