terça-feira, abril 17, 2012

Milton Hatoum critica descaracterização urbanística das cidades brasileiras

O romancista Milton Hatoum criticou a descaracterização urbanística das metrópoles brasileiras durante palestra, ontem (15), na 1ª Bienal do Livro e da Leitura. "É um crime o que aconteceu com as nossas cidades", destacou Hatoum, que é arquiteto de formação.

"A Manaus da minha infância já não existe mais. Nem a Brasília que eu conheci em 1968", disse Hatoum sobre a cidade onde nasceu e sobre aquela para onde se mudou em 1967, quando tinha 15 anos, e onde chegou a ser detido ao participar de uma manifestação contra o governo militar.
 
"A especulação imobiliária, em conluio com políticos safados, acabou com nossas cidades. Aconteceu com Manaus, com São Paulo, está acontecendo com Brasília e com o Rio de Janeiro, onde você já não vê mais a paisagem. E só vai piorar", acrescentou o autor, classificando prédios recém-inaugurados ou em construção em Brasília como horríveis, por destoarem da proposta urbanística e arquitetônica modernista pela qual a capital federal foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade.
 
"Vejam esses hotéis horríveis construídos no setor hoteleiro. É uma cópia de São Paulo, que também já se tornou uma cópia horrível de Miami, da mesma forma que Manaus. Isso não é Brasília. Isso é a antiarquitetura. Quanto a Manaus, não conheço mais minha cidade. Tudo lá está poluído. Cada vez que eu volto, tenho que tomar um antidepressivo", contou o autor, convidado para falar sobre ficção e memória na literatura.

Hatoum recordou que, na adolescência em Brasília, teve um poema publicado por um importante jornal da cidade. "Foi uma experiência muito bonita. Nessa mesma época eu ganhei meu primeiro prêmio literário, mas quando falei aos meus pais que queria ser escritor, eles tremeram. Ser escritor no Brasil?", brincou o autor, antecipando a possibilidade de narrar, em seu próximo livro, algumas das experiências "um pouco heterodoxas" que vivenciou quando jovem, na capital federal.

"Imagine o que era um grupo de jovens vivendo em Brasília em 1968. Estávamos enlouquecidos. Tinha ditadura, não se podia estudar direito. Perdemos a conta do número de invasões à Universidade de Brasília [UnB]. Refugiávamo-nos em muitas coisas. Até nas drogas. Não sou político e posso dizer: nós experimentamos tudo e essas experiências talvez sejam narradas."

Perguntado sobre a receita para escrever bem, Hatoum destacou a necessidade de encontrar seu próprio tom ou voz literária e criar um universo ficcional característico que permeie o conjunto da obra e permita o reconhecimento por parte do leitor. Ele destacou ainda a necessidade de que o aspirante a escritor goste de ler e de escrever. Além de não ter medo das críticas. "A resenha mais venenosa não é capaz de destruir um bom livro", receitou Hatoum, antes de revelar que só se deu por satisfeito com um de seus maiores sucessos de crítica e público, o romance Dois Irmãos, após reescrevê-lo 19 vezes.

domingo, abril 15, 2012

Constrangimentos diante de um Nobel de Literatura


Problemas técnicos, manifestações e discursos de políticos locais geraram alguns momentos constrangedores durante o primeiro dia da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que começou ontem (14), em Brasília (DF). Até a palestra do homenageado internacional do evento, o poeta nigeriano Wole Soyinka, ganhador do Prêmio Nobel de Literatura de 1986, foi prejudicada.

O primeiro constrangimento para o governo do Distrito Federal, organizador do evento, aconteceu ainda durante a cerimônia de abertura, quando um grupo de professores da rede pública realizou um protesto barulhento. Eles exigiam do governo distrital o atendimento às reinvindicações da categoria, em greve há mais de um mês.

As vaias, palavras de ordem e apitos só cessaram quando o microfone foi passado a Soyinka. Bem-humorado, o escritor de 77 anos fez piada com a situação, dizendo jamais ter imaginado que os livros e a literatura fossem capazes de provocar tamanha euforia.

À noite, contudo, Soyinka voltou a presenciar o público vaiando autoridades locais. Desta vez, no entanto, a manifestação teve outro motivo. Quem esteve no auditório do Museu da República para assistir à palestra do nigeriano teve que, antes, ouvir o presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, deputado distrital Patrício (PT), e o secretário de Cultura, Hamilton Pereira, discursarem solenemente, produzindo um visível desconforto entre a plateia que quase lotou o auditório do Museu Nacional. Patrício chegou a apontar seu colega de partido como o melhor secretário de cultura da história local.

Após vinte minutos como figurante, o nigeriano voltou a arrancar risos da plateia ao brincar e dizer que, durante todo o dia, nada havia saído conforme planejado. Soyinka afirmou ter compreendido a manifestação dos professores porque ela seria semelhante às que os docentes nigerianos fazem para exigir seus direitos.

"Não sei se entendi bem os detalhes [do protesto de de manhã], mas entendi a paixão dos professores. Na Nigéria, eles também costumam sair às ruas. Só que lá é um pouco pior. Eles saem às ruas quando estão há um ano ou quase isso sem receber salários", disse o escritor.

Primeiro negro a receber o Prêmio Nobel de Literatura, Soyinka é um ativo militante político em seu país (o que o levou a ser preso por quase dois anos na década de 1960) e uma importante voz contra os governos tirânicos e ditatoriais, principalmente do continente africano. Em 2010, apoiou a criação de um partido de oposição ao grupo que governa a Nigéria. Também costuma apontar os riscos do fanatismo religioso, já tendo declarado inclusive que há, na Nigéria, um crescente perigo de uma nova guerra civil devido ao crescimento do extremismo religioso.

Autor de diversos títulos, já escreveu romances, poesias e peças de teatro. Além, óbvio, de manifestos e de outros textos políticos. Embora tenha recebido o prêmio máximo da literatura há 26 anos, sua obra permanecia inédita no Brasil. O Leão e a Jóia, seu primeiro texto teatral, escrito em 1963, está sendo lançado na bienal brasiliense.

A homenagem a Soyinka, contudo, terminou sob o signo do constrangimento. Devido a problemas com o serviço de tradução simultânea, várias pessoas se levantaram e deixaram o auditório durante a palestra, sem chegar a entender o que o nigeriano tentava dizer sobre a presença dos negros iorubás no Brasil e as relações históricas entre a religião africana e outras religiões, sobretudo o catolicismo. O próprio Soyinka, que não deu sinais de ter percebido o mal-estar da maior parte do público, provém de uma família humilde de origem iorubá.

