quinta-feira, setembro 13, 2012

Asfalter do Chão


Parece piada sobre o Niemeyer, mas é fato verídico recente. Na bela Alter do Chão, balneário de Santarém (PA), a prefeitura asfaltou um trecho da "praia". Assim, sem mais. Os homens estavam recapeando uma rua de acesso à enseada do Lago do Jacundá, devem ter se distraído e, quando deram por si, estavam atolados em um pequeno pedaço daquele paraíso banhado pelo Rio Tapajós e apontado como um dos mais belos destinos turísticos do país. Local onde o semifosco esteve no ano passado, embasbacado, tomando Cerpinha Gold - uma das raras cervejas industriais que se salvam no país das cachaças. 

Prestes a deixar o cargo, a prefeita Maria do Carmo se desculpou pela falta de noção asfáltica dos subalternos e prometeu recuperar o estrago ambiental. Sequer tentou justificar o inexplicável.   

Em tempo, o Sairé, manifestação cultural-religiosa e, acima de tudo, popular, com mais de 300 anos de tradição, teve início hoje (13) e segue até segunda-feira (17). Os desfiles das agremiações rivais Boto Tucuxi e do Boto Cor de Rosa acontecem amanhã (14) a noite. 

                                   fotos: O Estado de Tapajós



Leia também:

Alterado
Algumas considerações sobre Alter
Gaymada 

sábado, setembro 08, 2012

Educação ou morte!


A festa do Dia da Independência na Esplanada dos Ministérios, em Brasília, é bonita feito uma mula de charrete. Enfeita-se, enfeita-se, até que, além de funcional como sempre, fique mais apresentável. Só que o laço colorido não faz da mula uma égua. Com a Nação é a mesma coisa. O discurso oficial, por mais empolado que seja, mal esconde as deficiências, os problemas. Pra confirmar isso, basta deixar o palanque das autoridades e dar um pulo em um dos vários banheiros químicos instalados ao longo da Esplanada para ver que o buraco ainda está mais pra cá - mas que seja um pulo rápido, pois o cheiro é nauseante.





Marcha contra a Corrupção em Brasília reúne menos público neste ano

07/09/2012
Agência Brasil
Mesmo com sol forte e baixa umidade relativa do ar, milhares de pessoas, sobretudo jovens, participaram, na Esplanada dos Ministérios, da Marcha contra a Corrupção. Em sua quarta edição, contudo, o ato reuniu menos gente que em anos anteriores. No ano passado, por exemplo, a Polícia Militar do Distrito Federal (PM-DF) contabilizou cerca de 25 mil pessoas participando pacificamente do movimento.
A redução do número de participantes foi atribuída pelos organizadores, entre outros motivos, como o clima e o feriado emendado com o fim de semana, à demora das autoridades em liberar o carro de som do movimento para acompanhar os manifestantes. Eles contavam com o carro de som para atrair parte do público que acompanhava o desfile oficial do Sete de Setembro, realizado do outro lado da avenida.
De acordo com Cláudia Cunha, uma das organizadoras do Movimento Brasil contra Corrupção (MBCC), já se esperava que a marcha atraísse menos gente, em razão do calor e do clima seco dos últimos dias. Mas, para ela, a “proibição” de que o movimento usasse o carro de som resultou em um número ainda menor que o esperado.
Inicialmente, o carro de som foi impedido de seguir junto com os manifestantes que se concentravam entre o Museu da República e a Biblioteca Nacional, o que não ocorreu em anos anteriores. Quando o Departamento de Trânsito do Distrito Federal (Detran-DF) autorizou a saída do veículo, os manifestantes haviam alcançado a Praça dos Três Poderes e o desfile oficial já havia terminado.
De acordo com Cláudia, a proibição partiu da Presidência da República e, na sua avaliação, serviu para desmobilizar os protestos contra a classe política. “Fomos proibidos pela Presidência de descer [o Eixo Monumental com o carro de som] para ajudar a movimentar a marcha e, inclusive, apoiar a segurança dos participantes”, disse ela à Agência Brasil.
“Isso com certeza diminuiu a adesão popular à marcha. Sem o carro de som, muitas pessoas que estavam do outro lado do Eixo Monumental não ficaram sabendo do movimento e foram embora assim que o desfile acabou”, acrescentou Marcos Freire, outro dos organizadores do MBCC.
De acordo com o coronel da Polícia Militar, Jailson Ferreira Braz, responsável pelo policiamento da área, o carro de som foi impedido de avançar devido a um acordo entre o governo do Distrito Federal e a Presidência da República para garantir a segurança da população. “Temos um acerto com a Presidência da República que prevê a interdição da via ao tráfego de veículos em geral. Tanto que os estacionamentos [dos ministérios] não puderam ser usados pela população”, disse.
Lembrado de que, em anos anteriores, o carro pôde acompanhar a marcha, o coronel disse apenas que a “demora na liberação do carro de som” não dependia dele. “Estou aqui para apoiar, inclusive, a Presidência da República. E o trânsito em geral não foi liberado até agora [13h]”.
Procurada, a assessoria de imprensa da Presidência respondeu que a questão é responsabilidade da Secretaria de Segurança Pública do Distrito Federal e que não tinha informações sobre o que aconteceu.
A PM-DF estima que entre 3 mil e 5 mil pessoas participavam do ato no momento em que o grupo deixou o local de concentração, portando faixas e cartazes pedindo o fim da impunidade. Já os organizadores calcularam que, somadas as pessoas que aderiram ao ato durante o percurso, o número total foi duas vezes maior. Segundo a PM-DF, somados todos os eventos, incluindo a cerimônia oficial, cerca de 38 mil pessoas compareceram à Esplanada dos Ministérios, onde também ocorreu o Grito dos Excluídos.

Aqui é só SUUCEESSOOOO!



Vinte minutos em um local público em que se ouvia ao fundo, em bom volume, como não poderia deixar de ser, uma tal de Club FM. Vinte minutos. Foi o máximo que suportei. Abandonei o recinto após ouvir um sujeito cantando que iria rolar um tal de tcha-tcha-tcha; um segundo propagando que queria o tchum (?) e também o tchá (??) e um terceiro tecendo loas ao tche-tche-re-tche-tche. Saí de fininho antes que as onomatopéias baixassem a níveis ainda mais infantilóides. 

