segunda-feira, maio 28, 2012

Nó na Orelha


Apresentação do Criolo, de graça, em Brasília. 

Sem palavras.

Ou melhor, umas poucas palavras: um dos melhores shows a que já assisti. Na verdade, uma celebração que atraiu cerca de 12 mil pessoas ao CCBB. Celebração principalmente  de reconhecimento ao talento do (ex-??) rapper paulista Kleber Gomes, 36 anos, 24 deles dedicados ao rap (se fosse pra ter medo dessa estrada eu não estaria há tanto tempo nessa caminhada). Se acham que estou exagerando, cliquem aqui para ler parte da avaliação da reportagem do Correio Braziliense, que classificou o episódio como "uma noite memorável".

Minha dúvida quanto a me referir a Criolo como rapper ou ex-rapper se deve ao fato de que seu último disco, o hypado Nó na Orelha, vai do samba ao reggae, passando até por um impensável bolero. E foi justo este ecletismo,  aliado à qualidade musical e  ao frescor das letras, que  motivaram várias publicações especializadas a elegerem Nó na Orelha o  melhor disco de 2011. Com isso, Criolo ampliou seu público (acho que) para muito além do que, a esta altura do campeonato, ele podia esperar.  Tanto que sempre diz que, inicialmente, este seria seu último trabalho, pois pretendia abandonar a carreira musical. 

Agora, depois de tudo que lhe aconteceu nos últimos meses (Chico Buarque cantando a versão do rapper para sua música, Cálice; Caetano convidando Criolo para um show; toda a atenção da mídia), o desafio vai ser corresponder e não se deixar levar pela expectativa em torno de seus próximos trabalhos.






Com recorde de público no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), a esperada apresentação de Criolo foi antecedida por duas atrações locais. A primeira a tocar foi a excelente baixista Paula Zimbres. Conhecida por tocar na banda que acompanha Ellen Oléria, a Pret.utu, Paula desta vez subiu ao palco na companhia de sua banda, a Água Forte, com que toca os jazz com influências de MPB e música erudita que ela própria compõe. O público diversifica que a esta altura já lotava o gramado do CCBB ouviu respeitosamente, entendendo a proposta do evento, que não à toa se chama Todos Os Sons. Infelizmente, não gravei. 

Em seguida, veio outra atração local, o Sistema Criolina, que tocou no esquema Live P.A, ou seja, em português claro, djs como Pezão e Barata tocando com músicos da qualidade do multiinstrumentista Dillo Daraujo. O público se acabou de dançar, ficando no ponto para Criolo. 




E para aqueles que insistem em dizer que em Brasília não há grande opções de cultura (leia dois posts abaixo), enquanto os três shows aconteciam no CCBB lotado (demorei cerca de 20 minutos para conseguir deixar o local, tamanho era o congestionamento), ao lado do Museu da República, na região central, rolava o show da já histórica banda Little Quail. Também de graça. Também muito bom. E com fãs entusiasmados gritando junto as conhecidas letras da banda de rock formada em 1988 por Gabriel Thomaz (guitarra e vocalista, hoje na Autoramas), Zé Ovo (baixo) e Bacalhau (bateria, hoje também no Ultraje a Rigor). 




Tudo isso num só domingo. E olha que sábado a noite já tinha rolado, na quadra da Acadêmicos da Asa Norte, o divertido show da banda Del Rey, projeto "paralelo" do vocalista e apresentador da MTV, China (ex-Sheik Tosado) com os integrantes da banda pernambucana Mombojó e que homenageia os tremendões Roberto e Erasmo Carlos, tocando em ritmo rock´n´roll alguns dos maiores clássicos da dupla. 



E há quem diga que fica em casa por falta de opções...

quarta-feira, maio 23, 2012

Kassin na área



Provando, como afirmo no post abaixo, que Brasília tem sim opções culturais além do que alguém minimamente responsável é capaz de dar conta, hoje (23), além do bloco carnavalesco Sargento Pimenta, na choperia Stadt Bier, a capital federal também recebe o compositor e produtor musical Kassin, que apresenta o bem-recebido disco Sonhando Devagar, lançado no ano passado e apontado por muitos críticos como um dos melhores trabalhos autorais de 2011.

Caçando o que fazer


_  Ah! Brasília não tem o que fazer".

_ Sério. E o caderno de 30 páginas encartado toda sexta-feira no jornal, com a agenda cultural da semana? É ilusão minha?

_ Ah, mas nem se compara com São Paulo. 

_ Puta que pariu. Não, não se compara. Assim como os 140 quilômetros de trânsito paulistano lento também não se compara com nada.

_ ...

 ******

Depois de sete anos vivendo na capital federal, com um breve intervalo de dez meses em que não mais me readaptei à cidade de São Paulo, conclui que o Distrito Federal é vítima de duplo preconceito.

O primeiro, externo, é perpetuado por quem não conhece ou conhece superficialmente a cidade. E, mesmo assim, sai reproduzindo clichês. Além disso, os estereótipos e chavões também são disseminados por muita gente que, como eu, veio morar na cidade em busca de oportunidades de emprego ou estudo, mas segue desprezando-a. 

(Não que Brasília - e o Distrito Federal como um todo - não mereça ser criticada. Mas há motivos e motivos para tanto. E, sinceramente, ouvir quem insiste em compará-la com a capital paulista, por exemplo, é algo que, hoje, me torra a paciência) 

Na semana passada, em três situações, me vi sentado à mesa diante de pessoas saudosas da pauliceia desvairada, apontando a falta de opções culturais em Brasília. Irritado, no sábado de manhã, me propus a ver o que havia para ver e fazer na cidade e do que eu dava conta.

Para começar, escolhi um dos 32 filmes atualmente em cartaz na cidade. Lógico que, entre eles, há muita porcaria, mas isso não é uma exclusividade brasiliense. Para meu teste, por acaso, me dei bem. Aliás, superbem. 

Assisti ao excelente Habemus Papum, do diretor italiano Nanni Moretti, um filme sensível e engraçado que narra as incertezas com que o Vaticano tem que lidar quando o papa recém-eleito sofre uma crise e um bloqueio no dia em que se apresentaria aos fieis. Quando as luzes se acenderam, constatei que quase todos na plateia tinham um sorriso no rosto.

