sexta-feira, agosto 21, 2009

Da Califórnia...

A partir de hoje, uma nova personalidade se soma ao exíguo quadro de colaboradores deste blog - que, até então, só havia conseguido convencer o surfista brasiliense Carlos Leite a trabalhar de graça .

Jaana é cearense, inteligentíssima, mas (ou por isso mesmo) pouco afeita à novas tecnologias. Mesmo assim, aceitou a sugestão de registrar em um blog suas experiências em terras yankees, para onde partiu no início de agosto, com o pretexto de fazer um curso acadêmico na University of California. Na cidade de Davis, onde fica um dos nove campus da instituição estadual, passará por uma ambientação preparatória ao doutorado, na mesma instituição, só que no campus de Los Angeles.

"De modo geral, adoro gente: meus familiares, amigos e até desconhecidos. Apesar disso, confesso morrer de p-r-e-g-u-i-ç-a de me associar e iniciar a utilização dessas ferramentas que ajudam a manter as pessoas conectadas. Diário eletrônico não posso prometer, porque não vou cumprir. Mas alguns registros eu asseguro. Estou por aqui! Por aí, em algum lugar".


Bem-vinda ao universo virtual semifosco, jaana.





A cidade das bicicletas
Califórnia - EUA
Davis é uma cidade linda. Organizada, arborizada e com particularidades interessantes. Guardadas as devidas proporções, a considero parecida com Brasília: plana, com prédios baixos, avenidas largas e muito espaço verde.


Quando fui informada de que passaria um mês aqui, fazendo um curso pré-acadêmico, fui à internet pesquisar algo sobre este lugar até então desconhecido para mim. “Davis – The Bicycle Capital of the US” foi a primeira referência que encontrei. Fiquei curiosa. Ansiosa. E, ao chegar aqui, ENCANTADA.
A cidade possui ciclovias de ponta a ponta. Há mapas específicos para ciclistas, explicando os lugares reservados para carros (poucos!), aqueles compartilhados por carros e bicicletas (quase todos!) e aqueles reservados às bicicletas (muitos!!!). Os estacionamentos para bicicletas estão em todos os lugares. Todo mundo usa bike aqui. Depois de alugar uma, minha vida ficou incrivelmente mais fácil. E divertida!

Davis é pequena, e pode ser considerada uma cidade universitária. Possui aproximadamente 60 mil habitantes, mas ao iniciarem as aulas esse número cresce para 90 mil. Acho que a universidade ocupa 1/3 da cidade: muito grande!


"Just Relax, you´re in California"

Estava feliz ao chegar à Davis, mas fiquei MUITO mais feliz ao conhecer os meus colegas bolsistas da Fulbright. Cinco estão residindo no mesmo local que eu: uma da Albânia, uma do Vietnam, um da China, uma do Japão e um de Burkina faso, Oeste da África. São muito legais e fazemos praticamente tudo juntos: aulas, passeios, etc. Estamos nos divertindo de verdade! Os demais bolsistas encontramos na universidade e também temos programações em comum. Tem gente de todos os lugares: do Chile, do México, de Gaza, da Arábia Saudita, Peru, Ucrânia.... a lista é mais longa que minha memória! Ah!... e os Japoneses. Os japoneses não são bolsistas da Fulbright, mas estão participando de programas promovidos por suas universidades.... Lots of them! Todo mundo querendo se conhecer, conversar... Tenho me divertido!

Os americanos com os quais tive contato são um capítulo a parte... Gentis, atenciosos, disponíveis e legais. Não, não vou repetir. Ok, repito, gentis, atenciosos, disponíveis e legais. O que posso fazer se não tenho nada diferente disso a dizer?! Tinha uma expectativa totalmente diferente, mas... como disse uma das coordenadoras do curso: “Just relax; you are in California!”.

O clima

Durante meus primeiros dias em Davis o clima estava perfeito. De manhã e à noite um pouco frio, à tarde um pouco quente, mas tudo sob controle. Em meu quarto dia... que vontade de mudar de assunto! 40 graus Celsius.... q-u-a-r-e-n-t-a!

Juro, por pouco não morri. E todos, ao olharem para mim, diziam: “mas você é do Brasil, deveria estar acostumada a altas temperaturas!”. Não, melhor não lembrar. Ainda tive febre e pensei estar com a tal da gripe suína! (ou H qualquer coisa). É, vou mudar de assunto. Agora o tempo está ficando melhor novamente... Um pouco frio de manhã e à noite, um quente tolerável à tarde (principalmente porque estou em salas de aula com ar-condicionado). Mas já avisaram que vai ficar um pouco mais agradável em breve.

quinta-feira, agosto 20, 2009

Skatopia

Junte Paranoid Park à Mad Max e Woodstock e você terá algo próximo à Skatopia, a Neverland do hoje quarentão Brewce Martin.





Construído por Martin com a colaboração de seus freqüentadores, o local ocupa um terreno de 35 hectares na cidade de Rutland, em Ohio, e é muito mais que uma pista de skate. É a tentativa de erguer um lugar regido por regras próprias, ainda que seja a mais completa falta de regras.

"Meu objetivo é construir um monumento ao skate para que mil anos depois de terminarmos de foder com tudo, algum louco se depare com isto aqui", filosofou Martin à revista Rolling Stone.

Não há bilheterias. Em geral, os frequentadores pagam por sua diversão com algum tempo de trabalho construindo novos obstáculos. Martin também vende ferro velho e pede doações para conseguir o dinheiro necessário para pagar impostos, taxas e sobreviver. Como diz um dos malucos do vídeo abaixo, "o sonho americano. Nada de polícia, nada de governo".