É impressionante. Por que eu não imponho a ninguém (salvo, talvez, aos meus vizinhos) que ouça Criolo, Karina Buhr, Cartola, Chico Buarque, Luis Melodia, Racionais, Xis, Kings Of Leon, Led Zeppelin, Jorge Drexler, Jarabe de Palo, etc, etc, etc... mas estas pessoas "animadas" acham que tem o direito de me inflingir aquilo de que gostam? Já percebeu que ninguêm no ônibus NUNCA se sente no direito de sacar um celular do bolso e colocar Miles Davies ou Charlie Parker para todos os passageiros ouvir? Pelo contrário. Se há por aí um sujeito carregando as Bachianas de Villa-Lobos no telefone móvel ele as está ouvindo baixinho, envergonhado, sob o sigilo dos fones de ouvido. 

Pior que ao fim dos apenas vinte angustiantes minutos, no exato momento em que eu me perguntava como preencher a programação radiofônica com tanta poesia de gosto duvidoso, eis que um dos três sujeitos já citados volta a soar. Só que é a mesma música de antes. Só não digo quem ou qual porque, para mim, todos se parecem. Pior: melodicamente, as músicas todas se parecem. Só mudam as onomatopeias.

Já as personagens das letras ou são cornos que, traídos, caíram na balada e, por mais que suas conversões soem inverossímeis, viraram machos-alfa pegadores, ou então são sujeitos que deixaram ou foram deixados por uma mulher e a desejam de volta após uma insatisfatória e também inverossímil temporada como cafajestes-sensíveis. Qualquer que seja o caso, nenhum dos dois tipos se cansa de propagandear os benefícios da cerveja - o que ajuda a receber um convite para se apresentar na Festa do Peão de Barretos, evento no qual as mulheres desacompanhas costumam ser tão bem tratadas quanto nas letras de alguns funks.  

Por que digo que suas histórias são inverossímeis? Você consegue imaginar um tipo que chegue falando para uma mulher madura sobre a possibilidade de ambos fazerem juntos um tche-tche-re-tche-tche gostoso se dando bem? Talvez eu tente só para colocar minha tese à prova, pois acho que não é à toa o grande número de mulheres solteiras ou que preferem adiar os planos de ter filhos. Como educar uma criança com a ajuda de um sujeito que se refere ao ato sexual ou a carícias como o "tcha-tcha-tcha"? Uma dupla inclusive resgatou e publicizou a velha e grosseira expressão "tchaca-tchaca na buchaca", que adolescentes e adultos machos há décadas veem usando entre si de forma pejorativa. 

Enquanto isso, aqui mesmo em Brasília, a Kiss FM saiu do ar sem qualquer explicação. Do dia pra noite, a classic-rock radio deixou no dial um simples ruído. Isso aconteceu uma semana após quatro ou cinco pessoas que pouco tem em comum além do fato de trabalharem juntos elogiarem a programação e afirmarem ser ela (a Kiss) uma das poucas, senão a única, rádio musical que ouviam na capital federal.

Vai ver que nem os empresários e anunciantes que não curtem tcha-tcha-tcha acham mais necessário e justo impor suas preferências aos ouvintes. Pelo sim, pelo não, melhor eu não me esquecer mais dos fones de ouvido. 

domingo, setembro 02, 2012

O Brasil Profundo Revelado Pelo Verdadeiro Jornalismo Cidadão


Em Patos (PB), os meliantes estão furtando até galinhas de estimação. A vítima mais recentes foi Rafinha, a galinha chique que respondia a seus parentes humanos com sonoros có-có-có.

Rafinha foi levada na surdina, junto com uma panela de pressão, uma bacia de plástico e uma "caçanora" (??) - "troços" de pouco ou nenhum valor para a dona da galinácea, que sentiu mesmo foi a ausência de Rafinha. Sofrendo com a ausência e temendo pela sorte da galinha, sua dona/criadora foi internada em um hospital local, onde se negava inclusive a comer, tamanha sua dor.

Não tardou para a ocorrência ganhar ares de tragédia e chegar às redes sociais e à imprensa paraibana e nacional.



Surgiu então a campanha "Devolvam a Rafinha", capitaneada por semi-celebridades que toparam gravar um comercial pedindo a quem estivesse com a galinha que a devolvesse penada e salva. Sua dona afirmou publicamente que daria R$ 100 a quem trouxesse Rafinha de volta e que, se isso acontecesse, não registraria qualquer queixa contra quem quer que fosse.

Infelizmente, os piores medos dos tantos que acompanharam o desenrolar dos fatos se tornaram realidade. Rafinha foi morta em condições ainda a serem esclarecidas, conforme noticiaram importantes veículos de imprensa, a exemplo do PortalTavares. Suspeita-se que Rafinha pode ter morrido de de depressão.

29/08/2012 às 20h22min

DESFECHO: Galinha Rafinha é encontrada morta
Velório da galinha 'Rafinha' atrai multidão em Patos; 'corpo' é enterrado no cemitério da cidade
Finalmente a galinha Rafinha foi encontrada. Porém, o final desta história não foi nada feliz, pois o animal foi achado morto. Segundo o agente Firmino, da 5ª superintendência de polícia, o acusado de roubar Rafinha foi preso e confessou ter pulado o muro da casa Genecira de Oliveira, dona da ave, e pegou o bicho.
Ele ainda disse que vendeu o animal para um sítio. O dono do local, que não quis se identificar, afirmou que não sabia que a galinha havia sido roubada. Só depois que a história ganhou as redes sociais na internet, o fazendeiro suspeitou da compra e até iria devolver o bicho, porém, a ave havia falecido. Segundo ele, a galinha morreu de tristeza.
Na quarta-feira (28), Rafinha foi velada e enterrada no cemitério São Miguel. Antes, porém, um programa sensacionalista exibiu cenas impactantes dos restos mortais da galinha. O velório de Rafinha atraiu uma multidão de curiosos, desempregados e outros sem mais o que fazer. Frente à repercussão, a polícia civil conseguiu identificar o criminoso, detido por populares quando tentava furtar um saco de feijão de uma mercearia.