Sai do cinema e tive que correr para chegar a tempo do segundo programa escolhido, o primeiro dos dois espetáculos do Festival Teatro Brasileiro, que, até o dia 3 de junho,  trará 16 peças gaúchas a quatro cidades do Distrito Federal e a outras quatro de Goiás.

Primeiro assisti a Automákina - Universo Deslizante, do grupo De Pernas Pro Ar. A interação do ator Luciano Wieser com a bem bolada máquina-cenário (que também faz às vezes de instrumento musical (!)) e com os bonecos-autômatos com máscaras que lembram o rosto do próprio ator é interessante, mas tenho dúvidas se compreendi a questão central da peça, "a arte da sobrevivência". 

Na sequência, sem intervalo, seguiu-se a apresentação do espetáculo Miséria, Servidor de Dois Estancieiros, da Oigalê Cooperativa de Artistas Teatrais, que conquistou o público com a bem-humorada história do ferreiro Miséria, seus dois patrões e os personagens que lhes cercam.

A noite de sábado ainda reservava vários shows. Para mim, o  que mais prometia era o do Sargento Pimenta, bloco carnavalesco carioca que toca clássicos dos Beatles como All You Need is Love e Yellow Submarine em ritmo de samba (e que, hoje (23), se apresenta na choperia Stadt Bier). Fora as festas, como a sempre bombada Makossa, apresentações musicais em bares e shows , para mim, de gosto duvidoso, como o do "romântico" Tiaguinho.

No domingo, perto da hora do almoço, peguei a bicicleta e fui conferir a exposição de fotos Laços de Família: Etnias do Brasil, na Biblioteca Nacional. Pedalando pelo Eixão fechado ao tráfego de veículos, pensava em ir também ao Conjunto Cultural da República (aquele em formato de bola, no centro da Esplanada dos Ministérios), onde estão em cartaz as exposições O Egito Sob o Olhar de Napoleão e outra de quadros do artista plástico Willy Bezerra de Mello. No final das contas, como tinha uma almoço marcado e perdi algum tempo apenas vendo o movimento de pessoas caminhando pelo Eixão, acabou não dando tempo. 

A tarde, segui para a Caixa Cultural para assistir a mais uma peça do festival de teatro. A da vez foi O Amargo Santo da Purificação, do grupo Ói Nóis Aqui Traveiz, que levou algumas pessoas às lagrimas com o excelente e comovente espetáculo sobre a vida do político e líder da luta armada contra o regime militar, Carlos Marighella.

Para ver um filme, três peças e uma exposição, (mais um dvd em casa) durante apenas um dia e meio, tive que preterir quase uma centena de outras opções. Mas, entre um programa e outro, tive o privilégio de rodar a pé, de ônibus e de bike pelo arborizado Plano Piloto, sob sol e céu azul, enquanto, em boa parte do país, as pessoas tiritavam de frio. No fim das contas, comprovei para mim mesmo que, conforme afirmava, Brasília tem sim o que oferecer.  Inclusive barato ou de graça. Basta disposição e acesso à informação.

sábado, maio 19, 2012

Racionais canta Marighella

Enquanto não solta seu aguardado novo disco, o mais influente grupo do rap brasileiro, o Racionais, antecipa, na internet, um aperitivo do que vem por aí. Musicalmente, nem é tudo isso, mas em um tempo em que o rock nacional já não cumpre o papel de catalizar (nem que para fins comerciais) a rebeldia artístico-musical, ver os caras musicando "pros mano, pras mina e pros boy" o discurso "extremista" do militante - ou "terrorista"- de esquerda", Carlos Mariguella, não deixa de ser provocador.

segunda-feira, maio 14, 2012

Correio ressucita Brandon Lee


Desatenção. Em seu site, o Correio Braziliense usa foto de ator morto em 1993, durante as filmagens do filme O Corvo, para ilustrar o programa do recém-lançado O Corvo, protagonizado por John Cusack e que nada tem que ver com a personagem maquiada abaixo.

O corvo (The raven, Hungria/Espanha/EUA, 2012) 

Sinopse: O escritor Edgar Allan Poe está à procura de um assassino que se espelha nos crimes dos contos escritos por ele. 

Diretor: De James McTeigue Gênero: Suspense Duração: 111 minutos

Elenco: Com John Cusack, Luke Evans e Alice Eve


sexta-feira, maio 04, 2012

Românticos do Planalto Central


Ando preguiçoso. Levei quase um mês para editar e disponibilizar os vídeos e escrever algo sobre as apresentações dos brasilienses Alysson Takaki e Ingrid Cardozo no teatro da Livraria Cultura do Shopping Iguatemi, em Brasília (DF), no dia 5 de abril. Enfim, aqui estão.

O show foi o primeiro do ano do projeto GRV360º|ConectandoCriações, promovido pelo selo GRV Discos, empresa brasiliense que conta com mais de 30 artistas em seu catálogo e opera também uma loja e uma agência promotora de eventos.

Gratuito, o show lotou o excelente Teatro Eva Herz e serviu para que Takaki lançasse seu segundo cd, Querer Sem Fim. Produzido pela competente Larissa Vitorino (que, no show, se destaca tocando guitarra ao lado da afinada banda que acompanha Takaki), o disco pode ser ouvido na íntegra no site da GRV. Não é muito minha praia, mas deu pra notar que Takaki agrada em cheio àquela  parcela do público que curte um som mais intimista e romântico. Ouça aqui e tire suas próprias conclusões.

A meu ver, no entanto, a surpresa da noite ficou por conta da voz cristalina e grave da jovem Ingrid Cardozo, que surpreendeu e conquistou a atenção do público. Mesmo sem entender nada do assunto (o que me dá a possibilidade de escrever besteiras subjetivas), eu diria que a menina promete, faltando-lhe apenas definir logo sua identidade artística e se projetar mais no palco, dando mais de si à interpretação. Nem só de momentos delicados e de voz afinada se faz um bom show.










quinta-feira, maio 03, 2012

Deputado do DF pode ser processado por tortura

O Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) inocentou a auxiliar de ensino infantil Tatiane Alves de Jesus da acusação de denúncia caluniosa contra o atual vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, Márcio Michel Alves de Oliveira (PSL). A auxiliar afirma ter sido torturada na época em que o deputado, conhecido como Doutor Michel, chefiava a 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho (DF). O caso chegou à Corregedoria da Polícia Civil que inocentou o então delegado e determinou que Tatiane respondesse pelo crime de denúncia caluniosa. 