"As falas iniciais tinham que ter sido mais curtas porque a figura da noite era o homenageado. Senti que houve um uso do espaço para debater assuntos que não têm que ver com o evento. Isso para não falar do problema da tradução. Vim para conhecer o autor e o contexto da literatura africana, mas estou saindo frustrada. Espero que isso não volte a acontecer nas próximas palestras em que for necessária tradução", disse a servidora pública Valéria Lima.

"Ele [Soyinka] deu uma aula, mas a tradução foi lamentável, um constrangimento. Perdi muito do conteúdo porque falo e entendo mal o inglês. Já as vaias fazem parte de qualquer manifestação e é bom que as pessoas possam se manifestar politicamente, mas acho justa a homenagem da Câmara Legislativa [ao autor] e o fato de nossos representantes participarem da vida social da cidade", comentou o cineasta Renato Barbieri.

"Estou desde cedo prestigiando a programação e tinha uma grande expectativa em relação à palestra [de Soyinka], mas ela ficou prejudicada pela tradução. Não consegui acompanhar e entender nada", afirmou o morador do Guará, Deusaniro Júnior.

Com a declarada meta de transformar Brasília na "capital brasileira do livro e da leitura", a bienal tem um custo inicial estimado de R$ 6,8 milhões. Os recursos vêm dos cofres do governo distrital, do Ministério da Cultura, de patrocínios privados e de locações de estandes. A programação é toda gratuita e a expectativa dos organizadores é atrair a cerca de 500 mil pessoas durante os dez dias de evento.

Jovens ainda não conseguiram usar novas tecnologias como instrumento de mobilização



(Wellton Máximo - ABr)

A juventude que foi às ruas lutar contra a ditadura, exigir eleições diretas e que pintou a cara para protestar contra um presidente da República ficou no passado. Cedeu lugar a jovens divididos em tribos que abusam da tecnologia, mas pouco se interessam em política. A avaliação é do jornalista e escritor Zuenir Ventura, que promove hoje (14) à tarde palestra na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília.

O autor de 1968: O Ano Que Não Terminou analisa a juventude de hoje e de 40 anos atrás. Para Zuenir, os jovens brasileiros, diferentemente de outros países, estão desperdiçando uma oportunidade histórica ao deixar de aproveitar a internet para abraçar bandeiras como a luta contra a corrupção, o aperfeiçoamento da democracia e o combate às desigualdades sociais.

“Ao contrário da Espanha, dos Estados Unidos e dos países árabes, a juventude brasileira ainda não conseguiu transformar as ferramentas tecnológicas em instrumentos de mobilização”, diz o escritor. “Existe muita troca de opiniões e afetos nas redes sociais, mas no Brasil essas manifestações ainda não foram canalizadas para a política.”

Zuenir reconhece que a fragmentação da juventude atual não permite o mesmo tipo de engajamento observado em outras décadas. “Naquela época, se falava na geração de 1968. Hoje não há mais uma geração, mas diversas tribos com cultura, cantar e agir próprios”, avalia. Apesar disso, o escritor acredita que a mobilização política continua possível para fazer jovens de diversas origens se unirem em torno de objetivos comuns. “Outros países deram o exemplo”, declarou.

A palestra ocorre às 14h30 no Café Literário, espaço destinado a palestras e sessões literárias. A 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura começou hoje e vai até 23 de abril na Esplanada dos Ministérios.

Premiados, mas difíceis de encontrar


O brasiliense que quiser ler a alguma das seis obras vencedoras do Prêmio Brasília de Literatura vai ter que encomendá-la e aguardar de sete a 15 dias para recebê-la ou então torcer para que o prêmio desperte maior atenção das livrarias da capital federal.
 
A reportagem da Agência Brasil entrou em contato com algumas das principais livrarias da capital federal – onde começa hoje (14), a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura – e constatou que, entre os seis títulos premiados, apenas um é facilmente encontrado.
 
Hoje, na melhor das hipóteses, em apenas uma livraria das consultadas os primeiros interessados conseguiriam encontrar ao menos cinco dos dos seis livros premiados. Como boa parte das lojas pertence a poucas grandes redes de livrarias, o cliente com maior interesse e disposição teria que ir pessoalmente a diferentes lugares ou esperar que os livros espalhados por várias unidades de uma mesma rede fossem reunidos.

É o caso, por exemplo, do vencedor na categoria romance, Diário da Queda, de Michel Laub, à venda em apenas duas das nove lojas que duas grandes redes detêm na cidade.
 
Vencedor da categoria poesia, Sísifo Desce a Montanha, do escritor Affonso Romano de Sant´Anna, é o título mais difícil de encontrar, disponível em apenas uma das livrarias consultadas por telefone. O que reforçaria a tese de que editoras e livrarias demonstram pouco interesse pela poesia, apontada como um gênero de, salvo raras exceções, pouco apelo comercial.
 
Já o vencedor na categoria reportagem, Os Últimos Soldados da Guerra Fria, do jornalista Fernando Morais, foi o único premiado encontrado em todas as livrarias consultadas.
 
O Prêmio Brasil de Literatura também reconheceu a biografia Fernando Pessoa - Uma Quase Biografia, de José Paulo Cavalcanti; o livro de crônicas Meio Intelectual, Meio de Esquerda, de Antonio Prata, e Sortes de Villamor, de Nilmar Lacerda, na categoria infanto-juvenil.
 
Devido à política de descontos de cada livraria, os preços informados à reportagem variaram.

sábado, abril 14, 2012

País continua sendo um ajuntamento, diz autor de Que País É Este


Poucas horas antes do anúncio de que havia vencido o Prêmio Brasília de Literatura, na categoria poesia, com seu livro Sísifo Desce a Montanha, Affonso Romano de Sant´anna falou à Agência Brasil sobre a peculiar leitura do mundo de um poeta brasileiro

“Vivo no século vinte, sigo para o vinte e um ainda preso ao dezenove”, escreveu Affonso Romano de Sant´Anna em um de seus poemas mais conhecidos, “Que país é este?”, de 1980. Hoje, passados 32 anos da publicação do texto e já no século XXI, o escritor mineiro diz continuar infeliz porque o Brasil ainda não foi capaz de conciliar desenvolvimento econômico e melhoria dos indicadores culturais.

“Sofro todos os dias ao ler os jornais e continuo dizendo a mim mesmo que isso não é um país, mas, sim, uma cicatriz insolvente. Culturalmente, o país mudou muito pouco nestas três décadas. Continua sendo um ajuntamento”, disse o escritor à Agência Brasil, ecoando os primeiros versos de seu famoso poema (Uma coisa é um país, outra um ajuntamento).

