terça-feira, fevereiro 08, 2011

Deu nos telejornais. A tristeza e a desolação tomaram conta do Rio de Janeiro. Populares choram as perdas. Autoridades locais divulgam às câmeras as providências adotadas para contornar a “tragédia”. Independente das iniciativas governamentais, o brasileiro não desiste nunca e o povo já fala na união de todos, na crença de que Deus não vai faltar numa hora desta.

Redes de TV acionam seus helicópteros em busca da melhor imagem aérea. E, no chão, dá-lhe cenas da “gente humilde e batalhadora” da “comunidade” chorando. Felizmente, apesar dos prejuízos econômicos, não houve mortes. Não? Como assim? Não passavam de 880 as vítimas fatais?

Ah, não. Você não entendeu. A “tragédia” em questão é o incêndio que destruiu fantasias e carros alegóricos de três escolas carnavalescas do Rio de Janeiro. Só pode ser provação. Juízo Final: depois das águas que levaram vidas, casas, bens pessoais e sonhos, as chamas consumiram um galpão da Cidade do Samba, ameaçando a realização da “maior e mais alegre” festa popular brasileira. Até mudança de regulamento teve que ser aprovada e anunciada com destaque como se fossem mudanças nas regras previdenciárias.

Lamento o trabalho perdido dos foliões. Solidarizo-me com a tristeza dos que amam sua escola e vem no episódio uma tragédia. Dou graças a Deus por ninguém ter morrido. Torço para que as pessoas possam desfilar com alegria na Marquês de Sapucaí, mesmo que vestindo suas roupas do dia a dia e sem os carros alegóricos que foram queimados (não ganhariam, com certeza, mas imaginem o efeito catártico se isso acontecesse). E é só. Eu que não gosto de Carnaval (mas gosto de samba) vejo as notícias e não sinto piedade ou horror, de forma que o substantivo “tragédia” aplicado por alguns jornalistas me parece um exagero. Principalmente depois do que aconteceu na região serrana do estado, onde seguem as buscas aos corpos dos desaparecidos. Fossem outros tempos, alguém teria sugerido que este ano não haveria clima para festejar o Carnaval. Imagina só quanto de dinheiro não deixaria de ser movimentado. Quantia que poderia ser parcialmente usada para reconstruir as regiões atingidas e ajudar os sobreviventes, diriam os cínicos e as polianas.

Moral deste texto: o incêndio é notícia de destaque? É. É lamentável? Óbvio. Tem implicações? Sem dúvida, mas é preciso bom senso para relativizá-las. Para a mídia não fica bem a falta de critérios. Trágico foram as mortes causadas pelo descaso, assunto que, aos poucos, começa a ser substituído por outros na pauta do dia.

sábado, fevereiro 05, 2011

RockAntygona

O cartaz da peça é bacana. A trilha sonora a cargo da banda Vulgue Tostoi e a presença de um dj em cena (Marcello H, da própria Vulgue) são um chamariz para os "mudérnos". Luís Melo é um excelente ator. O texto, do grego Sófocles, é um clássico que há milênios prende a atenção de platéias de todo o mundo. E ainda assim, RockAntygona, uma adaptação da clássica tragédia grega Antigona, não funciona.

Apresentada em Brasília no último final de semana, a peça dirigida por Guilherme Leme tem cerca de uma hora de duração. Embora fiel ao texto original escrito pelo grego Sófocles, peca por não explorar melhor a motivação das personagens e o contexto político que sustenta a ação. A suposta "estética contemporânea" também não acrescenta nada de substancial ao trabalho de palco.

Do original, as nove personagens são resumidas a apenas três:  Creonte, Hémon e Antigona. Já a função do coro, que, no antigo teatro grego cumpria a função de contextualizar e comentar a ação, é desempenhado pelo Dj. Com a opção por uma encenação clássica, contudo, a proposta de tornar a música uma personagem acaba se perdendo.

Antigona é a sobrinha de Creonte, que assume o trono de Tebas após os herdeiros diretos do ex-rei Édipo, os irmãos Etéocles e Polinices, matarem um ao outro em combate. Ao assumir, Creonte proibe que a família enterre Polinice, que havia se casado com a filha do rei de Argos, Andrastos, com quem armou um ataque contra sua própria cidade-natal, Tebas.

Delirium Ambulatorium

"O que é a arte moderna, né? A gente não entende. Este aí, por exemplo. Eu acho que é um livro aberto. Acho que é isso. Agora, porque um livro sem nada escrito, um livro com as páginas em branco? Tipo não temos mais o que escrever, nem o que ler? Ou então pode ser algo sobre o final do livro com a popularização da internet...sei lá"

Meu pai diante de um quadro da série Metaesquema, do artista plástico Hélio Oiticica
 

Exposição Hélio Oiticica - "O Museu é o Mundo"
Museu Nacional do Conjunto Cultural da República
até 20 de fevereiro de 2011 - das 9h as 18h30 - entrada gratuita


Curadoria

"Poucos artistas refletiram sobre seu trabalho com a clareza e a acuidade de Hélio Oiticica. Todas as questões que emergiram ao longo de seu processo experimental, iniciado no limiar da dissolução do Grupo Frente (núcleo do Concretismo carioca), em 1958, estão registradas em anotações, textos, entrevistas, depoimentos e cartas. Em entrevista concedida ao Jornal do Brasil em maio de 1961: "Acho importantíssimo que os artistas deem seu próprio testemunho sobre sua experiência. A tendência do artista é ser cada vez mais consciente do que faz. É mais fácil penetrar o pensamento do artista quando ele deixa um testemunho verbal de seu processo criador. Sinto-me sempre impelido a fazer anotações sobre todos os pontos essenciais do meu trabalho".
No caso específico de Oiticica, podemos afirmar que obra e testemunho estão a tal ponto entrecruzados que é impossível separá-los sem incorrer em prejuízo para ambos, pois são fundamentais para sua qualificação como artista seminal da vanguarda brasileira dos anos 1950, 1960 e 1970. A trajetória poética de Oiticica desloca-se da fatura impecável, quase asséptica, de sua produção inicial, marcada pelo construtivismo internacional, para um construtivismo favelar.

