Nada a comentar. Eu só não podia deixar de registrar. Afinal, não é todo dia que você se depara com um disputado campeonato de... Cubo de Rubik.
sexta-feira, julho 15, 2011
O CUBO
O sucesso deles entre as mulheres
..."Se você não é bonito feito o Fabio Assunção, não tem o dinheiro do copeiro do Eike Batista, nem a espirituosidade do Jô Soares ou o tórax do Malvino Salvador, então apenas leia, meu rapaz. Leia os clássicos, leia os chatos, leia os rápidos, leia os com baleias ou bruxos no meio. Ou Philip Roth, Hermann Hesse, JD Salinger, John Fante, Ernest Hemingway, Nick Hornby, em último caso, a biografia do Justin Bieber (mentira, jamais faça isso).
Mas faça perguntas, muitas. Não tente parecer enigmático ou canalha ou popular. Faça perguntas. Queira saber, se importe, ouça, pense em trocar ideias aquém dos fluidos corporais. A garota bonita não verá a hora de pegar o celular e "ai, amiga, nem sabe, conheci um cara im-pres-sio-nan-te" - "lindo?" - "não, im-pres-sio-nan-te" - "e lindo?" - "não, sua burra, eu disse impressionante, tá cortando a ligação, hein?". Porque tem coisas que só o renascimento e o Grecin 2000 fazem por você."
Gabito Nunes
Não. Não cedi à publicidade sobre a eficácia de manuais contendo dicas infalíveis para se dar bem com o sexo oposto e conquistar a (o, quando for o caso) companheira (o) de toda a vida.
A citação acima veio a calhar porque, já há alguns dias, estava querendo comentar algo sobre dois escritores que sabem explorar muito bem as possibilidades da internet como suporte literário: Gabito Nunes e Fabrício Carpinejar.
Além de gaúchos e filiados à tradição do texto leve, conciso e divertido, ambos compartilham uma curiosa característica: seus textos fazem um enorme sucesso entre as mulheres, principalmente. Cada novo texto publicado em seus blogs recebem dezenas de comentários femininos contendo declarações de admiração e amor à sensibilidade destes dois lapidares exemplos de "novo homem", este ser sensível e perdido em meio ao "ocaso do macho".
Convenhamos. Para quem "não é bonito como o Fábio Assunção ou não tem o tórax do Malvino Salvador", descobrir que alguém faz sucesso entre as mulheres por escrever bem é um sinal de alento que contraria o senso-comum. Ou, talvez, a pá de terra final sobre a auto-estima de quem, além de nunca ter cultivado o físico e não ter ganho dinheiro na Bolsa, sempre achou livros objetos brochantes.
Publicitário, Gabito Nunes não teme associar seu talento ao gosto das massas. Tanto que seu blog, Caras Como Eu, apesar de literário, virou referência quando o assunto é relacionamentos amorosos. E, como escrevi aqui há cinco meses, originou um livro de capa horrível, mas que você lê como se estivesse batendo papo com um velho amigo. O tema, universal e de identificação imediata por todos que não os intelectuais restritivos, soa óbvio. Já o estilo do autor, não. O que resulta numa leitura leve, divertida e numa manifesta admiração pela capacidade que Gabito tem de fazer parecer que escrever é algo fácil.
Já o jornalista, poeta e autor de 17 livros já publicados, Fabrício Carpinejar, é um exímio frasista. Tanto que é uma das únicas pessoas que conheço a de alguma forma justificar a invenção do twitter, microblog em que escreve verdadeiros hai-kais seguidos de perto por outros quase 116 mil usuários. "Ressentimento: quem deixa para falar depois e perde o contexto"; "Só encontramos a serenidade quando o que desejamos não nos interessa mais".
Lógico que, pelos trechos de ambos os autores citados acima, seria válido ampliar a análise e discutir se e quando a literatura é receita e se, apesar do conteúdo temático óbvio, a preocupação com a linguagem e os resultados atingidos bastam para indicar o mérito literário dos dois. Eu, no entanto, não entendo disso. Posso, portanto, apenas desfrutar da leitura e, quem sabe, tirar alguma lição proveitosa das observações cotidianas dos dois escritores.
quinta-feira, julho 14, 2011
Tranquila - Thalma de Freitas
Pense nos amigos de infância. Em teus pais. Na agradável sensação do corpo esparramado sobre a areia fofa e quente da praia após horas surfando.
Resgate a lembrança do primeiro grande show com a turma. Do Carnaval em Ilhabela. Do teu pai deixando o hospital. Da primeira viagem com a (s) ex-namorada (s). Ligue pra ela (s) e encontre a forma certa de dizer oi.
Busque no armário aquela foto em que todos aparecem sorrindo na praia de São Pedro, no Guarujá. Refaça mentalmente teus passos pelos lugares de que mais gosta, como Paraty e Manoel Antonio e conte a tua mãe tudo o que viu lá.
Releia um livro que te emocionou, mesmo sendo um do Richard Bach. Se for um da coleção Vaga-Lume, melhor ainda. Depois, esqueça-o num banco qualquer. Jogue fora os ingressos de todas as peças de teatro que assistiu, menos o daquela de que mais gostou. Mas não faça concessões: escolha apenas um. Se livre da coleção de revistas antigas. Esvazie uma gaveta. Rasgue papéis.
Dê uma volta de ônibus. Visite tua primeira escola (lembra do que sentiu quando tua mãe soltou tua mão?) Vá ao cinema na primeira sessão de uma terça-feira. Dê uma volta pelo Centro. Tome um passe. Tire um cochilo após o almoço.
Visite um primo da tua idade que você não vê há muito tempo. Leve um presente para tua melhor amiga. Alugue uma bicicleta. Aproveite para conhecer o filho de um colega com quem você perdeu o contato.