“Estamos virando a sexta economia mundial e estão todos felizes, principalmente quem está ganhando mais dinheiro. Eu, de certa forma, também estou feliz. Só que não há simetria entre o que está acontecendo na economia com o que acontece na cultura. Além de uma grande quantidade de pessoas ainda não ter acesso ao livro e à arte em geral, há, entre os que têm acesso, uma certa indigência mental vinculada ao consumo”, afirmou Sant'Anna.

O autor, todavia, reconhece como positivo o crescimento do número de eventos literários e sua expansão por todo o país. Casado com a também escritora Marina Colasanti, Sant´Anna diz que o casal chega a receber 20 convites mensais para participar de feiras, festas, salões, encontros e saraus literários. Ele é um dos 150 autores que confirmaram participação na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que começa amanhã (14), em Brasília.

“Hoje existem centenas de eventos literários e as coisas deixaram de acontecer apenas no Rio de Janeiro e em São Paulo. Ainda assim, persiste a questão de como transformar o Brasil em um país leitor e como levar o livro para localidades fora dos grandes centros”, diz o escritor, que foi convidados a se apresentar em Joinville (SC), Manaus, Porto Alegre e Bogotá, na Colômbia, após a Bienal de Brasília.

sexta-feira, abril 13, 2012

Começa neste sábado 1ª Bienal do Livro de Brasília

Com a meta de colocar o Distrito Federal no calendário dos grandes eventos literários no país, Brasília sedia, a partir de amanhã (14), a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura.

Com estrutura montada em uma área de 14 mil metros quadrados na Esplanada dos Ministérios, próxima ao Congresso Nacional, a bienal vai dedicar especial atenção à literatura contemporânea, sobretudo a africana.

Ao todo, o evento reunirá 150 autores dos mais diversos gêneros (poesia, ficção, biografia, jornalismo, infantojuvenil, crônicas). Entre os participantes estrangeiros está o vencedor do Prêmio Nobel de 1986, o nigeriano Wole Soyinka, que, durante o evento, lançará o primeiro livro em português, O Leão e a Joia. Soyinka será um dos homenageados na bienal, ao lado do cartunista Ziraldo.

Também está confirmada a presença do argentino Mempo Giardinelli, do chileno Antonio Skármeta, do paquistanês Tariq Ali, da norte-americana Alice Walker, da indiana Vandana Shiva e do norte-americano Daniel Polansky, cujo livro de estreia, Cidade das Sombras: O Guardião, acaba de ser lançado no Brasil.

Entre os brasileiros convidados, autores como Milton Hatoum, Affonso Romano de Sant'Anna, Leonardo Boff, Martha Medeiros, Fernando Morais e Zuenir Ventura dividirão espaço com nomes menos conhecidos. Os escritores brasilienses terão espaço especial dedicado à discussão da produção literária da capital federal.

A expectativa dos organizadores é atrair cerca de 500 mil pessoas durante os dez dias de evento, cujo custo está estimado em R$ 6,8 milhões. Os recursos vêm dos cofres do governo distrital, do Ministério da Cultura, de patrocínios privados e de locações de estandes. A entrada será gratuita.

“Queremos estimular a presença das pessoas de todos os lugares. Esta é uma bienal pública, na qual ninguém pagará nada para entrar”, destacou o secretário de Cultura do Distrito Federal, Hamilton Pereira.

Além do bate-papo com autores e do lançamento de obras, o evento contará com uma extensa programação cultural, como a exibição de filmes de ficção e documentários, peças de teatro, duas exposições de artes visuais, recitais e palestras.

Realizada como parte da programação de aniversário de 52 anos de Brasília, o evento promoverá ainda 17 shows musicais, entre eles, os de Caetano Veloso, Nando Reis, Fernanda Takai, Capital Inicial, Oswaldo Montenegro, Chico César, o rapper GOG e a dupla Kleiton e Kledir.

“Brasília carecia de uma iniciativa do Poder Público nessa direção”, disse o secretário. “Queremos fazer uma bienal grande, à altura da sexta economia mundial [Brasil]”, completou.

sábado, abril 07, 2012

Satori


Para ser, tenemos que narrarnos, y en ese cuento de nosotros mismos hay muchísimo cuento: nos mentimos, nos imaginamos, nos engañamos. Lo que hoy relatamos de nuestra infancia no tiene nada que ver con lo que relataremos dentro de veinte años [...] de manera que nos inventamos nuestros recuerdos, igual que decir que nos inventamos a nosotros mismos, porque nuestra identidad reside en la memoria, en el relato de nuestra biografia. (Rosa Montero - La Loca de La Casa)

"Você deve ser a única pessoa que pensou em ser fotógrafo de skate e acabou em Brasília, no meio político, vendo um monte de sujeira, fazendo o que muitos queriam fazer" (Adriana)



Pode ser que as coisas não tenham ocorrido da forma como lembro. Que eu tenha inventado essa memória. O fato é que, mesmo ciente de que isso pode não passar um episódio autobiográfico fictício, a imagem acima é como meu satori, marco zero, o fio condutor da minha biografia. Tudo porque, em algum momento, me convenci de que, por um ato do que chamamos destino, devo à foto acima ter me tornado o pouco que sou hoje. E também ao Alan, o porteiro do prédio onde morei dos oito aos 30 anos. Afinal, era dele a revista que continha a dita imagem.

Explicando. Eu devia estar com 13 para 14 anos. Morava em Santos e minha vida se resumia a ir à escola, brincar, zanzar pela praia sem nada o que fazer e assistir tv. Pouco para um adolescente ávido por aventura e emoções mais fortes, que descontava a falta de ambos portando-se da pior forma possível. Comportamento que não tardaria a motivar uma nada sutil recomendação para que não tentasse me rematricular no mesmo colégio público e na tentativa de outros condôminos de expulsar a mim e a minha família do prédio em que vivíamos. Fora outros tropeços, por sorte, sem maiores consequências.

Foi justamente nesta época que o Alan passou a trabalhar na guarita do meu prédio. Jovem, com menos de 30 anos, um filho e um casamento se esfacelando, ele pegava onda, tocava violão e, de vez em quando, dava uns rolês de skate para não perder o jeito. Não me recordo mais como, mas nos tornamos amigos. Eu já começava a curtir rock´n´roll, ouvindo AC/DC, ZZ TOP e descobrindo aos poucos outras bandas. Passávamos longas horas conversando. Hoje, me espanto pensando na paciência que ele deve ter tido para lidar com o garoto rebelde e cheio de convicções que eu era então.

