terça-feira, julho 08, 2008

Terça-feira, 08 de julho de 2008

Não nos deixemos enganar pelo sorridente senhor ao lado, um polemista. Antes de participar como autor convidado da Festa Literária Internacional de Parati (Flip), o colombiano Fernando Vallejo concedeu uma entrevista que motivou membros de uma comunidade virtual dedicada ao encontro literário a discutirem um eventual boicote à mesa onde Vallejo debateria com o holandês Cees Nooteboom o incerto tema “Paraíso Perdido”.

Entre declarações ácidas, como a afirmação de que as estatísticas revelam que o Brasil já supera a Colômbia de dez anos atrás em termos de violência, e a defesa do controle da natalidade pelos governos, Vallejo atraiu a antipatia de muitos ao dizer que a ex-candidata à presidência da Colômbia, Ingrid Betancourt, libertadas pelas Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia, as Farc, havia buscado seu próprio sequestro ao ir à região dominada pela guerrilha.
“Ingrid é uma pessoa feia e conseguiu o que queria, estar nas manchetes. Uribe também. E as Farcs são um bando de narcotraficantes assassinos. Não entendo por que as Farcs, que já causaram tanto dano à Colômbia, a soltaram. Não serviram nem para mantê-la presa”, disse o escritor, antes de afirmar que preferia que Betancourt tivesse permanecido presa. “Nos livraríamos de mais uma praga do país. A família ainda inventou que ela estava doente, e eu a vi hoje muito sã nas fotos, rosada. São mentirosos, eles e toda a classe política”. Cees Nooteboom

A sugestão de boicote à participação de Valejo não pegou e, às 19 horas do sábado, tanto a Tenda dos Autores, quanto a Tenda da Matriz, de onde o público assiste aos debates por telões, estavam lotadas. E, para mim, a conversa entre o colombiano e Nooteboom acabou sendo a melhor de toda a Flip. Junto com a mesa que reuniu o brasileiro João Gilberto Nool e a cineasta argentina Lucrecia Martel.

Antes mesmo de ler a referida entrevista publicada pelo O Globo eu já havia comprado um livro de Valejo, A Virgem dos Sicários. Pelo pouco que li, ele merece ser reconhecido por outros fatores que não por suas polêmicas declarações.

sábado, julho 05, 2008

Sábado, 05 de julho de 2008

Em termos de popularidade, já é possível apontar o quadrinista e escritor britânico Neil Gaiman como a grande estrela desta sexta edição da Festa Literária Internacional de Parati (Flip).

Hoje (5), dia em que também estiveram no centro do palco da Tenda dos Autores o angolano Pepetela, a nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, o psicanalista e ensaísta da Folha de S.Paulo, Contardo Calligaris, o norte-americano Richard Price, o romancista italiano Alessandro Baricco, o holandês Cees Nooteboom, o colombiano Fernando Vallejo e o dramaturgo inglês Tom Stoppard, Gaiman foi o mais assediado pelo público em busca de autógrafos.

Após o término do debate com Price (mediado por Marcelo Tas), Gaiman passou cinco horas - sim, cinco horas - autografando exemplares não apenas do já clássico HQ, Sandman, mas também de seus romances.
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Houve quem entrasse na fila mais de uma vez apenas pela oportunidade de se aproximar do autor que, ao lado de Alan Moore, ajudou a revitalizar os quadrinhos durante a década de 1980.
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O fato acabou criando uma situação no mínimo constrangedora para Price, que deixou a mesa de autógrafos ao fim de dez minutos, enquanto uma fila enorme se estendia pela Praça da Matriz. Horas depois, Baricco e Calligaris concluiriam seu debate, autografariam seus livros, deixariam o local e Gaiman permaneceria ali, atendendo fans de todas as idades. Só deixou a mesa porque desde o início, já havia avisado que não perderia a palestra de Stoppard, marcada para as 19h.