Com a decisão da Justiça em favor de Tatiane, cabe agora ao Conselho Especial do tribunal decidir se o deputado responderá criminalmente às acusações de tortura. Michel nega as acusações. O caso ocorreu em 2009. À época, Tatiane cursava o segundo semestre de pedagogia e trabalhava como empregada doméstica em uma casa de um condomínio em Sobradinho. 

No dia 15 de julho de 2009, a residência foi assaltada por homens encapuzados que fizeram Tatiane refém, trancando-a em um quarto. No dia seguinte, Tatiane compareceu à delegacia para prestar depoimento na condição de vítima e testemunha. Entretanto, segundo ela, os policiais queriam que ela admitisse participação no assalto. A ex-empregada doméstica afirma ter sido mantida incomunicável das 13h do dia 16 (dia seguinte ao assalto) até as 18h do dia 17 de julho. 

Depois de ser ameaçada e coagida pelos policiais, ela foi levada para a sala do então delegado Michel. Ela afirma que o delegado bateu em suas mãos por duas ou três vezes com um cassetete de borracha. Ele também ameaçou bater nos pés, caso ela não dissesse os nomes dos assaltantes. Sob tortura, Tatiane acabou assinando um termo de confissão. 

“Eu contei o que havia acontecido, mas o Doutor Michel não acreditou na minha versão. Eu fiquei por mais de 24 horas na delegacia e durante esse tempo fui torturada psicologicamente e fisicamente, com golpes de cassetetes nas palmas das mãos”, contou à Agência Brasil. Três dias após ter sido solta e orientada por um advogado, ela prestou queixa contra o delegado na Corregedoria da Polícia Civil. No local, Tatiane disse que sofreu ameaças por parte dele, que ordenou que ela não contasse o que havia ocorrido para ninguém. 

A denúncia também foi apresentada ao Núcleo de Controle da Atividade Policial do Ministério Público do Distrito Federal. No mesmo dia, Tatiane se submeteu a exame de corpo de delito no Instituto Médico-Legal (IML), mas, como já tinham se passado três dias da prisão, nenhum hematoma foi encontrado. Sem provas concretas, a corregedoria concluiu que a professora não havia sido torturada e que Michel era inocente. Tatiane acabou sendo denunciada pelo crime de denúncia caluniosa, cuja pena varia de dois a oito anos de prisão. 

Para o promotor de Justiça, Mauro Faria, contudo, os autos do processo demonstram que “longe de ser o fato noticiado inexistente e de ser o [ex] delegado inocente, […] o crime de tortura ocorreu”. Em audiência no dia 28 de março, o promotor argumentou que Tatiane deveria ser absolvida e uma ação penal ajuizada contra Michel. 

“Mesmo que a acusada tivesse sido autora do roubo na casa da ex-patroa, o procedimento policial seria criminoso, pois não se pode torturar nem mesmo aos denunciados culpados para, assim, descobrir práticas criminosas.” 

Na última sexta-feira (27), o juiz Carlos Pires Soares Neto, da 4ª Vara Criminal, considerou improcedente a denúncia contra Tatiane e decidiu pela absolvição da auxiliar. O juiz também determinou que cópias do processo sejam remetidas ao Conselho Especial do TJDFT, órgão competente para processar e julgar, nos crimes comuns e de responsabilidade, os deputados distritais, além do governador, vice-governador e secretários de governo do Distrito Federal e Territórios.

Procurado pela Agência Brasil, o deputado distrital negou as acusações. “Não houve nada disso. Eu não torturei ninguém e se ela [Tatiane] foi absolvida [da acusação de denúncia caluniosa] é porque as provas não foram suficientes para condená-la. Agora, cabe apurar se as acusações que ela atribui a mim ocorreram e eu vou me defender se o conselho julgar necessário.” 

Composto por 17 desembargadores, entre eles os representantes dos advogados e do Ministério Público, o conselho é presidido pelo presidente do TJDFT, o desembargador João de Assis Mariosi. Em função do feriado, até esta quarta-feira (2), a documentação ainda não havia sido encaminhada.


Deputado nega ter torturado ex-empregada doméstica

Vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal, o deputado distrital Márcio Michel Alves de Oliveira, o Doutor Michel, nega ter torturado a ex-empregada doméstica Tatiane Alves de Jesus em 2009, período em que ele chefiava a 35ª Delegacia de Polícia, em Sobradinho (DF). 
Na última sexta-feira (27), o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) absolveu Tatiane da acusação de denúncia caluniosa contra o ex-delegado e determinou que cópias do processo sejam remetidas ao Conselho Especial do tribunal, órgão competente para processar e julgar, nos crimes comuns e de responsabilidade, os deputados distritais. Caberá ao conselho decidir se o deputado responderá criminalmente à acusação de ter torturado Tatiane para, segundo ela, obter uma falsa confissão de participação em assalto.

“Eu não torturei ninguém e se ela [Tatiane] foi absolvida [da acusação de denúncia caluniosa] é porque as provas não foram suficientes para condená-la. Agora, cabe apurar se as acusações que ela atribui a mim ocorreram. Eu vou me defender se o conselho julgar necessário e provar que o que ela diz não passa de uma falácia”, disse o deputado e delegado aposentado a Agência Brasil.

Michel diz estar convencido da participação de Tatiane no assalto à casa onde ela trabalhava como empregada doméstica. “Mesmo a Justiça tendo absolvido, eu tenho certeza de que ela participou do roubo junto com as pessoas que entraram na casa. Os indícios e as contradições no depoimento dela me levaram a não ter dúvidas quanto a sua participação”, comentou o deputado, que admite que nenhum dos assaltantes presos confessou a participação de Tatiane.

“Ela disse que os assaltantes a prenderam sozinha em um quarto da casa, mas era um cômodo com uma janela com menos de 1 metro de altura que dava para um matagal. Por que ela não fugiu? Além disso, é muita coincidência que os assaltantes morassem no mesmo bairro da Cidade Ocidental em que ela vivia e fossem praticar o roubo em Sobradinho. Enfim, o delegado não trabalha com provas reais e, sim, com indícios e o conjunto de indícios nos levaram a crer que ela estava de conluio com as pessoas que praticaram o roubo”, contou.