Coma um churros. Peça um PF. Pague um almoço para o teu pai. Ouça histórias. Conheça uma música nova. E se alimente com tudo de bom que a vida tem te proporcionado. As férias terminam logo.
terça-feira, julho 12, 2011
Na faixa
Algo interessante que venho observando nas últimas edições da Flip são as estratégias de publicidade desenvolvidas por diversas marcas. E se, de fato, o evento atrai a um público social e economicante privilegiado (impressão que eu acho que não pode ser levada a ferro e fogo), a ações desenvolvidas por editoras, jornais, bancos, revistas, cartões de crédito e outros, comprovam: a palavra grátis atrai independentemente do limite do cheque especial. Em Paraty, contudo, não basta ser de graça. É necessário adequar a campanha ao gosto particular do público.
Em 2009 e 2010, por exemplo, uma cervejaria fez muito sucesso ao levar a Paraty uma excelente banda que tocava jazz pelas ruas. Como os integrantes da Russo Jazz Band são, além de excelentes músicos, divertidíssimos, arrastavam consigo um grande público, sempre expondo a logomarca da cerveja.
Para mim, no entanto, a maior demonstração de sintonia com o evento foi dada por um banco. Todo ano eu falo sobre os "pipocas", gente como eu, que assiste a todos os debates do lado de fora da Tenda do Telão, não gastando nada. O inconveniente é que ou ficamos de pé ou nos sentamos no chão. Pois bem. Em 2010, alguém teve a grande sacada de distribuir bancos desdobráveis feitos de papelão. O sucesso foi tão grande que muita gente deixou Paraty levando um banquinho com a marca do banco em baixo do braço. E este ano, lá estava de novo o quiosque onde enormes filas se formavam para obter um.
O mesmo banco este ano inovou e, não sei se por influência da mesa em que o ex-vocalista da banda Talking Heads, David Byrne, falaria sobre suas andanças de bicicleta por várias cidades mundo afora, ofereceu ao público, gratuitamente, montain bikes devidamente equipadas. Com sol, porém, frio, muita gente se dispôs a dar uma pedalada. Detalhe: não havia qualquer restrição ao uso. O ciclista eventual podia ir aonde bem entendesse, tendo apenas que, se quisesse, renovar o empréstimo da magrela a cada uma hora.
Essas são algumas das iniciativas mais interessantes. Há ainda as comuns ofertas de jornais, livros e café na faixa. Com um pouco de sorte, até mesmo a degustação de cachaça sai de graça.
segunda-feira, julho 11, 2011
FIM DE FEIRA
A FESTA SÓ TERMINA QUANDO ACABA.
E, embora oficialmente a Flip termine domingo a tarde, a última noite é quando centenas de pessoas diretamente envolvidas com a organização dos muitos eventos finalmente relaxam e vão curtir junto com os caiçaras e com os turistas que prolongam a estadia na cidade.
Ainda quero escrever sobre Joe Sacco e David Byrne, além de publicar alguns vídeos tardios. Hoje, no entanto, parece que vai ser um dia perdido já que o onibus em que estou viajando deveria ter saído as 12 horas, mas, as 13h, ainda estamos na entrada da cidade, mal chegados a Rio-Santos. As fotos foram tiradas na rodoviária, por volta das 9 horas.
domingo, julho 10, 2011
Norte-americana traça "retrato íntimo" de músicos brasileiros
Em meados da década de 1990, a flautista norte-americana Julie Koidin conheceu o choro e ouviu um disco de Altamiro Carrilho que mudou sua vida. Desde então, esteve no Brasil 16 vezes e decidiu estudar a fundo o gênero musical.
Apaixonou-se pelo país, pela música (a ponto de criar, em Chicago, onde vive, um duo com o brasileiro Paulinho Garcia, o Dois no Choro) e concluiu: os mais importantes instrumentistas brasileiros adoram o chorinho, que sobrevive aos modismos e continua atraindo entusiastas de todo o mundo.
A partir dessa conclusão e incentivada pelo violonista Maurício Carrilho, sobrinho de Altamiro, Julie decidiu aproveitar seus contatos e a bolsa obtida da Fundação Internacional Fulbright para escrever um livro que fosse uma registro para o futuro sobre os músicos atualmente em atividade.
Nascia assim Os Sorrisos do Choro – Uma Jornada Musical Através de Caminhos Cruzados (Ed. Choro Music, 516 páginas). Fruto de oito anos de pesquisas e de encontros que quase sempre terminavam com entrevistado e entrevistadora tocando juntos, o livro é um registro da história de vida e artística de 52 músicos que, mesmo não se dedicando exclusivamente ao choro, são dignos de ostentar o título de chorões.
"Eu queria preservar o jeito de ser de cada um e não apenas apresentar seus dados biográficos e as discografias. E tocar com quase todos me permitiu conhecer melhor a cada um deles. Porque tocar junto com alguém é uma experiência única, uma troca sem igual", disse-me Julie há duas semanas, durante sua rápida passagem por Brasília, onde, tocou, lançou o livro e deu aulas na Universidade de Brasília (UnB). Ontem (9), nos reencontramos em Paraty, onde ela se apresentou na casa ocupada pelo Instituto Moreira Salles.
Durante as entrevistas para o livro, Julie procurou obter detalhes sobre a iniciação e a formação musical de cada artista, sobre o ambiente familiar em que eles se criaram, como o choro entrou em suas vidas, o que acham do atual estágio do gênero e do espaço dedicado pela mídia à música.