Hélio Oiticica - "Museu é o Mundo" transborda os limites expositivos do Museu Nacional do Conjunto Cultural da República. Com obras espalhadas por Brasília, a exposição coloca o público em contato direto com a idéia do "Delirium Ambulatório", forma usada por Helio para despertar nele mesmo o estado de criação latente. Sua aspiração maiora partir dos Penetráveis (que começam com o Projeto Cães de Caça e vão até o fim de sua produção) era que fossem como espaços abertos e cósmicos, onde o indivíduo crie suas próprias sensações sem condicionamentos históricos ou visuais, ou seja, que encontre dentro de si mesmo a chava para um Exercício Experimental de Liberdade, como propunha Mário Pedrosa.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Lixo Extraordinário

"O momento em que uma coisa se transforma em outra é o mais bonito"

É sempre bom lembrar que quando afirmamos gostar, detestar ou simplesmente não compreender uma obra qualquer estamos falando muito mais sobre nós mesmos do que sobre o objeto em si. Por isso, quando declaro que o documentário Lixo Extraordinário é comovente, estou referendando minha experiência junto à Associação dos Moradores de Cortiços do Centro de Santos (SP), ao Sindicato dos Servidores Públicos do Distrito Federal e minha própria trajetória pessoal.

A garota de apenas 17 anos e já mãe de dois filhos. A cozinheira dos restos encontrados no lixo. O catador que, a partir dos livros encontrados no lixo, sonha com uma biblioteca na sede da associação de trabalhadores. O jovem que vê na organização dos catadores a única maneira de alcançar, coletivamente, a redenção, que, em última instância, pode se dar no próprio lixão. Há milhares de brasileiros como estes espalhados por todo o país, buscando dias melhores para si e para os seus.

Indicado ao Oscar deste ano, o documentário - uma coprodução Brasil/Reino Unido - dirigido por Lucy Walker e co-dirigido por João Jardim e Karen Harley acompanha a execução de um projeto artístico desenvolvido pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz com catadores de material reciclável que trabalham no aterro sanitário de Gramacho, em Duque de Caxias (RJ) - anunciado como o maior do mundo e cenário de outro premiado documentário, Estamira, de 2004. Gramacho, no filme, é retratada quase como que uma nova Serra Pelada, com os catadores garimpando o material mais valorizado em meio a uma "cidade de lixo".

Vik é o cara conhecido por reproduzir obras famosas como Mona Lisa e a Última Ceia usando chocolate, geléia e açúcar no lugar de tintas. No projeto filmado ao longo de três anos para o documentário, ele fotografa alguns das centenas de pessoas que tiram seu sustento do lixão, amplia as melhores imagens e, com a ajuda dos próprios catadores, as reproduz usando os dejetos recolhidos no aterro (idéia copiada em recente novela da Rede Globo). O produto final é então fotografado, emoldurado e vendido por alguns milhares de dólares. Diga-se que, hoje, Vik é um dos artistas brasileiros mais valorizados no exterior.

Mas a força do documentário está, como de costume, na história dos desafortunados, dos que vivem à margem, e na coragem de Vik de se expor ao tomar consciência do quanto seu conceito inicial é superficial e vai ganhando consistência graças à convivência com seus "modelos". No começo do filme, o próprio artista afirma que Gramacho é o fim da linha, o lugar para onde vai "tudo que não presta", inclusive "pessoas". Ao final, Vik aparece convencido de que ao menos parte daquelas pessoas é forte o bastante para buscar um outro destino. Ao participarem da execução da obra de Vik, os trabalhadores percebem que, mesmo em meio às adversidades, executam uma atividade importantíssima.
 
Apesar de que 'quem gosta de lixo é intelectual, pois pobre gosta mesmo é de luxo', vale muito a pena ver o filme que, no fundo, não trata da pobreza, mas sim da Arte e da Vida, sem dicotomias. E com a ajuda de uma belíssima trilha assinada pelo Moby.
 

terça-feira, fevereiro 01, 2011

Antes da Fama

Só Garotos - Ed. Companhia das Letras - 272 páginas 

`Só Garotos´ não chega a ser um grande livro em termos de estilo ou de conteúdo, mas quem curte arte, música e cultura pop vai encontrar passagens interessantes em meio às memórias da poeta e performer norte-americana Patti Smith sobre o tempo em que namorou e morou com o artista plástico Robert Mapplethorpe, morto em 1989, em decorrência de complicações causadas pela Aids.

Na época em que se conheceram, Patti e Mapplethorpe não passavam de dois jovens dispostos a enfrentar, sem grana, a louca e efervescente Nova York em busca do sonho de viver da arte. "Muito pobres e muito felizes", nada parecia antecipar que pouco tempo depois o casal ficaria famoso após trocar pincéis e telas pela música e pela fotografia.

Enquanto Patti se consagrou como a "poetisa do punk" ao lançar, em 1975, o disco Horses, em que sublinhou com três acordes sua poesia e visão feminista, Robert acabou se tornando um dos expoentes da pop art, causando polêmicas com suas imagens embebidas na estética sadomasoquista gay.

No livro recém-lançado no Brasil, Patti espana a poeira de suas memórias dos anos 1960 e 1970 e, sem autocomiseração, relembra as noites dormidas em abrigos, muquifos e nos locais de trabalho, a falta de grana, pouca comida e impossibilidade de frequentar lugares como museus e cinemas. E, assim, registra a importância da amizade e do amor compartilhado com Robert durante os difíceis anos de formação de ambos.


"O verão de 1968 marcou uma época de despertar físico tanto para Robert quanto para mim. Eu ainda não havia compreendido que o comportamento conflituoso de Robert estava associado a sua sexualidade. Sabia que ele gostava profundamente de mim, mas me ocorreu que havia se cansado de mim fisicamente. Em certos aspectos, senti-me traída, mas na verdade fui eu quem o traí.

Fui embora de nossa casa na Hall Street. Robert ficou arrasado, embora não conseguisse explicar o silêncio que havia nos envolvido. De qualquer forma, não foi fácil para mim me livrar do mundo que compartilhávamos. Eu não tinha certeza de aonde ir em seguida e quando Janet me ofereceu para dividirmos o sexto andar de um prédio no Lower East Side, aceitei. Esse acordo, embora doloroso para Robert, foi muito melhor do que se eu fosse morar sozinha ou com Howie.[...] Pela primeira vez eu teria meu próprio quarto para arrumar como quisesse [...]

Incapazes de romper nossos laços, continuamos a nos ver. Mesmo enquanto minha relação com Howie cresceu e depois minguou, Robert pediu que eu voltasse. Queria que voltássemos como se nada tivesse acontecido e estava disposto a perdoar, embora eu mesma não estivesse arrependida. Eu não queria voltar atrás, especialmente porque Robert ainda parecia conter um tumulto interior que ele se recusava a declarar.

No início de setembro, Robert apareceu na [livraria] Scribner´s sem avisar. [...] Disse que queria conversar comigo. Saímos da loja e paramos na esquina da 48 com Quinta Avenida. "Volta, por favor", ele disse, "senão vou embora para São Francisco". Eu não podia imaginar porque ele queria ir para lá e a explicação foi desconexa, vaga. Ele então pegou minha mão. "Vem comigo. Lá tem liberdade". "Eu já sou livre", falei.