Durante a palestra, em que falou sobre o processo de criação de histórias em quadrinhos, a importância dos diálogos em seus livros e as diversas formas com que sua obra é recebida em diferentes países (na Polônia, por exemplo, disse Gaiman, ele primeiro se tornou conhecido por seus livros de ficção. Só então surgiu os poloneses passaram a se interessar por Sandman e por suas outras histórias para HQs), o autor contou um episódio que deixou claro o grau de devoção a que chegam alguns de seus fans.

"Gosto bastante quando vejo um fã tatuado com um de meus personagens", explicou Gaiman. "Mas, certa vez, em Los Angeles, durante uma tarde de autógrafos, um cara pediu para que eu autografasse embaixo de uma tatuagem em seu braço. Eu peguei a caneta e autografei. Passado algum tempo, eu continuava assinando livros, o sujeito voltou, apanhou a fila e, na sua vez, parou na minha frente. Ele tinha tatuado meu nome por cima da assinatura que eu fizera horas antes. Ainda dava para ver o sangue escorrendo. Aquilo não foi legal".

sexta-feira, julho 04, 2008

Sexta, 04 de julho de 2008


Ninguém toca no assunto, mas lógico que há um outro bom motivo para aceitar o convite para participar da Flip, não? Melhor dizendo, ontem (3), o jornalista e escritor Xico Sá sugeriu que há um certo estímulo etílico a turbinar a tertúlia literária. Não à toa, em séculos passados, parati era sinônimo da melhor cachaça produzida no país.

Sexta, 04 de julho de 2008

Como em Porto Seguro (BA), na Flip também tem "pipoca", ou seja, a turma que acompanha a "festa" do lado de fora dos cordões, de graça.

No caso da festa literária, as cordas carnavalescas são substituídas por assépticas e frias grades de metal que isolam a chamada Tenda da Matriz da principal praça da cidade.

Quem se dispõe a gastar R$ 8 pode acompanhar sentado, por três telões e com direito a fones de ouvidos, as palestras que ocorrem a cerca de 200 metros dali, na Tenda dos Autores, onde os ingressos custam R$ 25.

Lógico que a economia tem inconvenientes. Este ano, por exemplo, a organização do evento dificultou a vida dos pipocas, levando a grade até o limite da área coberta. Por sorte não choveu, mas, à noite, o sereno pode incomodar as mães que acreditam que a friagem seja maléfica. Além disso, certas mesas mais concorridas exigem que o interessado chegue mais cedo a fim de conseguir um lugar de onde consiga ver e ouvir as palestras. Foi o caso de hoje, com a mesa que reuniu a cineasta argentina Lucrecia Martel e o escritor brasileiro João Gilberto Noll.




quinta-feira, julho 03, 2008

Quinta-feira, 03 de julho de 2008



Começou ontem (2), com uma palestra do crítico literário Roberto Schwarz, a Festa Literária Internacional de Parati, Flip. Em sua exposição sobre o romance Dom Casmurro, publicado em 1889, Schwarz, um dos maiores especialistas na obra de Machado de Assis, falou sobre a evolução da leitura e da análise crítica dos livros do escritor, tido, por muito tempo, como um autor "conservador", já que "sua ironia" teria sido de difícil apreensão para a crítica da época.


Na sequência da palestra de abertura, que lotou a tenda da Matriz, de onde é possível acompanhar, por telões, as palestras que ocorrem na Tenda dos Autores, houve shows do cantor paratiense Luiz Perequê (acompanhado por uma excelente banda) e de Luiz Melodia.














domingo, junho 29, 2008

Domingo, 29 de junho de 2007

Do Estadão, sobre o "festival" bancado pela Motorola. Cheguei ao Parque do Ibirapuera sem conhecer nenhuma das três atrações internacionais.