Embora insistisse em destacar as emoções de correr ondas, me estimulando a tentar, o Alan acabou por me apresentar ao skate. Depois, trouxe algumas velhas revistas importadas que tinha conseguido Deus sabe lá onde. Ao folhear distraidamente uma delas (acho que uma Transworld), me deparei com uma matéria sobre o skatista norte-americano Tony Alva, um dos prímeiros ídolos profissionais do esporte.

Me deslumbrei e jamais esqueci o impacto que a foto acima teve sobre mim. Foi automático. Passei a respirar skate e a professar tal fé. Aquilo era anárquico, ilimitado, debochado, perigoso, assustador. Era, como mostrava a foto, algo incendíário do qual eu queria fazer parte. Não quis mais saber das provas de atletismo, única coisa na qual eu havia me destacado até então. Nem de ouvir um treinador me dizer onde eu tinha que me posicionar numa quadra ou campo. Muito menos que o kata não estava harmonioso.

Não havia futuro para além das várias tentativas necessárias até acertar uma nova manobra. Minha meta era provar ser possível chegar e sair de qualquer lugar sem descer do skate, transpondo aos obstáculos por qualquer meio imaginário possível. Não importavam os ralados, as cicatrizes, os tombos, mas sim a sensação que o futebol com a turma ou qualquer outro esporte jamais havia me proporcionado. Simplesmente porque skate não era uma modalidade esportiva, mas sim um estilo de vida ainda incompreendido e que incomodava a muitos. Não era algo que alguém praticasse para se tornar mais sociável ou bem-visto entre as meninas. E muito menos algo que meus pais quisessem me ver praticando.

Aos 14 anos, ganhei minha primeira bicicleta. Apesar de ser de segunda mão, era linda - velha, mas nova aos olhos dos meus pais. Não deve ter se passado um mês para que eu a trocasse por um skate podre, feito com eixos e rodas de patins e um shape arredondado, feito em casa, serrado de uma madeira qualquer. Os velhos não ficaram nada felizes e prometeram não voltar a me dar qualquer outro presente que eu pudesse trocar por um skate. O que resultou na primeira mudança...na verdade, na elaboração do meu primeiro e incipiente "projeto de vida" a seguir. Como dizem, a necessidade faz a ocasião.

Tendo que trocar de colégio e querendo encontrar um jeito de ganhar a grana necessária para sustentar meu vício, aceitei a proposta de uma prima e entrei no Senai como menor aprendiz contratado por uma empresa de fertilizantes, de Cubatão (local feio e poluído onde eu tinha que trabalhar nas férias, três meses ao ano). Para isso, tive que estudar e me submeter a um processo seletivo no qual alguns amigos muito mais dignos das expectativas foram barrados. Não sei o quanto meu resultado foi fruto do fato de eu ter me dedicado a estudar com afinco, pensando que se não fosse aceito, acabaria tendo que ir trabalhar como empacotador em um supermercado para conseguir o dinheiro para comprar um skate e o quanto isto demoraria. Foi, portanto, graças ao skate, que não parei de estudar e me tornei, para minha própria surpresa, torneiro mecânico.

Quando deixei o Senai, já sabia que não queria trabalhar numa indústria e passar o dia atrás de um torno ou de uma plaina. Além disso, com o dinheiro que ganhava, decidi aprender inglês para poder ler as revistas importadas de skate, sonhando em, um dia, me mandar pra Califórnia, terra das ruas de asfalto liso onde acreditava ser possível se deslocar para todos os lados sem descer do carrinho. Como sempre gostei de ler, consegui emprego em uma livraria, onde tinha acesso a todas as revistas gringas que não podia comprar.

A livraria, contudo, era apenas parte de um plano. Embora andasse razoavelmente bem, eu já sabia que jamais me tornaria um skatista profissional. Isto nunca foi minha meta. Simplesmente porque não andava de skate para os outros. Sabia, portanto, que precisava pensar em como ganharia dinheiro no futuro que se aproximava cada vez mais rapidamente como se eu, equilibrado sobre o skate, avançasse de encontro a ele. Foi aí que me lembrei do início de tudo. Da foto de Tony Alva descolando as rodas da piscina em meio às chamas. E me dei conta da minha paixão pelas imagens das revistas de skate, que colecionava. E pensei, por que não? Vou ganhar dinheiro vivendo do skate, de sua mística, seu lifestyle. Vou me tornar um fotógrafo de skate.

Levou anos ainda para que eu, à duras custas, chegasse à faculdade de jornalismo. Onde, ao invés de desenvolver o talento para a fotografia (que, ainda hoje, gosto de crer, tenho), acabei seguindo por outro caminho. Uma outra direção que apontava para distante do skate, mas para a qual a rebeldia e o não-conformismo da adolescência me seriam de grande valia, ajudando-me a fazer o que acho que deve ser feito.

Ao chegar à faculdade eu já havia descoberto a emoção, a experiência mística, de que o Alan falava quando tentava me convencer a surfar. Já não andava mais de skate, embora ainda acompanhasse a evolução do esporte, as vitórias dos atletas brasileiros no exterior. O tempo passou. Não me tornei um fotógrafo, nem tampouco comecei a escrever para revistas de skate. Encontrei uma outra forma de ganhar o dinheiro de que preciso, mas foi necessário que eu me mudasse para Brasília. O que me levou a voltar a montar um carrinho e dar uns rolês. Inicialmente para compensar a distância do mar.

Não tive que reaprender muita coisa. Parte do conhecimento a respeito do que meu corpo soubera fazer antes ainda estava lá, incubado, esperando uma chance de se manifestar. De forma que não demorou para eu sacar que minha personalidade carrega muito do que aprendi naquelas sessions após as aulas, na companhia do Flavinho, Gugu, Leitão, Daniel (baterista do Garage Fuzz), Arrepiado (câmera do CQC), Maurício, Takeu, Berola e outros tantos de que não me lembro mais o nome.

O que aprendi que me serve ainda hoje? Difícil explicar, mas, por exemplo, que, antes de mais nada, você deve se divertir fazendo (skate for fun). Que uma vez contagiado pelo "objeto esportivo peçonhento", o elemento levará para sempre inscrito em seu cérebro, em sua personalidade, a obsessão por sempre tentar fazer algo diferente a partir do que já domina. Que para acertar a manobra mais complexa você primeiro deve dominar a "base". De que o "melhor" é algo subjetivo, condicionado pelas referências de quem julga. E que o olhar enviesado quando você passa apressado, barulhento e amarradão pode ser a incompreensão ou o medo dos caretas ineptos.

Devo algo, portanto, a Tony Alva. Ao fotógrafo daquela revista. Ao Alan. Aos meus amigos. E, principalmente, ao skate. Ainda que eles nada tenham a ver com a política ou com os problemas de que hoje sei.





sexta-feira, abril 06, 2012

A Distância Entre o Sonho e a Realidade


Brasília. Distrito Federal.