Robert me encarou com uma intensidade desesperada. "Se você não vier, vou ficar com um cara. Vou virar homossexual", ameaçou. Simplesmente olhei para ele, sem entender nada [...] Não mostrei compaixão, o que mais tarde eu lamentaria. Fiquei observando-o ir embora e desaparecer na multidão.

[...] Quando Robert voltou de São Francisco parecia ao mesmo tempo triunfante e pertubado. Como eu suspeitava, ele havia conhecido alguém, um menino chamado Terry, mas embora estivesse experimentando seu despertar sexual, ainda esperava que pudéssemos encontrar um modo de continuar nossa relação.

[...] No meu aniversário, Robert veio me ver sozinho. Trazia um disco novo. Colocou a agulha no lado um e piscou. Sympathy for the Devil [dos Stones] soou nas caixas e nós dois começamos a dançar. "Esta é a minha música, ele disse.

Aonde tudo aquilo levaria? O que seria de nós? Essas eram nossas perguntas juvenis. E aquilo nos levou um para o outro e nos tornamos nós mesmos. [...] Alguma coisa no ar da primavera e o poder restaurador da Páscoa fez com que Robert e eu voltássemos a ficar juntos. Ambos havíamos nos entregado a outras pessoas; hesitamos e perdemos todo mundo, mas encontramos um ao outro novamente. Queríamos, ao que parecia, o que já tinhamos antes, um amante amigo para criar junto, lado a lado. Ser leal, mas livre".

The Spankers em Brasília


Vem da fria capital da República Tcheca, Praga, uma das bandas mais legais da cena ska, gênero musical surgido na quente Jamaica, no final da década de 1950, e que, surpreendentemente, faz, em Brasília (DF), neste sábado (5), uma das oito apresentações já agendadas para sua temporada brasileira (uma delas em Santos, no dia 12)


Criada em 2008 e liderada pela simpática vocalista Tereza Krippnerova, a The Spankers funde influências do ska às do pop, do rock e do reggae. Resultado? Som pra cima, bom pra dançar. Pelas músicas disponíveis no myspace (Ouçam – http://www.myspace.com/spankersthe), dá para esperar um showzaço.

The Spankers - sábado (5) - 22h. - La Ursa (Setor Bancário Norte) - R$ 20




domingo, janeiro 30, 2011

Mafaro

Então foi! Fim do recesso. Hora de voltar a compartilhar com meus três amigos-leitores minhas banais considerações acerca de parte do que ajuda a tornar meu cotidiano menos semifosco, dando-lhe um certo verniz cultural.

Pra retomar o fio-da-meada eu deveria escrever sobre minha volta a Brasília no início do mês ou contar as últimas do meu amigo-prego Carlos Leite, cuja amizade tem sido de grande valia nos últimos dias. Só que isso vai ficar para depois porque, hoje, eu quero recomendar Mafaro, palavra que, no Zimbabwe, significa alegria e que, aqui, dá nome ao mais recente cd do multiinstrumentista, produtor e ator André Abujamra (ex-Mulheres Negras, ex-Karnak).

No  show, de mesmo nome, o paulistano continua firme em sua já característica miscelânea de referências musicais e letras que beiram o nonsense, aventurando-se em um novo "conceito" de espetáculo, misturando performance ao vivo, bases e colaborações pré-gravadas e imagens em vídeo. Entre as colaborações, a mais inusitada, sem sombra de dúvida, é a de Luiz Caldas. 


Ontem (29), Abú lotou o Teatro da Caixa, onde ainda faz mais duas apresentações hoje (30), a R$ 20 a entrada inteira. Mas não vale nem a pena eu me estender muito sobre o show. Se um de vocês três ainda não conhecem o Abujamra, segue acima um registro que fiz durante a apresentação da música Imaginação e, abaixo, o link para o cd inteiro, disponível na Rádio Uol. Já quem quiser baixar o cd, o trabalho está disponível na internet. Basta pesquisar no Google "andre abujamra mafaro dowload".

Abraços amigos (dia 06, Manu Chao no Arena - R$ 40)

sexta-feira, dezembro 31, 2010

Desejo...

(Clichê ou não, todo ano, nesta época, me lembro da letra desta música escrita pelo Frejat e concluo que ela expressa muito bem algumas das coisas que eu julgo importante desejar para as pessoas de quem gosto. Então, vai lá, mais uma vez, Amor Prá Recomeçar. Feliz começo de ano para todos e que 2011 seja melhor, muito melhor que 2010)

Te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo

E que com os que erram
Feio e bastante
Você consiga
Ser tolerante
Que quando você ficar triste
seja por um dia
E não pelo ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo que você tenha a quem amar.
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor para recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar de duvidar

Desejo que você ganhe dinheiro
(Pois é preciso viver também)
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor prá recomeçar...

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Rio-Santos (3 min)

De rolê pelo trecho Ubatuba (SP)-Cubatão (SP) da estrada Rio-Santos (BR-101), uma das mais belas dos país.

aparelho utilizado: Nokia E72

terça-feira, dezembro 28, 2010

Invasões Bárbaras


Conforme previsto, Eles chegaram.

Vieram em hordas. E embora avançassem lentamente, não podiam ser contidos nem mesmo pelas inúmeras praças de pedágio que separavam nossos mundos. Os homens cobriam suas vergonhas com peças ínfimas que não escondiam sua palidez. As mulheres, por sua vez, tinham as protuberâncias artificialmente hipertrofiadas e as faces pintadas.

Traziam caixas de isopor, cadeiras, esteiras, uma espécie de grande guarda-chuva, bolas, recipientes de alumínio, recipientes de plástico, mais plástico, boias, pranchas, comida e, sobretudo, dinheiro que, inicialmente, nos pareceu bom.
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Entoavam estranhos hinos que lhes motivavam e dos quais só entendiamos algo como “beber, cair, levantar” ou então “eu quero mais é beijar na boca”. Era comum que, quando combinados cânticos e o líquido contido nos recipientes de alumínio, os machos avançassem sem mais delongas contra nossas mulheres - muitas das quais, atraídas pela novidade, não ofereciam qualquer resistência.

Besuntadas com uma substância branca, as crianças temiam o mar. Já os machos se atiravam de barriga contra a água. Não raramente, um de nós tinha que socorrê-los para que não se afogassem. Quando não estavam na areia da praia, deitados sob o sol, gostavam de se reunir em um mesmo local, onde paravam em ordem anárquica, um atrás do outro. Não havia, nesta época, comida e água suficiente para todos. Ainda assim, nós não os rechassávamos. Pelo contrário. Inicialmente, nós os admirávamos. Principalmente as mulheres, cuja pele ainda não maltratada pela exposição contínua ao sol nos passava a falsa ideia de superioridade.