SÃO PAULO - E o parque virou um verdadeiro 'Indierapuera'. Cerca de 4 mil pessoas, segundo estimativa da Polícia Militar, foram na tarde de ontem ao Parque do Ibirapuera para o Motomix Rokr Festival, que destacou esse ano as bandas inglesas Fugiya & Miyagi, The Go! Team e a canadense Metric. Parecia que, para cada 10 indies, havia um cão na coleira pelo parque. Muitos espectadores aproveitaram a tarde quente e tranqüila e montaram piqueniques com cangas no gramado entre o Museu Afro e o Planetário. Outros andavam de bicicleta entre o público.

Os shows começaram já com um público expressivo, às 15h, quando tocou a banda brasiliense Nancy, mas quando estava no palco, por volta das 18h40, a banda inglesa The Go! Team já tinha a praça à sua frente completamente cheia para seu concerto.

Os ingleses do Fugiya & Miyagi iniciaram o show pontualmente às 17h, tocando Ankle Injuries, de um set de 12 canções. Fortemente influenciados pelas bandas alemãs do krautrock, especialmente Kraftwerk e Can, o quarteto britânico dá à sua mistura também um tempero de eletropop dos anos 80. É uma banda orgânica, com apenas um teclado à frente e guitarra, baixo e bateria dominando a cena. Terminaram ovacionados pela platéia, tocando alguns dos seus hits (se é que têm hits): Photocopier, Chicker Bocker e, para finalizar, Electro Karaokê (no qual o nome da banda, Fugiya & Miyagi, é repetido como um mantra, lembrando uma versão dance de We are the Robots, do Kraftwerk).

Mais performática, a banda The Go! Team, conterrânea do Fugiya & Miyagi (ambos são de Brighton, Inglaterra) começou um pouco mais tarde seu show com The Power is On. Liderado pela cantora Ninja, de origem africana (que, falante e elétrica, lembra uma espécie de Preta Gil gringa), o grupo mostra também uma alternância nos vocais - as entradas das cantoras nisseis de vozes estridentes (Kim Fukami e Kaori Tsuchida) e o nome do grupo que os precedeu fazia pensar que a escalação tinha a ver com o centenário da imigração japonesa. Parece às vezes lembrar uma mistura do Pizzicato Five com o Belle & Sebastian.

The Go! Team, que é liderado por Ian Parton (ele formou a banda em 2004, depois de compor as canções do grupo no computador), foi formado como num encontro às cegas: os músicos foram recrutados às pressas para abrir um show do Franz Ferdinand. Com uma abordagem cartunística, mais uma boa dose de colagens pós-modernas (sua linha de frente parece também a do Cibo Matto, da cantora americana Yuka Honda), a banda fez a noite ficar mais dançante. A banda tocou duas músicas novas e vários hits, como Keys to the City e Everyone's a vip to Someone.

A banda que encerraria a noite seria o Metric, grupo canadense liderado pela bela cantora Emily Haines. Eles pretendiam tocar seus grandes hits, como Monster Hospital e Empty.

terça-feira, maio 13, 2008

Terça-feira, 13 de maio de 2008



Uma das poucas pessoas coerentes do atual governo, a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, acaba de renunciar ao seu cargo. A iniciativa de Marina causou enorme alvoroço, não só em Brasília, mas em todos os veículos de comunicação. E, com certeza, ainda irá repercutir mundo afora.

domingo, maio 11, 2008

Santa Cruz de la Sierra, 07 de maio de 2008

(I) Consulta popular sobre autonomia de Santa Cruz opõe nascidos no estado mais rico da Bolívia e migrantes que buscam melhores oportunidades de vida

fotos: Marcello Casal / Agência Brasil

À frente do movimento autonomista que ganhou forças após a chegada, em 2006, do índio aimara Evo Morales à presidência da Bolívia, Santa Cruz foi a primeira província (estado) boliviana a consultar sua população a respeito do estatuto autonômico que grupos de oposição ao governo federal pretendem ver implementado.

