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sábado, julho 21, 2012

Surf Contra o Apartheid


Pense na trama de Otelo, de Shakespeare. Imagine a tragédia protagonizada por um adolescente negro sul-africano ao invés de um valente general mouro. Imagine também que a trama não se passa mais em Veneza ou Chipre durante o tempo das Cruzadas, mas sim nos guetos sul-africanos, durante o período do apartheid, quando equilíbrio e jogo de cintura podiam salvar vidas.

Agora tempere este argumento com pitadas dos filmes Repórteres de Guerra *, Caçadores de Emoção **, do indefectível A Onda dos Sonhos *** e com enxertos de vídeos de surf. Pronto. O que você tem em mente é algo como o filme Otelo Em Chamas, produção sul-africana dirigida pela documentarista Sara Blecher, lançada no ano passado e exibida durante o Festival Internacional de Cinema de Brasília. E que, ao contrário do que você pode imaginar vendo o cartaz , não é um filme sobre surf, mas sim um drama sobre vidas em risco, sobre sonhos e, principalmente, que contradiz a máxima de que não há nada que um dia de surf não cure.

Apesar de pouco original (ou, pelo contrário. Talvez, nestes tempos de mashup *****, a originalidade do filme esteja justamente na colagem das múltiplas referências deslocadas para um cenário pouco habitual), a história é bem contada e o filme bem conduzido, com exceção de uns poucos minutos próximos do fim, quando a narrativa perde um pouco do ritmo.

De toda forma, Blecher obtém um trunfo em comparação à maioria que a antecedeu na difícil tarefa de contar uma história tendo o surf como fio condutor: é das que chegou mais perto de conseguir transmitir ao público leigo a real sensação de liberdade experimentada por quem pega onda. Mesmo que, acertadamente, ela procure  não mitificar a prática do surf, ao contrário do que fez o terrível Nas Mãos de Deus *****. Não só eu (que continuo surfando de vez em quando) achei isso, como também pessoas de Brasília  que não tem a menor familiaridade com tal estilo de vida.

Também merecem destaque a bela direção de fotografia de Lance Gewer e as atuações dos adolescentes que interpretam as personagens livremente inspiradas nos shakespeareanos Otelo, Cássio, Dêsdemona e no insidioso Iago, um dos meus vilões (e porque não dizer personagens) preferidos.

Pena que dificilmente um filme destes chegará às salas cinematográficas brasileiras senão em festivais como o brasiliense , que se encerra neste domingo (22). Mais lamentável ainda é saber que um esporte tão intimamente associado à liberdade haja tão poucos negros entre os principais atletas profissionais. Estou tentando me lembrar se a própria África do Sul, de tanta tradição surfística - berço de vários ídolos do esporte, como o branquelo Shaum Tomson (campeão mundial de surf em 1977, mais de dez anos antes do período em que se passa a história do filme) - já teve algum representante negro entre a elite dos atletas mundiais e não me recordo de nenhum. Voltarei a este post caso me recorde. 




Pesquisando na internet, descobri que, em 2011, Sara também lançou o documentário Surfing Soweto, em que conta a vida (e as mortes) de um grupo de surfistas de trem da África do Sul.