Um sonho? Um desvairio terceiro-mundista que, a alto custo, se materializou no meio do nada? Uma aventura civilizadora? Necessidade integracionista? Demonstração do gênio brasileiro? Puro exibicionismo? Ação pública para benefício escuso privado? 

Fosse em qualquer outro país, a história da construção de Brasília já teria sido contada e recontada sob todos os pontos de vista possíveis. Com isso, hoje, qualquer um, por mais modesto que fosse, teria informações para dizer algo como: "Ué! Como assim não vai dar tempo de os estádios e aeroportos estarem prontos para daqui a três anos?!?! Construímos uma capital moderna, incluindo lago artificial, em apenas três anos e meio. E isso no final dos anos 50, do século passado". (Tudo bem, tudo bem. Não havia os necessários cuidados com o meio ambiente que há atualmente, mas, de qualquer forma...)

Aqui, uma dessas possibilidades. Filmada por Joaquim Pedro de Andrade, ainda em 1967, com narração do poeta Ferreira Gullar, que chegou a viver na cidade, mas não resistiu e logo retornou ao Rio de Janeiro. (Hoje, por mais que a vida tenha fugido ao plano, quem sabe, talvez, o poeta não lamentasse a decisão se voltasse a vivenciar o cotidiano brasiliense)


"A FLIP MUDOU MEU CALENDÁRIO"

Em um texto publicado no blog da Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), o jornalista Ángel Gurría-Quintana * fornece alguns elementos que me ajudam a explicar porque eu também ajustei meu calendário ao evento anual, muito mais que um mero encontro literário.





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                      "Enquanto o tempo acelera e pede pressa..."
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                          A LITERATURA É UMA FESTA (2009)
                          A LUTA É CULTURA!
                         NA PIPOCA (2008)
                         A ESTRELA POP NEIL GAIMAN
                         ÁGUA QUE PASSARINHO NÃO BEBE, LITERATO INSPIRA

“Voce fala português?“, perguntou o editor do meu jornal. Eu disse que falava um pouco. “ E já ouviu falar no Festival de Literatura do Brasil?” Na verdade eu tinha lido sobre o evento em uma crônica do Julian Barnes, um autor convidado para a primeira ediçåo da Festa. Aí foi o xeque-mate “Voce gostaria de escrever um artigo sobre isso?”
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Semanas depois, eu cheguei em Paraty como repórter do jornal Americano Financial Times. Eu tinha programado entrevistar a Liz Calder, presidente e fundadora do evento. Esperava escrever um artigo que nāo só explicasse o que era aquele evento único, mas também chamar atençāo dos leitores para a literatura brasileira e a grande vibraçåo da cultura deste país.
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Eu nāo poderia imaginar que alguns dias depois eu estaria jogando futebol (muito mal) com o cantor Chico Buarque. (Isso foi em 2004, nāo muito depois da publicaçåo de Budapeste. Também nåo poderia imaginar que retornaria para todas as ediçōes da FLIP desde entåo e que se tornaria o ponto alto dos meus anos.
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Nao é fácil explicar para qualquer um que nunca tenha ido para a Festa que este evento nāo tem comparaçāo com qualquer outro existente até entāo. Poderia descrever o encanto dos debates, claro – mas como passar aquela sensaçāo de estar no meio da Mata Atlântica e da bela cidade colonial?
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Existem outras coisas – como o fato de ser um lugar completamente vazio até alguns dias antes de começar a Festa para depois se tornar palco de eventos para quase mil pessoas. Fico sempre entusiasmado pelo apetite da platéia em ouvir os autores convidados (“promíscuos”, como os definiu Christopher Hitchens – sempre muito concentrados).
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A atençåo da mídia é implacável, as vezes até excessivamente, porque, repito, um evento como este nāo tem precedentes.
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E isso sem falar dos escritores, trazendo nas malas muitas palavras, ideias e provocaçōes. É o show deles, claro, mas ainda assim eu sou testemunha do espanto dos mesmos diante da recepçāo do público. Nāo por acaso, muitos ficam tāo tentados em voltar. Para um jornalista de literatura, conversar, mediar as conversas dos escritores convidados diante de um público tåo cativo é um desafio, uma emoçåo e uma honra.

*Ángel Gurría-Quintana, jornalista de literatura em Cambridge, é um colaborador assíduo do jornal The Financial Times. Ele esteve em todas as ediçoes da Flip, desde 2004, e a partir de 2005 colabora como mediador das mesas principais

quarta-feira, abril 04, 2012

O DIA EM QUE O BANKS VIROU PISCINA

A chuva que caiu ontem (3), em Santos (SP), causou estragos por toda a cidade, derrubando árvores, alagando ruas, invadindo casas, lojas, etc, contudo, acho que dentre tantas imagens registradas, as da pista de skate da Praça Palmares alagada são as que melhor dão a dimensão do quanto choveu.








segunda-feira, abril 02, 2012

Certezas Líquidas


Ê, lasquera! Tem dias, como hoje, que por mais que eu goste e me sinta bem em meio a esta vegetação resiliente do Planalto Central, sou tomado pelo desejo de, ao fim da pauleira, buscar uma compensação como a da foto acima, tirada em algum lugar do litoral norte de São Paulo.

Denúncia...

                                                  fotos: Marcello Casal


Adolescentes que vivem nas ruas denunciam abusos sexuais cometidos por PMs em área central de Brasília

Meninos e meninas que vivem nas ruas do Distrito Federal acusam policiais militares de agressão física e sexual. As denúncias mobilizaram a Comissão de Direitos Humanos e Minorias da Câmara dos Deputados e são semelhantes às investigadas pelo Ministério Público há pouco mais de três anos. A mais recente delas é de uma jovem moradora de rua, de 16 anos, que registrou um boletim de ocorrência, no início de março, acusando dois policiais militares de abuso sexual.

Em um vídeo produzido pela vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Érika Kokay (PT-DF), ao qual a Agência Brasil teve acesso, menores não identificados acusam policiais de humilhação, espancamento e apropriação de pequenas quantias de dinheiro. Há relatos de abusos sexuais e a acusação de que policiais militares forçaram alguns jovens a se atirar de uma ponte (Ponte do Bragueto, em uma área nobre da capital) de cerca de 4 metros de altura sobre o Lago Paranoá. Muitas vezes, com pés ou mãos atados. Juntamente com o vídeo, a parlamentar encaminhou um ofício ao secretário de Segurança, Sandro Avelar, no qual os nomes de dois policiais são mencionados.