Em toda Santa Cruz, a votação ocorreu no dia 4 de maio. Outros três dos nove estados bolivianos também já agendaram as datas para realizar semelhantes consultas. Em Pando e Beni a votação está prevista para ocorrer no próximo 1 de junho. Já em Tarija, a consulta deverá acontecer no dia 22 do mesmo mês.

Na prática, os estatutos autonômicos são espécies de Constituições estaduais que, em vigor, delegariam mais poderes aos governantes locais, hoje, resumidos nas figuras dos prefeitos (governadores) e alcaides (algo como os sub-prefeitos de algumas capitais brasileiras).

Em Santa Cruz, 85,5% dos votos válidos aprovaram a autonomia. Ocorre que, segundo a própria Corte Departamental Eleitoral de Santa Cruz (responsável por organizar a consulta a pedido do prefeito de Santa Cruz, Rubén Costas, sem o aval do Conselho Nacional Eleitoral, que declarou a iniciativa inconstitucional), enquanto 14,4% dos eleitores habilitados votaram contra o estatuto autonômico, o índice de abstenção chegou a 37,9%.

Como tinham estimulado os cruzenhos a não comparecerem às urnas para que não validassem uma consulta que não fora convocada pelo Congresso Nacional e que organismos internacionais como a Organização dos Estados Americanos (OEA) não reconheciam como legítima, os líderes da campanha contra as mudanças contabilizam os quase 38% de ausentes aos que rechaçaram o estatuto autonômico votando pelo “não”. Com o resultado, sustentam o que Morales classificou como “um fracasso rotundo” da campanha autonomista. Juntos, os votos no não e abstenções totalizam 52,4% dos votos.

De qualquer forma, os números só comprovaram a divisão da sociedade cruzenha, o que, por sua vez, seria um indício do que está ocorrendo em maior ou menor grau em toda a Bolívia.

Em Santa Cruz, os que votaram a favor da proposta de autonomia criticam o que classificam como excessivo poder de La Paz, capital do país. Em sua quase totalidade, se opõem ao governo de Morales e às mudanças estruturais que este propõem, como a reforma agrária. Alegam ser favoráveis à descentralização das decisões políticas e econômicas como forma de permitir que os estados decidam onde e como investir os recursos a que têm direito.

Para os que se opõem ao estatuto, a iniciativa visa desestabilizar o governo de Morales e significa, na prática, uma quase declaração de independência. À frente deste grupo estão os chamados “massistas”, integrantes ou simpatizantes do partido de Morales, Movimento ao Socialismo (MAS).

Estes afirmam que os estados não podem assumir a competência exclusiva por temas como educação, saúde, segurança pública e até a prerrogativa de aprovar convênios internacionais. O ponto mais controverso, no entanto, é a possibilidade de os governantes estaduais administrarem os recursos naturais existentes em seus territórios e a propriedade da terra, estabelecendo o tamanho, características e parâmetros de cumprimento das funções econômica e social da terra.

Um dos líderes do movimento pró-autonomia, o fazendeiro Branco Marinkovic negou a intenção de separar Santa Cruz do restante do país e de enfraquecer politicamente a Morales. “Este nunca foi um movimento pela independência do estado. E não tem nada que ver com o governo de Morales. Este é um processo de muitos anos e que chegou ao seu ápice agora, mas que poderia acontecer com qualquer outro presidente”.