“Acho que minha jornada acaba revelando um retrato da vida musical brasileira diferente daquele publicado nos jornais brasileiro. Justamente porque é muito mais íntimo. E a partir da visão de uma estrangeira que se surpreende com coisas triviais e bonitas que, para vocês, são comuns, espero que o leitor enxergue um pouco mais sobre sua própria cultura", disse Julie. Sua paixão pelo país é tanta que ela pintou a bandeira brasileira no muro de sua casa, em Chicago, e já pensou em tatuá-la.
sábado, julho 09, 2011
flip-se all night
3h33. E ainda chegando. "que onda, que festa de arromba": "So good, so nice, i get you". E o que poucos viram foi Zé Celso Martinez Corrêa ensaiando, as duas da manhã, na Tenda dos Autores, o "rito antropofágico" com que seu grupo interpretarão o Manifesto escrito por Oswald de Andrade, com que encerrarão, esta tarde, a 9 Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ou a boa banda que tocava de graça em um quisoque da Praia do Pontal enquanto alguns poucos se esbaldavam de dançar com o pé na areia ao som do reggae e do dub. Ou as meninas-anjo passeando pelas ruas vazias do Centro Histórico após sairem de uma festa à fantasia.
E o bonde das raparigas em flor, patricinhas cuja coreografia, beijos e afagos entre si incendiaram a imaginação dos machos babões que lotavam um dos bares da Praça da Matriz? Para não falar do sujeito que, em bom som, oferecia da branca para um sujeito que só queria divulgar sua produção poética e se dar bem com as meninas, no que parecia não estar sendo bem-sucedido.
É. Cada um tem o direito de escolher o Carnaval que lhe convém.
Não basta sair do armário, é preciso sair das trincheiras, sugere autor de Piratas do Tietê
Dar conta de tudo o que acontece em Paraty durante os cinco dias de Flip é impossível. Além da programação oficial - que abarca, além de quatro a cinco debates diários na tenda principal, a Flipinha (para as crianças) e a FlipZona -, há eventos e mais eventos realizados por diferentes entidades públicas e privadas. E os artistas de rua que apinham a cidade, cordelistas, coletivos de poetas, trupes de teatro, hippies e beatniks tardios... Você sai de uma mesa pensando em ir tomar um banho e trocar de roupa e, de repente, está assistindo a uma apresentação musical, um filme, outro bate-papo ou simplesmente papeando com uma desconhecida.
Este ano, por exemplo, as casas do jornal Folha de S.Paulo, do Instituto Moreira Sales e das editoras Penguin e Record tem sido parada obrigatória, com uma programação diversificada que vai de exposição de fotos à pocket-shows. A primeira, por exemplo, na quinta-feira de manhã, não comportou o público que queria ver o cartunista Laerte falar sobre a prática do cross-dressing e a sexualidade.
Vestido de mulher, com aspecto de tia de Pindamonhangaba que vive no Bixiga, o autor das ácidas tiras Piratas do Tietê, entre outras, surpreendeu a todos quando, há pouco tempo, surgiu em público maquiado e usando peças femininas. Em Paraty, ele falou sobre a importância dos gays não cairem na armadilha de se fecharem em guetos, se mostrarem às claras, exigirem respeito e "peitarem seus adversários": "O horror a transgredir certas convenções e perder seu emprego ou o amor da família é muito grande no Brasil", disse o cartunista, explicando que sua decisão foi bem aceita tanto por seus filhos, que já sabiam de sua bissexualidade, quanto por seus pais, "que são do caralho!". "Você tem que sair das trincheiras e lamber o pescoço. Tipo: Senta aqui, Bolsonaro!".
Para Laerte, a melhor forma, hoje, de combater a homofobia é dar aos crimes contra homossexuais o mesmo tratamento que o dado em casos de agressão contra negros. Mesmo nunca tendo sido alvo de violência ou virulentas manifestações homofóbicas, o cartunista sabe que o processo de aceitação das diferenças não é fácil. "Passei muito tempo escondendo de mim mesmo minha condição. Eu mesmo, quando jovem, pratiquei bullying contra gays. Costumava hostilizar um primo meu que dizia 'Ave!' no lugar de 'porra'!", revelou.
Questionado se o projeto de lei que tramita no Congresso não fere o direito de expressão de quem discorde das práticas homossexuais, Laerte foi taxativo: "Acho que não é possível discordar da homossexualidade em si porque, como a heterossexualidade, ela é manifestação da sexualidade humana que, em si, não pode ser criticada. A pessoa pode se privar de [exercer] sua sexualidade, mas não condená-la por si só como em épocas passadas. Concordo que o texto original era dúbio, mas assim como foi necessário criar uma lei anti-racismo, também é necessária uma para proteger os homossexuais".
Bem-humorado, Laerte defendeu o caráter festivo da Parada do Orgulho Gay, associando-a positivamente ao Carnaval não apenas como alegoria, mas sim como um momento de extravazamento cuja liberdade muitos desejariam que se tornasse cotidiana.
sexta-feira, julho 08, 2011
"Ela mostrou-me tudo só porque eu era amigo das brasileiras", conta português
No post Bela Confusão, logo abaixo, deixei de mencionar que a simpática e hermética musa argentina, Pola Oloixarac, dividiu a sexta mesa de debates desta 9ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) com o angolano valter hugo mãe. A razão é que mãe brilhou e achei que isso merecia um post a parte. Porque, se é que se pode dizer isso de um bate-papo literário, o autor de `a máquina de fazer espanhóis´ acabou por ofuscar a incensada portenha. Ainda que uma rápida busca no google indique o contrário: o número de citações destacando a participação de Pola é muito maior que as do também músico e artista plástico.
Estou aguardando que a organização do evento ou o G1, que está transmitindo os debates ao vivo, disponibilizem o vídeo do momento em que mãe se emocionou ao ler o bem-humorado texto que escreveu para a Flip e no qual descreve o significado do Brasil em sua vida. Até o momento, nada de vídeo. Falta de timming da organização, minimizada pela reprodução, no site oficial, da íntegra do texto.
Engraçado, porque mãe acabou por confirmar que autores africanos de língua portuguesa e Paraty dão liga, a exemplo do que já haviam indicado o também angolano José Eduardo Agualusa e o moçambicano Mia Couto, participantes da off Flip em 2007.