Em Skatopia, as pessoas fumam e bebem se quiserem, o que quiserem e o quanto quiserem e então, se quiserem, dropam por sua conta e risco. Ninguém exige que usem equipamentos de proteção ou os proíbem de atear fogo em um dos muitos carros abandonados no terreno. Ninguém espera que o skatista faça as manobras casca-grossa da moda.

"Só queremos mostrar que as pessoas podem viver seus sonhos sem precisar ser ricas. É uma doença. Todo mundo se refere a "Campo dos Sonhos" quando fala de Skatopia, mas eu sempre vivi assim. Mesmo quando ex-namoradas me diziam que eu ia me tornar um velho sozinho com todas essas coisas que ninguém jamais iria usar, eu simplesmente respondia, "aposto que vão"", conta Martin.

Também há espaço para shows (invariavelmente, de punk ou hard-rock), um museu dedicado à evolução do skate e muitos carros destruídos espalhados pela propriedade. E não parece ser difícil encontrar mulheres atraídas por toda essa testosterona e desordem.

O jornalista Mark Binelli descreveu da seguinte forma o que presenciou durante sua estada em Skatopia.

"Os períodos de caos mais concentrado ocorrem durante o Bowl Bash (algo como festança do Bowl - uma pista em forma de piscina), quando centenas de garotos baixam em Rutland para a versão de Woodstock que acontece em Skatopia. Na primeira edição, em 1996, o primeiro grupo a tocar foi o Stupid America, uma banda punk formada por gays. As bandas tocam no loft localizado no celeiro (ao lado do bowl), o público acampa no terreno, anda de skate, bebe, joga garrafas uns nos outros, dirige loucamente pelas trilhas de terra e fica comemorando o fato de "liberdade" ser apenas mais um termo que designa "ainda tem muita coisa para incendiar por aqui"".


quarta-feira, agosto 19, 2009

Marina é a Novidade!

Agora é oficial. Uma ex-empregada doméstica amazônida surge disposta a entrar na corrida pela sucessão do ex-operário Lula. Nunca antes na história deste país essa "gente cabocla" ousou tanto.

Após 30 anos de militância, a senadora Marina Silva (AC) deixou o PT, legenda que ajudou a criar e a chegar ao poder.

De acordo com a carta que divulgou à imprensa há pouco, a ex-ministra do Meio Ambiente concluiu que seus companheiros não estavam dispostos "a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável e a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento".

Como sua saída do PT e a consequente filiação ao PV indicam sua intenção de concorrer à Presidência da República, em 2010, a decisão de Marina tem um impacto ainda mal avaliado para a disputa que se aproxima.

Para o desgosto de quem preferia uma eleição em clima de Fla X Flu - um referendo a comparar duas gestões essencialmente muito parecidas - e regozijo da oposição, essa mulher tem um histórico respeitável junto aos movimentos sociais e promete oxigenar o debate político. Pode não ganhar (poucos acreditam nesta hipótese), mas desde já sua presença é saudada como algo que irá qualificar um debate que, até então, bipolar, tinha tudo para ser mais do mesmo.

No tocante a este blog, que fique explícito que, confirmada a candidatura, Marina receberá ao menos um voto semifosco no primeiro turno. Ainda que preferisse não votar no PV.

Conforme comentário que postei em um artigo do jornalista Mino Carta, de um partido que diz ter apreço pela democracia e que tem entre seus quadros alguém como Marina - partido este ao qual não sou filiado, mas em cujos candidatos tenho votado ao longo dos últimos anos - o mínimo que eu esperava era que submetesse o nome da senadora e da hoje candidata, a ministra Dilma Rousseff, à prévias partidárias, para que TODOS os petistas escolhessem quem melhor representa seus ideais e programas.


Leia a íntegra da carta de Marina Silva


"Caro companheiro Ricardo Berzoini, [presidente do PT]


Tornou-se pública nas últimas semanas, tendo sido objeto de conversa fraterna entre nós, a reflexão política em que me encontro há algum tempo e que passou a exigir de mim definições, diante do convite do Partido Verde para uma construção programática capaz de apresentar ao Brasil um projeto nacional que expresse os conhecimentos, experiências e propostas voltados para um modelo de desenvolvimento em cujo cerne esteja a sustentabilidade ambiental, social e econômica.


O que antes era tratado em pequeno círculo de familiares, amigos e companheiros de trajetória política, foi muito ampliado pelo diálogo com lideranças e militantes do Partido dos Trabalhadores, a cujos argumentos e questionamentos me expus com lealdade e atenção.


Não foi para mim um processo fácil. Ao contrário, foi intenso, profundamente marcado pela emoção e pela vinda à tona de cada momento significativo de uma trajetória de quase trinta anos, na qual ajudei a construir o sonho de um Brasil democrático, com justiça e inclusão social, com indubitáveis avanços materializados na eleição do Presidente Lula, em 2002.


Hoje lhe comunico minha decisão de deixar o Partido dos Trabalhadores. É uma decisão que exigiu de mim coragem para sair daquela que foi até agora a minha casa política e pela qual tenho tanto respeito, mas estou certa de que o faço numa inflexão necessária à coerência com o que acredito ser necessário alcançar como novo patamar de conquistas para os brasileiros e para a humanidade. Tenho certeza de que enfrentarei muitas dificuldades, mas a busca do novo, mesmo quando cercada de cuidados para não desconstituir os avanços a duras penas alcançados, nunca é isenta de riscos.


Tenho a firme convicção de que essa decisão vai ao encontro do pensamento de milhares de pessoas no Brasil e no mundo, que há muitas décadas apontam objetivamente os equívocos da concepção do desenvolvimento centrada no crescimento material a qualquer custo, com ganhos exacerbados para poucos e resultados perversos para a maioria, ao custo, principalmente para os mais pobres, da destruição de recursos naturais e da qualidade de vida.