A admiração se tornou influência e não demorou para que muitos de nós passássemos a imitar alguns de seus hábitos. A maneira de vestir, a forma de construir, o jeito de falar...Tudo foi sendo assimilado e logo nós havíamos perdido parte de nossos hábitos e costumes. Já não éramos nós, mas não havíamos conseguido ser como eles. Nossas praias se deterioraram, os melhores terrenos já não nos pertenciam, nossas comunidades se agigantaram, nossos jovens já não mais se interessavam pelas antigas atividades, mas continuávamos apequenados, meros serviçais, trabalhando para Eles, para garantir sua comodidade de fim de semana em nosso próprio território. Em muitos pontos, até mesmo o acesso ao mar e a possibilidade de ver o céu e o horizonte nos foram negados.

Isso não faz muito tempo. Algumas décadas, apenas. Tempo suficiente para que a história quase esquecesse os caiçaras e sua rica cultura.
foto: Moacyr Lopes Junior / Folhapress
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(escrito após um fim de semana na praia das Toninhas, em Ubatuba (SP))

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Maresias




23 47´30 S
23 33´23 W

Maresias. São Sebastião. Litoral Norte de São Paulo. Ou, para ser mais preciso, do interior do veículo 5673 da empresa Litorânea, a caminho de Caraguatatuba (53 km, mais de uma hora e meia devido à estrada sinuosa, R$ 10,20). e, dali, enfim para Ubatuba (R$ 5,30. A vida em rede...


Maresias, uma das muitas praias de São Sebastião, é Um dos lugares em que eu mais me sinto à vontade - ou em que eu melhor me sinto. Principalmente quando, apesar do feriado (que é, em geral, quando eu consigo passar uns dias por aqui), ela ainda não está tão cheia de turistas. A partir de amanhã, contudo, a estrada deverá estar cheia e aí acabou o sossego.

Dos muitos lugares em que já tive o privilégio de estar, poucos são tão cinematograficamente belos quanto o trecho litorâneo que vai da praia de Boracéa, ainda em São Paulo, à Paraty, já no Rio de Janeiro. E, por isso mesmo, me arrisco a afirmar que pegar a Rodovia Rio-Santos é trafegar por um dos mais fantásticos trechos da costa brasileira.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

À Sombra de Brás Cubas...

...sigo de 4 para o Centro do meu velho universo por artérias congestionadas de monóxido e paranoias automotivas. Não há nada antigo aqui que eu não conheça como a palma das minhas mãos. Já farejei cada uma destas portas à procura *Da Boa*, experimentando a frustração enquanto esperava por uma demorada recompensa. Isso foi quando eu me dava ao luxo de me achar bom. Agora que a recompensa parece prestes a vir, sou apenas mais um cara de um outro lugar nenhum, torcendo por uma eficiente e prometida "onda verde".

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Tetro: A dificuldade da crítica

Embora nos últimos tempos este blog esteja parecendo uma versão on-line do livro Clube do Filme (sem o viés de auto-ajuda), eu acho que jamais seria um crítico de cinema. Imagino que se uma publicação estivesse me pagando para assistir e dar minha opinião sobre algo como este último filme de Francis Ford Coppola, Tetro, não pegaria nada bem eu admitir que não o entendi direito e que precisaria ou de mais tempo ou de assistí-lo novamente para formar minha opinião.

No geral, a ótima fotografia em preto e branco e as boas atuações de Vincent Gallo, Alden Ehrenreich e Maribel Verdu me levaram a acompanhar com interesse a história do jovem garçom de navio de 17 anos que, em busca de informações sobre sua mãe morta e tentando compreender sua própria família, desembarca em Buenos Aires para encontrar o irmão mais velho, Tetro (Gallo), um escritor promissor, mas que, atormentado pela dimensão da figura paterna - um maestro mundialmente conhecido - e pelas relações familiares conturbadas, abandona seu país e rompe qualquer contato com quaisquer parentes. A indesejada chegada de Bennie (Ehrenreich), portanto, é algo que transtorna a rotina de Tetro.

Só que a trama do filme é complexa e, em certos momentos,a impressão que se tem é que Coppola tenta dizer mais do que dá conta de colocar na tela. Para isso, ele inclusive recorre à música, à dança e a elementos teatrais que, filmados com maestria pelo diretor, enriquecem a história.

O fato é que, hoje, Coppola já não depende das bilheterias de cinemas para complementar sua renda. Dono de vinícolas e de um hotel, além de detentor de alguns sucessos comerciais como Drácula de Bram Stoker, o diretor pode se dar ao luxo de financiar ele próprio seu projetos pessoais, filmando o que quer e como quer. Ou seja, cinema autoral de fato, o que, por si só já é um luxo. Felizmente, mesmo com a suposta liberdade, Coppola não faz fil
mes herméticos. Rebuscados sim, mas não incompreensíveis.

Tetro, evidentemente, não faz sombra aos filmes pelos quais o diretor será lembrado, clássicos como Apocalypse Now e a trilogia O Poderoso Chefão. E, aparentemente, alguns criticos não o perdoam por isso. Caso do santista enciclopédico Rubens Ewald Filho, que sustenta que Coppola "não existe mais" e em quem eu pensava ao, no início, citar a figura do profissional de quem se espera, de afogadilho, uma opinião definitiva sobre uma obra que permite diferentes leituras.
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É verdade que eu nunca espero nada muito profundo do meu conterrâneo, principalmente depois do que ele escreveu sobre o diretor David Fincher ("Nunca gostei muito de David Fincher porque ele fez Clube da Luta,um filme moralmente discutível que provocou, justamente no Brasil, um assassinato num cinema"), mas a crítica dele ao filme de Coppola é algo tão absurdamente equivocado que tive a impressão de que vimos a filmes diferentes.

"
Tetro é um primor de equívocos, começando por dar o papel central a Vincent Gallo", afirmou Filho, fazendo o que se espera dele, ou seja, emitir um parecer. O problema é quando o crítico "que mais entende de cinema no Brasil", segundo alguns, tem que justificar sua opinião. "Não sei porque [Coppola] insistiu em filmar em preto e branco, um convite certo ao suícido comercial já que os jovens não gostam". Putz!
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Também o que esperar de alguém que ao assistir Tetro se vê a vontade para revelar ter uma teoria de que "(infelizmente) os cineastas têm no máximo dez ou 15 anos de apogeu. Depois viram meros fotógrafos, imitações de si mesmo"? Além de Clint Eastwood e de Robert Altman, por ele mesmo citados como "exceções que confirmam a regra", eu perguntaria: e se incluirmos neste time os cineastas não-norte-americanos (que parecem ser o máximo referencial do crítico)? E Kurosawa? Almodóvar? Os franceses e outros tantos de que não me recordo agora, mas que, estou certo, somados, derrubam por terra esta teoria insustentável?