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Como não poderia deixar de acontecer, oportunistas de plantão tentaram tirar proveito do lamentável fato que chocou o país.

velório gera discórdia política em Patos


A morte da galinha ‘Rafinha’ não mexeu apenas com as emoções da dona do animal, Genecira Maria. Mexeu também com os ânimos dos adversários políticos em Patos, o prefeito Nabor Vanderley (PMDB) e o candidato a suceder Vanderley, Dinaldo Filho (DEM).
A ida de Vanderley ao polêmico velório do bicho de estimação causou a revolta de seu rival. Filho chamou de “uma aberração” o ‘ato de solidariedade’ prestado por Wanderley. Em sua defesa, o perfeito justificou a presença no velório como “fruto do acaso”, já que não tinha pretensão de ir ao ‘evento fúnebre’.
Entenda o caso - A galinha 'Rafinha' ganhou a mídia local e nacional após um ladrão entrar na residência da Dona Genecira Maria e furtar o animal junto com alguns pertence. Como o animal era de estimação, Dona Genecira e uma filha dela ficaram deseperadas e procuraram os meios de comunicação para apelar ao ladrão que devolvesse o animal, oferecendo até uma recompensa.
Na última quarta-feira  (29), a polícia localizou o ladrão e encontrou 'Rafinha', só que está já havia morrido, de 'tristeza', como afirmam alguns sites do sertão, ou, pelos maus tratos a que ela não estava acostumada, visto que na casa da Dona Genecira "só comia ração selecionada". O bandido revelou que trocou Rafinha por duas pedras de crack em uma localidade, conhecida por “Beco da Corda”, no Bairro da Vitória em Patos.
Em solidariedade a Dona Genecira, um grupo de amigos resolveu fazer um enterro simbólico de 'Rafinha', iniciativa que atraiu mais de mil pessoas ao velório e ao cortejo fúnebre até o cemitério da cidade. O caso inusitado atraiu a atenção da mídia nacional, que esteve na cidade para cobrir o evento.
A história, contudo, ainda não tinha acabado pois, hoje em dia, histórias assim só acabam quando musicadas. 

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Disponibilizado no youtube, o vídeo da música com cenas do velório de Rafinha foi visto por quase 50 mil pessoas em apenas dois dias e virou palco de manifestações xenófobas e de um bate-boca entre detratores e defensores da região Nordeste.






quarta-feira, agosto 29, 2012

conclusão




"Todo texto autobiográfico é, em alguma medida, fictício. Na maioria das vezes, uma ficção não muito criativa"






terça-feira, agosto 28, 2012

A Vida Fica Melhor em um Bermudão





Visto a calça. Ponho a camisa cujo punho abotoado me incomoda. Calço as meias sociais pretas que são meu pesadelo  e os sapatos empoeirados. Jogo displicentemente o blazer sobre o corpo que quer rejeitar todo o traje. Sem opção, embolo no bolso da calça uma gravata que não combina com nada mais e saio caminhando apressado, mastigando uma maçã. O corpo fala. E o que  o meu  insiste em gritar é que a vida fica melhor em um bermudão, conforme diz a publicidade da marca de surfwear (The Life´s Better in Boardshort). Infelizmente, como não descobri a fórmula mágica de ganhar a vida à beira-mar, de bermuda e tênis, só me resta buscar refúgio na trilha sonora das últimas férias. E esperar pelo próximo fim-de-semana.

The Life´s Better in a Boardshort by Alex Rodrigues on Grooveshark

segunda-feira, agosto 27, 2012

Vandalismo não tem sexo


Creio que alguém precisa explicar as muito criativas meninas do movimento que os capitalistas, além de curtirem sexo anal,  adoram faturar em cima da venda de latas de spray e, posteriormente, dos galões de tinta necessários para o governo  repintar o que acaba de ser reformado às custas de muito dinheiro público.

Falando sério, o que mais me espantou na equivocada ação do movimento é que o abandono e a falta de segurança nas passarelas de pedestres do Eixão motivam alguns dos maiores pavores das brasilienses que não dispõem de carro. Por isso considero a pixação da passarela subterrânea da 203/103 Norte uma tremenda bola fora das meninas.   
                                          

Simpático ao movimento, que reúne algumas meninas muito criativas e inteligentes, me neguei a acreditar que  elas agissem de forma tão equivocada. Fui pesquisar na internet e acabei encontrando, no site do Centro Feminista de Estudos e Assessoria (Cfemea), um texto em que a Associação Lésbica Feminista de Brasília (Coturno de Vênus) explica o que as levou a depredar - ou se apropriar, conforme diz o texto - da passagem subterrânea recém-reformada no início da Asa Norte.

Reproduzo parte do texto abaixo, tomando a liberdade de editá-lo a meu critério de forma a encurtá-lo e aproveitar apenas a parte que me interessa, que é a discussão quanto à apropriação do espaço público. Concordo com a tese, mas discordo dos meios. Penso se não haveria uma forma mais eficaz, criativa e, principalmente, produtiva de reclamar o direito ao "corpo-cidade"? Por exemplo? `Adotando´ uma passagem como forma de denunciar que seu abandono é um risco à população, sobretudo à integridade física das mulheres. Se pintar as paredes e instalar uma nova iluminação (velho anseio de uma grande parcela dos brasilienses, entre eles, eu) não é o bastante para garantir "segurança efetiva" aos pedestres, não será voltando a pixar tudo que isso será alcançado. E se não nos apropriarmos de fato destas passagens, as mulheres continuarão sendo as maiores vítimas em potencial da criminalidade. Se quiser ler a íntegra do texto do Coturno de Vênus, clique aqui