Tive a honra de ser ministra do Meio Ambiente do governo Lula e participei de importantes conquistas, das quais poderia citar, a título de exemplo, a queda do desmatamento na Amazônia, a estruturação e fortalecimento do sistema de licenciamento ambiental, a criação de 24 milhões de hectares de unidades de conservação federal, do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade e do Serviço Florestal Brasileiro. Entendo, porém, que faltaram condições políticas para avançar no campo da visão estratégica, ou seja, de fazer a questão ambiental alojar-se no coração do governo e do conjunto das políticas públicas.


É evidente que a resistência a essa mudança de enfoque não é exclusiva de governos. Ela está presente nos partidos políticos em geral e em vários setores da sociedade, que reagem a sair de suas práticas insustentáveis e pressionam as estruturas políticas para mantê-las.


Uma parte das pessoas com quem dialoguei nas últimas semanas perguntou-me por que não continuar fazendo esse embate dentro do PT. E chego à conclusão de que, após 30 anos de luta socioambiental no Brasil - com importantes experiências em curso, que deveriam ganhar escala nacional, provindas de governos locais e estaduais, agências federais, academia, movimentos sociais, empresas, comunidades locais e as organizações não-governamentais - é o momento não mais de continuar fazendo o embate para convencer o partido político do qual fiz parte pro quase trinta anos, mas sim o do encontro com os diferentes setores da sociedade dispostos a se assumir, inteira e claramente, como agentes da luta por um Brasil justo e sustentável, a fazer prosperar a mudança de valores e paradigmas que sinalizará um novo padrão de desenvolvimento para o País. Assim como vem sendo feito pelo próprio Partido dos Trabalhadores, desde sua origem, no que diz respeito à defesa da democracia com participação popular, da justiça social e dos direitos humanos.


Finalmente, agradeço a forma acolhedora e respeitosa com que me ouviu, estendendo a mesma gratidão a todos os militantes e dirigentes com quem dialoguei nesse período, particularmente a Aloizio Mercadante e a meus companheiros da bancada do Senado, que sempre me acolheram em todos esses momentos. E, de modo muito especial, quero me referir aos companheiros do Acre, de quem não me despedi, porque acredito firmemente que temos uma parceria indestrutível, acima de filiações partidárias. Não fiz nenhum movimento para que outros me acompanhassem na saída do PT, respeitando o espaço de exercício da cidadania política de cada militante. Não estou negando os imprescindíveis frutos das searas já plantadas, estou apenas me dispondo a continuar as semeaduras em outras searas.


Que Deus continue abençoando e guardando nossos caminhos.


Saudações fraternas


Marina Silva"

terça-feira, agosto 18, 2009

É FOGO!

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foto: Marcello Casal Jr. - Agência Brasil
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Período de seca. Há dois meses, nem uma mísera gota de chuva cai sobre o cerrado brasiliense. A temperatura sobe, a umidade relativa do ar cai. Nestas condições, qualquer caminhada se torna uma meia-maratona.

Esturricada, a vegetação favorece o surgimento das chamas. Às vezes, espontâneas, mas, na maioria dos casos, devido à ação irresponsável de pessoas que jogam cigarros em qualquer lugar ou recorrem à queimadas para limpar um terreno.

Segundo o Corpo de Bombeiros do Distrito Federal, incêndios florestais já destruíram dois milhões de metros quadrados no DF. Só ontem (17),27 focos focos foram registrados na região. Um deles ocorreu próximo a Ponte JK, não muito distante do Congresso Nacional.

Vista da Esplanada dos Ministérios, a densa nuvem de fumaça que subia aos céus parecia sair do Congresso, atiçando a criatividade de fotojornalistas. Afinal, enquanto as cinzas caiam, Sarney lutava para permanecer de pé, negando mais uma acusação.

segunda-feira, agosto 17, 2009

As capas das semanais
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Sim, ela é candidata (trecho da reportagem)
A entrada da senadora Marina Silva na corrida presidencial embaralha o jogo eleitoral de 2010. Em entrevista a ÉPOCA, Marina diz que a "utopia deve continuar". A petista deve anunciar em breve sua mudança para o PV.

Morena Marina, você se pintou
Como os hippies fizeram Woodstock

Pornô feito por mulheres para mulheres



A candidata para uma bandeira

Lançamento de Marina Silva pelo PV inclui a questão ambiental na sucessão de Lula e tira espaço político de PT e PSDB

"O PT só tem boas lições a dar"A primeira-dama de El Salvador conta como o governo de seu marido se inspira no de Lula

Admirável mundo limpo



(No site de Veja, a matéria principal, A Igreja Universal na Mira, só é disponibilizada para assinantes)

População brasileira chega a 191,5 milhões, diz IBGE








(A matéria de capa, Histórias de uma guerra civil, ainda não foi disponibilizada no site)

O jornalismo dos patrões (Mino Carta)

sexta-feira, agosto 14, 2009

Um pai, um filho e três filmes semanais

Livro de fácil leitura, ideal para os momentos em que aguardamos por nossa vez em um consultório ou na fila do banco, O Clube do Filme fica a meio caminho entre as obras de auto-ajuda e as de crítica cinematográfica, pendendo muito mais para a primeira opção, o que não o torna menos prazeroso.

O autor, o crítico de cinema David Gilmour, recorda “com uma nostalgia quase dolorosa” o período em que ele e seu filho assistiam juntos a três filmes semanais. Escolhidos por Gilmour, os títulos tinham o propósito de complementar a educação formal que o garoto havia recebido até seus 15 anos, quando os pais, reconhecendo seu enfado com a escola, o autorizaram a abandoná-la. Ao fim de cada sessão, uma conversa sobre os mais diversos assuntos, bate-papo que ajudava a aproximar pai e filho.