“Até hoje não tivemos nenhum retorno da Corregedoria da PM [sobre as denúncias investigadas em 2008]. O que sabemos é que pelo menos um dos policiais denunciados continua atuando na rodoviária [do Plano Piloto, no centro da cidade]. E novas denúncias continuam chegando ao nosso conhecimento”, disse uma educadora social ligada ao Comitê Nacional de Enfrentamento à Violência Sexual contra a Criança e o Adolescente, que pediu para não ser identificada.

Ela diz que conhece pelo menos 12 jovens (entre meninos e meninas) que relatam histórias de abuso sexual cometidos por policiais. 

“O importante é que tudo seja apurado. Além de muito coerentes, as denúncias guardam, entre si, uma lógica muito intensa e vêm de diferentes pontos da cidade, de adolescentes e crianças que, muitas vezes, não se conhecem”, diz Érika Kokay.

As queixas quanto à violência policial contra moradores de rua também estão registradas em um estudo financiado pela Fundação de Apoio à Pesquisa (FAP) do governo do Distrito Federal. Nenhum menor de idade, contudo, declarou ter sido alvo de violência sexual praticada por policiais.

Dos 127 adolescentes ouvidos, 47% contaram ter sofrido algum tipo de violência. “Embora quase 8% desses tenham admitido abuso sexual, não temos relatos de que policiais tenham feito isso contra os adolescentes, mas sim cometido agressões físicas, verbais e psicológicas”, diz a socióloga Bruna Gatti, uma das idealizadoras da pesquisa. Já entre os adultos, houve quem respondesse ter sido vítima de abuso sexual por policiais. A pesquisa não indica, porém, quando isso ocorreu.

O presidente do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Michel Platini, exige apuração rigorosa das denúncias. “Parece haver um Estado paralelo, cujos agentes atuam na clandestinidade. São denúncias muito graves que, apesar das dificuldades, precisam ser apuradas. Considerando os depoimentos, há muita violência acontecendo nas madrugadas de Brasília. Enquanto a cidade dorme alheia a tudo, as sessões de tortura acontecem.”

O corregedor-geral da Polícia Militar do Distrito Federal, coronel Francisco Carlos da Silva Niño, afirma que a corporação não aceita qualquer tipo de abuso por parte de seus integrantes e que qualquer denúncia é investigada. Em entrevista à Agência Brasil, ele destaca que, muitas vezes, as próprias características da população de rua, como a falta de residência fixa ou de hábitos rotineiros, dificultam a apuração policial. O coronel ressaltou que esse trabalho precisa ser rigoroso para evitar que um agente seja punido equivocadamente.

Procurada pela reportagem da Agência Brasil, a Secretaria de Segurança Pública ainda não se manifestou. 



“Dois policiais abusaram de mim”, afirma jovem

No início de março, Vanessa*, de 16 anos, caminhava, de madrugada, pelo Setor Comercial Sul do Plano Piloto com mais três colegas. Todos menores de idade e moradores de rua. Como a própria jovem, que diz ter abandonado a mãe, usuária de drogas, e os sete irmãos (dois deles, também viciados) por causa da convivência difícil em casa, mas também porque já estava viciada em crack. Droga que experimentou aos 14 anos, oferecida por uma vizinha.
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Apesar de ficar em plena região central da capital federal, a cerca de 2 quilômetros do Congresso Nacional, à noite, o Setor Comercial fica quase deserto, tomado apenas por traficantes e prostitutas. De acordo com Vanessa, foi ali que ela e os colegas foram abordados por dois policiais que estavam em uma viatura.
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“Os policiais revistaram os meninos e não encontraram nada. Então, eles disseram que iam me levar para uma policial feminina me revistar. Eu pedi para os meninos não deixarem eles me levarem, mas eles não podiam fazer nada”, contou Vanessa à Agência Brasil.
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Segundo a jovem, a viatura seguiu até o final da Asa Sul e parou em um matagal, próximo a uma faculdade. Vanessa conta que ali os dois militares desceram da viatura e a retiraram do veículo, ordenando que ela tirasse toda a roupa.
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“Eles também tiraram a roupa e abusaram de mim. Depois me levaram de volta para o Setor Comercial Sul. Os meninos ainda estavam lá perto, me esperando, porque sabiam o que ia acontecer. E eu só chorava”, contou a jovem, que diz conhecer os dois militares. “Eles já tinham me segurado antes, mas não tinham abusado de mim. Só tomaram meu dinheiro. Só que desta [última] vez eu não tinha dinheiro e aí eles abusaram de mim.”
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Inicialmente, Vanessa não quis contar a ninguém o que tinha acontecido. “Fiquei com medo. E também não gostava de lembrar o que tinha acontecido. É muito difícil ficar lembrando o que aconteceu. Dói demais.” Depois, encorajada por educadores sociais, decidiu registrar um boletim de ocorrência, segundo ela, na 5ª Delegacia de Polícia, e se submeter a exame de corpo de delito.
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“Os policiais prometeram investigar. Disseram que a história não iria vazar e que eu não preciso me preocupar, mas estou com medo. Eu espero ser protegida e que a Justiça seja feita. Que estes dois policiais sejam afastados para que eles não continuem a fazer a mesma coisa. Se deixar eles lá, a mesma coisa que fizeram comigo, eles vão fazer com muitas outras.”
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Hoje, Vanessa está protegida, abrigada junto com outra jovem, Sabrina, de 16 anos, que também afirma ter sido vítima de policiais militares. Sabrina, contudo, diz que os policiais não chegaram a abusar sexualmente dela.
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“Eu estava vendendo droga. Os policiais vieram, me pegaram e me bateram. E isso não aconteceu nem uma, nem duas vezes. Numa das vezes, eles me algemaram, me botaram dentro da viatura e me levaram para um lugar muito distante. Entraram comigo dentro de um matagal e me mandaram tirar a roupa. Me bateram e, depois, me largaram lá”, diz a jovem.
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Procurada desde a última quinta-feira (29) para comentar o assunto, a Secretaria de Segurança Pública ainda não se manifestou. O corregedor da Polícia Militar, coronel Francisco Carlos da Silva Niño, disse que, desde pelo menos 2008, a corporação recebe semelhantes denúncias, e que, apesar das dificuldades, procura apurar todas elas. Procurada pela reportagem da Agência Brasil no final da tarde de hoje (2), a assessoria da PM informou que o comando da corporação analisaria as informações antes de se manifestar.
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Em um vídeo produzido pela vice-presidenta da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, Érika Kokay (PT-DF), vários outros jovens dão depoimentos idênticos ao das duas jovens entrevistas pela Agência Brasil, com o aval de educadores sociais.