Da mesma forma que o movimento feminista reivindica o direito ao corpo, as intervenções urbanas reivindicam o direito à cidade. Os grafites, pixações, stickers, stencils, bombs e frases postas nos muros, cantos e passagens subterrâneas são assinaturas de um direito ao corpo de uma cidade silenciada pelo medo. E levantam uma série de protestos e indignações porque mostram aquilo que não pode ser dito, aquilo que incomoda, mas está vivo em nosso cotidiano. Para além de uma manifestação legítima de pensamentos e reflexões, são discursos não-oficiais - lê-se alternativas - da cidade na medida em que as pessoas começam a se apropriar do local.
É por isso que durante as atividades do mês da visibilidade lésbica, em agosto, a 8ª Ação Lésbica DF organizou um Sarau/Ocupação noturno na passagem subterrânea da 203 norte. No dia seguinte, recebemos várias críticas – algumas inclusive bastante violentas – sobre nossa ação direta nos muros brancos da passagem. Na ditadura, a pichação era utilizada como forma de protestar contra a repressão. Superado esse período de ditadura militar, hoje em dia, infelizmente, ainda vivemos em meio a uma série de ditaduras que nos controlam e nos oprimem, como a ditadura do machismo atrelada à heteronormatividade.
Entendemos que a ocupação da passagem subterrânea foi um espaço de liberdade para muitas das meninas que lá estavam. Fizemos uso do corpo da cidade como um meio de comunicação, expressão de sentimentos, pensamentos e opiniões das pessoas que passaram por lá. Ocupamos a cidade para nos apropriamos do nosso direito ao corpo, por meio do qual nos comunicamos e afirmamos nossas reivindicações.
As frases escritas nas paredes da passagem denunciam gritos abafados pela cidade e pelo preconceito à emancipação feminina. A [recente] tinta branca renovando as passagens subterrâneas que sempre foram conhecidas pelas inúmeras artes urbanas parece uma atitude repressora, que apaga as marcas da cidade, apagando também sua história. Uma ideia de falsa melhoria, de que “pintou, tá novo”. As novas luzes instaladas nas passagens são bonitas, mas daí a dizer que isso é segurança efetiva é um discurso um tanto quanto frágil, e sem dúvida, insuficiente para o enfrentamento da violência.
As críticas recebidas a partir de nossa ocupação, e divulgação da mesma - porque afinal as intervenções são para serem vistas e compartilhadas, e não escondidas como um crime - reforçam a ideia conservadora de que Brasília é uma cidade-museu, abandonada, e que não recebe pensamentos e influências das pessoas que ocupam a cidade, que querem manifestar e compartilhar seus desejos e artes.
Nesse sentido, acreditamos que nossas frases feministas possuem um caráter pedagógico e que quem ali passa e as lê poderá - quem sabe? - refletir e talvez até abrir sua cabeça para o fato de que, “sim, nós sofremos violências constantes do machismo nosso de cada dia”, e "sim, nós queremos viver livres de toda forma de opressão”.
Quanto ao fato de que algumas frases e intervenções são fortes e chocantes, sim, “elas são mesmo e não nos desculpamos por isso”. Para combater a opressão, precisamos externalizar e publicizar as violências sofridas, chocar a sociedade e provocar o debate, pressionando para que nossas ações se traduzam em políticas publicas que garantam melhoria para a vida das mulheres.
O feminismo precisa de gritos e é necessário se impor. Se não é dado o espaço para nós, nós é que iremos ocupar a rua e dizer o que não é dito em lugar nenhum. E o que é importante para nós. E o que queremos.
Queremos reconhecer além de nossos corpos, os nossos lugares de passagem. Disseminar a desconhecidas passantes das passagens, um possível grito de libertação. Claro, que a sociedade pode achar isso um tanto quanto perigoso – e é, uma revolução que cansou de ser silenciosa. 
Assim, construimos a 8ª Ação Lésbica do Distrito Federal, com a proposta de compartilhar momentos de intervenção político-social, cultural e de lazer, objetivando informar nossa comunidade e a sociedade de uma forma geral sobre problemas que afetam diretamente a vida de lésbicas e mulheres bissexuais e que podem ser minimizados a partir de uma postura mais flexível e hábil ao dialogo e a formação política. A ação aconteceu no último dia 26, com o tema Lei Maria da Penha Para Todas, com o intuito de divulgar informações sobre a lei – que neste ano comemora seis anos de atuação - e ampliar a sua abrangência para todas as mulheres. 




domingo, agosto 26, 2012

NAT to BSB


Chega de moleza. Hora de voltar à real. E, consequentemente, à seca do Planalto Central. Com os pulmões ainda operando no modo capacidade máxima após duas semanas na praia, tive que me refugiar da baixa umidade relativa do ar próximo ao Lago Paranoá - esta engenhosa criação candanga, sem a qual seria impossível viver em Brasília. Tirei a bike do quartinho e aproveitei para fazer turismo na minha própria cidade. Torre de TV-Eixão-Lago Paranoá-L2-Esplanada dos Ministérios-Rodoviária. Ao fim do passeio, admito que é bom voltar pra casa.

Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa
                            (É o que me interessa - Lenine)


sexta-feira, agosto 24, 2012

Para além das praias potiguares


Nem nas férias a conexão cai e deixo de receber o espírito de porco que incorporo  todos os dias entre as 18 horas e as 19 horas. Desta vez, quando ele baixou eu estava na praia, tomando uma água de coco após uma relaxante sessão de surf. O que não o impediu de soprar as seguintes notas:  

****
Irônico. Amigos e conhecidos do Rio Grande do Norte sempre me disseram que o estado foi e continua sendo extremamente machista. Atualmente, contudo, é governado por uma mulher, Rosalba Ciarlini (PSB), e tem outra, a ainda jovem Micarla de Sousa (PV), à frente da prefeitura da capital, Natal. Isso é positivo. O aspecto negativo é que, a julgar pelo termômetro das ruas, a população não está satisfeita com a gestão de nenhuma das duas, principalmente com a de Micarla. A verde, que é jornalista, não só optou por não disputar a reeleição, como não empresta seu apoio a nenhum outro candidato da atual base governista. Segundo um taxista, a questão é que ninguém quer posar ao lado dela por medo de perder votos. Segundo me contaram, a prefeita, que sempre foi muito querida na capital potiguar, teve sérios problemas pessoais, inclusive de saúde, o que a obrigou a delegar responsabilidades demais, prejudicando seu governo e fazendo com que boa parte da população rejeitasse sua gestão. 

                      

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Não é comum que turistas leiam os jornais das cidades que visitam, salvo, talvez, quando se encontram em São Paulo ou no Rio de Janeiro para conferir a agenda cultural e as fofocas. Isso lhes ajuda a fixar a ideia de que estão no paraíso. Eu, no Rio Grande do Norte, caí na besteira de fazer o contrário. Li não apenas um, mas dois jornais (Tribuna do Norte e Diário de Natal) entre uma e outra sessão de surf. Resultado? Perplexidade. Como um estado tão rico (terceiro ou quarto destino turístico brasileiro, a conferir) e promissor pode se contentar em ocupar as últimas posições do ranking do Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (Ideb) e em ser umas das piores localidades em termos de abrangência da rede de tratamento de águas e esgotos segundo a pesquisa da ong Instituto Trata Brasil? Isso para não falar da situação dos hospitais públicos, como o Walfredo Gurgel, onde pacientes são amontoados nos corredores e entubados sem serem anestesiados porque não há anestesia. Isso apesar de o governo estadual ter decretado estado de calamidade do setor para assim poder adotar mais rapidamente as medidas necessárias à resolução do problema. 