Entre os filme escolhidos “de forma bastante aleatória”, “clássicos, quando possível, mas sobretudo películas envolventes, com uma boa trama, já que eu não podia ficar indiferente ao prazer de meu filho ou ao seu apetite por entretenimento”. Em meio a lembranças familiares e breves considerações sobre diretores e filmes, Gilmour registra as reações de seu filho a 113 títulos que vão de Cidadão Kane (de Orson Welles) – “Muito bom, mas de forma alguma o melhor de todos os tempos”, segundo o adolescente” – a Instinto Selvagem (de Paul Verhoeven,) – “Este sim um grande filme”.

Imagino que Gilmour, na condição de crítico, tenha uma boa coleção de fitas VHS e de DVDs em sua casa, no Canadá. Ou que as locadoras canadenses ofereçam a seus clientes um catálogo generoso. O fato é que, no Brasil, qualquer um que queira (re)assistir parte da filmografia citada ao fim do livro ou terá que gastar muito dinheiro para adquirir cópias originais ou terá que recorrer à criticada prática do dowload na internet.

Isso porque as locadoras de vídeo, após tomarem o lugar de cineclubes que existiam em algumas cidades brasileiras, levando-os à quase extinção, tornando-nos dependentes de seus acervos, deixaram sem outras alternativas aqueles que não se contentam em assistir apenas aos últimos lançamentos. Diante da limitação física de suas prateleiras, estes estabelecimentos têm que optar entre preservar uma cópia de Ladrões de Bicicleta (de 1948) ou abrir espaço para o quarto estojo do último blockbuster.

O Clube do Filme
Davido Gilmour
Editora Intrínseca
239 páginas
R$ 24,90

sexta-feira, agosto 07, 2009

A Quasar Cia. de Dança apresenta neste final de semana, em Brasília, seu mais recente espetáculo, Céu na Boca, baseado no paradoxo "entre o paraíso almejado e a realidade ofertada".

Em entrevistas, o coreógrado do grupo goiano, Henrique Rodovalho, explicou que o vigésimo segundo trabalho da companhia surgiu da curiosidade pelas leis da física e teorias do universo e que explosões estelares e movimentos gravitacionais (?) serviram como alegorias para a criação de Céu na Boca. Vou conferir in loco para ver se compreendo.


As apresentações acontecem de hoje (7) à domingo (9), no Centro Cultural Banco do Brasil. Estudantes e clientes do banco pagam meia entrada (R$ 7,50). Para quem não tem carro, há ônibus gratuitos a partir do Teatro NAcional. Cheque horários e pontos de parada no site www.bb.com.br/cultura

segunda-feira, agosto 03, 2009

Um artista da fome

Até o dia 23 de agosto, os brasilienses e quem estiver de passagem pela capital federal tem a oportunidade de ver/conhecer, gratuitamente, um pouco do trabalho do artista pernambucano Abelardo da Hora, 84, “um dos poucos escultores expressionistas de vulto em atividade no Brasil” segundo o folder da mostra comemorativa dos 60 anos desde a primeira exposição de seus trabalhos.

Ignorante, eu jamais havia ouvido falar em Abelardo. Visitei a exposição por acaso, enquanto aguardava o início do show do Vanguart, no mesmo Centro Cultural Banco do Brasil – Brasília (CCBB). E fiquei impressionado ao entrar e dar de cara com as esculturas aqui reproduzidas.

Entre pinturas, gravuras, cerâmicas e esculturas de tamanhos variados, estão expostas cento e trinta obras, cerca de 15 toneladas de material artístico selecionado pelo crítico de arte e marchand Renato Magalhães Gouvêa, que buscou deixar clara “a capacidade do artista de transitar entre técnicas diversas”.

Os temas também variam, embora “dentro de uma coerência que o liga às coisas de sua terra, do povo nordestino e das belezas culturais e naturais da Região Nordeste”. No entanto, para mim, as obras mais impactantes foram aquelas que remetem ao recorrente e atemporal tema da fome. Não por acaso, já que o artista “diz que sua obra é feita para gente brasileira que ama a sua cultura e os seus valores e que também sofre com a seca e a exclusão social”.

“Abelardo conseguira [com sua primeira exposição, em 1948] trazer as vanguardas artísticas internacionais de natureza figurativa, bem como os ecos da Semana de 1922, para dentro do Recife, com uma linguagem plástica inovadora e um requintado rigor formal dos detalhes anatômicos e nas proporções de cada figura”, conclui o folder.

Abelardo da Hora – 60 Anos de Arte
De 30 de junho a 23 de agosto, das 09h às 21h.
Centro Cultural Banco do Brasil
SCES, Trecho 2, lote 22 – telefone (61) 3310-7087
Ônibus gratuito saindo do Teatro Nacional, com paradas ao longo do trajeto (consulte pontos e horários no site www.bb.com.br/cultura

sábado, agosto 01, 2009

"Well, you Needn´t"





Chet Baker. O trompetista norte-americano símbolo do cool jazz tocou com os maiores expoentes de sua época e já era apontado como um dos melhores instrumentistas de sua geração quando, em 1954, decidiu aventurar-se como cantor. Na época, marcada por intérpretes como Frank Sinatra, sua maneira de cantar, quase sussurrando as palavras, causou certo estranhamento. Nada, no entanto, que impedisse que o álbum Chet Baker Sing´s fizesse sucesso entre o público menos purista.

Infelizmente, o envolvimento de Chet com drogas como a heroína cobrou-lhe um preço alto. A partir da década de 1960, sua carreira se tornou errática. Ao passo que outros músicos de sucesso procuravam administrar os aspectos práticos da carreira de forma profissional, Chet passava grande parte do tempo lutando contra problemas na Justiça, detenções e contra o próprio vício. As marcas em seu rosto são evidências claras deste processo.