Possível candidato da oposição à Presidência da Bolívia e presidente do Comitê Pró-Santa Cruz, Marinkovic está entre os homens mais ricos do país. Ele diz a verdade quando alega que o movimento pela autonomia dos estados vem de longa data. Razão pela qual os próprios massistas defendem a autonomia. Para eles, no entanto, essa não deve servir para reforçar o poder amealhado pelas elites tradicionais. Nos panfletos que distribuía para convencer as pessoas a não votarem pela autonomia defendida pelo Comitê Pró-Santa Cruz e pelo governador, o grupo defendia a “autonomia legal e para todos”, sugerindo que somente a promulgação da nova Constituição tornará isso possível.

quinta-feira, maio 08, 2008

Santa Cruz de la Sierra, 04 de maio de 2008


(II) Quando "collas" e "cambas" se enfrentam por uma suposta autonomia
Infelizmente, a cisão política acabou por estimular diferenças étnicas e sociais entre a população de Santa Cruz. Desde a véspera da consulta, o ânimo se acirrou em algumas localidades e simpatizantes de ambas as propostas chegaram às vias de fato. No domingo (4), as ruas do bairro popular Plan Tres Mil, a sete quilômetros do centro da capital do estado, Santa Cruz de la Sierra, se tornou um campo de batalha onde massistas e favoráveis à autonomia, sobretudo da União Juvenil Cruzenha, se enfrentavam armados com paus, pedras, rojões e até estilingues.

Para um estrangeiro, era difícil distinguir quem era quem em meio à correria. Ao mesmo tempo, era impossível ficar alheio ao ódio que punha em campos opostos os chamados “collas” e “cambas”.
fotos: Alex Rodrigues
Collas é como são pejorativamente chamados as pessoas de outras regiões que se mudaram para Santa Cruz em busca de melhores condições de vida. Vêm sobretudo de estados como La Paz, Sucre e Chuquisaca. Já os cambas são os nascidos em Santa Cruz, o estado mais rico do país, próspero em petróleo, gás natural e em plantações de soja.

Para o cientista político Alfonzo Román, essa rixa entre os dois grupos foi determinante para o resultado da consulta. Román criticou os líderes sociais que, segundo ele, estimularam o ódio para conquistarem votos. “Diante da incapacidade de apresentarem propostas ideológicas, uma nova filosofia de Estado, tomaram como bandeira as diferenças culturais, raciais, étnicas e sociais”, afirmou Román, responsabilizando governo e oposição pela divisão “do país, das cidades, das regiões, dos povos. Os resultados também são reflexo de uma luta de classes, devido à diferenças culturais e de pontos de vista”.

Para o cientista, o estatuto autonômico de Santa Cruz não é aplicável. Román entende que os líderes pró-autonomia desejam apenas acumular influência política para pressionar o governo federal a negociar reivindicações dos estados e da oposição. “Este documento é uma mistura de autonomia, federalismo e separatismo. Até mesmo os líderes do movimento pró-autonomia estão convencidos de que ele não poderá ser implementado a menos que se declare a independência do estado”.

O cientista, no entanto, teme pelo acirramento da disputa. “A menos que as pessoas que estão à frente dessa confrontação tenham nobreza para sentar e negociar um projeto de Constituição que aglutine todos os setores do país, vamos terminar em uma confrontação.”
Na mesma noite da consulta, Morales convidou os governadores de todo o país a trabalharem por uma “real autonomia”, auxiliando-o a aprovar o novo texto constitucional. “Que meu chamado seja ouvido a fim de garantirmos a verdadeira autonomia para todo o povo, não apenas para alguns grupos”, disse Morales durante pronunciamento em rede nacional.