                                                           foto: blog Acari Informação
                               

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DataBus informa. Em Natal, a passagem de ônibus mais barata custa R$ 2,20. Mais que na capital federal, Brasília, onde, para rodar pelo Plano Piloto (região que concentra o maior poder aquisitivo per capta brasileiro), o cidadão gasta R$ 2. É menos, contudo, que em Santos, a promissora cidade dos subempregados, onde a tarifa mais barata custa inacreditáveis R$ 2,90.

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Ah, Ponta Negra! Nenhum banheiro público na praia. Nenhum chuveirinho. Nenhuma sombra além das fornecidas pelos locatários de guarda-sóis. E nas portas dos bares da orla, um delicado recado: "os banheiros são de uso exclusivo dos clientes. Não insista!". Nenhum problema para o turista hospedado a poucos metros da areia. Já para o cidadão local... E `se é assim agora, imagina na Copa´.

*****
Mas para não dizer que não falei de flores, dá para comprar coco a R$ 1 na avenida principal, próximo à Ponta Negra. Ou seja, metade do preço pago por quem roda pelo Plano Piloto de Brasília (região que concentra etc, etc). E 150% mais em conta do que o coco mais barato vendido na praia de Santos, a promissora cidade dos subempregados, onde a tarifa de ônibus mais barata etc, etc...Aliás, seguindo nas comparações (hábito inevitavelmente adquirido por quem viaja), em Ponta Negra dá para encontrar hotéis com vista para o mar por R$ 60 a diária. O que eu fiquei, embora modesto, oferecia tv a cabo, frigobar, um excelente colchão e uma varanda com vista pro Morro do Careca onde se podia armar uma rede. Qual turista troca isso por pagar R$ 200 a diária para se hospedar em Santos, de frente para o BNH? Ou R$ 209 em um hotel "dito econômico" no canal 3?



quinta-feira, agosto 23, 2012

Contestando a tirania do automóvel



Vai viajar? Se estiver à procura de algo leve para ler durante o trajeto, dê uma chance à edição especial da revista Vida Simples (R$ 13), dedicada às bicicletas como meio de transporte para deslocamentos curtos e objeto de desfrute e redescobrimento das nossas cidades. 

Sob o mote `De Bike É Mais Gostoso´, a revista sugere que a vida sobre duas rodas pode ser muito mais saudável (para o usuário e para o planeta), prazerosa e divertida que dentro de um automóvel poluente incapaz de nos levar rapidamente através dos congestionamentos das médias e grandes cidades. Para ciclistas, cicloativistas ou qualquer pessoa consciente de que os tempos são outros e o mundo não vai comportar que cada indivíduo saia por aí, isolado do restante do mundo, sentido-se protegido dentro de seu bólido de 5 toneladas de aço e plástico. Isso para não falar da forma como a indústria automobilística, com sua bem-sucedida publicidade, se impôs a governos e à própria cultura ocidental.

E aí, se o assunto sensibilizar e quiser ir além, vale a leitura do livro Apocalipse Motorizado - A Tirania do Automóvel em um Planeta Poluído, publicado no Brasil pela Editora Conrad, como parte da coleção Baderna.    

"Não vou aqui propor mais uma destas tediosas campanhas moralistas, no entanto, é muito mais do que urgente chamar a atenção para o fato de que a relação da sociedade brasileira com o automóvel é especialmente doentia. Pode ser espantosa a constatação de que boa parte da classe média brasileira investe mais em seus carros que em casa própria, mas ainda mais divertido é ver que esta mesma classe média, que se põe histérica ante a ideia de que o filho adolescente possa ter acesso a um cigarro de maconha ou a um violento vídeo-game, vê com declarado orgulho que o mesmo adolescente "já saiba dirigir" aos 14 ou 15 anos. Como se o carro não fosse algo muito mais perigoso que um baseado. [...] Existe exemplo pior para um país que é líder em acidentes de automóvel que o Grande Prêmio de Fórmula 1? Segundo dados do Ipea, são, no Brasil, pouco mais de 1 milhão de pessoas envolvidas direta ou indiretamente em acidentes de automóvel todos os anos. [...] Quantos têm que se sacrificar para que alguns possam se sentar confortavelmente em seus carros para se aventurarem em vias cada vez mais congestionadas? Por que aceitamos um meio de transporte que causa mais mortes anualmente do que qualquer guerra em curso? Por que devemos nos sujeitar à ditadura das indústrias automobilística e petrolífera? Por que admitir que mais e mais hectares de terra produtiva percam lugar para rodovias asfaltadas?" 

Até recentemente, a cópia digital do livro estava disponível para dowload no seguinte endereço: http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2008/04/417242.shtml

Surfando diante do careca



Não. O Careca em questão não é o onze vezes campeão mundial de surf, o norte-americano Kelly Slater. Pela foto acima dá para ver que estou falando de outro careca famoso, o Morro do Careca. E que, portanto, a onda surfada abaixo pelo surfista prego brasiliense Carlos Leite é a esquerdinha da praia de Ponta Negra, em Natal (RN). 


Em minha segunda vez em Natal (também foi a segunda vez de Leite), confirmei que com a ondulação e o vento certos, as ondas de PN funcionam muito bem, podendo, simultaneamente, ser muito divertidas e power. O problema para quem é de fora é saber o momento exato de se lançar ao mar. Principalmente se o sujeito está de férias e, portanto, pouco disposto a acordar as cinco e meia da manhã. Por dois dias seguidos, Leite caiu antes das sete e pegou boas ondas. Eu, que preferi dormir até as sete, tomar um café e aguardar um pouco até que a comida assentasse, quando chegava à praia já pegava o mar mexido e as ondas revoltas. Mesmo assim, com as poucas que `abriam´ deu para sacar o potencial da coisa. 


