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domingo, agosto 11, 2013

De Lá Até Aqui



tempos eu não compartilhava uma playlist com músicas que estivera ouvindo. Estava e ainda estou sem tempo para selecionar algumas a fim de dividi-las com meus três leitores.Mesmo assim, aqui está uma nova playlist. Criada graças à facilidade de que, ao contrário das cinco anteriores, temáticas (música de auto-ajuda; músicas que separei para ouvir na praia, de férias; músicas para me estimular a encarar mais um dia; música brasiliense e música paraense - veja, e acesse, relação ao lado direito) esta traz um único artista, ou melhor, grupo. 

Trata-se do Móveis Coloniais de Acaju, grupo brasiliense que meus três leitores já conhecem bem e que, a esta altura, após 15 anos de existência, já conquistou muita gente no Brasil inteiro. 

"Mas por que um playlist inteiramente dedicado a um grupo?". A resposta é que, na verdade, esta lista é exclusivamente dedicada a um único cd: De Lá Até Aqui, que chega às lojas amanhã (12), mas que já está disponível para audição no Deezer (e aqui, lógico). E que eu passei o domingo inteiro ouvindo. Logo, se este espaço é para compartilhar com meus três leitores o que anda fazendo minha cabeça...(para ouvir as faixas na íntegra é necessário se inscrever no Deezer, o que te permitirá pesquisar sons que a maioria dos programadores de rádio e e tv nem sequer sonham pesquisar, ocupados que estão com o último sucesso descartável da semana)

Mais calmo e bem-produzido que os anteriores (o enérgico, mas desigual, Idem (2005) e o excelente C_mpl_te (2009)), De Lá Até Aqui renova a certeza de que o Móveis está entre os artistas mais interessantes e empolgantes da nova safra da música brasileira.

Assim como o disco anterior, quanto mais eu ouço este, mais eu gosto das canções e descubro versos em cujo alcance eu não tinha reparado a princípio. Destaques para o arranjo da belíssima Campo de Batalha (Meu campo de batalha sou eu / A culpa que me espera morreu / Meu corpo é onde a luta viveu / Meu campo de batalha sou eu / Vontade é combater ilusão) e para a alegria contagiante de Vejo Em Teu Olhar e Saionara. 

sábado, julho 27, 2013

Let´s Don´t Worry


KCT! O que dizer? Atraso, problemas com o som, dois corpos tentando ocupar o mesmo lugar, banho de cerveja quando você não está podendo beber nem água gelada, baforada de cigarro na cara, patricinhas de salto agulha fazendo social e tagarelando sem parar... nada foi capaz de ofuscar o brilho da apresentação gratuita dos músicos do projeto/banda Playing For Change, ontem (26) a noite, em Brasília. Afinal, "let´s don´t worry my brother [...] we must find a peace [...] and you have got the good vibration"* Agora, o semifosco aqui,ainda sonado, inadvertidamente deletou o outro e melhor vídeo já editado, de forma que, para meus três leitores que não estiveram lá, resta esse aí abaixo e o arrependimento.




* Permita não se preocupar meu irmão [...] Temos de encontrar a paz [...] e você tem uma boa vibração

terça-feira, julho 23, 2013

Playing For Change em Brasília



Notícia quase boa demais para ser verdade: músicos do projeto Playing For Change tocam nesta sexta-feira (26), de graça, na área externa do Museu da República, em Brasília (DF). 

E não é só. Além do P.F.C., a programação da sexta edição do Festival da Mulher Afro Latino Americana e Caribenha – Latinidades inclui shows, na sexta-feira, da cubana Krudas Cubensi e da curitibana Karol Conka. Já no sábado (27), vai rolar, de Brasília, a Banda Funkeando, o DJ Chocolaty e o grupo El Patito Feo, seguidos por Black Alien e pela DJ Donna. 

Tudo na faixa, talvez ainda sob esta lua cheia que esta semana preencheu o céu seco da capital.





domingo, junho 16, 2013

Cru e bem-sucedido teatro brasiliense


"Grande aposta na força do trabalho do elenco e na química que os três atores têm em cena"

"Peça deixou os recifenses atônitos"



O público brasiliense tem uma nova chance de conhecer ou rever um dos mais bem-sucedidos espetáculos teatrais criados na capital federal. O espetáculo Cru, da Cia. Plágio de Teatro, voltou a entrar em cartaz no insuspeito Espaço Cena (205 Norte, bloco C), onde permanece até o próximo domingo (23), com sessões de quinta à sábado (21h) e aos domingos, as 20h (R$ 30, inteira).