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Nada a ver

Todos que me conhecem sabem do meu entusiasmo pelo cinema argentino. Nove Rainhas, Plata Quemada, o Cachorro, O Filho da Noiva, Clube da Lua, Elsa e Fred, O Pântano, Menina Santa, Abraço Partido, Las Viudas de Los Jueves, O Segredo dos Seus Olhos e tantos outros. Há anos eu não assistia a um único filme argentino ruim. Até este último domingo.

Nem mesmo o "muso" Ricardo Darín consegue salvar Abutres (Carancho), o 12º filme do diretor Pablo Trapero, responsável pelo bem-comentado A Família Rodante, que eu nunca consegui ver. E olha que o ator se esforça para dar credibilidade ao advogado caído em desgraça que, para sobreviver, tem de trabalhar para um pequeno escritório que se dedica exclusivamente a representar, contra empresas seguradoras, inúmeras famílias que, além de pobres e pouco instruídas, estão sob o impacto da morte ou grave acidente de trânsito envolvendo um parente.

Não apenas Darin se esforça bastante, como o entrosamento dele com Martina Gúsman é ótimo e consegue despertar alguma empatia do público. Infelizmente, qualquer envolvimento logo se esvai diante do roteiro arrastado, que parte de uma boa premissa - denunciar a existência de grupos que lucram em cima dos milhares de acidentes de trânsito que ocorrem todos os anos, sobretudo na capital portenha. Quer estes acidentes aconteçam, quer não -, mas não chega a lugar algum.

Ainda que algumas notícias publicadas no Brasil deem conta de que a história atingiu a um enorme sucesso em seu país, motivando inclusive o congresso argentino a discutir mudanças na legislação de seguros a serem pagos para vítimas de acidentes automotivos, o roteiro deixa muito a desejar. Não bastasse o roteiro fraco, ou por isso mesmo, o filme acaba deixando a sensação de que se alonga demais e se perde em detalhes e digressões desnecessárias para a boa compreensão da história, ao mesmo tempo que não explica alguns fatos que despertam a curiosidade do espectador.

Há, lógico, bons momentos ao longo da trama, mas nada que chegue a justificar os últimos minutos, patéticos, e a impressão de que Trapero não sabia exatamente o que queria contar. Pena.

Seguindo as curvas de Santos (vídeo completo)

Gravação feita e editada com um celular pelo surfista trotamundo Carlos Leite, no último final de semana, em Santos, no litoral paulista, terra deste semifosco que vos escreve. Se interessar, leia três posts abaixo deste o texto "Carlos Leite vê Santos"

aparelho utilizado: Nokia E72

sábado, dezembro 18, 2010

As coisas simples da vida

Praia, surf, um bom prato, um livro e um filme às vezes são o bastante para nos fazer lembrar de que a vida é simples e que nós é que a complicamos. Em essência, além da companhia da pessoa certa, não precisariamos de muito mais que um trabalho socialmente relevante (com o valor atribuído pela própria pessoa, que é quem deve saber o que acha relevante) que nos permitisse pagar o aluguel e bancar alguns prazeres modestos.

Eu, por exemplo, estou convencido de que toda a variedade de restaurantes existentes em São Paulo e a sofisticação dos melhores lugares de Brasília não são capazes de me proporcionar o prazer, o deleite, que é comer uma legítima e simples comida caiçara.

Um feijão bem temperado, um arroz soltinho, fritas e um filé de peixe empanado ou cozido em postas é o bastante para satisfazer meus fetiches gastronômicos. Da mesma forma que, para mim, terno é coisa de segurança de shopping e sucesso profissional seria chegar ao trabalho de bermuda, tênis e camiseta, numa bicicleta. Pena que, para a maioria de nós mortais, garantir esse mínimo não seja algo assim tão simples, de forma que nos vemos obrigados a aceitar esta ridícula roda-viva.

É como na piada em que um empresário urbano vai à praia e, ao encontrar um pescador habilidoso, tenta convencê-lo a pescar mais, vender o excedente e, com o lucro, expandir suas atividades para ganhar cada vez mais dinheiro e, assim, poder ter uma aposentadoria tranquila, na praia...pescando. Impossível não ver o absurdo desta lógica, por mais que estejamos conscientes de que, nas sociedades capitalistas, é assim que se constrói o progresso, algo positivo, desde que não seja obtido em detrimento de outros valores.

Lógico que é bom provar outros sabores, conhecer outras pessoas, ver outras paisagens, mas, no fim das contas, voltar ao que considero trivial é o que me dá maior prazer. Pode parecer uma viagem sem sentido, mas almoçar no Restaurante Cooks, no SuperCentro Boqueirão, em Santos, é, além de um prazer, uma forma de confirmar que sou sou uma criatura litorânea e que, mais dia, menos dia, voltarei a morar na praia. Se em Santos, ainda melhor.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Sangue e risos arrancados a machetadas

"MACHETE NÃO MANDA MENSAGENS"
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O cara abaixo é Danny Trejo, ator já conhecido de quem assistiu a filmes como Um Drink no Inferno e A Balada do Pistoleiro.
E estas são, da esquerda para a direita, Jessica Alba, a garota problema Lindsay Lohan e Michelle Rodriguez

Quem conseguiria arrancar dinheiro dos judeus de Hollywood para produzir um filme em que o "latin lover" aparecesse se dando bem com as três enquanto arranca cabeças, tripas, olhos e miolos de traficantes e policiais corruptos usando, na maior parte do tempo, apenas um...machete (uma espécie de peixera).

Só mesmo seu primo, o diretor Robert Rodriguez, que também produziu e colaborou na criação da história do herói latino-americano, defensor dos mexicanos e demais latinos que tentam ingressar ilegalmente nos Estados Unidos, onde, quando conseguem, se tornam reserva de mão de obra barata e são perseguidos e discriminados. O filme conta ainda com as participações de Robert De Niro e Steven Seagal.

"Eu queria usar a imigração ilegal como pano de fundo para mostrar a verdadeira corrupção que acontece e que é difícil de enfrentar. Na verdade, é tão difícil que ninguém quer falar sobre isso ou se envolver no assunto. As pessoas falam sobre imigração, mas não falam sobre a corrupção que existe entre México e Estados Unidos", disse Rodriguez ao site Collider, aqui reproduzido pelo Omelete.

Terminou por fazer um filme do gênero "exploitation", ao qual já se associava o recente A Prova de Morte, de Quentin Tarantino. O exploitation foi um filão de grande sucesso comercial durante as décadas de 1960 e 1970 e, usualmente, é associado a filmes produzidos com pouca ou nenhuma preocupação em termos de qualidade ou de mérito artístico, mas com ampla publicidade. Recentemente, Tarantino e Rodriguez se propuseram a produzir filmes esteticamente parecidos com os exploitations como mero exercício estilístico.