Com a maré cheia, a ondulação que atingiu a capital potiguar nas últimas semanas destruiu o calçadão da praia de Ponta Negra, um dos principais destinos turísticos brasileiros e força motriz do setor no estado, já que quase a totalidade dos turistas que visitam Natal e redondezas fica hospedada aqui. O estrago impressionante evidencia a força da natureza e nos faz pensar sobre o lento mas constante avanço do mar sobre várias cidades brasileiras. Vi coisa parecida acontecer em São Vicente (SP) e, principalmente, dada a semelhança, em Florianópolis, onde, há cerca de três anos, o mar levou a calçada e derrubou casas na praia da Armação, no sul da ilha. Aqui, durante toda a semana, li nos jornais e vi na televisão representantes do setor turístico e cidadãos cobrando das autoridades públicas a urgente reconstrução do calçadão de forma a não prejudicar a economia e deixar uma má impressão nos visitantes. Não vi ninguém que questionasse se o gasto valerá a pena posto que, se alguns cientistas estiverem certos ao apontar a elevação do nível dos mares, cenas como esta se tornarão constantes caso o homem não recue. 

segunda-feira, agosto 20, 2012

Recomendações


"Não dê pipoca aos golfinhos"


A frase acima está pixada em um muro próximo à Praia dos Golfinhos, em Pipa (RN). Na foto, o surfista já não tão prego Carlos Leite após a última sessão antes de retornarmos a Natal. Sim. Pra desgosto de meu companheiro, abortamos a ida a Baia Formosa porque as coisas funcionam assim numa viagem de férias: conhece-se gente no caminho, amizades (permanentes ou não) surgem, o lugar se mostra acolhedor... e você vai ficando.

O argentino que não discorda de que Pelé foi o maior jogador de todos os tempos. O norte-americano que joga capoeira. O curitibano que viveu na Nova Zelândia e Costa Rica antes de abrir dois pequenos restaurantes em Pipa. A bela ruiva que após abandonar Buenos Aires por não aguentar a loucura da cidade grande viveu em Trindade, em Paraty (RJ), e acabou no balneário potiguar, de onde pretende se mudar em breve em busca de um lugar mais "tranquilo" (!!!!). As norte-americanas que, em seu país, trabalham para ajudar imigrantes em situação ilegal. O brasiliense viajando só...

Como é dito no filme Na Estrada (On The Road): "Viajar é útil. Faz a imaginação voar. Todo o resto é decepção e fadiga". Discordo de que todo o resto seja frustrante, mas que a rotina, em geral, é cansativa, isso é. 


Nesta última foto, a placa do pequeno restaurante Tá Massa, onde jantei praticamente todas as noites. Não só porque o preço é justo e acessível, mas principalmente porque os pratos são muito bons. Infelizmente, não anotei o endereço, mas, tendo o nome, não é difícil achá-lo. Fica na ruazinha do bar mais movimentado da avenida principal. 
                     

domingo, agosto 19, 2012

De ondas e amantes



Ondas são como amantes. Cada um tem suas preferências para se apaixonar por uma. Há quem prefira as cavadas, mesmo que menores, e há quem goste mais das grandes, mesmo que suas paredes não possibilitem executar uma série de manobras. Dito isso, ouso revelar que, em termos de ondas, as praias mais conhecidas de Pipa, em Tibau do Sul (RN), não me agradaram. Ao menos não nesta época do ano, estação de vento forte. 

Sinto como se estivesse cometendo uma heresia por afirmar isso após presenciar a ondulação que há mais de uma semana atinge este trecho da costa potiguar, trazendo ondas para todos os picos próximos a onde estou. A coisa mais fácil de encontrar por aqui nestes dias é surfista de várias partes do mundo feliz com as ondas da Praia do Amor, por exemplo. Já eu, vai entender, só fiquei satisfeito após surfar na Praia do Madeiro.

Considerada um ótimo lugar para os iniciantes, a Madeiro às vezes é agraciada com ondas maiores e melhores que no dia-a-dia. É preciso sorte para chegar lá junto com um bom swell. Exatamente como esta semana. As ondas melhores deram as caras e muita gente experiente optou por fugir do crowd nos picos mais conhecidos. O que reforça o que quero dizer: entre uma onda maior e mais forte com crowd ou uma menor e mais gorda sem crowd, o que você prefere. Meu amigo Carlos Leite, por exemplo, costuma preferir a primeira opção. Desta vez, no entanto, se amarrou de termos escolhido a segunda e se divertiu a valer.

Da metade para o canto esquerdo da Praia do Madeiro o que se via eram ondas de um `metrão´* abrindo para os dois lados. Muito mais fáceis de dropar que o ´caixote´ da Praia do Amor. Com isso, após sete meses sem cair na água, eu enfim me senti à vontade. Por quê? Pelas razões contrárias pelas quais não curto surfar na Praia do Amor e porque não arrisquei minha pele semifosca numa das duas lajes de pedra da Praia do Centro, único lugar em que as ondas quebram perfeitinhas, se enroscando em canudos para a direita como se desenhadas em um caderno. 

Para mim, acostumado com o litoral paulista, é estranho surfar em meio a tanto vento. E nesta época do ano, quando o vento é forte e incessante, as ondas, principalmente da Praia do Amor, na maioria das vezes chegam à praia disformes (para o meu gosto), como se não tivessem direção certa. É difícil identificar o line-up (linha de arrebentação) até porque, na maior parte das vezes, ele simplesmente não existe. E o pior: a lembrança ou mesmo a visão das pedras às suas costas, no inside. Algo que, em qualquer que seja a praia, e por mais remota que seja a chance de eu ser jogado contra elas, sempre me tira toda a atenção das ondas. 

Na Madeiro não. O fundo é de areia, a praia é extensa, o que ajuda a espalhar os surfistas e quase não há pedras com que se preocupar. E, principalmente, a praia fica mais protegida do vento, o que possibilita que, até um certo horário, as ondas entrem mais acertadas.

Agora, vai dizer isso para um dos garotos que estavam acertando aéreos 180º na Praia do Amor. Vai ser o mesmo que tentar convencer alguém que ache uma mulher mais gostosa que a outra do contrário. Melhor assim. Há ondas - e mulheres - para todos. Basta não dar ouvidos para o senso-comum e procurar aquilo de mais te agrade. Sabendo que a perfeição com que você tanto sonha muitas vezes não existe. Eu, por exemplo, não sei o que escolheria entre ondas perfeitas em água fria ou ondas mexidas pelo vento em águas mornas.


* O surf tem esta curiosa particularidade de adotar um sistema métrico muito distinto, subdividido em metrinhos, metro e metrões não muito precisos, pois podem apresentar alguma variação conforme o tom de voz de quem conta o tamanho das ondas que surfou para quem não esteve presente. "Ah, tava um metrinho e eu nem caí".  "Meu, tava rolando um metrão perfeito"  

sábado, agosto 18, 2012

Reencontro


(eu) _ Haaaaaaiiiiiiiihhhh....