Aparentemente alheio às implicações de seu gesto, o Senado boliviano aprovou na noite da quarta-feira (7) uma resolução que reconhece os resultados da consulta cruzenha. Sem a participação dos parlamentares governistas, que se retiraram da sessão, a oposição declarou que “a legítima vontade e atitude demonstrada pelos cidadãos cruzenhos em todo o departamento deu um sinal inequívoco à Bolívia de unidade e de sua vocação democrática”, isso apesar dos questionamentos legais, da estrutura mambembe em que transcorreu a consulta e de todas as brigas.Só para se ter uma idéia, os votos eram contados manualmente, em blocos, pelos próprios mesários, que abriam as urnas dentro de salas onde não havia a presença de qualquer pessoa contrária à autonomia. Os votos iam sendo contabilizados de forma rudimentar, anotados em lousas e os ditos observadores internacionais eram pessoas convidadas pela Corte Departamental de Santa Cruz e integravam organismos como o Partido Cristão Cubano com sede em Miami (EUA).
Neste domingo (11), a Agência Boliviana de Informações divulgou que Morales irá promulgar amanhã (12) a Lei de Referendo Revogatório de seu próprio mandato, bem como dos de seu vice e dos nove governadores. Com isso, dentro de 90 dias, ou seja, 10 de agosto, a população de toda a Bolívia voltará às urnas a fim de responder a) se está de acordo com a continuidade do processo de mudanças liderado por Morales e pelo vice-presidente, Álvaro García Linera; b) se está de acordo com a continuidade das políticas, ações e gestão do governador de seu estado.

O projeto de lei havia sido apresentada por Morales em dezembro de 2007 à Câmara dos Deputados, que o aprovou há quatro meses. Na última quinta-feira (8), o Senado o sancionou.

Para o vice-ministro de Coordenação Governamental, Héctor Arce, a iniciativa vai muito além do referendo revogatório originalmente sugerido pelo próprio Morales, já que os bolivianos irão avaliar as propostas, programas e ações de seus governantes. Para Arce, diante disso, não há qualquer sentido na realização das consultas sobre a autonomia de Pando, Beni e Tarija. “Estas são consultas que ao invés de fazer bem a autonomia lhe estão causando um tremendo dano. Essas consultas estão à margem da lei e alguém vai ter de se responsabilizar”.

domingo, abril 27, 2008

Santos, 27 de abril de 2008

Ressaca

_ Uhúúúúúúuuuu!
Carlos Leite chega a Santos em meio ao swell que atingiu o litoral Sudeste no final de abril

Carlos Leite não discriminava a ninguém. Enxergando mal, em parte devido à contraluz, em parte pela própria miopia, o surfista brasiliense incentivava cada um que dropava uma onda da série.

Sem reconhecer ninguém entre as centenas de cabeças que via boiando por toda a praia de Santos (SP) - pelo menos umas duas dezenas a sua volta - Leite extravasava a alegria diante das excelentes ondas urrando a cada série que despontava no fundo, a cada boa manobra, sua ou de qualquer outro surfista. E como, apesar do crowd, estivessem sobrando ondas nessa excepcional manhã de domingo (27), vários outros surfistas agiam como Leite, gritando uns para os outros.

O santista-brasiliense estava pleno de luz, confiante em si mesmo e em que nada naquele dia daria errado. Não só devido ao sol, à energia da água do mar, mas por algo que Leite teria muita dificuldade de explicar se alguém lhe perguntasse o motivo do sorriso. Era um misto de satisfação e segurança por estar surfando no quintal-de-casa com a euforia de ter feito a opção certa.

Leite havia deixado Brasília na sexta-feira a noite, após assistir na tv, na noite anterior, as notícias sobre a forte ressaca que atingira boa parte do litoral brasileiro. Checando sites de previsão de ondas, confirmou que as séries, na praia do Itararé, em São Vicente, chegavam a dois metros de altura. Titubeou um pouco, mas decidiu-se ao saber que uma companhia aérea estava vendendo passagens a preços promocionais.

Chegou ao aeroporto de Brasília às 18 horas, com a prancha embaixo do braço, R$ 20 no bolso, um cartão de crédito e nenhuma passagem reservada. Sabia de dois vôos para São Paulo, o primeiro dali a meia hora. O segundo saindo às 19h, com escala em Goiânia. Foi obrigado a apanhar o segundo.

Não bastasse o inconveniente de se afastar ainda mais do oceano rumo ao interior do país, a decolagem demorou mais de uma hora além do previsto. A euforia crescia. Quando desembarcou, por volta das 23 horas, se viu às voltas com a falta de logística do setor de transporte.