Desde que estreou, em 2009, o espetáculo vem conquistando importantes prêmios como o Festival de Teatro do Rio de Janeiro. Além do aval do público das mais de 50 cidades onde já foi encenada, a produção minimalista e visceral foi transposta para as telas de cinema pelo diretor Jimi Figueiredo, com dois dos três atores da peça interpretando os mesmos papéis.

O sucesso de público e crítica alcançado pela companhia a partir do texto do dramaturgo brasiliense Alexandre Ribondi é uma excessão na capital federal, onde parecem só sobreviver as companhias locais que se dedicam às comédias de gosto duvidoso. Texto seco com ecos do Plínio Marcos de Querô e de Dois Perdidos Numa Noite Suja que permite a Sérgio Sartório (que dirige a peça junto com Ribondi) brilhar no papel do matador de aluguel Cunha e a Chico Sant´Anna (Zé) e Vinicius Ferreira (Frutinha) provarem que a capital federal é capaz de reter alguns excelentes atores dramáticos.

A trama se passa num açougue de um vilarejo remoto, administrado pelo desconfiado, ressentido e irônico travesti Frutinha. É ali que o forasteiro "Seu" Zé marca um encontro com Cunha (Sartório), pistoleiro sem escrúpulos que, à exceção de ambientalistas e freiras, diz "derrubar" qualquer serviço. Implícitas, referências à procedência do autor e da companhia produzem risos em meio ao clima tenso em que transcorre o encontro das três personagens. Como no impagável diálogo em que o matador, ao saber que Seu Zé, vivendo na capital federal, nunca "apertou a mão" do presidente da República, insiste em saber o que ele tem contra "o homem" em que ele, que vive tão longe, votou duas vezes.

Leia Também:
Estudos Sobre a Violência - Vialenta, humor sutil e inteligente

domingo, junho 09, 2013

Antanas Sutkus - Um Olhar Livre


Dois dos meus três leitores que afortunadamente vivem em Brasília não podem deixar de visitar a exposição Um Olhar Livre, em cartaz na Caixa Cultural até o dia 30 de junho. A mostra permite ao visitante admirar mais de uma centena das milhares de fotos feitas entre 1950 e 1990 pelo lituano Antanas Sutkus (1939).

Embora vivendo e trabalhando sob o antigo regime totalitarista soviético, Sutkus conseguiu transcender os limites da estética utilitarista e da ideologia visual então predominante na antiga União Soviética, contornando inclusive a censura. (Importante lembrar que a referida ideologia visual forjou-se, em parte, a partir de obras de inquestionável valor artístico)

Impressionante é que Sutkus tenha construído uma obra que, temática e tecnicamente, dialoga com a de outros grandes fotógrafos como Cartier-Bresson e Robert Doisneau. Isso apesar das dificuldades impostas ao livre trânsito de informações de lado a lado da "cortina de ferro". 

"É necessário lembrar que todas essas referências chegaram ao conhecimento de Sutkus nos anos noventa, com a queda da União Soviética, em um período em que ele já não fotografava e que a sua personalidade artística já havia atingido a maturidade. É muito interessante, por meio de sua obra, ver que olhares similares podem nascer ao mesmo tempo em diversas partes do globo", aponta o curador da mostra, Luiz Gustavo Carvalho.

Em uma entrevista parcialmente reproduzida no catálogo da exposição, o próprio Sutkus revela que o homem, sobretudo o povo lituano, sempre foi o centro de suas fotos. "Desde o primeiro dia eu percebi que isso era o mais importante para mim. Eu não tentava obrigar ninguém, só queria expressar minha relação com o objeto que estava fotografando", diz Sutkus a respeito das fotos que, em conjunto, falam sobre a vida cotidiana, sobre o povo, de maneira justa, carinhosa e não anedótica, conforme destaca o curador da exposição. Algo de que o próprio Sutkus se orgulha.

"Infelizmente, o fotojornalismo profissional ficava sob forte influência da ideologia vigente na época. Meus colegas trabalhavam de acordo com os requisitos da propaganda stalinista. Eu nunca os segui. Eu aprendia sozinho, trabalhava de maneira muito intuitiva e, nessa época, era o único que tirava fotos informais, não tradicionais", conclui o fotógrafo. 

filmado com Nokia E72

domingo, maio 19, 2013

Liga Tripa


Ah, o tempo! O tempo que não poupamos a fim de o resgatarmos corrigido e preservado. O tempo que parece sempre nos faltar; que parece sempre desperdiçado e que, no entanto, permanecerá imutável, imemorial, quando tivermos passado por ele apressados e tentando nos iludir de que  é o tempo que passa ou voa quando, no fundo, somos nós que estamos indo.