Chet morreu em Amsterdã, em maio de 1988, ao cair da janela de um hotel barato. Tinha 58 anos e até hoje restam dúvidas se a queda foi acidental ou suicídio.




Clique aqui para ouvir ao álbum Chet Is Back, de 1962

sexta-feira, julho 31, 2009

"...No meu caminho para a terra prometida, na estrada para o inferno"

1) Highway to Hell

No último dia 27, o sexto álbum de estúdio da banda australiana AC&DC completou 30 anos de seu lançamento. Alçado ao posto nº 199 da lista que a revista Rolling Stone fez com os 500 melhores álbuns de todos os tempos, foi o último a contar com a participação do vocalista Bon Scott, escocês morto em 1980.

Na época de seu lançamento, eu ainda estava sob o efeito do Bambalalão. Por sorte, na pré-história da aldeia global, antes da MTV, do cd, da internet e do Ipod, as coisas demoravam um pouco a circular e ainda mais para se difundir. Graças a isso, talvez, eu tenha descoberto o rock com esse disco, já na pré-adolescência, em meados da década de 1980. E por algum tempo, o pequeno guitarrista Angus Young foi para mim a síntese da picardia e do rock ´n ´roll.


Estudante entediado com as aulas do Pedro II, em Santos, não tinha como não me divertir vendo Angus em sua fantasia de colegial, de calções curtos, paletó estudantil e gravata - peças de que ia se livrando à medida que o show avançava para, ao fim, abaixar o short e exibir a bunda branca para a platéia. O fã-clube adorava a banda que não soava nem um pouco pretensiosa. Na verdade, eles davam a impressão de ser a turma do fundão de qualquer sala de aula. E daí os chifrinhos, os tiques, as caretas de Angus.


Depois o tempo passou, conheci outros sons, novas bossas vieram, a MTV nos trouxe as novidades mais rapidamente e o resto é história. Até em show do Madredeus eu estive (e gostei!). Até que, dia desses, uma promoção da Livraria Primeira Leitura me devolveu o prazer de ouvir...Highway to Hell. Desde então, tenho ouvido minha dose diária de AC&DC como remédio para o desânimo. (Isso e Yggy Pop)


E só então, com os ouvidos atentos, percebi algo que nunca havia notado ou lido em qualquer lugar. Angus Young é um puta de um guitarrista. A ginástica aeróbica que ele faz no palco talvez tenha ofuscado um pouco isso, mas é evidente que Angus é a alma da banda não só pela personagem que encarna ou por seu carisma. Ele toca muito. E neste álbum, é perceptível a química entre ele e Bon Scott, que colocava muito de suas referências blues no som pesado da banda. Até hoje, fãs de todo o mundo rendem homenagens ao vocalista.
Coincidentemente, o disco que alçou a banda à fama mundial completou três décadas pouco tempo após o grupo voltar, depois de 28 anos, a ocupar o primeiro lugar da parada britânica, com o disco Black Ice, de 2008.

terça-feira, julho 28, 2009

Republicando



Auto-retrato do Autor enquanto Semifosco


"Mesmo não sendo barro amorfo, ainda não estou solidificado. Ainda sou capaz de sentir e de me transformar, ainda sou capaz de ver o momento não como alguma coisa de estático, mas como oportunidade para reiniciar minha formação" (adaptado de Roman Jakobson)"

domingo, julho 26, 2009

"Ninguém sabe como é renunciar", diz presidente

Jesus! Não sei se foi devido ao cansaço, à baixa umidade relativa do ar, ao uso inconseqüente deste fluidificante nasal ou se por tudo junto, mas eu ontem tive uma alucinação enquanto assistia ao filme Frost/Nixon.

Até onde me lembro, o ator Michael Sheen, que no filme interpreta o jornalista David Frost, comemorava o fato de ter fechado um acordo para entrevistar, com exclusividade, o ex-presidente norte-americano Richard Nixon, vivido por Frank Langella. A história é real e se passou em 1977. Frost foi o primeiro a entrevistar Nixon após este ter renunciado à presidência dos EUA, em 1974, por causa do escândalo de Watergate. Apresentador de programas de entretenimento, com fama de ser um playboy fútil e mulherengo e sem nenhuma experiência relevante
no campo da política, Frost viu na ocasião a oportunidade de dar “o pulo do gato” de sua carreira. Já Nixon encarava a entrevista como a chance de, dando sua versão dos fatos e destacando seus feitos na presidência, se redimir perante a opinião pública. Quem sabe assim, não conseguiria voltar à vida pública.

Pois não é que, apesar da direção cativante de Ron Howard, eu peguei no sono. Pior. De repente eu me vi assistindo a um David Frost estupefato diante do...Dono do Maranhão, o Imortal e Vitalício “Sr. Presidente”. E o diálogo, real ou imaginário, sucedeu mais ou menos assim, embora eu não saiba precisar se em 1977 ou em 2009.

_ (Frost) O senhor sempre sustentou que não sabia de nada. Espera mesmo que acreditemos que o senhor não tinha conhecimento desses fatos?

_ (Sr. Presidente) Não tinha mesmo. Acreditava que o dinheiro tivesse fins humanitários. Que fosse para ajudar pessoas carentes. (Me pareceu ouvi-lo acrescentar um “para a instituição com fins culturais”, mas isso eu não sei se foi um acréscimo posterior de minha imaginação)

_ (Frost) Bom, o dinheiro estava sendo entregue em cabines telefônicas, com nomes falsos, e em aeroportos, por pessoas usando luvas.

_ (Sr. Presidente) Olha, eu já declarei o que tinha a declarar sobre isso. São negócios de meus advogados e eu não sabia de nada.