(Carlos Leite) _ Aí, amarelo. Desencantou, hein.


Ainda sei pegar onda. Não muito bem, admito, mas em uma boa esquerda abrindo ainda sou capaz de colar o fundo da prancha na parede e colocá-la na trilha rumo à próxima sessão. À medida que o corpo vai se acostumando e reencontrando seu ponto de equilíbrio entre a leveza necessária ao ato de `andar´ sobre a água e a explosão de uma manobra (nada espetacular, mas, ainda assim, uma manobra), volto a me sentir confortável enquanto o oceano balança ao meu redor. Começo atacando pelo `rabo´ das ondas menores, mas não demora e logo estou no fundo, disputando as maiores da série, dropando cada vez mais no pico. Felizmente, após meses sem surfar, as maiores, hoje, passavam pouco de um metro, com bastante força. Não tardo a ser o cara posicionado mais no fundo. Como o vento terral impede que muitas das ondas quebrem no outside e elas passam intocadas para ir arrebentar mais próximo ao raso, onde uma galera se concentra, perco na quantidade de ondas surfadas. Ganho, contudo, em qualidade. Quando entra uma ou outra maior possível de dropar no fundo, percebo os outros surfistas me observando enquanto surfo desde lá de trás e passo por eles. Por duas vezes chego a quase encostar as quilhas na areia. Além do mais, sou o último cara a deixar a água, já com os músculos pedindo arrego, o que, para um `tiozinho´ que não surfa a muitos meses tem lá seu gostinho de vitória. Não sei dar aéreos. Nem sequer consigo dar batidões, mas o simples deslizar enquanto vou passando as sessões até o raso e um ou outro cutback e um floater funcional me deixam com um enorme sorriso na cara que entrega o jogo: desencantei. Ainda sei surfar. Mesmo que não muito bem.    

sexta-feira, agosto 17, 2012

Itinerário



Para remediar nossa atávica falta de planejamento em infraestrutura, o governo do Distrito Federal (GDF) decidiu colocar um ônibus com ar condicionado ligando a Rodoviária do Plano Piloto ao Aeroporto Juscelino Kubitschek. Custa R$ 8. Bem menos do que eu gastaria indo de táxi. Mesmo com os atuais 15% (e não mais os costumeiros 30%) de desconto que a cooperativa dá a quem pede o carro por telefone, a corrida custaria quase o mesmo que a passagem aérea promocional Natal-Brasília, que me saiu a R$ 39.  A outra opção, ainda mais econômica, seria pagar R$ 2 no ônibus normal, mas aí é preciso apanhar o dito umas três horas antes do horário do voo para não correr o risco de chegar atrasado. No executivo da TCB (companhia que ainda não foi privatizada ou, como dizem agora, concedida, e pertence ao governo local) cheguei a tempo, me encontrei com meu amigo, o surfista prego brasiliense Carlos Leite, e fomos tomar um café. Preto. Sem nada para mastigar. Caso contrário toda a economia do táxi ia pro saco. 

Para reforçar minha tese de que boa parte do que a imprensa divulga sobre os aeroportos (que estão sim longe de serem primorosos, mas, ainda assim, estão anos-luz à frente dos hospitais públicos brasileiros - para citar só uma das reais prioridades da população) é falta de notícia ou, pior, interesse escuso (olha aí a recente concessão do filé mignon, ou seja, dos poucos aeroportos lucrativos da Infraero) não só meu voo partiu de Brasília no horário como a conexão, de Recife a Natal, decolou antes do previsto e chegou ao destino final com dez minutos de antecedência. 

Para confirmar nossa atávica falta de planejamento, não há como deixar o aeroporto de Natal carregando uma prancha senão de táxi ou carona. Ônibus de linha nem pensar. Lotados. Metrô? Faça-me rir. Daí que a sorte se encarrega de ajudar os mochileiros. Graças aos dez minutos de adianto ganhos no voo, cheguei no exato instante em que três norte-americanos se preparavam para sair rumo a Pipa em sua van recém-alugada. Só para ajudá-los com a despesa, aposta quem pagou menos. É que apesar de o Brasil ser a bola da vez, eu continuo com a mesma cara de semifosco esquálido de sempre. Com direito a vidro filmado, ar condicionado e principalmente, espaço, bastante espaço, chegamos a Pipa em cerca de 1h20. Considerando que eu teria que pegar um táxi até Goianinha (R$ 15) e ali aguardar sabe-se lá quanto tempo pelo ônibus até Pipa (mais R$ 10,50) que, recolhendo passageiros, galinhas e vendedores ambulantes, levaria mais de duas sacolejantes horas para chegar ao destino, os R$ 34.5 que gastei a mais (lembrando que o valor total foi uma cortesia da sorte, que me pôs os gringos no caminho) foram muito bem investidos. Fora que, pra minha mais completa sorte, Pat e o casal Leo e Nick falavam português, são democratas e bons de papo. As duas trabalham para uma ong, a America´s Voice, que atua em prol dos imigrantes ilegais que vivem e trabalham nos EUA, enquanto ele é, se bem entendi, uma espécie de agrônomo que produz alimentos orgânicos e que, nas horas vagas, joga capoeira. 

Confirmando que o brasileiro ou está mesmo por cima da carne seca ou é besta e não se importa de gastar dinheiro, só tinha gringo no albergue, ou hostel, se preferir, Zicatela Bakano. E trabalhando também. Pra dizer a verdade, quando cheguei havia um outro brasileiro, surfista, hospedado, e um brasileiro ACHO que trabalhando no bar. No resto, os funcionários, e os donos, eram todos argentinos. E simpáticos.

E eu? Por que fiquei aqui? Lógico que a referência, no nome, à famosa praia de surf mexicana ajudou quando ainda pesquisava na internet, mas o que contou mesmo foi a localização e o preço. O bem montado albergue é uma das últimas construções antes da ruazinha de terra que leva à famosa descida pelas falésias da Praia do Amor ou dos Afogados, como preferir (óbvio que o primeiro nome, mais conhecido, tem muito mais apelo turístico, mas o segundo é muito mais apropriado. Papais, mamães, segurem as crianças). E cobra R$ 36 a diária por pessoa em quartos compartilhados. (Como fiquei com uma suíte só pra mim, paguei um pouquinho mais que isso, mas depois de passar por Santos e saber que o Carina Flat está cobrando R$ 209 ao dia por um apartamento com vista para o BNH enquanto da janela das minha modesta, mas espaçosa acomodação eu posso ver o mar da Praia do AMOR, achei o valor justíssimo. Carlos Leite achou que não haveria problema de ficarmos juntos e economizarmos, mas não achei apropriado dividirmos uma suíte chamada Gostoso - foto ao lado).