Sem o vídeo, resta reproduzir o texto:
Carta de valter hugo mãe para a Flip
"Quando eu tinha 8 anos veio morar para a casa ao lado da dos meus pais um casal de brasileiros com duas filhas moças. Ao chegar, o casal ofereceu uma ambulância ao quartel de bombeiros da nossa vila e toda a vila se emocionou. Foram os primeiros brasileiros que eu vi fora da tv, fora das novelas. Eu e os meus amigos fomos ao quartel dos bombeiros apreciar a ambulância nova, bem pintada, que se mostrava a todos como prova bonita da bondade de alguém. O meu pai tinha um carro pequeno, velho, difícil de levar a família inteira dentro. A ambulância era enorme, um luxo, como se fosse para transportar doentes felizes. Eu e os meus amigos ficamos estupefactamente felizes.
Depois, algumas mulheres e alguns homens mais delicados reuniam-se diante da senhora e das moças brasileiras e faziam perguntas sobre as novelas. Naquele tempo, passavam com muito atraso em relação ao Brasil, e todos queriam saber avidamente quem casava com quem na Gabriela.
A senhora e as suas duas filhas, porque sabiam o que ia acontecer nas novelas, eram aos olhos de todos como adivinhas, gente que via coisas do futuro, gente que viveu o futuro e que se juntou a nós para reviver o passado. Por causa disto, eram mágicas e as pessoas queriam a opinião delas para cada decisão.
A minha mãe pediu à nova vizinha a receita para fazer pizza, porque ainda não havia pizzarias e só víamos nas revistas como deviam ser bonitos e saborosos aqueles círculos de pão e queijo coloridos pousados nas mesas. Passámos a comer uma pizza de atum com muitas azeitonas pretas. Ainda hoje peço nos restaurantes pizza de atum com a esperança de que seja exactamente igual à da minha infância, mas nunca é.
As moças brasileiras eram mais velhas do que eu e ficaram amigas das minhas irmãs. As minhas irmãs saíam com elas à rua inchadas de orgulho, porque as pessoas todas, sempre comovidas com a ambulância, fazia vénia e sorriam. Havia gente que dizia que as moças brasileiras eram as mais belas de todas. Elas eram, na verdade, sorridentes, e eu senti que também seriam muito felizes na nossa pequena vila.
Um dia a minha imã mais velha fez anos e foi festejá-los com uma festa na garagem das brasileiras. Na noite desse dia, ali pelas oito horas, uma outra menina, filha de um vizinho português, mostrou-me tudo. Não foi a primeira vez, mas eu queria sempre ver, embora ela não quisesse sempre mostrar. Um amigo meu surpreendeu-nos e quis ver também, mas a menina respondeu que não. Ela disse que mostrava apenas a mim porque eu era amigo das brasileiras. Entendi que as brasileiras eram como um toque de Midas que me transformava num menino de ouro.
Aos dezoito, aquele que é o meu amigo mais irmão chegou do Brasil e ingressou na minha escola. Eu instintivamente corri atrás dele. Queria ser amigo dele como se fosse vital para mim. Ele mostrou-me Titãs e Legião Urbana. Eu achava que o Renato Russo ia salvar a minha vida com aquela canção do Tempo perdido. Quando o Renato Russo morreu, chorei muito e passei só a chorar quando ouço o Tempo perdido. Eu não sei se a arte nos deve salvar, mas tenho a certeza de que pode conduzir ao melhor que há em nós, para que não nos desperdicemos na vida.O Alexandre, esse meu amigo brasileiro, mudou tudo em mim para melhor. Adorava viajar de comboio com ele quando entalávamos as meias mal cheirosas nas janelas para que arejassem durante a marcha. Nesse tempo, o Alexandre ensinou-me a perder aquela vergonha que só atrapalha. Porque os portugueses sempre foram meio envergonhados.Hoje, temos quase quarenta anos, ele casou com uma portuguesa e tem filhos. Eu, não. Fiquei para tio a escrever romances, e os romances tornaram-se fundamentais na minha vida, como a máquina de fazer espanhóis. Sonhei sempre em vir ao Brasil e vim várias vezes, faltava vir como escritor, publicado e recebido. Pois aqui estou, a Flip fez isso, não esquecerei nunca, sinto que fazem de mim um homem de ouro, agradeço a todos muito por isso."
- valter hugo mãe, 8 de julho de 2011, Flip
Um belo país de leitores
Ah, como leem os brasileiros que usam blazer, [chapéu Panamá] ou vestido e botinha. Um elegante povo letrado que se distingue pelo bom-gosto, opiniões e roupas de grifes caras. Que tira a semana de folga para vir a um evento literário e se entretém nos cafés e restaurantes com a polemica da vez. E flerta citando filmes, autores e músicos, equilibrando-se sobre as irregulares ruas de pedras enquanto conta as últimas de Paris e Nova Iorque. Veja só as ruas apinhadas de leitores! Que orgulho.
Atenção MEC. Atenção Associação Nacional de Editoras. Imaginem o apelo sugestivo de uma campanha de estímulo à leitura rodada em Paraty. Até dá para ver os alunos da rede pública sonhando diante da tv com um futuro lendo A Cabana no convés de suas próprias lanchas, singrando entre as ilhas do litoral paratiense. Ou caminhando ao pôr-do-sol pelo Centro Histórico abraçados a uma loira siliconada ou a um moreno de cabelos cheios e cardigã displicentemente jogado sobre os ombros, cada um carregando sua sacolinha da Livraria da Vila.