Ao longo de 27 anos na Polícia Civil, 15 deles como delegado, Michel respondeu a pelo menos cinco denúncias por abuso de poder, tendo sido inocentado pela Corregedoria da Polícia Civil em todas elas. “Só não responde a denúncias quem não trabalha. Agora estão querendo manchar minha imagem. Como não me pegam em negociatas, estão querendo me pegar pela minha vida profissional. Não vão conseguir.”

Para Michel, o resultado do exame de corpo de delito deixou claro não haver provas de que Tatiane tenha sido torturada. “Ela foi ao IML e nada foi constatado. Como uma pessoa que diz ter sido torturada não tem marcas? Por isso ela foi indiciada por falsa comunicação de crime. Se não há marcas, como provar a tortura? Eu teria que ser muito hábil para torturar sem deixar marcas. E eu nem sou hábil nem torturador. Eu era delegado.”

Tatiane e seu advogado, Gilberto Gonzaga, afirmam que o exame não constatou as marcas das agressões com cassetetes porque foi feito quatro dias depois da prisão.

"Só quero meu nome limpo", diz ex-empregada que acusa deputado do DF de torturá-la

A ex-empregada doméstica Tatiane Alves de Jesus disse que se sentiu aliviada quando soube, pela Agência Brasil, que o Tribunal de Justiça do Distrito Federal e Territórios (TJDFT) a absolveu da acusação de caluniar o deputado distrital e ex-delegado de polícia Márcio Michel Alves de Oliveira, o Doutor Michel (PSL). Tatiane de Jesus afirma ter sido torturada pelo deputado distrital em 2009, quando ele ocupava o cargo de delegado em uma delegacia de polícia da capital do país.

Procurada esta manhã (3), Tatiane comentou jamais ter entendido como, de vítima e testemunha do assalto à casa onde trabalhava em 2009 e de autora da denúncia de que o delegado a teria torturado para que ela confessasse participação do roubo, acabou respondendo à acusação de denúncia caluniosa, crime cuja pena varia de dois a oito anos de prisão e da qual foi inocentada na última sexta-feira (27).

“É uma pergunta que nem mesmo o juiz soube responder quando eu fui denunciada. Eu pensei comigo: este é o Brasil. Um inocente pode ir pra cadeia enquanto vários culpados estão soltos”, lamentou a ex-empregada doméstica que, hoje, trabalha como auxiliar de ensino infantil. Ela espera que, com a absolvição do crime de denúncia caluniosa, Doutor Michel “pague por toda a mudança na minha vida”.

“Eu só queria meu nome limpo. Até porque preciso disso para prestar um concurso público. Para mim, o caso se encerrou aqui, embora eu espere que a Justiça seja feita”.

Na entrevista a Agência Brasil, Tatiane de Jesus lamentou que a ex-patroa dela tenha acreditado na versão da Polícia Civil. A ex-empregada repetiu tudo o que narrou nos vários depoimentos que prestou desde julho de 2009. Naquela data, sustenta, três homens armados invadiram a casa em que trabalhava, em um condomínio de classe média na cidade satélite de Sobradinho.

“No dia seguinte ao roubo eu fui à delegacia para servir de testemunha. Contei o que tinha acontecido, mas o Doutor Michel não acreditou na minha versão. Eu fiquei por mais de 24 horas na delegacia e, durante esse tempo, fui torturada psicologicamente e fisicamente”.

De acordo com Tatiane, o delegado e hoje vice-presidente da Câmara Legislativa do Distrito Federal pegou um cassetete e bateu nas palmas das mãos dela ao menos quatro vezes. “Ele dizia que sabia que eu não era bandida, mas que eu tinha cometido uma falha e que era melhor eu confessar ou, então, ele passaria a bater também nos meus pés e a situação ainda iria piorar. Ele queria [provar] que eu era a mandante do roubo. Eu assinei uma confissão admitindo ter ajudado os assaltantes, mas nem me lembro direito do conteúdo da confissão porque eu estava apanhando”.

A ex-empregada disse que ficou incomunicável na 35ª Delegacia de Sobradinho das 13h do dia 16 às 18h do dia 17 de julho.

À Agência Brasil, o deputado distrital Doutor Michel negou a acusação de tortura. Ele garantiu que, durante este tempo, Tatiane falou com várias pessoas que estiveram na delegacia. “Quando ele me soltou, ameaçou me matar se eu contasse a alguém o que tinha acontecido. Só que eu não tenho medo. Sinceramente, eu não tenho medo”, comentou Tatiane. Depois de liberada, Tatiane prestou queixa contra Michel na Corregedoria da Polícia Civil e se submeteu a exame de corpo delito no Instituto Médico-Legal (IML).

“O resultado apontou um laudo impreciso porque, além do tempo que havia passado, as mãos têm uma facilidade maior de esconder hematomas”, explicou Tatiane de Jesus.

sábado, abril 28, 2012

Falta Raul


Atenção. Nenhum animal foi ferido durantes as filmagens de Raul - O Início, O Fim E O Meio. Já a sutileza ou a sensibilidade de algumas pessoas, sobretudo das mulheres que viveram com Raulzito... 

Exagero? Pode ser. Mesmo porque o documentário de Walter Carvalho não é ruim, anti-ético ou coisa parecida, apesar de apelações como a de refilmar os passos da ex-empregada do compositor em sua volta ao apartamento onde ela o encontrou morto, em 1989.

A questão, pra mim (e, sendo eu o dono deste blog, posso me dar ao luxo de escrever meramente a partir da minha subjetividade), é que deixei o cinema não com  interesse  redobrado pela história já muito conhecida de Raul, mas sim com a impressão de que, para muitos dos entrevistados, principalmente para as ex-mulheres e filhas do cantor e compositor, falar sobre Raul parece ter sido muito dolorido. Não por acaso, todas - sim, todas - em algum momento choram (e, na maioria dos casos, vê-se que é um choro dolorido e aparentemente almejado pela produção). Uma inclusive se nega a dar seu depoimento, limitando-se a dizer que este é um capítulo encerrado em sua vida, sobre o qual não fala, e que está muito bem assim. 

O último parceiro de Raul, o ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova, também é envolvido em uma polêmica que - de novo, EU ACHO -, apesar de questionável, é a única novidade em termos de informação (não considerando, óbvio, as imagens inéditas ou pouco conhecidas de Raul, grande razão de ser de uma cinebiografia). 