Ao G1, Rodriguez disse que o longa não é uma crítica direta às políticas de imigração adotadas pelos EUA, embora acabe chamando atenção para o tema. “Tudo o que quis fazer foi um filme divertido, sexy e com grandes atores. Agora, se veem mensagens nele... Sim, há recados para todos. E tudo aberto a interpretações”, avisa.

Sou, portanto, alguém próximo do espectador idealizado por Rodriguez: não vi mensagem alguma no filme. Assisti ao filme com um balde de pipocas, certo de que Machete serviria apenas de entretenimento. Neste sentido, valeu o ingresso, embora não seja o tipo de filme que muitas pessoas vão gostar.


segunda-feira, dezembro 13, 2010

Olhos Azuis

O cineasta José Joffily (Dois Perdidos Numa Noite Suja) acertou a mão em seu mais recente filme, Olhos Azuis. A mistura bem dosada de drama, suspense policial e denúncia social, mais um elenco afinado, tem garantido elogios de crítica e público, além de prêmios, como os cinco conquistados no Festival de Paulínia do ano passado, incluindo o de melhor filme.

Segundo o diretor, a motivação para se debruçar sobre os constrangimentos porque passam alguns dos muitos estrangeiros que, legal ou ilegalmente, chegam aos Estados Unidos a trabalho, passeio ou por qualquer outro motivo, surgiu com o relato de um amigo submetido a um interrogatório de mais de 30 horas, ao fim das quais foi impedido de entrar em solo norteamericano e obrigado a retornar ao Brasil.

A trama acompanha o último dia de trabalho do responsável pelo Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque - David Rasche (“Queime depois de ler”) - cujo alcoolismo reforça sua paranoia antiterrorista e xenofobia. Pós-11 de Setembro, o burocrata e seus dois subalternos – uma negra e um chicano-americano – decidem se divertir às custas de um grupo de estrangeiros escolhidos aleatoriamente para prestar informações sobre suas reais motivações.

Além de uma cubana que diz ser bailarina convidada para dançar em uma companhia local, de um grupo de supostos lutadores hondurenhos também convidados para participar de um torneio e de dois poetas argentinos em busca do reconhecimento, há um professor universitário brasileiro, o excelente ator Irandhir Santos (Tropa de Elite 2 e Quincas Berro D´Água), que há cinco anos vive legalmente nos Estados Unidos e que tem consigo toda a documentação necessária para retornar ao país após ter visitado sua filha, que continuava vivendo em Recife.

A meu ver, embora entregue o final previsível desde a primeira cena, Joffily acerta ao tentar – com sucesso – prender a atenção do espectador pelo absurdo da situação, deixando claro que a situação em algum momento fugirá ao controle, com consequências imprevisíveis para todos. E, a partir daí, contar uma segunda história, que é da tentativa do agente Marshall, o Olhos Azuis, de se redimir, o que o faz viajar aos grotões nordestinos na companhia de uma prostituta, vivida pela ótima, mas ainda pouco conhecida, Cristina Lago, que, em breve, estará nos cinemas na pele de outra prostituta, no filme Bruna Surfistinha.

O filme não é novo – foi lançado comercialmente no primeiro semestre deste ano e, acredito, já está disponível em DVD -, mas eu só o assisti neste último final de semana, no Cine Arte de Santos (R$ 3 a inteira).


domingo, dezembro 12, 2010

Carlos Leite vê Santos

De: Carlos Leite leiteempedra@ig.com.br
Assunto : Valeu!
Para: semifosco semifosco@blogspot.com
11 de dezembro de 2010 22:50


Salve, semifosco. Acabo de chegar em casa, em Brasília, e, pra variar, não foi fácil encontrar, no aeroporto, um taxista disposto a transportar minha prancha. Eu poderia estar trazendo drogas, armas ou até mesmo uma bomba presa ao corpo que nenhum deles suspeitaria de nada. Já a prancha provoca, de cara, as mais diversas reações.... Outro dia, após conseguir convencer um senhorzinho de que a prancha caberia perfeitamente no interior do carro, ele me perguntou se a pesca tinha sido boa rs,rs,rs,rs,rs,rs,rs

Quero te agradecer mais uma vez por ter me recebido na casa dos teus pais. E me desculpar por não ter te ajudado mais enquanto teu velho esteve no hospital. Confesso que me senti um pouco culpado porque, apesar da preocupação inicial com o coroa, me deixei convencer muito facilmente de que você e sua mãe não precisavam de ajuda e logo estava me divertindo pra kct enquanto meus anfitriões se revezavam no hospital cuidando de soro e bolsas de urina. Mas o importante é que ele está bem e, no fim, até você conseguiu pegar umas ondas.

Acho que depois desses 12 dias em Santos, consegui compreender um pouco melhor não apenas algumas das coisas que você já havia comentado como também a própria cidade. E admito que, apesar de algumas ressalvas, comecei a gostar dela. Por isso, torço para que seu pessimismo em relação ao futuro seja um exagero, ainda que até um ignorante como eu note que, como você disse, "a conta não fecha".

Para mim, acostumado que estou com as facilidades do Plano Piloto de Brasília e com as possibilidades de um emprego bem-remunerado, foi estranho ver seus amigos, mais velhos que eu, contando sobre as dificuldades de se arranjar, na cidade, um emprego que pague mais de R$ 1.2 mil, enquanto o custo de vida local se compara ao do Distrito Federal.

Qual não foi minha surpresa ao pagar R$ 2.50 para andar de ônibus se, aqui, há dois anos pagamos os mesmos R$ 2 (a menor tarifa). E olha que ao descer em São Paulo, eu gastei R$ 2.25 para ir do aeroporto ao Jabaquara e lá, além das distâncias percorridas serem maiores, tem a integração, que permite ao usuário apanhar outra condução, de graça, dentro de um certo período de tempo. E os R$ 3 cobrados por um coco?!?!?! Na Asa Norte, você sabe, dá para encontrar por R$ 2. E quando pensei em deixar de dar trabalho pra sua mãe e ir para um hotel, não encontrei nada por menos de R$ 140, sendo que nenhum deles oferecia nada que justificasse os preços cariocas (Daí eu ter continuado na pensão dos Rodrigues). Isso para não falar da, como você disse, "especulação imobilária" causada pela expectativa com o Pré-Sal. Ou do reajuste de 11% do IPTU, praticamente o dobro da inflação. Agora, te pergunto, os orgulhosos santistas não reclamam desses disparates? Como viver numa cidade classe média alta com os salários pagos atualmente? E isso para não falar dos seus conhecidos da Associação dos Moradores de Cortiços do Centro - aliás, conhecê-los foi uma grande lição de vida.