(A Flip, felizmente, não é só isso, mas para um semi-fosco, por mais vezes que venha ao evento, este contraditório aspecto sempre causará espanto)
Confusão Selvagem
O sol do meio-dia incide perpendicular sobre a Tenda dos Autores. Tocam os sinos da Igreja da Matriz no exato momento em que o burburinho do público cresce. Surge então a escritora-musa da vez, a argentina Pola Oloixarac (ano passado era a cubana Wendy Guerra), cujo livro, As Teorias Selvagens (Ed. Benvirá, 238 pág), eu talvez esqueça no hotel para não carregar peso desnecessário. Mesmo só tendo lido, com muito esforço, menos da metade dele.
"Escrevo porque me divirto fazendo-o. E elaboro meus personagens como alguém com quem eu gostaria de estar", diz Pola, respondendo logo de cara à mórbida curiosidade que me atraiu, hoje, para a sexta mesa da 9ª Festa Literária Internacional de Paraty (Flip). Ao conhecer Pabst e a jovem Kamtchowsky, duas das personagens do livro, fiquei intrigado. Perguntava-me se o estilo (a forma) da autora seria um recurso, uma forma de ironizar (o conteúdo) uma parcela de jovens pedantes e socialmente desajustados ou se ela, simplesmente, pensa de forma tão truncada.
A resposta? "Escreve claro quem pensa claro", já disse alguém que não me lembro quem. A fala de Pola é tão ou mais confusa do que seu texto. Ao que parece, a isso, em Paraty, se dá o nome de experimentalismo. "A tradição literária argentina é a tradição das idéias e, por isso, é muito aberta à experimentação. Trata-se de fazer algo a que a filosofia só não basta", tentou explicar a portenha, sugerindo que diferenças culturais talvez estejam me impedindo de desfrutar de seu primeiro (e até agora único) livro. Se é isso, porque ela não sente em relação ao Brasil o mesmo que eu pelo seu livro?
"Nós, argentinos, temos uma idealização a respeito do Brasil, como se este fosse um lugar de fantasia capaz de condensar a ideia de felicidade. Adoramos a amabilidade brasileira, apesar da rivalidade entre nossos homens", comentou Pola.
Mas, além de bonita, a moça é tão simpática e se portou tão amavelmente com o português valter hugo mãe (até agora, ponto alto do evento) que quase me fez esquecer que seu "experimentalismo" de unir ficção e ensaio é entediante. E que nem mesmo as referências pop inseridas por meio das personagens tornam seu texto menos árido. Isso para não falar no emprego de uma sexualidade ginecológica e deserotizada que nem choca, nem envolve.
E segue por aí o livro que o escritor argentino Ricardo Piglia classificou como "um romance inesquecível, filosófico, selvagem e muito sereno", com Pola, "uma das melhores narradoras jovens em espanhol", de acordo com a revista britânica Granta, aparentemente procurando dificultar ao leitor a fruição simples, o mero gozo, de uma boa prosa. Há, evidente, boas passagens, alguns trechos divertidos, mas, no geral, a impressão que se tem é de se estar lendo uma bula de remédio."Kamtchowsky preferia não admitir, mas estava obcecada pelos sodomitas. Custava não ficar imbecilizada sobre a beira do muro humano, olhando-os imóvel enquanto dançavam. Não invejava sua alegria, seu êxito momentâneo como raça, as camisetinhas; perguntava-se como era possível que conseguissem semelhante dilatação de forma a centrar o eixo de sua vida sexual no rasgar-se o ânus. Apesar de que o ânus tinha seu lugar na sombra sob a categoria músculo, não compreendia a razão da frequência com que alguém podia sair correndo por Palermo [bairro de Buenos Aires], digamos, e se deixar dar oito voltas por dia. Pabst se ofereceu gentilmente para romper seu cu, assim deixava de dar voltas ao assunto.
_ Não quero fazer isso. Acho que gosto muito de pensar nisso. Prefiro deixá-lo como esse lugar puro onde não se pode chegar.
Assim, encontrando uma nova localização para o país do Nunca Jamais nos confins de sua bunda, se abraçaram e dormiram juntos até o amanhecer".
Literatura Delivery
Para quem não pôde fugir do trabalho e vir a Paraty, os debates da 9ª Festa Literária Internacional (Flip) estão sendo transmitidos ao vivo, inclusive com tradução simultânea. Basta acessar o site oficial do evento http://www.flip.org.br/flipaovivo.php para ter acesso à fala dos autores convidados e a programação completa do evento. Recado dado, vou indo. Felizmente, ainda não inventaram um jeito apropriado de reproduzir via internet uma caminhada na praia.
"O riso foi o grande instrumento dos modernistas", destaca Antonio Candido
Jornalismo em tempo (sur)real. A Flip entra em seu terceiro dia e eu ainda na cama, com a cabeça na conferência de abertura, proferida pelo crítico literário Antonio Cândido. Culpa do frio ou da cachaça paratiense?
A verdade é que achei necessário registrar minha cisma com a fala do professor emérito da USP, que é considerado um dos maiores intelectuais do país, embora, em entrevista, tenha se classificado como um homem encalhado no passado cuja vida intelectual está completamente encerrada.
Candidamente (com licença do trocadilho), o autor de Literatura e Sociedade optou por falar de algo que, em suas próprias palavras, somente ele poderia falar já que é um dos únicos "sobreviventes" a ter convivido com o homenageado deste ano, o autor modernista Oswald de Andrade (1890-1954). E deu seu testemunho pessoal sobre o escritor.
Bem ao sabor da Flip (cujo nome, é sempre bom frisar, é festa), Candido adotou um tom informal, relembrando inúmeros casos envolvendo Oswald.Como as brigas e discussões por razões políticas, literárias e, às vezes, bem mais mundanas. Como a que teve com o autor de Macunaíma, Mário de Andrade, classificada pelo crítico como patética já que ambos jamais voltaram a se falar, apesar das tentativas de reconciliação de Oswald.