E aqui entro com mais uma nota pessoal a justificar MINHA IMPRESSÃO. Eu tinha a fita K-7 de A Panela do Diabo, disco que os dois gravaram juntos e que se tornou o último registro de Raul. Jamais passou pela minha cabeça a possibilidade de que Nova tivesse se aproveitado de Raul e nunca tinha visto ninguém sequer sugerir isso publicamente. Até porque, como mostrado no próprio documentário, na época em que se reuniram, Nova estava no auge de sua popularidade, ao passo que Raul, doente, embora idolatrado pelos raulmaníacos, há quatro anos não subia num palco. Isso era perceptível quando se ouvia o disco. Assim como a admiração de Nova por Raul ficava clara nas entrevistas que os dois concederam juntos. 

Gostaria de ter ouvido mais histórias de Nova sobre as últimas apresentações de Raul e, principalmente, saber dele se é verdade que Panela do Diabo chegou às lojas no dia em que Raul morreu. Gostaria de saber o que Zé Ramalho e Tom Zé disseram, já que nada deles foi ao ar, em detrimento de cenas completamente dispensáveis (Pedro Bial declamando!?!?!). Enfim, gostaria de saber mais sobre o artista Raul e menos sobre o "homem, companheiro, pai, alcoólatra". Só Walter, sua equipe e, parcialmente, os entrevistados, contudo, sabem o que ficou de fora na hora da edição, a forma como as entrevistas foram conduzidas e porque de tal opção.

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O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

Se o mundo de fato acabar no próximo dia 27 de agosto - como crêem os que citam determinada profecia - o dia 27 de agosto de 2011 terá sido um prenúncio ou uma mera coincidência? - Crendices à parte, o documentário Red Code, da Billabong, exibe uma das ondulações mais absurdas já surfadas em Teahupoo, no Tahiti. Ondas gigantescas que, por acaso, quebraram num dia 27 de agosto. E que produziram cenas impressionantes de homens desafiando a morte, que os espreita a não mais que um metro de profundidade, na forma de afiadissimos corais - o que fica patente aos 1:52 do vídeo, quando uma tomada aérea e a água translúcida deixam óbvio o porque de, na língua local, a temida onda ser apropriadamente chamada de "crânio quebrado", um palco para poucos seres humanos, totalmente insanos. Pena não haver ainda uma versão legendada do documentário.

sexta-feira, abril 27, 2012

"Em cima dos telhados, tocam música urbana"

Quarenta e três anos de rock´n´roll no telhado.

Em 1969, os Quatro de Liverpool foram os primeiros roqueiros a tocar no alto de um prédio, no caso, o da gravadora Apple...



Em 2009, foi a vez dos irlandeses do U2 pararem o trânsito para gravarem um vídeo que enche a qualquer um da fantasia de tocar numa banda



No ano passado, foram os RED HOT ChILI PEPPERS que decidiram subir ao telhado e presentear os frequentadores da mítica e louca praia de Venice, na Califórnia, com uma apresentação-relâmpago registrada em um dos vídeos mais legais de 2011. 



O OASIS também gravou um video-clip na King´s Cross, Supersonic, mas, ao contrário das outras bandas, usou o telhado como mera locação e não como palco de onde se apresentar ao público
 

Zé Peixe


Morreu ontem (26) (e já se tornou item da Wikipedia), um famoso personagem da náutica brasileira. O prático sergipano Zé Peixe, que exercia a profissão desde os 14 anos. Peixe ficou famoso por dispensar botes e apoio, nadar até os enormes navios transatlânticos e depois saltar deles direto para o mar, mesmo quando já tinha idade para se aposentar. Zé Peixe morreu aos 85 anos e deixou para trás uma história provavelmente inédita no mundo de maluquice e coragem. (fonte:sobreasaguas.blog.uol.com.brsobreasaguas.blog.uol.com.br)

Anderson Silva golpeia Globo



O lutador de MMA Anderson Silva decidiu aceitar a oferta (leia-se a proposta financeira) para enfrentar seu próximo adversário, Chael Sonnen, na capital das apostas, a cidade norte-americana de Las Vegas, ao invés de lutar no Rio de Janeiro, conforme inicialmente previsto. 

E daí? Daí que a decisão de Silva é uma rasteira na Rede Globo. Dona dos milionários direitos de transmissão do campeonato UFC para a tv aberta brasileira, a emissora apostava faturar alto com o combate, válido pelo título de campeão mundial dos pesos-médios e vendido como uma das maiores rivalidades esportivas da atualidade. Tomou um chute de seu mais recente queridinho.

Silva também contrariou os interesses da IMX, empresa de Eike Batista, parceira do UFC no Brasil e responsável por promover a luta no país. Falta saber se Ronaldo Nazário, atual membro do Comitê Organizador Local da Copa 2014 e aspirante à presidência da CBF, ficou contente ou frustrado com a decisão de um dos principais atletas agenciados por sua empresa de marketing esportivo.

Será o fim da lua-de-mel entre Globo e Anderson Silva e da exploração inconsequente da selvageria arbitrada pela emissora? Se bem conhecemos a Vênus Platinada, não será de estranhar que Silva nunca mais volte a botar os pés no Projac. Daí que, sem a presença do mais carismático lutador brasileiro, Ana Maria Braga, Serginho Groisman, Fantástico, Esporte Espetacular, etc  tenham que restringir a exposição das lutas as suas devidas proporções, de maneira isenta. 

Coincidentemente, esta isenção já havia sido exibida por ao menos um programa jornalístico da Globo. Na última terça-feira (22), o "Profissão Repórter" levou ao ar uma tentativa de humanizar os lutadores de MMA, vendidos pela própria emissora, como bem lembrou o UOL Esportes, como os "gladiadores do terceiro milênio". Segundo a imprensa, a atração irritou Silva, apresentado como um cara marrento. O episódio acabou ironizado na rede.


quinta-feira, abril 26, 2012

17:50


Luz perpendicular sobre o eixinho. 
Claro átimo de espanto 
- antes olfativo e sonoro -
impacta metálico a epiderme 
                           os músculos 
                                 os ossos 
a sensibilidade dos pedestres 
abduzidos à indiferença por minutos-vivazes 
instantes-limites
solidariedade fugaz. 