Mesmo assim, entendi que teu amor pela cidade não se deve apenas ao fato dali ser teu chão ou de tua história pessoal estar ligada a cada uma daquelas ruas e paisagens. Não bastasse isso, a cidade é, de fato, muito legal para se viver. Depois do terceiro dia pegando onda enquanto assistia, do mar, o sol se por detrás da Serra do Mar, com aquela enorme escultura da Lina Bo Bardi e a Ilha de Urubuqueçaba em primeiro plano, comecei a me perguntar como você conseguiu se adaptar tão bem a Brasília a ponto de estar voltando pra cá. A falta de melhor opção profissional não me parece o bastante? Ainda mais para um cara como você, que tem tão pouco a ver com o clima palaciano. Não à toa teus amigos riem quando você lhes diz que, agora, usa terno. Justo você, o caiçara que há apenas quatro anos comprou o primeiro celular, a primeira calça social, o primeiro terno e que resistia até mesmo a usar sapatos rs,rs,rs,rs,rs,rs

A sensação de deixar o mar no final de tarde, após duas ou três horas surfando, e voltar pra casa caminhando pela areia é algo indescritível e, brasiliense e surfista tardio, sinto como se a vida tivesse me negado algo. Assim como chegar ao jardim da praia e se deparar com um monte de gente caminhando, correndo, jogando bola e até nadando tarde da noite é algo estranho para quem cresceu acostumado às ruas vazias do Plano Piloto a noite. Não digo que seja melhou ou pior, mas percebo agora que estas são experiências determinantes na forma como vemos e lidamos com a realidade a nossa volta.

Bom, enfim, é isso. Adorei o bolinho de bacalhau do Toninho e o pf de arroz, feijão e pescada. A programação daquele cineminha do jardim da praia (R$ 3!!!) é ótimo e, de fato, a tão comentada roda de samba do Ouro Verde é divertidíssima, ainda mais por ser de graça. Tomara que a vizinhança não consiga acabar com ela e que se chegue a um acordo. A vista do alto do morro da asa delta é bonita pacas e ver o Neymar saindo tranquilamente do prédio em que mora, saudando a galera, foi algo bacana. E ainda confirmei o que você sempre me diz sobre a vida cultural santista ao saber que o genial Milo Manara tinha estado por lá poucos dias antes da minha chegada. Pô, Manara! Que eu saiba, o cara só passou por São Paulo e Rio de Janeiro. E pra não dizer que não falei de flores: ahhh! as santistas... Pena serem tão patricinhas.

Agora, as ondas podiam ser um pouco mais constantes, não acha?

Abraço, do seu amigo
Carlos Leite

segunda-feira, novembro 29, 2010

Plantão Médico

Sangue, fezes, urina, vômitos, lágrimas, a dor e o medo disfarçados. Eu já estava há quase 72 brutas horas acompanhando de dentro a rotina de um hospital público, em Santos (SP), sem que nada disso houvesse me tocado tanto quanto a melancolia de uma árvore de Natal montada no meio do corredor do centro cirúrgico hospitalar.
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Diante da árvore, do mural de recados com votos de boas-festas e dos penduricalhos na forma de sininhos e de botas enfeitando a porta de cada um dos quartos, senti um desamparo só comparável ao que senti quando, em junho deste ano, caminhava sozinho entre a multidão da Avenida Paulista, em São Paulo, poucas horas antes da seleção brasileira de futebol estrear na última Copa do Mundo.

Isso, pensei, com certeza foi idéia de algum funcionário bem-intencionado. Uma estratégia para "humanizar" o ambiente hospitalar. O que não foi levado em conta é que, naquele local, naquelas circunstâncias, a lembrança festiva servia para ampliar os efeitos do silêncio entrecortado por gemidos e lamúrias, dos cheiros e, principalmente, da suspeita de que o final do ano não é uma boa época para receber a visita indesejada.
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A visão da árvore de Natal hospitalar desencadeou em mim um daqueles instantes fugidios em que parecemos prestes a compreender algo a respeito do caráter inconcebível e insensato da realidade. Esse momento fugaz, contudo, passou. E se havia alguma lição a tirar dele, não fui esperto o bastante. Restou apenas a melancolia, uma vaga saudade de algo ainda não vivido. E o assombro pela confirmação de quão frágil é a vida.

quarta-feira, novembro 10, 2010

domingo, novembro 07, 2010

Atriz de Resident Evil é destaque de filme com De Niro e Edward Norton

Eu sabia! Após assistir aos quatro episódios de Resident Evil, filme baseado no famoso game de terror, eu sabia que a bela Milla Jovovich tinha algum talento. Apesar de que no primeiro filme em que a vi - O Quinto Elemento, de seu depois namorado Luc Besson – ela só fazia caretas, já na época eu desconfiei de que a ex-modelo não era de toda má e que tinha um pouco mais que um rosto bonito.
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Depois de demonstrar fôlego para viver Joana D´Arc e a já citada Alice, uma personagem cuja origem é nebulosa e que a cada novo Resident Evil agrega novos poderes, a ucraniana surpreende em Homens em Fúria, ao lado de dois dos melhores atores de duas gerações distintas: Robert De Niro e Edward Norton.

Dirigido por John Curran (de O Despertar de Uma Paixão), o filme mistura suspense e drama e eu me arrisco a classificá-lo como bom, ainda que sabendo que ele irá aborrecer a maior parte do público que pagar o ingresso atraído pelo péssimo título em português (o nome original é Stone, Rocha, referência à personagem de Norton, mas que também pode ser interpretado como uma metáfora à personagem de De Niro). Não se trata de um filme policial de ação. Embora a fúria esteja o tempo todo na iminência de irromper, há uma única cena de violência explícita, mas ela não é protagonizada por nenhum dos dois atores.

Enquanto De Niro está bem e Norton começa brilhantemente (detalhe para o sotaque e o maneirismo ao falar, principalmente em sua primeira cena) para perder o foco ao longo do filme, Milla surge quase irreconhecível com uma personagem que procura seduzir a todos sem deixar clara sua real motivação.

sábado, novembro 06, 2010

KS 10


Kelly Slater é 10! Dez vezes campeão mundial de surf. Um momento histórico para qualquer amante de esportes, qualquer que seja a modalidade. Aos 38 anos, o norte-americano garantiu o inigualável feito ao superar o brasileiro Adriano de Souza, o Mineirinho, nas quartas-de-final do Rip Curl Pro Search, encerrado hoje (6) em Porto Rico. Não tenho conhecimento de outro atleta de qualquer outro esporte que tenha obtido tantos títulos. Será que há?

Com o décimo título já em mãos, Slater chegou despreocupado à final da etapa disputada contra o australiano Bede Durbidge e simplesmente voou sobre as boas ondas da lotada praia de Middles. Com vários aéreos, inclusive um 360 sem as mãos, Slater obteve ao menos uma nota dez na final e faturou também o evento.