Porque me pareceu contraditório que o próprio Candido afirme que a "mitologia" em torno da vida de Oswald tenha retardado a justa avaliação de sua obra, que alguns destes mal-entendidos persistam até hoje e, ao mesmo tempo, tenha optado por não se aprofundar na análise dos textos do autor. Se o tivesse feito, Candido talvez tivesse desestimulado muitos dos presentes à conferência, mas, com certeza, teria brindado à outra parcela com algo único.
Classificando Oswald como um "grande agitador cultural" e um "mestre do jornalismo dada a percepção rápida, a expressão sintética e a capacidade de criar imagens fulgurantes", valores almejados e pouca vezes alcançados atualmente, Candido pintou o seguinte retrato de seu amigo, com quem teve mais de uma briga e com quem sempre se reconciliou por iniciativa do próprio Oswald.
"Era um homem suscetível, que podia facilmente se tornar injusto e se enfurecer e que, embora pudesse ser cruel em suas críticas, não guardava mágoas ou rancor ", "era também de um brilho verbal conciso e bem-humorado que nenhum de seus leitores [que não o tenha conhecido pessoalmente] pode imaginar".
Além do mais, Cândido defende que dois traços distinguiam a personalidade de Oswald: o inconformismo e o humor: "Ele tinha em si o fermento do legítimo anarquismo e sempre alimentou um inconformismo em relação à desigualdade social e à sociedade burguesa". "E foi um homem que soube usar a arma do riso, o grande instrumento dos modernistas brasileiros que foram capazes de demonstrar que a alta literatura não é incompatível com a alegria e com o riso".
quinta-feira, julho 07, 2011
Cá estou eu de novo. Pela sétima ou oitava vez diante da antes carinhosamente chamada Tenda da Matriz. Que agora passa a ser inequivocadamente conhecida como a Tenda do Telão, já que foi transferida da praça ao lado da Igreja Matriz de Nossa Senhora dos Remédios (cuja reforma externa parece finalmente ter sido concluída) para o outro lado do Rio Perequê-açu, na Praia do Pontal, em Paraty (RJ). E de onde acompanho a abertura da 9ª Festa Literária Internacional (Flip).
Agora pode-se dizer que aqui fica a turma do fundão desta variada fauna que comparece ao evento cult-nerd-chique-pop literário, ou, simplesmente, à Festa. Aqueles que não conseguem ingressos para a Tenda dos Autores ou que preferem economizar R$ 30 e assistir aos bate-papos pelo telão, pagando apenas R$ 10, com direito a fones de ouvido. E há também os "pipocas", um povo semifosco que não paga nem mesmo os R$ 10 para entrar na tenda da Matr...digo, do Telão, e assiste a tudo do lado de fora mesmo, de preferência com um copinho de cachaça (também conhecida como parati) em mãos. Daí a sensacional ideia de um determinado banco que, desde o ano passado, distribui banquinhos de papelão dobráveis para quem, como eu, ficava de pé ou se sentava no chão.
Quem deve ter ficado satisfeito com a mudança são os donos de quiosques, estava pensando equivocadamente. Até ver o proprietário do quiosque ao lado da tenda andando pra lá e pra cá, irritado com a multidão que tomou posse de suas mesas e cadeiras, transformando o lugar em um palanque e consumindo quase nada. Tinha gente sentada até em frente aos banheiros, impedindo os habituais clientes de chegarem até eles.
"Não pretendo falar sobre sua obra ou sobre sua biografia, mas sim sobre algo de que só eu posso falar: minha visão sobre Oswald [que Cândido insiste em chamar de Oswaldo] e sobre como ele se situava para mim e para a minha geração. [Isso porque] Sou um sobrevivente e um dos poucos que o conheceu que ainda estão vivos", comentou o crítico, autor dos importantíssimos Literatura e Sociedade (que li) e Formação da Literatura Brasileira (que não li). Nada muito sexy, convenhamos, mas depois da terceira dose...
À fala de Cândido se seguiu uma boa apresentação do professor e músico caiçara (ele nasceu em São Vicente), José Miguel Wisnik. Que só não foi melhor por falta de modéstia, pois Wisnik, que ainda iria se apresentar cantando antes do esperado show de Elza Soares, se alongou demais, falando quase tanto quanto seu mestre na Usp, Antonio Cândido. E ainda por cima adotando um tom professoral, apesar dos esforços para apontar a já bastante explorada influência de Oswald e de seu conceito de antropofagia para as artes brasileiras do final dos anos 1960 (sobretudo para o tropicalismo) e assim, dimensionar a importância do modernista. Pior, lendo um trecho do livro de...Caetano Veloso, Verdade Tropical. Sinceramente. Pode ser coincidência, mas toda vez que ouço o Wisnik ele dá um jeito de encaixar os velhos "novos baianos" Caê e Gil em sua fala.
Aliás, não ficou por aí. Saí para dar uma volta enquanto Wisnik fazia sua aplaudidissima apresentação e só me reaproximei do palco quando a entrada da Elza Soares foi anunciada. Um mês após se submeter a uma cirurgia, a diva caminhou amparada e se apresentou sentada, nada que ofuscasse o brilho de sua voz, o que, no entanto, quase ocorreu com as repetidas intervenções de Wisnik, que procurava "explicar" não sei o quê antes do início de cada música. Putz!
Mas bastou Elza soltar a voz e cantar os primeiros versos de Paciência (Lenine) para que a festa reinasse.
quarta-feira, julho 06, 2011
C_omp_ete
Quase dois anos após o lançamento do excelente cd C_mpl_te, enfim conseguimos ver o show da brasiliense Móveis Coloniais de Acaju, hein?
Apresentação do Móveis em Brasília é sempre cercada de muita expectativa já que o fã-clube da banda local não é pequeno. E como o grupo tem o público nas mãos, os shows costumam ser empolgantes, com uma forte interação do público. Ainda mais quando fazem parte da programação do Festival Móveis Convida.