Cerrada a porta, 
acesa a sirene que corta as veias congestionadas,
tudo o que resta são os pedestres e sua indiferença.
(os motoristas? São passageiros)


(foto de Anderson Schneider publicada em série de matérias da revista Época por ocasião dos 50 anos de Brasília)

quarta-feira, abril 25, 2012

Notas cinematográficas

Lisbeth Salander é a heroína-síntese destes nossos tempos de Wikileaks. Filha de uma família disfuncional, ex-interna de uma instituíção de recuperação e vítima, quando criança, de abuso sexual e da ação de agentes públicos corruptos e pervertidos, a hacker "capaz de desencavar as informações mais obscuras" se tornou uma pessoa cética, revoltada e anti-social. Bissexual e com um visual andrógino e punk, a personagem de 24 anos criada por Stieg Larsson para a série Millenium é contraditória, egoísta, frágil e independente, mas ai de quem agredir ou ameaçar uma mulher. Aí ela é simplesmente fodona. Algumas locadoras se anteciparam e obtiveram cópias piratas do segundo episódio da trilogia sueca, A Menina Que Brincava Com Fogo. Não tem o clima noir do primeiro, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, e Salander praticamente não contracena com o jornalista Mikael Blomkvist, mas a trama da intrincada investigação de um esquema de prostituição internacional é tão envolvente quanto a do primeiro filme sueco - adaptado às pressas por Hollywood. Leia: Por que amamos tanto Lisbeth Salander
E o novo filme de Johnny Depp, Diários de Um Jornalista Bêbado? Alguém será capaz de, dois dias após tê-lo assistido, dizer do que trata a história? Da luta contra o alcoolismo (dirão os caretas)? Da resistência à especulação imobiliária (dirão os idealistas)? Da ingerência norte-americana na América Central (dirão os politizados)?De amor (dirão os românticos que não souberem nada sobre Hunter Thompson, o norte-americano que ficou conhecido como o inventor desta fajutice chamada jornalismo gonzo)? Do retrato do artista (?) quando jovem incompreendido em busca de se expressar (filmes assim devem ter um efeito catártico sobre a maioria, que acredita que lutar contra a mediocridade é exclusividade dos artistas doidões)? Medo e Delírio em Las Vegas, primeira tentativa do mesmo Johnny Depp de levar a obra de Thompson para as telas, ao menos tinha momentos engraçados e outros de puro nonsense. Já este...filme vazio, fadado ao esquecimento. Leva ao menos uns vinte minutos para que o espectador se identifique e começe a simpatizar com um personagem. E não é com o de Depp, mas sim com o fotógrafo Sal.
Ainda é cedo para falar (e também não muito importante), mas Xingu talvez seja o filme certo para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Um filme oportuníssimo dirigido com sensibilidade por Cao Hamburguer. Questão indígena, conflito agrário, preservação ambiental, Amazônia, política...tudo isso servindo como pano de fundo para uma história humana de despreendimento e aventura das mais cativantes, com a qual plateias de qualquer parte podem se identificar. E ainda por cima com direito à críticas sutis ao Pará e ao Mato Grosso (agora, do Sul).

segunda-feira, abril 23, 2012

Brasília: 52 anos


21 de abril de 2012. Esplanada dos Ministérios. Brasília. Distrito Federal. 

Até Paulo Freire compareceu para protestar contra a corrupção e por mais investimentos na Educação. À 3ª Marcha Contra a Corrupção se juntaram pessoas que estavam por ali, visitando a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, assistindo ao campeonato de balonismo, à prova de atletismo, o campeonato de vôlei de praia (!) ou simplesmente passeando pela Esplanada. Lugar que quem não conhece a realidade local insiste em dizer não concentrar "povo". Tudo isso sob este céu pelo qual Brasil é internacionalmente reconhecida.

"povo também são os sifilíticos / não só atletas e políticos / povo são as bichas, putas e artistas / e não só os escoteiros e heróis de falsas lutas, / são as costureiras e dondocas / e os carcereiros / e os que estão nos eitos e docas", já escreveu Affonso Romano de Sant´anna (Que País é Esse). Se  os skatistas, estudantes, professores, vendedores d´água e comida, jornalistas, servidores públicos, bêbados ao meio-dia sob o sol de 36º e nenhuma sombra de Niemayer e toda sorte de gente  que tomou à Esplanada no último final de semana não for tão "povo" quanto o que vai e vem pela Avenida Paulista ou se deita de bruços no Posto 9, então não sei o que é.




Visitantes da Bienal do Livro devem pesquisar se quiserem economizar, recomendam frequentadores

 
Quem for à 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura com a intenção de comprar livros deve procurar e pesquisar os preços se quiser economizar. O governo do Distrito Federal (GDF) distribuiu R$ 40 para alunos e R$ 80 para professores da rede pública gastarem na compra de livros na feira deste ano. De acordo com os educadores responsáveis para que seus alunos não gastem mais do que têm, os preços cobrados no evento, em muitos casos, são maiores do que nas livrarias de Brasília.

Professora de uma escola de ensino fundamental do Plano Piloto, Karen Helena estava com uma turma de 15 estudantes. Ela elogiou a iniciativa do GDF, mas lamentou o preço da maioria dos livros mais procurados pelos jovens.

"Um ou outro título está um pouco mais barato que nas livrarias, mas, de maneira geral, estão saindo ou pelo mesmo preço ou mais caros. Numa bienal ou feira do livro, principalmente se realizada por um governo, os livros deveriam ser mais baratos para estimular a compra e a leitura", disse Karen.

A professora explicou que os estudantes têm liberdade para escolher os livros, mas que, antes de pagá-los, verifica se a leitura está apropriada à faixa etária.

A bibliotecária de Planaltina, Elisângela Rodrigues Costa, afirmou que o fato deste dinheiro só poder ser gasto na bienal faz que as editoras e as distribuidoras elevem os preços.

"Como estamos adquirindo livros para a biblioteca, já vinhamos pesquisando os preços em vários lugares. Estamos achando que, aqui, eles estão um pouco altos. Por isso já desistimos de comprar alguns títulos que encontramos. Lógico que a iniciativa é boa, porque, bem ou mal, os alunos estão adquirindo os livros, o que a maioria deles não tem como fazer. O ruim é a restrição de não podermos gastar o valor em outros lugares", disse a bibliotecária.

A Agência Brasil pesquisou, via internet, o valor de alguns dos livros comprados por estudantes que visitaram a bienal na manhã desta sexta-feira (20). O romance Para Sempre, de Alyson Noël, pelo qual uma aluna pagou R$ 24,90, foi encontrado por R$ 19,90. Um Dia, de David Nicholls, adquirido por R$ 29,90, poderia ter sido comprado por R$ 22,30.