[...] 

Essa desnecessária e constrangedora introdução é uma justificativa de porque andam  tão escassas as postagens neste espaço semifosco. A culpa, gente, é do sistema. Não. Não aquele simulacro de sistema que cai sempre que você precisa do seu banco ou do SUS. O outro. O que nunca cai e do qual o sistema bancário é justamente o maior símbolo, chegando a se confundir com ele.   

Eu tô vivo, viu, gente. Eu e minhas idiossincrasias continuamos caminhando por aí, sem lenço, nem documento. E essas andanças continuam me levando vez ou outra a lugares e situações bacanas. Como há duas semanas, quando, no último dia 30, véspera do feriado do trabalhador, eu recebi meu certificado de conclusão do curso de cultura brasiliense (isso é linguagem figurada, viu): show do Liga Tripa, banda brasiliense difícil de classificar e com 34 anos de estrada. Para muitos, o mais brasiliense dos grupos locais.

Baixo os vídeos amanhã







segunda-feira, janeiro 28, 2013

Jamais verão estação igual a esta


Alguém aí viu o verão brasiliense que deveria estar aqui?

Visto pela última vez no início de janeiro, ele estava bem forte, todo vestido de azul e dourado. De repente, sumiu sem deixar vestígios.

Desde então, só se vê água nesta cidade. E eu, em pleno verão, dormindo com um cobertor e saindo às ruas, de noite, de blusa de manga comprida.

E eu que dizia a todos que na capital federal até a chuva parecia regulamentada por decreto; por um projeto de lei estabelecendo que só chova o necessário para aguar os jardins e que, mesmo quando forte, a chuva deve cessar em no máximo vinte minutos e, se necessário, só recomeçar após um espaço de tempo suficiente para eu continuar minha caminhada e chegar onde preciso.

Estrepei-me. Isso aqui este mês tá parecendo Santos. Pior. Tá parecendo Ubatuba. A ponto de na semana passada eu aceitar o conselho da madrinha Naninha e forrar meu sapato de legítimo couro italiano com sacolas plásticas do supermercado.

Como se vê, um sujeito semifosco pode até deixar a pobreza, mas a pobreza não o deixa.

sábado, janeiro 12, 2013

Epopeia Candanga


Brasília

Já escrevi e volto a repetir: fosse nos Estados Unidos, Hollywood já teria produzido mais de uma dezena de filmes explorando a história da construção de Brasília sob todos os ângulos: um louvando o "empreendedorismo" de JK. Outro defendendo a "genialidade" de Niemeyer. Um demonstrando que a história tende a "relegar a segundo plano" a importância do arquiteto e urbanista Lúcio Costa;  e vários para contar a saga dos candangos, os trabalhadores vindos de outras regiões, cuja maioria, pobre, pôs a mão na massa e efetivamente construiu Brasília conforme projetada por um comunista para, no fim, ser expulsa para a periferia, que, aqui, recebe o nome de cidades-satélites. Haveria outros tantos remontando no melhor estilo Vidas Secas a aventura que foi "marchar para o Oeste" e "domar" o Cerrado inóspito. Talvez houvesse até produtor disposto a denunciar o quanto se desviou de dinheiro público ou então a forma como, pré-legislação ambiental, se destruiu de vegetação local. Não duvido sequer que houvesse quem gastasse celuloide (isso é só uma expressão, já que, agora, é tudo filmado digitalmente) para divagar sobre a dificuldade técnica de se criar um lago artificial de 48 quilômetros quadrados de extensão, o Lago Paranoá, para garantir o suprimento inicial de energia elétrica para a cidade, mas, principalmente, para aumentar a pouca umidade da região, sem o que seria praticamente inviável para quem viesse de fora (sim, porque cabe lembrar que, antes de Brasília, muita gente já vivia nas fazendas então existentes) viver aqui. 