Neste último sábado, o evento levou ao Centro Cultural da UNB, entre outros, a Beyoncé do Pará, Gabi Amarantos e seu tecnobrega. Com uma apresentação animada, ela acabou por cunhar o bordão da noite: "faz o t", indecifrável refrão de uma de suas músicas que passou o resto da noite na boca do público e dos integrantes do Móveis, que terminaram a noite visivelmente satisfeitos com o sucesso do evento e prometendo melhorias para o próximo festival, em 2012.
(daqui a pouco vou tentar baixar um vídeo do show)
segunda-feira, julho 04, 2011
Música Solar
Começo a semana indicando não uma música, mas um disco inteiro para tentar contornar o frio santista. O quinto e mais recente do grupo norte-americano Kings Of Leon, Come Around Sundown (2010 - clique aqui para ouví-lo na Rádio Uol). Para mim, um clássico instantâneo que confirmou a banda dos "bonitinhos" irmãos Followil (Caleb (guitarra e vocal), Jared (baixo) e Nathan (bateria)) e seu primo, Matthew Followil (guitarra), entre as melhores do pop-rock da atualidade.
sábado, julho 02, 2011
Aos 75 anos, Hermeto Pascoal diz querer compor “a música livre de adjetivos”
(* Com Pedro Peduzzi)
fotos: Wilson Dias / ABr
Aos 75 anos, o inventivo multi-instrumentista alagoano Hermeto Pascoal diz nunca ter pensado muito no futuro. Certo de que o amanhã chegará, sempre procura viver o presente. Sem pressa ou qualquer outra preocupação, além de cumprir com o que impôs como sua missão: “compor a música livre de adjetivos”. Objetivo que, a julgar pelas homenagens recebidas no seu aniversário, no último dia 22, parece ter atingido.
“Meu desejo é, a cada novo dia, fazer mais músicas. Acho que sempre vão faltar coisas para eu fazer, mas não abro mão da qualidade”, disse o músico à Agência Brasil durante rápida passagem por Brasília, no último dia 25. Embora saiba que “qualidade” não é algo consensual, Hermeto dá pistas do que o levou a receber convites para tocar com artistas como Miles Davis, John Lennon, Tom Jobim, Elis Regina e Roberto Carlos, além de orquestras e músicos de vanguarda mundo afora.
“Na música, o sujeito não pode ter uma balança com defeito [priorizando a quantidade em detrimento da qualidade]. Cada nota tem que ser boa. E eu também não faço nada para agradar o público. O que quero é compor o que me agrade para só então tocar para as pessoas”, comentou o artista, conhecido por fazer música não apenas com qualquer objeto, mas também usando animais como porcos e galinhas.
SUBVERSÃO À LÓGICA - Somados o desprendimento e o desejo de ver sua obra sendo executada, Hermeto acabou por se associar, mesmo que sem muita consciência, ao movimento denominado Cultura Livre, que prega formas de democratizar o acesso à informação e à cultura, furando o bloqueio dos veículos de comunicação de massa a tudo que não seja considerado “rentável” e subvertendo a lógica comercial de gravadoras e rádios.
Em 2009, dez anos após causar polêmica ao declarar em uma entrevista que queria ser “pirateado” para que, assim, sua obra fosse mais bem divulgada no país, Hermeto começou a liberar, para gravações, os direitos sobre 614 músicas já registradas em discos ou CDs. A declaração de licenciamento, hoje disponível no site oficial do artista, é reveladora quanto ao espírito livre do músico: um bilhete escrito a mão e pintado pelo próprio Hermeto, que termina com um “aproveitem bastante”, endereçado aos “músicos do Brasil e do mundo”.
“Minha música é de quem a quer. A ideia é liberar os direitos autorais para dar a quem se interessar a chance de tocar minha obra”, disse o músico, ao ser perguntado sobre o que o levou a tomar tal decisão, estimulado por Aline Morena, a música gaúcha de 32 anos com quem Hermeto vive há dez anos e com quem mantém o duo Chimarrão com Rapadura.
De acordo com Aline, algumas empresas não têm aceitado o singelo documento disponibilizado por Hermeto. “Elas estão exigindo uma autorização burocrática, específica para cada músico. Queríamos desburocratizar as coisas com um modelo geral de autorização disponível no site, mas cada vez que um músico quer gravar algo, temos que enviar uma autorização específica". Com isso, quem quer regravar uma música e procura a gravadora acaba tendo de pagar pela cessão do direito, enquanto quem recorre diretamente ao artista recebe a permissão de graça.
SEM MEDO DA PIRATARIA - “Se as gravadoras não levam meu trabalho para as rádios, se ele não toca em nenhum lugar, para que eu faço música? Não tive e nem vou ter nenhum retorno financeiro por minha obra, mas meu prazer, minha alegria, continua sendo tocar. Por isso, as minhas músicas eu quero mais é que sejam pirateadas. Quero mais é que as pessoas toquem, ouçam, a conheçam. E, pra mim, quem reclama da pirataria é quem faz música apenas para vender. Meu valor não são as notas [de dinheiro]. São as notas musicais”, assinalou o artista.
Segundo Aline, menos de 300 das mais de 4 mil composições de Hermeto já foram gravadas. Da obra total, 700 já estão à disposição de quem queira. São as 366 cujas partituras foram incluídas no livro Calendário do Som e cerca de outras 300 de sua discografia.
Além dessas, o pianista e arranjador Jovino Santos Neto digitalizou a partitura de 41 obras inéditas e as disponibilizou no site de Hermeto. A proposta era a de que músicos do mundo todo que quisessem homenagear o alagoano tocassem uma música de sua escolha. "Pessoas do mundo inteiro deram retorno. Rádios da Alemanha, gente de todas as partes mandou e-mail", contou Aline. “E vamos soltar mais coisas. Além do que, continuo compondo”, completou Hermeto.