Outros títulos muito procurados pelos jovens, como as coleções Diário da Princesa, de Meg Cabot, e A Lenda dos Guardiões, de Kathryn Lasky, não tiveram diferença em relação aos preços encontrados fora da bienal.

Já um livro para professores como 1922 - A Semana Que Não Terminou, de Marcos Augusto Gonçalves, sobre a Semana de Arte Moderna, que em um dos stands da feira estava sendo vendido por R$ 49, pode ser encontrado por R$ 41 em uma grande rede de livrarias.

A Agência também encontrou alguns títulos mais baratos na bienal, caso de Niketche - Uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane, à venda no stand da editora por R$ 49,50, enquanto é encontrado por R$ 62,50 no site de uma das mais populares redes de livrarias. Há ainda, no evento, uma grande quantidade de obras em promoção. Alguns editores dizem ter concedido descontos de até 70% em determinados títulos.

A professora universitária Kleibe Brum diz ter gasto quase R$ 600 e garante que, em outro lugar, a conta sairia bem mais salgada.

"Compramos em torno de 25 livros técnicos de pedagogia e letras, mas cansamos de andar. Visitamos todos os stands até que eu encontrasse em promoção várias obras que eu já conhecia e sabia que, fora, custam muito mais caros", disse.

De acordo com a representante da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Edriane Daher, a meta do governo distrital é beneficiar 24,9 mil professores e cerca de 25 mil alunos com a iniciativa, para a qual foram destinados R$ 3 milhões.

"Do ponto de vista pedagógico, possibilitar que o aluno e o professor comprem um livro na bienal tem um caráter simbólico de representar o direito de ambos de não saírem da bienal sem levar algo. Não fiz uma pesquisa de preços, mas o que eu sei é que, inicialmente, a Secretaria de Cultura (Secult), que é a responsável por esta parte da organização, estava negociando com os expositores o compromisso de eles oferecerem descontos em todos livros", informou Daher.

A Agência Brasil entrou em contato com a Secult, mas não teve resposta sobre a obrigatoriedade do desconto.

"Sinto quase que como um dever patriótico não abandonar Portugal", diz Miguel Sousa Tavares


O escritor português Miguel Sousa Tavares admitiu hoje (20) ter planos de viver no Brasil. Seu projeto era mudar-se ainda este ano, mas a grave crise econômica que seu país enfrenta o fez repensar.

"É um projeto sobre o qual ainda não me decidi. Planejava me mudar na metade deste ano e viver metade do ano no Rio de Janeiro, metade em Portugal. Só que Portugal anda tão ruim que eu sinto quase um dever patriótico de não o abandonar. Ficar e ao menos tentar resistir a esta crise até que possamos voltar a levantar a cabeça", disse o escritor à Agência Brasil, depois de sua palestra na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília (DF) até a próxima segunda-feira (23).

Autor de Rio das Flores, No Teu Deserto e Equador (adaptado para a televisão e exibido, no Brasil, pela TV Brasil), o escritor e jornalista afirma que seria a pessoa mais feliz do mundo se pudesse se dividir entre os dois países.

"O Brasil é um país que me fascina, com muita coisa ainda por descobrir. Há uma modernidade e, ao mesmo tempo, um primitivismo que me causa grande alegria quando venho ao país. Somando a esta, acho que já são 45 vindas", disse Tavares.

O escritor ainda comentou que a obra de autores brasileiros, com destaque para Jorge Amado e Érico Veríssimo, foi o que primeiro chamou sua atenção. Em seguida, a música e o cinema. No texto que leu durante sua apresentação, o português chegou a confessar sentir inveja dos autores brasileiros.

"[Inveja] da sua inesgotável matéria-prima de inspiração, das suas inacreditáveis histórias, que não seriam verossímeis em nenhum outro lugar senão aqui. Da sua infinita capacidade de romancear num país que, 500 anos depois da descoberta oficial, tem tanto ainda por descobrir. Eu sou filho de um imaginário gasto e cansado, de um continente velho e exaurido que é a Europa".

"Função da literatura é encantar crianças e contar histórias", diz Miguel de Sousa Tavares


"A função primeira da literatura é encantar crianças e contar histórias". Foi desta forma que o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares definiu hoje (20), na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece em Brasilía (DF), sua visão pessoal sobre a finalidade da literatura.

Para o autor de Rio da Flores, No Teu Deserto e Equador (romance adaptado para a tv e exibido, no Brasil, pela TV Brasil), a capacidade de cativar a atenção de alguém narrando algo é um privilégio e um desafio, independente do meio.

"Escrever é contar uma história, de maneira que todos os contadores de história são escritores, mesmo que não escrevam ou não saibam escrever", disse Tavares no texto que escreveu especialmente para ser lido durante sua apresentação no evento literário, que acontece até a próxima segunda-feira (23).

Filho de uma das mais importantes poetisas portuguesas do século passado, Sophia de Mello Breyner Andresen, vencedora do Prêmio Camões, em 1999, Tavares afirmou que a principal influência que recebeu de sua mãe foi entender a importância da sonoridade do texto e que esta deve ser simples.

"Há autores que acham que escrever não é necessariamente contar uma história. Acham que o que importa são as palavras, o estilo da escrita, a beleza da fórmula, não aquilo que se conta ou deixa por contar. Em minha opinião, estão enganados", disse Tavares, destacando que a simplicidade do texto não implica em empobrecimento de conteúdo. "Eu, por exemplo, gosto de criar ambiguidades em minhas histórias, pois acho que cada leitor pode ler um romance à sua maneira e que o escritor deve deixar que isso aconteça".

Entusiasta das obras de autores brasileiros, com destaque para Jorge Amado e Érico Veríssimo, cujas obras despertaram seu fascínio pelo Brasil, onde gostaria de viver parte do ano (veja post acima), Tavares revelou que as duas perguntas a que mais tem dificuldades de responder são quem são seus escritores preferidos e por que ele escreve.

"Como se tivesse que haver uma razão que não a mera vontade de escrever. Quem é meu escritor preferido? Dezenas, centenas deles. Todos os que um dia, em circunstâncias se calhar irrepetíveis, me amarraram a um livro seu", disse, completando sua definição pessoal sobre o papel das narrativas. "Ela também serve para distrair-nos do real e levar-nos até um mundo muito mais denso e rico, onde tudo se torna possível desde que alguém saiba contar uma história".