Como (graças a Deus?) não somos norte-americanos e nosso cinema não se ocupa dessas histórias, resta a quem se interessar e puder pesquisar por sua própria conta em livros ou na internet. Ou torcer para que a sensacional exposição As Construções de Brasília, que resultou em um belíssimo e instigante livro de 240 páginas publicado pelo Instituto Moreira Salles, continue rodando o país e chegue a sua cidade. Eu a vi em São Paulo, mas acho que nem mesmo em Brasília o conjunto das valiosas fotos históricas de Marcel GautherotPeter Scheier e Thomaz Farkas foram exibidas. Em todo caso, quem entre meus três leitores tiver interesse, pode clicar aqui para ver parte das fotos, além de ouvir algumas das canções usadas na exposição.



    

segunda-feira, outubro 22, 2012

Capital Musical


O playlist da vez soa a um samba do criolo doido (embora traga um único samba). Fazer o que se minha Brasília sonora é assim: multifacetada, heterogênea, eclética.

Escolhi 21 músicas de estilos variados para provar minha tese (bastante repetida por aqui, em outros posts) de que a ex-capital do rock é, hoje, uma das cidades com uma das mais férteis cenas musicais do país, ao lado de Belém e Porto Alegre (São Paulo? Bem, assim como em todos os outros campos, boa parte do que é feito em São Paulo, capital (onde está concentrada a produção), é produzido por gente que é de fora). Tem quem culpe a UNB. Tem quem diga que é por causa da Escola de Música de Brasília. E há, ainda, quem desdenhe alegando que o fenômeno se deve ao fato de a cidade não ter praia.

Deixei muita coisa de fora. Priorizei artistas novos, em atividade, mas ainda pouco conhecidas fora do `quadradinho´ ou dos festivais independentes. A exceção, talvez, sejam o Gog, bastante conhecido na cena rap nacional, e o Móveis Coloniais de Acaju, que mesmo ainda não sendo mainstream, já alcançou uma certa projeção, com presença na Globo e clip na MTV. Ellen Oléria também está indo pelo mesmo caminho, tendo sido, até agora, uma das maiores sensações do programa The Voice. E, lógico, Hamilton de Holanda, um dos maiores instrumentistas brasileiros da atualidade.

Como fui puxando de memória os grupos e artistas que já tive oportunidade de ouvir (o que não significa que, pessoalmente, eu goste de tudo), alguns gêneros com os quais não estou muito familiarizado ficaram de fora, caso do reggae e do heavy metal. Ainda assim, podem estar certos de que, se procurar, haverá uma banda brasiliense do tipo que não faça feio em qualquer festival independente brasileiro. (putz! Enquanto eu me justificava, meu pão torrou...)

Outros artistas muito legais ficaram de fora simplesmente porque não tem músicas no Grooveshark. Caso, por exemplo, da sambista Renata Jambeiro (outra a se apresentar no The Voice). Da baixista jazz Paula Zimbres. No caso do rap, a coisa foi um tanto opcional, um pouco por ignorância: não me recordo de ninguém mais que tenha um discurso coeso, que se aproxime do de Gog e do que vem sendo feito de bom no restante do país. Desculpem. Vejamos se em algum momento eu reparo isso.

É isso. Espero que curtam. Se não...dane-se. Não estou ganhando nada mesmo.

#004 - Capital Musical by Alex Rodrigues on Grooveshark

Ouça também: 

#003 - A Perfect Day 
#002 - Life´s Better in a Boardshort
#001 - Para Shirley Temple Ouvir

sábado, setembro 29, 2012

Criolo Volta a Tocar Em Brasília

Pouco mais de quatro meses após fazer um elogiadíssimo show que levou cerca de 12 mil pessoas a lotarem o Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB), em Brasília, o músico Criolo voltou a se apresentar na capital federal, nessa quinta-feira (27).


Dessa vez a apresentação aconteceu em local de mais fácil acesso - a praça do Museu da República, na Esplanada dos Ministérios, ao lado da rodoviária e do metrô. E foi antecedida pelo show de Marcelo Jeneci. Ainda assim, o público foi menor. Um pouco devido à forte chuva que caiu logo após o horário previsto para o início dos shows, mas principalmente porque era quinta-feira. Apesar do folclore, em Brasília a galera trabalha no dia seguinte.