_ (Frost) Se eles são os único responsáveis, porque quando o senhor descobriu não chamou a polícia e mandou prendê-los? (Aqui também pensei entender Frost acrescentar um “prender esses aloprados” bem baixinho, mas restou a dúvida)

_ (Sr. Presidente) Talvez eu devesse mesmo ter feito isso. Chamar a Polícia Federal no meu gabinete e dizer, “aqui estão esses homens. Levem-nos e joguem-nos no xadrez”. Só que eu não sou assim. Eu conheço as famílias dos dois e conheço-os desde que eram crianças.

Pausa. A câmera dá um close em Frost, que parece não conseguir acompanhar o raciocínio de vossa excelência. O Vitalício, no entanto, parece perceber o descompasso entre seu pensamento e o entendimento mediano, aqui, representado pelo jornalista, e acrescenta:

_ (Sr. Pr
esidente) Não sou assim, mas, politicamente, a pressão para que eles fossem processados se tornou insuportável e EU (destaca, apontando para si próprio) então permiti isso. Cortei um braço, cortei o outro e olha que eu não sou um bom açougueiro. Sempre sustentei que o que eles estavam fazendo não era um crime. Quando se está no poder, é preciso fazer muita coisa que, no sentido mais estrito, não é legal. Só que você faz essas coisas porque elas são do interesse maior da Nação.

_ (Frost, aturdido) O senhor está dizendo que, em certas situações, o presidente pode decidir se algo é do interesse da Nação e fazer algo ilegal?

_ (Sr. Presidente) Estou dizendo que quando o presidente faz algo, não é ilegal. É nisso que acredito...mas percebo que ninguém concorda comigo.

_ (Frost) Neste caso, então, o senhor aceita esclarecer tudo de uma vez por todas, admitir que violou a lei?

_ (Sr. Presidente) ...

_ (Frost) Chamaria seus atos algo além de “erros”?

_ (Sr. Presidente) Que palavras você usaria?

_ (Frost, já suando) Minha nossa! Já que o senhor me perguntou, acho que há três coisas que as pessoas gostariam de vê-lo dizer. Primeiro, que (será que eu o ouvi dizer atos secretos e desvios de recursos) foram mais que erros, foram delitos. E que, portanto, deve ter havido um crime. Segundo, as pessoas gostariam de ouvi-lo falar “eu abusei do poder que tinha como presidente”. Terceiro, “permiti que o povo tivesse muito tempo de agonia desnecessária e quero que me desculpem por isso”.

_ (Sr. Presidente) Bom, é verdade. (Toda a equipe técnica e o próprio Frost acusa
m ansiedade. Sabem que o Vitalício está em uma sinuca de bico. Frost parece ter ganho o embate verbal) Cometi erros terríveis, erros que não são dignos de um presidente e que não atingem o padrão de excelência com que sonhei quando era menino. Esta é uma época difícil. Lamento muito por todos os meus erros, mas ninguém sabe como é renunciar à presidência. Não me humilharei, nunca. Continuo insistindo que foram erros do coração, não da cabeça. Eu derrubei a mim mesmo. Dei a eles uma espada e eles aproveitaram. Enterraram fundo e a giraram com deleite. Acho que se eu estivesse no lugar deles teria feito o mesmo...

_ (Frost) E o povo?

_ (Sr. Presidente) ...Eu o decepcionei.

Nisso, algo me trouxe de volta. Se do sonho, da alucinação ou da realidade, não sei dizer. Só sei que voltei a me dar conta de meu corpo esparramado no sofá ao ouvir o som vindo da casa do vizinho. Renato Russo gritava “que país é este?”. ?.

terça-feira, julho 21, 2009

TIRANDO O ATRASO

Sete anos após seu lançamento, eu, enfim, li O Cheiro do Ralo, do quadrinista Lourenço Mutarelli. Desde sua primeira publicação, em 2002, o livro vem recebendo criticas elogiosas e vendendo bem. Em parte porque o autor já era então famoso entre os que apreciam Hqs, mas também porque a obra acabou por se tornar conhecida do grande público após o diretor Heitor Dhalia (Nina) transpor a história para o cinema, dando o papel principal para um inspirado Selton Mello.

Fiquei impressionado com a construção da novela, com a concisão e com o ritmo das sentenças construídas por Mutarelli. A história do homem atormentado pelo cheiro do ralo do banheiro do depósito onde trabalha, comprando objetos usados, se lê de um fôlego só.

Também aproveitei o final de semana para assistir ao filme que deu ao ator Sean Penn seu segundo Oscar. Lançado em 2008, Milk narra a trajetória de Harvey Milk, o primeiro homossexual norte-americano assumido a ocupar um cargo público após, já com 40 anos de idade, decidir assumir sua opção sexual e “sair do armário”.

Desde Sobre Meninos e Lobos que o antes “ex-marido de Madonna” vem participando de um filme melhor que o outro. Mesmo assim, para vários críticos, a atuação em Milk é a melhor de sua carreira. Eu ainda acrescento que é também o melhor filme de Gus Van Sant (Paranoid Park, Os Últimos Dias, Gênio Indomável, Drugstore Cowboy) em muitos anos.

sábado, julho 04, 2009

A Luta é Cultura!

Ontem (3), caiçaras, quilombolas, índios guaranis e artesãos tomaram as ruas do Centro Histórico de Paraty. Portando faixas e cartazes e avançando ao som do maracatú por entre poetas, estudantes e peruas, representantes dos moradores de comunidades tradicionais protetaram contra o que classificam como "a pressão exercida pela especulação imobiliária, a ausência de políticas públicas".