Embora admitindo sentir inveja dos autores brasileiros devido à "inesgotável matéria-prima de inspiração", em oposição a ele, "filho de um imaginário gasto e cansado", Tavares encerrou sua apresentação com uma forte declaração.

"Deem-me leitores deslumbrados, incrédulos, insaciáveis de histórias, tal qual crianças; deem-me uma história e uma página em branco e eu começarei: 'era uma vez'. É só isso que eu quero. É por isso que escrevo", concluiu.

Historiadores lamentam desinteresse brasileiro por biografias políticas


Especialistas na história brasileira, os ingleses Richard Bourne e Leslie Bethel apontaram os ex-presidentes Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva como as principais figuras políticas nacionais dos últimos cem anos, devido à importância deles para a trajetória política brasileira.

"Juscelino Kubitscheck e Fernando Henrique Cardoso podem ser incluídos nesta lista, mas há poucas dúvidas de que Vargas e Lula são os dois políticos mais influentes dos últimos cem anos", disse Bethel durante a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorre em Brasília (DF) até o próximo dia 23.

"Lula é um elemento importantíssimo da vida política brasileira. Assim como Vargas, que, apesar de um certo embaçamento político, algo de vago em torno de sua figura, foi um grande líder", defendeu Bourne, que lançou na bienal o livro Getúlio Vargas do Brasil 1883-1954.

Em meio aos vários e antagônicos comentários feitos pelo público sobre o governo Lula, Bethel frisou que vai ser preciso aguardar mais algum tempo pelo julgamento histórico dos oito anos de Lula no poder.

"Há a possibilidade de que, no futuro, a figura de Lula, que deixou o governo com um índice histórico de aprovação popular, possa ser diminuída por historiadores. Da mesma forma que a [avaliação] de Vargas melhorou. Isso, contudo, é um pensamento especulativo. Só o tempo dirá", disse Bourne.

Os dois historiadores destacaram o pouco interesse dos brasileiros pelas biografias de políticos nacionais. Bethel ainda comentou o fato de poucos historiadores brasileiros se dedicarem ao gênero, quando comparado à quantidade de obras lançadas sobre vultos históricos em outros países.

"Gostaria que a realidade me contradissesse, mas minha impressão é que os líderes brasileiros não querem ser biografados e que os historiadores e jornalistas brasileiros não se dedicam a biografar políticos. Por que? Não sei, mas creio que pode estar ligado a um certo corporativismo e clientelismo brasileiro e ao fato de que, por ser a classe política tão rejeitada no Brasil, poucas pessoas queiram ler uma biografia política", disse Bethel, que além de ter estudado a América Latina e o Brasil por toda a vida, há quatro anos vive no país.

Bethel ainda mencionou o destaque internacional que o Brasil vem merecendo nos últimos anos, algo que, para os dois historiadores implica na necessidade não só de que o país passe a ser mais estudado nas universidades estrangeiras, como também que os brasileiros passem a se interessar cada vez mais pelas relações internacionais.

"Na Inglaterra, por exemplo, há mais grupos econômicos querendo investir no Brasil do que há cem anos. Os dois principais jornais econômicos [Financial Times e The Economist] têm dado maior destaque ao país. Até os taxistas ingleses têm a percepção de que a economia brasileira vai bem e que o país que antes era conhecido pela música e pelo futebol, hoje é um player internacional", concluiu Bethel.

Nando Reis e Fernanda Takai discutem música e literatura na Bienal do Livro de Brasília


Os músicos Nando Reis e Fernanda Takai participaram hoje (19) de um dos mais concorridos bate-papos da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília. De forma descontraída, o ex-integrante da banda Titãs e a vocalista do Pato Fú atraíram um grande público, principalmente adolescentes, interessado em ouvir a opinião deles sobre a relação entre música e literatura, sobretudo a crônica, gênero ao qual Fernanda Takai se dedica.

"Nem toda crônica pode ser musicada. Algumas, se fossem musicadas, talvez se tornassem chatas. Há aquelas que têm ritmo, que fluem. Outras são mais introspectivas", disse Fernanda que, desde 2005, escreve crônicas que são publicadas por diversos jornais do país.

"No primeiro momento, eu hesitei porque todos os outros colunistas eram figuras superconsagradas. E todos homens. Eu me senti uma estranha no ninho, como se estivesse invadindo um local sagrado. Depois, achei que se eu, que vinha de uma outra escola, ocupasse com dignidade aquele espaço, daria às pessoas o exemplo de que é possível escrever", explicou a cantora.

Para ela, música e literatura exigem igual dedicação. A principal diferença é a resposta do público. "A música é mais glamurosa, mas, no jornal, o diálogo com o público é mais direto. Meu e-mail é publicado nas crônicas e quem as lê pode me responder imediatamente. Já com a música, o momento da resposta são os shows. As pessoas ouvem em casa no rádio, na TV e nos CDs, mas poucas vezes temos a reação direta de quem nos ouve".

Autor da letras consagradas pelo público, como Segundo Sol, gravada por Cássia Eller, e coautor de alguns dos maiores sucessos dos Titãs, como Bichos Escrotos e Polícia, Nando Reis se recusou a assumir o título de poeta. "Acho um pouco presunçoso. Não me considero um poeta e não publicaria como poesia o que escrevo para ser musicado". Mas ele só demonstrou certa irritação ao ser perguntado se as músicas que compõe estão deixando de ter o apelo da crítica social, que marcou o início da carreira dele, para virar uma obra mais "comercial".

"Não escrevo porque não tenho mais saco para escrever sobre estes assuntos [crítica social]. Não me interessa e acho que não resolve nada. Já escrevi, fui criticado, censurado, só não fui preso por que não nasci dez anos antes, mas, hoje, o que me interessa é o indivíduo".

Fernanda e Nando elogiaram a capital federal por promover o primeiro evento literário de grande porte da cidade, que segue até o dia 23, na Esplanada dos Ministérios. "Acho que demorou tempo demais para Brasília ter sua própria bienal", disse a cantora. "Quando falamos sobre a importância da leitura, o ponto é o direito à educação, já que, para ler, a pessoa tem de ser alfabetizada. Sabendo ler, a pessoa tem acesso a todo um mundo de informações que não se limita aos livros", completou Nando. Escrever, para ele, mais que talento, é uma questão de envolvimento e prática.