A chuva atrasou toda a programação do evento, o Celebrar Brasília (que, em anos anteriores, trouxe à cidade Moby e Gothan Project). Agendado para as 21 horas, o rapper paulistano, principal atração da noite, só pisou no palco as 23h55. E não bastasse a impaciência e o cansaço de parte do público, o som, inicialmente, esteve bem ruim. Muito baixo, escondeu o punch, a pegada da banda que acompanha Criolo. Quem estava mais para trás mal ouvia a voz do cantor, que dirá alguns dos instrumentos. E, putz!, como havia gente longe do palco. Os organizadores do evento (Celebrar Brasília) decidiram reavivar a infeliz prática de reservar parte do espaço para o público `vip´. Tá certo que qualquer um poderia ser vip, bastando, para isso, trocar um aparelho eletrônico velho por uma entrada, mas a iniciativa separatista não se justifica já que o espaço é público.


Atrasado e com o som deixando a desejar, Criolo pediu desculpas já ao fim da segunda música. Disse que não sabia de quem era a responsabilidade pelo atraso, mas que qualquer que fosse o motivo, a demora excessiva era um desrespeito com quem dependia de ônibus ou metrô para voltar para casa. "A maioria", arriscou o paulistano. Àquela hora, no Plano Piloto? Desconfio que não, mas isso não importa e não invalida a bronca do rapper, já que o atraso, mesmo com a chuva, foi excessivo.


Agora, se com tudo isso contra, Criolo conseguiu reverter o jogo e conquistar a plateia ao fim das quatro primeiras músicas....é um claro indício do quanto o cara é bom. Mesmo que longe de repetir a epifania que foi a apresentação de abril, no CCBB, Criolo fez valer a espera e as poucas horas de sono de quem, como eu, tinha que acordar cedo no dia seguinte.

sábado, setembro 22, 2012

Vidas Secas


O brasiliense viveu ontem seu dia de Gabriela extasiada diante d´água.

Após 95 dias, ou seja, três meses e cinco dias de seca, voltou a chover de verdade na capital federal. Na hora, pessoas correram até as janelas e se puseram a comemorar. Juro que um vizinho meu chegou a aplaudir. Acho até que o Governo do Distrito Federal só não estourou fogos porque o Ministério Público anda de olho neste tipo de festa com o erário. Vai que um procurador metido a besta se põe a questionar se melhor não seria aplicar o recurso em obras de infraestrutura  que evitem alagamentos, engarrafamento e a interrupção no fornecimento de energia elétrica.

Chuviscos já haviam ocorrido, na véspera, em algumas cidades satélites, mas , ontem a noite,  São Pedro não se fez de rogado. Mandou logo um temporal.

A primeira chuva da temporada caiu poucas horas antes do início oficial da primaver, mas as cigarras ainda não deixaram seus buracos e deram as caras.

domingo, agosto 26, 2012

NAT to BSB


Chega de moleza. Hora de voltar à real. E, consequentemente, à seca do Planalto Central. Com os pulmões ainda operando no modo capacidade máxima após duas semanas na praia, tive que me refugiar da baixa umidade relativa do ar próximo ao Lago Paranoá - esta engenhosa criação candanga, sem a qual seria impossível viver em Brasília. Tirei a bike do quartinho e aproveitei para fazer turismo na minha própria cidade. Torre de TV-Eixão-Lago Paranoá-L2-Esplanada dos Ministérios-Rodoviária. Ao fim do passeio, admito que é bom voltar pra casa.

Quando eu olhar pro lado
Eu quero estar cercado
Só de quem me interessa
                            (É o que me interessa - Lenine)


sexta-feira, agosto 17, 2012

Itinerário



Para remediar nossa atávica falta de planejamento em infraestrutura, o governo do Distrito Federal (GDF) decidiu colocar um ônibus com ar condicionado ligando a Rodoviária do Plano Piloto ao Aeroporto Juscelino Kubitschek. Custa R$ 8. Bem menos do que eu gastaria indo de táxi. Mesmo com os atuais 15% (e não mais os costumeiros 30%) de desconto que a cooperativa dá a quem pede o carro por telefone, a corrida custaria quase o mesmo que a passagem aérea promocional Natal-Brasília, que me saiu a R$ 39.  A outra opção, ainda mais econômica, seria pagar R$ 2 no ônibus normal, mas aí é preciso apanhar o dito umas três horas antes do horário do voo para não correr o risco de chegar atrasado. No executivo da TCB (companhia que ainda não foi privatizada ou, como dizem agora, concedida, e pertence ao governo local) cheguei a tempo, me encontrei com meu amigo, o surfista prego brasiliense Carlos Leite, e fomos tomar um café. Preto. Sem nada para mastigar. Caso contrário toda a economia do táxi ia pro saco. 