Segundo o manifesto distribuído pelo Fórum de Comunidades Tradicionais - entidade civil que diz lutar pelos direitos e pela manutenção da identidade cultural das comunidades locais - há pelo menos 30 anos a região sofre as consequências negativas da construção da Rodovia Rio-Santos. Ainda de acordo com o manifesto, a estrada pavimentou um modelo de desenvolvimento baseado no turismo, seguido pela a construção de condomínios de luxo e de empreendimentos como marinas e resorts que acabaram por determinar a expulsão dos moradores originais de suas terras.

Alvo das críticas mais contundentes, o Condomínio Laranjeiras é acusado de dificultar o acesso de moradores da Vila Oratória a suas próprias casas, além de impedir que antigos pescadores usem a praia, privatizada. A quem não se mudou para bairros periféricos, restou a alternativa de se tornar caseiro, tomando conta das casas milionárias.

"A política ambiental implementada na região desconsidera historicamente a presença das comunidades nos seus territórios, proibindo-os de manter práticas tradicionais como plantar e pescar e até mesmo construir ou reformar suas moradias, através de uma estratégia de intervenção incompatível com as possibilidades de manejo sustentável da biodiversidade na Mata Atlântica", diz a nota do Fórum de Comunidades Tradicionais.

Segundo um dos representantes da associação de moradores de Laranjeiras que pediu para não ser identificado, após a construção do condomínio, iniciada há cerca de 20 anos, as pessoas que vivem em Vila Oratória passaram a ter que se identificar na portaria instalada na única via de acesso ao local. Além disso, diz ele, há uma segunda guarita logo após a vila e esta impediria o acesso à praia de pessoas que não sejam proprietários de casas no condomínio.

Durante o protesto, que chegou a contornar a Praça da Matriz, passando ao lado da tenda onde as pessoas acompanhavam por telões as palestras de escritores convidados para a Flip, os manifestantes reclamaram da indiferença do poder público para com esta e outras questões.

Artesãos acusaram o IPHAN de, com o argumento de estar protegendo o patrimônio histórico, impedí-los de trabalhar nas ruas do Centro Histórico, ao passo que dezenas de estabelecimentos cujos proprietários, segundo eles, não passam de comerciantes intermediadores, com dinheiro para arcar com impostos e outras taxas, estão estabelecidos no local de maior afluxo turístico.

O protesto chamou a atenção dos visitantes, mas diante da inicial indiferença da imprensa, só foi ter sua eficácia confirmada no final da noite, quando Chico Buarque, ao término de sua palestra, pediu licença para falar sobre o assunto e pedir atenção ao tema.


quarta-feira, julho 01, 2009

A literatura é uma festa?

Daqui a exatos dez minutos, portanto, as 19 horas, o crítico literário Davi Arrigucci Jr. subirá ao palco da Tenda dos Autores e, com uma palestra sobre a poesia de Manuel Bandeira (autor homenageado deste ano), dará início a VII Festa Literária Internacional de Paraty (que,erroneamente, alguns insistem em grafar Parati).

Durante a tarde, o movimento ainda estava tranquilo, embora ônibus vindos do Rio de Janeiro e de São Paulo chegassem lotados a todo instante. Saí para comer algo e conferir os preparativos finais para o evento e, enquanto eu caminhava pelo Centro Histórico, me lembrei da questão apresentada pelo assessor da Flip, Flávio Moura, no blog dedicado à festa.

"Por que, afinal, tanta gente se abala até Paraty para ouvir escritores e intelectuais? Num país em que a tiragem média de um livro é de 3 mil exemplares, o que leva quase 20 mil pessoas a pegar a estrada e assistir a leituras e palestras que em outro contexto poderiam estar vazias?", questiona Moura.

Já começava a pensar nas razões que pelo quinto ano consecutivo me trazem a este pequeno paraíso do litoral sul fluminense, quando, ao chegar a Tenda da Matriz, ouço a voz inconfundível de Adriana Calcanhoto. A cantora, que se apresenta logo mais, as 21 horas, estava ali, passando o som, com apenas algumas poucas pessoas debruçadas sobre as grades que delimitam o acesso à Tenda da Matriz sem, contudo, impedir a visão do palco ou mesmo dos telões pelos quais eu e dezenas de outras pessoas iremos assistir a maioria das palestras sem gastar um tostão.
Talvez isso ajude a responder o Moura, mas, entre uma palestra e um show, eu ainda vou pensar melhor sobre o assunto...

quinta-feira, maio 28, 2009

Crise? Que Crise?


Ainda falta um mês para o início da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e, ao que tudo indica, mais uma vez o setor hoteleiro local não terá do que se queixar.

Hotéis, pousadas e até mesmo os quartos de fundos nas casas de caiçaras estão sendo disputados à tapas. A conseqüência, tal como preconiza o primeiro mandamento do mercado livre (a procura determina os preços) é que o custo da hospedagem acaba por se tornar proibitivo para muitos interessados.

Um hotel simples, próximo ao Centro Histórico, está cobrando R$ 1 mil por quatro dias (quarta a domingo) de hospedagem em um quarto com ventilador de teto. Dá R$ 250 a diária. Em dias normais, esse mesmo hotel cobra R$ 75 a diária. Já no albergue Misti Chill, os R$ 25 normalmente cobrados por uma cama em um quarto para seis pessoas saltaram para quase R$ 80 a diária. Para os mochileiros, restam os campings, mas mesmo estes têm que ser reservados com antecedência.

Como reconhece o autor do blog oficial do evento, o jornalista Flávio Moura, em Paraty a literatura se aproxima do espetáculo como poucas vezes antes no Brasil. É um tal clima de “audiência de show de rock”, como define Moura, que em comunidades do orkut dedicadas à festa há quem classifique como “um sonho” ir a Flip. Uns para acompanhar as palestras e bate papos, ainda que pelo telão, sentado do lado de fora da Tenda da Matriz. Outros, apenas pelo burburinho.