E confirmando que estou ou ficando velho ou preguiçoso, aqui estou eu, diante do micro, escrevendo besteiras enquanto Carlos Leite toma sua primeira vaca nas ondas de mais de "um metrão" na série e volta à tona sorrindo como um alucinado. Lá vai ele, remando de volta pro fundo. Eu? Vou deixar pra amanhã. Por que preciso lhes contar do vento que sopra esta época do ano...     

quarta-feira, agosto 15, 2012

Flat lá, Guayasamím aqui




Como este caiçara semifosco auto-exilado no Cerrado vai treinar para ser o melhor surfista de Brasília se Netuno, Iemanjá ou o Príncipe Namor não ajudam? Mais uma vez, retornamos a Brasília, eu e meu amigo cara de pau, Carlos Leite, frustrados. Após tanto tempo tentando conciliar nossas agendas e organizar uma surf-trip, a primeira etapa de nossa `lua-de-mel´ foi decepcionante. Durante uma semana no litoral paulista não conseguimos nem ao menos colocar as pranchas no mar para surfar meio metrinho de ondas que fosse. Mar colado, parecendo uma piscina. 

Como quem não tem cão caça com gato, Leite teve que se contentar com aquilo que a "sonífera ilha", Santos, tem a oferecer além das ondas. Ou seja, pouco. Tomar sol na praia, cinema, tomar vento na praia, encontrar velhos amigos meus, tomar sereno na praia, comer os bolinhos de bacalhau no Toninho, mais cinema (o Cine Arte, que é mantido pela prefeitura e onde vimos o francês O Garoto da Bicicleta e o argentino Medianeras, ainda custa R$ 3. A inteira), um show no Sesc, uma peça em Sampa (Feriado de Mim Mesmo. Bem fraquinha)...ah! e, lógico, tomar caipirinha na praia. 

Resta-nos agora contar com a boa-vontade divina a fim de termos mais sorte na segunda etapa de nossa surf-trip de férias.

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Por outro lado, bastou um dia em Brasília para que eu, sozinho, pudesse desfrutar do privilégio de visitar a belíssima exposição de parte das obras do pintor equatoriano (Oswaldo) Guayasamín, aberta na última sexta-feira, no Museu Nacional da República.

Imperdível. São cerca de 350 obras produzidas pelo "O Pintor da América Latina), conforme a Unesco sugeriu, em 1999, que Guayasamím fosse tratado por se tratar de um dos mais importantes artistas plásticos latino-americanos da história, autor de uma obra de viés político e questionadora.

"Minha pintura é para ferir, para arranhar e atacar o coração das pessoas. Para mostrar o que o homem faz contra o homem", registrou o autor de Lágrimas de Sangue (reproduzida acima), talvez sua obra mais conhecida, uma homenagem "do povo" ao presidente chileno assassinado durante o golpe militar de 1973, Salvador Allende, ao poeta Pablo Neruda (perseguidos pelo regime e assassinados em 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias após o golpe que depôs e tirou a vida de Allende) e ao cantor Victor Jara, morto com vários tiros na cabeça no dia 15 de setembro do mesmo ano.   

Tal como o colombiano Botero, Guayasamim pintou impressionantes caricaturas dos poderosos de forma a ridicularizá-los - o que se vê na série (foto ao lado) composta pelas telas O Presidente; O Macuto ou o Militar; O Ditador ou o Gamonal e O Cura. Este último, por exemplo, tem a cabeça gorda e disforme vista pelas costas, de forma que só um dos olhos, visto de perfil, permite adivinhar se tratar de uma pessoa. 

Guayasamim também pintou a paisagem de seu país, sobretudo a capital, Quito, hoje Patrimônio Cultural da Humanidade. E quem já esteve na cidade histórica a reconhece facilmente ao ver de longe os borrões de óleo sobre tela do equatoriano. 

Além da já conhecida Lágrimas de Sangue, chamaram muito minha atenção as telas Cabeça de Montanha; A Marimba (devido à clara influência cubista); A Angústia; o esboço em papel Soldado e o tríptico A Mãe, cujo sofrimento, hoje, traz à mente as imagens cotidianas de mães velando seus filhos nos programas policiais. 

A exposição ficará em cartaz até 14 de outubro, mas vale muito a pena ir o quanto antes. 

segunda-feira, agosto 13, 2012

PRA SHIRLEY TEMPLE OUVIR
















Se é verdade que o que ouvimos diz muito a respeito de quem somos ou, no mínimo, de nosso presente estado de espírito, retomo a prática de compartilhar o que andei ouvindo ao longo da última semana produzindo um playlist de auto-ajuda para Pollyana nenhuma botar defeito. Afinal, "quem é que não quer ser feliz?".

Música de Auto-Ajuda by Alex Rodrigues on Grooveshark

quinta-feira, agosto 09, 2012

Do Luxo ao Lixo



Toca pro inferno, motorista! Uma das estampas da coleção Eu sou do lixo, inspirada na personagem Carminha, interpretada por Adriana Esteves na novela Avenida Brasil. Esta foi criada pelo semifosco, que está convencido de que em poucas horas camisetas semelhantes e peças na internet começarão a surgir, comprovando uma vez mais que as novelas são mesmo nosso principal produto cultural de massa.

sexta-feira, agosto 03, 2012

Carlos Leite pilhando a barca


De: Carlos Leite leiteempedra@ig.com.br
Asunto : Saudaciones, compañero
Para : semifosco semifosco@blogspot.com

03 de ago 2012 16:40

Hey, brother. Tô passando aí. Remou, tem que dropar. Simbora botar sal nas feridas, tostar o couro, descansar o costado. A lei, agora, é ir na maior. Mais rápido. Mais fundo. Se não der , vale a mais divertida, a mais gordinha, a mais longa. Só não vale ficar pra bóia, sinalizando que a do vizinho é sempre mais verde e tubular. É a hora ...Quero ver se você ainda lembra como se faz.

Tá Bom, Não?




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