Cícero



E diz que só queria descansar
De quem a gente mesmo escolheu ser



Diz a lenda
que ele trocou suas certezas
por alguns sonhos mágicos

quarta-feira, março 28, 2012

Driver



Só eu não entendi Driver?

E, ainda assim, (ou, talvez, por isso mesmo) gostei. Mesmo que o filme com Ryan Gosling não tenha atingido a minha expectativa -alimentada por tantas críticas e comentários positivos -, vai levar nota 6,729. Até porque, discordo de que a violência seja gratuita.

(Só um detalhe: desconfio de que se você assistir com atenção ao trailler abaixo e tiver alguma imaginação para preencher os espaços em branco, não precisará ir ao cinema. Eu, ainda bem, não tinha visto o trailler antes)

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Cahuita, Zancudo e XIS

 
Às vezes penso em adquirir dois cães só  para poder dar-lhes nomes. E olha que eu nem gosto tanto assim de animais de estimação. A questão é que acho os nomes caninamente falando sensacionais.

Chamaria-os de Zancudo e Cahuita. Duas praias da Costa Rica. Coisa fina.

Zancudo seria um cão vira-lata, grande, negro. Metido a bravo, mas inofensivo (ao contrário de la playa de arena oscura y ollas fuertes). Já Cahuita seria, de preferência, uma golden retriever de pelo claro e longo, serena e observadora. Na minha fantasia  momentânea (daquelas que não cogitamos realizar), os dois tomariam conta do quintal onde eu manteria uma mini-ramp de pouco mais de um metro de altura para rolês de skate nos finais de tarde. Aos fins de semana,  eles me levariam para passeios demorados. Na praia. Qualquer praia onde, depois, sozinho, eu pudesse surfar. E, talvez, tomar uma água de coco



Aliás, por falar em coco, por onde andará o XIS, hein? Sim, o rapper, autor de Chapa o Coco, uma das faixas do excelente disco Fortificando a Desobediência (ouvir), de 2001, que eu e Antonio costumávamos ouvir enquanto faxinávamos a República Caiçara na Belacap, muitos séculos atrás. Onda vem, onda vai...

segunda-feira, março 26, 2012

Da fria curitibana...



Coisas da internet. Sabe como é. A banda grava um single, cria uma conta no myspace, disponibiliza a música na internet e, de repente, quando você vê, todo o povo "in" tá comentando e espalhando a novidade através das redes sociais. 

Depois de A Banda Mais Bonita Da Cidade, a bola da vez parece ser a curitibana Goo Goes Lave que divulgou há apenas dois dias, no youtube, seu primeiro e, até agora, único single conhecido.

Please Don´t Act Your Age é pegajoso e forte candidato a bombar nas pistas de dança. Tanto que, com pouco mais de mil acessos no youtube, já permitiu aos três integrantes da banda (Ule, Diogo Zavadzki e Beto Bolliger) divulgarem um primeiro show na capital paranaense, para breve.
A novidade é que, às 15h30 do dia 26 de março, a página no facebook tem apenas 17 horas desde sua criação, enquanto o vídeo da música foi "lançado" no youtube há apenas dois dias.

Melodia no Coração do Brasil


Presença constante nos palcos do Sesc-SP, Luiz Melodia é, de longe, o músico brasileiro de quem eu mais já vi shows. Ainda assim, a cada nova apresentação sua, cresce minha admiração pelo Pérola Negra. Uma das mais belas interpretações masculinas da MPB.

No sábado, para minha surpresa, Melô tocou no pequeno palco do Sesc Garagem, em Brasília (DF). A R$ 10 a inteira. (enquanto quem quisesse assistir a outro gênio, Paulinho da Viola, no Teatro Nacional, tinha que desembolsar R$ 260). Mesmo com as cadeiras extras colocadas no centro do palco de arena, o número de pessoas do lado de fora deve ter beirado o dobro das que conseguiram ingresso.

Acompanhado apenas pelo fiel violonista Renato Piau, com quem toca desde o lançamento do clássico Pérola Negra (1973), Melô fez um show intimista, mas extremamente divertido, graças a maior proximidade com a plateia. Com mais espaço, Piau também brilhou, mostrando um talento nem sempre explicitado quando acompanhado por toda a banda de Melodia. Até uma música sua, o Blues do Piauí, o violonista apresentou. Dando a Melodia o tempo necessário para ir ao camarim reclamar a taça de vinho que reivindicou durante todo o show. Bola fora da organização.

Além de uma excepcional versão de UM NEGRO GATO, Melô resignificou (ao menos pra mim) o seu próprio verso "acalma os sentidos dos erros que faço"

(Espero que o ECAD não venha me cobrar direitos por divulgar, sem fins lucrativos e como forma de compartilhar minha admiração, trechos de um show a que assisti)


 

domingo, março 25, 2012

Sempre pode piorar....


"Pode se preparar para dormir mais tarde, porque hoje tem a estreia do mais novo programa da Globo, The Ultimate Fighter, o reality show que vai selecionar um único lutador para participar do UFC". Ouvi isso há pouco, no Fantástico.

A culpa é minha, comentarão meus três leitores. O que estava fazendo que, na falta de companhia melhor, não estava deitado com um livro? Maldade. A notícia era tudo pelo que eu esperava para fechar meu final de semana. Saber que poderei "dar uma espiadinha" em 16 orelhas de couve-flor confinados numa casa, disputando seja lá o que for.

Nem acredito que conseguíamos dormir e nos preparmos para mais uma longa semana de ônibus cheio, trânsito engarrafado, poluição, dinheiro público desviado, alto custo de vida e falta de segurança sem termos visto o quanto é sacrificada a vida dos lutadores de MMA.

Eu achava impossível a tv brasileira voltar a nos surpreender após importar a fórmula Big Brother, que se adaptou tão bem ao nosso fértil solo televisivo. Felizmente, há quem pense `fora da caixinha´. Sensíveis produtores capazes de identificar o real interesse do público, aquela necessidade que nós mesmos não sabemos ter, mas que logo fica clara quando se divulga o primeiro excelente resultado de audiência.

Afinal, como a imprensa não se cansa de noticiar, o MMA é o esporte que mais cresce em popularidade no país. Já deve ser o segundo mais assistido no Brasil. A origem da informação, ou seja, a pesquisa que identificou isso, ninguém nunca viu, mas quem vai duvidar se até o Galvão Bueno passou a narrar lutas e o Ronaldo a agenciar lutadores. Estes caras sabem onde enfiam... sua torcida patriótica.