Este ano, o frisson social deve ser ainda maior, já que Chico Buarque confirmou presença para divulgar seu último livro, Leite Derramado. Além dele, os nomes que devem lotar as tendas dos Autores e da Matriz são os do jornalista norte-americano Gay Talese, o biólogo Richard Dawkins e o português António Lobo Antunes.

Aos 77 anos, Talese é reconhecido como um dos maiores representantes do chamado new journalism, gênero que emprega técnicas narrativas ficcionais ao trabalho jornalístico, aproximando a reportagem da literatura. Dawkins (68) é um dos mais conhecidos defensores da teoria evolucionista proposta por Charles Darwin, além de ter ficado conhecido por sua defesa do ceticismo e do ateísmo após lançar, em 2006, o livro Deus, um delírio. Já Lobo Antunes, ainda pouco conhecido do grande público brasileiro, é considerado o maior escritor lusitano após Eça de Queirós. Em 2007, Lobo Antunes venceu o prestigiado prêmio Camões.

Outros 31 convidados participarão do evento que, este ano, está mais enxuto do que em 2008, quando o número de palestrantes chegou a 41. A lista completa, que inclui também o jornalista Zuenir Ventura, o escritor amazonense Milton Hatoum e a artista plástica francesa Sophie Calle, pode ser conferida no site da festa.

quinta-feira, maio 21, 2009

Presos em Contêineres


Presos em contêineres


Dois, cinco ou dez? Afinal, quantos presos terão sido esquartejados na Casa de Custódia Viana (Cascuvi), no Espírito Santo?

Ontem (21), o secretário de Justiça do Espírito Santo, Ângelo Roncalli, reconheceu à Agência Brasil, da EBC (uma empresa pública de comunicação), que cinco detentos foram esquartejados. Isso após ter refutado denúncia do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), que aponta a existência de pelo menos dez casos.

Em sua primeira entrevista ao site, Roncalli havia assegurado que apenas duas ocorrências teriam sido registradas. Cavando informações, o repórter Marco Antonio Soalheiro acabou tendo acesso a laudos da Polícia Civil entregues ao Conselho Estadual de Direitos Humanos. Os documentos confirmam pelo menos três casos. A matéria foi publicada na véspera da visita de Roncalli à redação da Agência Brasil, em Brasília.

Além de corrigir o número e explicar as dificuldades enfrentadas pela equipe do governador Paulo Hartung (PMDB), a visita serviu para que Roncalli revelasse o prazo para a abolição do uso de contêineres como espaços para a detenção de presos provisórios no Espírito Santo.

Em até quarenta dias, os 306 (sim, 306!) homens (e aqui é preciso ressaltar: homens! Presos, sim, mas humanos a quem, segundo o próprio Roncalli, o estado deve punir com a supressão temporária do convívio social, mas também reeducar) presos em compartimentos de aço mal-ventilados devem ser transferidos para o novo Centro de Detenção Provisória do município de Serra, na Grande Vitória.

De acordo com o secretário, que está no cargo desde 2006, o uso de contêineres foi uma “solução provisória” adotada no fim de 2007 pela Secretaria de Segurança Pública a fim de enfrentar o enfrentar o aumento da população carcerária e a necessidade de reformar ou mesmo fechar unidades prisionais com “problemas estruturais”.

Perguntado se ele, ou o governo, se arrependiam pela "solução" encontrada, Roncalli se limitou a responder que a iniciativa era necessária, mas temporária.

terça-feira, maio 19, 2009

E Agora, José?

Há algum tempo eu não visitava madrinha Naninha. FI-LO no último fim de semana. Entre uma xícara de café forte e uma fatia de bolo de fubá, conversávamos amenidades quando, mais uma vez, ela me proporcionou um insight político. Ainda que não se importe com política partidária, limitando-se, na maioria das vezes, a se indignar com o último escândalo parlamentar, a madrinha tem o olhar arguto dos ingênuos.

A coisa se deu da seguinte forma. Conversávamos com a tv ligada quando o jornal do SBT (ou da TVS, como prefere a madrinha) noticiou que o governador de Minas Gerais, Aécio Neves, não aceitaria o papel de vice do governador paulista José Serra em uma eventual chapa tucana para concorrer à presidência da República no ano que vem. Pelo menos não sem consulta às bases do partido.

Ouvindo menção aos outros nomes cotados para a disputa, entre eles a ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff (que madrinha disse não conhecer), ela fez o seguinte comentário: “E o Lula, hein? Não pode mais participar”. Ao que eu respondi. “Só em 2014, se o PT quiser”.

E aí, em sua resposta, veio a revelação. Pois quando ela disse que votaria no “Cara” agora e sempre, eu me dei conta da sinuca de bico em que a oposição está. O que está em jogo não é 2010, mas sim os próximos oito ou doze anos de governo. Com a popularidade com que ao que tudo indica deixará a presidência, Lula já é o candidato mais forte para 2014, bastando apenas que seu sucessor, se for um petista ou alguém da base eleito com seu apoio, não cometa alguma barbaridade capaz de minar o legado político de Lula.

Desta perspectiva, Serra se arrisca ao tentar evitar que o PSDB consulte seus filiados para definir o melhor candidato para as próximas eleições. Se perder a presidência tendo dividido o partido, o paulista com certeza pagará o pato sozinho e não faltarão companheiros de legenda e analistas políticos a criticar sua ambição política desmedida.

Pelo jeito que a carruagem vai, se não voltar ao Palácio do Planalto em 2010, só restará a oposição torcer para que o próximo governo vá mal. Ou então tentar modificar a atual legislação eleitoral para evitar que Lula possa lançar sua candidatura em 2014.

Será isso, madrinha?