Àquela hora, não havia mais ônibus direto para a Baixada Santista. O ônibus comum que poderia apanhar até o metrô do Tatuapé só sairia perto da meia-noite e não chegaria à estação antes do horário de encerramento do metrô. Um outro ônibus, de outra companhia, sairia de Guarulhos à meia-noite e cinco e apesar de ir até o Terminal Rodoviário do Tietê, também só chegaria lá após o término do expediente da maioria das companhias de ônibus. Por último, a condução que a empresa aérea colocava à disposição dos seus clientes só sairia à 1h30, quase duas horas após a chegada do vôo.

Desta forma, Leite se viu obrigado a pedir que um amigo o resgatasse na estação República, diante da Praça da República, em pleno centro de São Paulo, um local pouco aconselhável para alguém carregando uma mochila e uma prancha a aquela hora. Talvez por isso mesmo Leite tenha, inconscientemente, tentado se livrar da mochila ao descer do ônibus. A sua versão é de que, cansado, adormecera e só acordou ao ouvir à distância o motorista gritando. Preocupado com a prancha, Leite desceu correndo e esqueceu-se de apanhar suas coisas no bagageiro superior. Só conseguiu recuperar a mochila na manhã seguinte. Felizmente, com tudo, inclusive a máquina fotográfica que apanhara de sua namorada.

Com receio de ficar dando mole no centro de São Paulo, Leite decidiu apanhar um táxi para ir direto para a casa de seu amigo, onde passaria a noite. Como este estava ocupado, na rua, e foi pego de surpresa pelo pedido de auxílio do surfista, Leite teve de aguardar, dormindo, por mais de duas horas sentado no sofá do hall do prédio do amigo. Não bastasse tudo isso, ainda teve de dividir a cama de casal do amigo e acordar as sete horas da manhã.

Diante das excelentes ondas que dropava, as primeiras desde que voltara da Costa Rica, há um mês, Leite sentia que não podia se queixar da vida. Muito pelo contrário.

domingo, março 23, 2008

Dominical - Costa Rica

Após três noites em Zancudo, uma praia da província de Puntarenas, no sul da Costa Rica, o surfista brasiliense Carlos Leite e sua namorada decidiram seguir para Pavones. A menos de 20 quilômetros de Zancudo, Pavones é uma praia mundialmente conhecida por suas longas ondas para a esquerda. Há quem diga que é uma das ondas mais longas do mundo, já que, com a ondulação certa, seria possível surfar por uma distância de até 800 metros antes da espuma se quebrar contra a areia da praia.

O casal se deparou com um primeiro inconveniente: deixar Zancudo. Tão difícil quanto chegar à praia ainda pouco explorada turisticamente, sair também exige certa logística. A única opção para ir a Pavones, por exemplo, é acordar cedo, apanhar o ônibus que parte para Golfito às 5h45, descer em Conte, no meio do caminho, e apanhar um outro ônibus que, se tudo der certo, só passa ao meio-dia. São no mínimo seis horas esperando à beira da estrada.

Leite não sabia disso até chegar ao mercadinho de beira de estrada de Conte. A perspectiva de esperarem sentados em um banco de madeira desestimulou o casal e assim que surgiu o primeiro ônibus dali para qualquer outro lugar, Leite não pensou duas vezes em apanhá-lo, sem saber muito bem onde seria o tal lugar.

Ainda no Brasil e com base no que eu havia lhe contado de minha viagem de um ano e meio atrás, Leite planejara conhecer Pavones, onde não estive, para então seguir para o Parque Nacional Manuel Antonio, já no Pacífico Central. Diante da dificuldade para seguir o roteiro que havia estabelecido, ele decidiu que o melhor a fazer seria ir direto para Manuel Antonio. No entanto, a falsa idéia de que viajar por um país pequeno como a Costa Rica é fácil ainda o trairia uma segunda vez neste dia.