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Conhece a figura do "bruxo albino", mas não a sua obra? Acha música instrumental coisa careta? Pensa que a transgressão é exclusividade dos jovens? Então saca só do que o Hermeto é capaz vendo o que ele aprontou em 1979, no Festival de Jazz de Montreaux, onde fez uma das mais eletrizantes apresentações da história do importante festival. Isso para não falar da canja que ele deu ao lado de Elis Regina, neste mesmo palco (busque o vídeo no youtube)
sexta-feira, julho 01, 2011
Audiodescrição
Nova regra para TV digital com adaptações para os deficientes visuais entra em vigor sem beneficiar a todos
O filme começa. A imagem de um casal entrando de mãos dadas e em silêncio em um hotel preenche a tela. A ação se desenrola sem qualquer diálogo ou descrição sonora e, por isso mesmo, milhões de brasileiros com algum tipo de deficiência visual não podem acompanhá-la, embora ela seja fundamental para a compreensão da história
É justamente para suprir essa lacuna que impede que parte da população acompanhe e entenda um filme, telenovela e quase todos os programas televisivos que, a partir de hoje (1º), as emissoras de TV já licenciadas para transmitir com o sinal digital estão obrigadas a exibir pelo menos duas horas semanais de produções adaptadas para o público com alguma deficiência visual ou intelectual.
A narração descrevendo os sons, elementos visuais e quaisquer informações necessárias para que um deficiente visual consiga compreender o que se passa na tela tem que estar disponível por meio da função SAP (do inglês Programa Secundário de Áudio). Além da audiodescrição, programas transmitidos em outros idiomas, como filmes estrangeiros, terão que ser integralmente adaptados, com a dublagem das conversas ou da voz do narrador. As legendas ocultas, que já são usadas para permitir que deficientes auditivos acompanhem os programas, continuarão sendo obrigatórias.
A primeira data para que a exigencia entrasse em vigor havia sido estipulada em uma portaria publicada pelo Ministério das Comunicações, ainda em 2006. O prazo, no entanto, foi prorrogado duas vezes pelo próprio ministério para que as empresas se adaptassem. Diante da pressão das emissoras, a Portaria Ministerial n° 188, de março de 2010, não apenas estendeu os prazos anteriormente fixados na Portaria n° 310, de junho de 2006, como reduziu a carga mínima de programas audiodescritos que as tvs terão que transmitir. Pelo texto de 2006, a esta altura, os programas audiodescritos ja deveriam totalizar oito horas diárias, ao inves das duas horas semanais estipuladas na última portaria.
Alem disso, a propria diretora do Departamento de Acompanhamento e Avaliação de Serviços de Comunicação Eletrônica do ministério, Patrícia Brito de Ávila, reconhece que, neste primeiro momento, nem toda a população será beneficiada pela medida, já que o sinal digital ainda não está disponível em todas as cidades brasileiras.
“Infelizmente, as emissoras têm prazo até 2016 para migrar para a tecnologia digital. Então, por enquanto, só vai ser atendido quem já recebe em sua cidade o sinal de TV digital", afirmou Patrícia à Agência Brasil, alegando que foi justamente a falta de condições tecnológicas por parte das emissoras que levou o ministério a prorrogar os prazos anteriores.
Segundo a professora da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), Lívia Maria Motta, uma das organizadoras do primeiro livro brasileiro sobre o tema (Audiodescrição: Transformando Imagens em Palavras, disponível gratuitamente no site www.vercompalavras.com.br), o recurso já é comum em vários países, onde, alem de programas de tv, tambem e utilizado em espetáculos teatrais, cinemas, óperas, exposições e em eventos esportivos como as duas últimas Copas do Mundo de Futebol. No Brasil, um bom exemplo é o festival bienal de filmes sobre deficiência Assim Vivemos, que, desde 2003, só exibe produções que contem com o recurso adicional.
Pela portaria atualmente em vigor, o prazo de 12 meses para que as empresas ainda não licenciadas para transmitir com tecnologia digital passem a apresentar os programas adaptados só começa a ser contado a partir da expedição da nova licença de transmissão.
“Temos uma demanda grande das associações que representam pessoas com deficiência para que os prazos sejam cumpridos”, justificou-se Patrícia, “mas o ministério, como regulador, tem que conciliar a demanda dessas organizações que pedem que a exigência mínima [do tempo de programas adaptados] seja ampliada e os prazos cumpridos, com a das associações de rádio e TV que queriam negociar prazos maiores para que tivessem meios de cumprir a portaria”.
Segundo o diretor de Assuntos Legais da Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert), Rodolfo Machado Moura, apesar de ainda terem muitas dúvidas sobre o recurso, as empresas de TV vão cumprir o prazo inicial. O problema, para ele, serão as próximas etapas, já que a meta do governo é que, em dez anos, todas as emissoras geradoras e retransmissoras de radiodifusão em sinal digital do Brasil exibam, no mínimo, 20 horas semanais de programas audiodescritos.
“Estamos trabalhando para cumprir o que a legislação determina. Agora, me parece que a portaria ministerial de 2006 foi produzida muito de supetão, sem o devido diálogo e sem os devidos esclarecimentos, pois não é possível, por exemplo, fazer isso [audiodescrição] com alguns tipos de programas”, comentou Moura.
O presidente do Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência (Conade), Moisés Bauer Luiz, que também preside a Organização Nacional de Cegos do Brasil, assegura que a portaria também não satisfez os movimentos sociais, tendo ficado aquém das expectativas de quem lutava pela aprovação da obrigatoriedade.
“A carga de programação a ser audiodescrita é muito pequena. Não estamos satisfeitos e queremos aumentá-la, mas isso ficará para outro momento. É um absurdo, mas cinco anos após a publicação da portaria original, vamos considerar uma vitória garantir a transmissão de ao menos duas horas semanais", disse Luiz.
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