A dimensão do feito foi expresso de forma exagerada pela locutora da ESPN (que fez uma ótima transmissão do campeonato), que leu um texto divulgado hoje e que ainda não encontrei para checar sua autoria. "São dez os mandamentos. A mulher mais bonita é a nota dez. Beethoven não compôs uma, duas ou três sinfonias, mas sim dez. A obra de Slater agora também pode estar completa". Explicação: pode porque a discussão agora é se o floridiano irá abandonar o tour ou seguirá estendendo seu próprio recorde.

Ao sair do mar, Slater fez questão de dedicar a vitória ao havaiano Andy Irons, morto esta semana. Pelo título, Slater leva para casa um cheque de US$ 100 mil dólares, mais bônus (que devem ser polpudos) de seu patrocinador, a Quiksilver, que antes mesmo do final da etapa portoriquenha já exibia produtos com a logo KS10, numa grande sacada de marketing.
Além de ser o mais jovem surfista a levar o título mundial, com então 20 anos, Slater se mantém como o mais velho atleta a se sagrar rei do WCT. Agora, pense bem nos anos de 1992, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 2005, 2006, 2008 e 2010. Slater estava faturando títulos.

quinta-feira, novembro 04, 2010

A Suprema Felicidade

O Rio de Janeiro era a capital federal e nós assistíamos a tudo com nosso olhar ingênuo. A Segunda Guerra Mundial nos parecia uma aventura de revistas em quadrinhos ou de filmes como os que assistíamos no cinema com papai e mamãe elegantemente vestidos. Era a época de ouro do rádio. Não sabíamos nada sobre a vida em Madureira do pipoqueiro que nos ensinava piadas infames, nem mesmo se ele era casado. Assim como não sabíamos nada sobre nossos pais e como logo deixaríamos de saber do destino de nosso melhor amigo (bastaria ele manifestar sua predileção por meninos para sumir de nossa história). Intuíamos que nossa `belle epóque´ não era real e que não iria durar muito quando iamos à zona ou quando um valentão nos batia na saída do colégio. Mas éramos jovens e aproveitávamos estas ocasiões longe da proteção familiar para nos darmos ao luxo de termos crises de identidade. Que não duravam muito, pois, milagrosamente, nestas circunstâncias nossa rua se tornava um Carnaval como a indicar que não havia então tristeza debaixo do sol dos trópicos. E assim seguíamos felizes em nossa inocência, ansiosos por nos livrarmos de nossa virgindade. Nossa tarefa era estudarmos e nos distinguirmos de nossos pais. Não queriamos parecer conservadores. Tínhamos pavor de que nos chamassem de reacionários. E por isso aderíamos a todos os ismos da moda. E buscávamos a originalidade. A maioria de nós almejava ser artista em um país majoritariamente analfabeto. E como bem notou alguém, era fácil falar de coisas belas de frente para o mar e de costas para a favela.

Só que então nos tiraram o status de capital nacional, as coisas começaram a sair dos trilhos, a Rádio Nacional foi perdendo prestígio, os filmes italianos perderam cartaz, os tempos mudaram, a violência grassou e por mais que nossa marra disfarce, nós também perdemos algo de nossa antiga bossa. O pipoqueiro então deixou Madureira e se instalou com mulher e dois filhos em um quarto e sala de Copacabana. A filha dele ingressou na faculdade pública graças ao sistema de cotas enquanto algumas universitárias outrora acima de quaisquer suspeitas passaram a fazer programas. As ruas se encheram de compactos carros populares, a Panair faliu, surgiram filas nos aeroportos, os negros se tornaram orgulhosos, a presidência da República foi ocupada por um operário semianalfabeto e por uma mulher que nunca soube se por no seu lugar e nós envelhecemos e perdemos relevância frente ao Capitão Nascimento e ao Dadinho. Já há inclusive quem diga que nossa arte se tornou absolutamente desnecessária.

quarta-feira, novembro 03, 2010

A morte do tri-campeão Andy Irons

Dentro d´água, deslizando sobre ondas, Andy Irons foi um gênio. Ponto.

Se você não sabia disso é porque, provavelmente, ainda não tinha ouvido falar do havaiano de 32 anos, tricampeão mundial de surf. E não há porque se recriminar. Há muita gente que talvez só tenha ouvido falar do maior astro do surf, o norte-americano Kelly Slater, quando este apareceu no programa do Luciano Huck. Ou em alguma revista de fofoca, como o ex-namorado da Gisele Bundchen. E olha que o cara é um dos maiores atletas de todos os tempos, estando prestes a conquistar seu décimo título mundial. Se NA TERRA DA MONOCULTURA FUTEBOLÍSTICA NEM MESMO O MAIOR ATLETA DO SÉCULO CHEGA A RECEBER O DESTAQUE QUE MERECE, é natural que um "mero" tricampeão mundial de surf fosse quase um desconhecido para os não iniciados (mesmo que os iniciados sejam milhares).

Esta manhã (4), contudo, Irons foi destaque em notíciários de todo o mundo. E, consequentemente, também do Brasil. Infelizmente, não por seu talento, relegado aos programas especializados em surf ou às transmissões de campeonatos via internet, mas sim por sua trágica e até agora inexplicável morte.

Imagino a correria nas redações dos grandes jornais impressos e televisivos. As notícias desencontradas chegando via agências de notícias internacionais e a galera sem saber exatamente de quem se tratava. E aí? Ligar para quem? Para o Galvão? Para o Bassan? Quem sabe para o Ceará? Alguém tem que dizer algo afinal o cara era um jovem bem-sucedido que superou uma história difícil e após um tempo distante dos campeonatos lutava para voltar ao topo e que, quando parecia prestes a conseguir isso, morre de modo misterioso.

Óbvio que em muitas das redações há ao menos um surfista, nem que seja um ex-surfista. Nestas, finalmente caras como Edinho Leite, hoje na ESPN, tiveram a mesma chance de mostrar competência que costuma ser dada a muito mané que só sabe falar de futebol, no máximo de vôlei ou fórmula 1, e diz ser Jornalista Esportivo, mesmo não sabendo distinguir um Minerinho de outro Mineirinho.

Sobre uma prancha, Andy Irons foi um gênio. Competitivo ao extremo, foi dos poucos que conseguiu atingir o topo durante à permanência de Slater nas competições. Fora d´água, era um sujeito aparentemente pacato, mas controverso como todo bom havaiano que surfa e que se sente na obrigação de defender e representar o templo sagrado das ondas, berço da prática de correr ondas, dos "haoles". O tamanho de seu talento pode agora ser notado nos muitos vídeos dele destroçando as ondas com um surf potente e radical e no espaço que a imprensa hoje decidiu dar a ele.