Carregando mochilas e prancha, Leite e sua namorada tiveram de apanhar mais dois ônibus para, seguindo as instruções que recebiam no caminho, se afastar do litoral em direção a cidade de San Isidro, de onde, enfim, conseguiram tomar um ônibus para voltar ao litoral. Após quase doze horas sacolejando por estradas em sua maioria não-pavimentadas, o casal não agüentava mais o calor. Assim, ao ver a placa indicando a praia Dominical, Leite ignorou meus comentários negativos sobre o local e se apressou a convencer a namorada de que o melhor a fazer seria passar a noite ali e seguir viagem em um ou dois dias.

Desceram do ônibus desorientados e cansados. Tanto que esqueceram de sua regra número um, ou seja, jamais se hospedar, comer ou comprar qualquer coisa sem antes pesquisar outras opções. A diária nem era tão mais cara, mas o quarto era horrível, pequeno, abafado. Sequer comportava uma cama de casal.

Foi o primeiro sinal de alerta quanto à ganância com que alguns exploram o turismo na Costa Rica. No mínimo, cada dois quartos daquela pousada deveriam ter dado lugar a apenas um. Por sorte, o cansaço era tanto que ambos dormiram sem sequer ligar para o calor. Pela manhã, a primeira coisa que fizeram foi acessar este blog para checar onde eu havia ficado em 2006.

Ao se transferirem para o Tortilla Flats, não apenas economizaram dinheiro como ocuparam um quarto maior, de frente frente para um dos locais mais procurados para a prática do surf em toda a Costa Rica.
A bem da verdade, o Tortilla Flats foi construído em plena areia da praia, o que a alguns mais sensíveis poderia ser o segundo sinal para o pouco caso de alguns em relação ao meio ambiente.

Pelo que Leite me contou, Dominical mudou desde que estive lá. Surgiram novos e sofisticados restaurantes, alguns hotéis de médio porte, lojas e até uma cafeteria. O clima de surf point, no entanto, segue intocado. Surfistas de todo o mundo se reúnem na praia, principalmente em frente ao Tortilla, aguardando pela maré certa para surfar. E onde há surfistas, há garotas, que acabam por atrair outras pessoas. Neste caso, quase todas falando em inglês.

Também continuam lá a área de camping diante da praia, os hippies vendendo artesanato, as iguanas e, nos finais de semana, os outsiders, os travestis e rastas que vêm de São José para curtir a liberdade da praia.

Dominical, como tantas outras praias da Costa Rica, do Brasil e de todo o mundo, é um exemplo de como o surf pode incrementar a economia de um local, mas também trazer, infelizmente, a especulação imobiliária e, na maioria dos casos, a degradação da própria praia.


Pessoalmente, não gostei das poucas ondas que surfei em Dominical. Leite parece ter gostado menos ainda. Além de ser o lugar de onde menos trouxe fotos da sua viagem, o brasiliense confessou ter entrado no mar uma única vez nos dois dias que passou por lá.

“Foi uma merda. Eu acordava cedo, ia checar as ondas e elas estavam relativamente grandes e fechando”, me disse Leite já de volta ao Brasil. “Eu esperava a maré baixar, as ondas diminuíam um pouco, mas continuavam fechando. E mesmo não estando tão grandes, elas quebravam com força suficiente para, num vacilo, quebrar minha única prancha”.

Na manhã em que se aventurou a surfar, Leite disse ter pegado poucas ondas nas quais não tenha completado o drop já em meio à espuma. E embora tenha visto alguns poucos surfistas surfando bem - a maioria apenas remava até o outside e permanecia sentada esperado por uma onda que abrisse -, ele experimentou a desagradável sensação de ser arrastado pela correnteza quando a maré começou a baixar. Após tomar na cabeça toda uma série fechando que quase lhe arrancou a prancha, Leite se convenceu de que os meses longe da praia, em Brasília, sem surfar, o tinham deixado despreparado para encarar Dominical.