E não só eles. A Sandy, por exemplo. Após ser selecionada pela Globo para apresentar a atração, a namoradinha do país, que já tinha revelado ter um lado devassa, tornou pública sua paixão pelo MMA. Disse que treina boxe, assiste à lutas e até tieta lutadores.

(Deus! Sandy não vai ler este post, mas como eu também não vou adicioná-la ao meu facebook, fica aqui mesmo meu recado: menina, se você realmente gosta de se exercitar treinando boxe, procure outra academia, porque aqueles soquinhos que você apareceu dando no saco de pancadas indicam que alguém anda te aplicando o 171)

As outras emissoras, como sempre, irão correr atrás do "prejuízo". Talvez tenham que variar o tema, mostrando as dificuldades de jovens durante as peneiras de clubes de futebol; o desafio dos surfistas que vivem longe do mar ou pelo menos de ondas de qualidade; ginastas sem patrocínio, skatistas que só conseguem sobreviver do esporte se deixarem o país, tenistas vindos das "comunidades", corredores sem pistas de atletismo etc, etc, etc

Além da matéria caprichada sobre a nova atração da emissora, o Fantástico ainda exibiu o quadro O Que Vi Da Vida, com o também lutador Anderson Silva. Desligo a tv, pego uma revista e vou me deitar.

Entendo o quanto os atletas de qualquer esporte tem que suar para chegar a algum lugar. Admiro a disciplina e o despreendimento necessários à prática destas lutas da moda, mas, sinceramente, não creio que esse súbito interesse da Globo seja algo construtivo. Interesse, aliá, que me dá alguma esperança. Quem sabe, com a Globo encampando a prática com tanta avidez, não acontece o mesmo que vem ocorreu com o futebol brasileiro. Não. Não estou me referindo ao fato de que, hoje, um torcedor morreu e outro dois foram internados após uma briga de torcidas em São Paulo. Falo é da total falta de brilho e de organização do futebol brasileiro, administrado por...bom, a esta altura, vocês sabem por quem.

sábado, março 24, 2012

Parte da sociedade se opõe a atendimento humanizado a moradores de rua


A Constituição Federal estabelece que a assistência social deve ser prestada a quem necessite. Ainda assim, segundo servidores públicos do Distrito Federal, a atenção básica e a humanização do atendimento a moradores de rua enfrenta a oposição de muitas pessoas que não reconhecem em quem mora na rua um cidadão, detentor de direitos, entre eles, o de receber a devida atenção do Estado.

Ouvidos pela Agência Brasil, representantes das secretarias de Saúde e de Segurança Pública do Distrito Federal, além do presidente do Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos, Michel Platini, afirmaram que o preconceito, o desconhecimento da realidade e o medo levam muitos a verem os moradores de rua apenas como uma ameaça ou um transtorno. E a exigir do Estado soluções imediatas para um problema social complexo. Para os três, os crimes contra moradores de rua de todo o país, que chegaram ao conhecimento da imprensa e da sociedade nos últimos dias, são apenas “a ponta de um iceberg”.

"Infelizmente, vivemos com a noção de que parte da sociedade quer exterminar ou higienizar [limpar as ruas da presença dos que não têm casa] estas pessoas, sem reconhecer que elas têm direitos”, comentou Antonio Garcia Reis Júnior, médico da equipe da Secretaria de Saúde do Distrito Federal e responsável por atender às famílias que, sem ter onde morar, vivem nas ruas do Plano Piloto (região central da capital federal). "Há muitas pessoas que não compreendem sequer a existência de equipamentos públicos sociais destinados à população de rua.”

Segundo Reis Junior, a mesma intolerância é verificada entre alguns agentes públicos responsáveis por atender à população de rua. “A rejeição a estas pessoas vem não só de membros de uma comunidade, mas também de alguns servidores públicos e até mesmo dos próprios moradores de rua [entre si]. Há pacientes que reclamam da animosidade com que são tratados em outros equipamentos públicos, da relação com a polícia, entre outras queixas que acabam os afastando do Poder Público.”

De acordo com o major Marcos Lourenço de Brito, chefe do Núcleo de Enfrentamento ao Crack e Outras Drogas, da Secretaria de Segurança Pública do DF, o medo - nem sempre sem razão - que muitos sentem ao avistar um morador de rua tem contribuído para a intolerância de quem defende uma política "higienista" como solução para o problema.

“Quando se sente importunada por moradores de rua, a comunidade em geral quer uma resposta imediata. Muitas pessoas cobram [do Poder Público] atitudes drásticas, às vezes até com viés de violência”, comentou o major. “Muitas vezes, isso resulta em atitudes isoladas, impensadas de pessoas que se sentem agredidas e que, por considerarem que o Poder Público não resolve o problema da forma como gostariam, adotam a justiça com as próprias mãos.”

Ao menos 165 moradores de rua foram mortos no Brasil entre abril de 2011 e a semana retrasada, segundo dados do Centro Nacional de Defesa dos Direitos Humanos da População em Situação de Rua e Catadores (CNDDH). Além dos casos não notificados, as investigações policiais de 113 dessas ocorrências não avançaram e ninguém foi identificado e responsabilizado pelos homicídios.

Somente no Distrito Federal, nas últimas semanas, ao menos três moradores de rua foram mortos e um sobreviveu a um atentado, embora tenha tido queimaduras graves por todo o corpo. Em uma das ocorrências, a Polícia Civil apurou que um comerciante encomendou a morte dos morados de rua por R$ 100.

Diante da repercussão, o governo do Distrito Federal decidiu antecipar para os próximos dias a publicação de um decreto que institui a política de atenção a moradores de rua, estabelecendo medidas de enfrentamento às dificuldades, discriminação e violência enfrentadas por essa população. Além de uma campanha de enfrentamento à intolerância, o governo promete construir três novos abrigos e dois centros de Referência Especializados para Pessoas em Situação de Rua (Centros Pops). O governo também quer realizar cursos de capacitação em direitos humanos de 20 horas para preparar os policiais a lidar com grupos como os de moradores de ruas.

De acordo com o último censo da população de rua da capital federal, há 2.365 pessoas vivendo nas ruas de Brasília. Para a vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da Câmara dos Deputados, a deputada Erika Kokay (PT-DF), os assassinatos e as agressões físicas contra moradores de rua são sintomas de um problema bem maior.

“Devemos estar atentos às agressões, pois elas representam um processo de desumanização, mas também é necessário resgatarmos a lógica de que todos os seres humanos são iguais e têm direitos. Não podemos admitir que a sociedade passe a aceitar as agressões contra os moradores de rua ou qualquer outro grupo como algo natural”, afirmou a parlamentar durante audiência pública realizada nesta semana pelo Conselho Distrital de Promoção e Defesa dos Direitos Humanos.