Para reforçar minha tese de que boa parte do que a imprensa divulga sobre os aeroportos (que estão sim longe de serem primorosos, mas, ainda assim, estão anos-luz à frente dos hospitais públicos brasileiros - para citar só uma das reais prioridades da população) é falta de notícia ou, pior, interesse escuso (olha aí a recente concessão do filé mignon, ou seja, dos poucos aeroportos lucrativos da Infraero) não só meu voo partiu de Brasília no horário como a conexão, de Recife a Natal, decolou antes do previsto e chegou ao destino final com dez minutos de antecedência. 

Para confirmar nossa atávica falta de planejamento, não há como deixar o aeroporto de Natal carregando uma prancha senão de táxi ou carona. Ônibus de linha nem pensar. Lotados. Metrô? Faça-me rir. Daí que a sorte se encarrega de ajudar os mochileiros. Graças aos dez minutos de adianto ganhos no voo, cheguei no exato instante em que três norte-americanos se preparavam para sair rumo a Pipa em sua van recém-alugada. Só para ajudá-los com a despesa, aposta quem pagou menos. É que apesar de o Brasil ser a bola da vez, eu continuo com a mesma cara de semifosco esquálido de sempre. Com direito a vidro filmado, ar condicionado e principalmente, espaço, bastante espaço, chegamos a Pipa em cerca de 1h20. Considerando que eu teria que pegar um táxi até Goianinha (R$ 15) e ali aguardar sabe-se lá quanto tempo pelo ônibus até Pipa (mais R$ 10,50) que, recolhendo passageiros, galinhas e vendedores ambulantes, levaria mais de duas sacolejantes horas para chegar ao destino, os R$ 34.5 que gastei a mais (lembrando que o valor total foi uma cortesia da sorte, que me pôs os gringos no caminho) foram muito bem investidos. Fora que, pra minha mais completa sorte, Pat e o casal Leo e Nick falavam português, são democratas e bons de papo. As duas trabalham para uma ong, a America´s Voice, que atua em prol dos imigrantes ilegais que vivem e trabalham nos EUA, enquanto ele é, se bem entendi, uma espécie de agrônomo que produz alimentos orgânicos e que, nas horas vagas, joga capoeira. 

Confirmando que o brasileiro ou está mesmo por cima da carne seca ou é besta e não se importa de gastar dinheiro, só tinha gringo no albergue, ou hostel, se preferir, Zicatela Bakano. E trabalhando também. Pra dizer a verdade, quando cheguei havia um outro brasileiro, surfista, hospedado, e um brasileiro ACHO que trabalhando no bar. No resto, os funcionários, e os donos, eram todos argentinos. E simpáticos.

E eu? Por que fiquei aqui? Lógico que a referência, no nome, à famosa praia de surf mexicana ajudou quando ainda pesquisava na internet, mas o que contou mesmo foi a localização e o preço. O bem montado albergue é uma das últimas construções antes da ruazinha de terra que leva à famosa descida pelas falésias da Praia do Amor ou dos Afogados, como preferir (óbvio que o primeiro nome, mais conhecido, tem muito mais apelo turístico, mas o segundo é muito mais apropriado. Papais, mamães, segurem as crianças). E cobra R$ 36 a diária por pessoa em quartos compartilhados. (Como fiquei com uma suíte só pra mim, paguei um pouquinho mais que isso, mas depois de passar por Santos e saber que o Carina Flat está cobrando R$ 209 ao dia por um apartamento com vista para o BNH enquanto da janela das minha modesta, mas espaçosa acomodação eu posso ver o mar da Praia do AMOR, achei o valor justíssimo. Carlos Leite achou que não haveria problema de ficarmos juntos e economizarmos, mas não achei apropriado dividirmos uma suíte chamada Gostoso - foto ao lado).

E confirmando que estou ou ficando velho ou preguiçoso, aqui estou eu, diante do micro, escrevendo besteiras enquanto Carlos Leite toma sua primeira vaca nas ondas de mais de "um metrão" na série e volta à tona sorrindo como um alucinado. Lá vai ele, remando de volta pro fundo. Eu? Vou deixar pra amanhã. Por que preciso lhes contar do vento que sopra esta época do ano...     

quarta-feira, agosto 15, 2012

Flat lá, Guayasamím aqui




Como este caiçara semifosco auto-exilado no Cerrado vai treinar para ser o melhor surfista de Brasília se Netuno, Iemanjá ou o Príncipe Namor não ajudam? Mais uma vez, retornamos a Brasília, eu e meu amigo cara de pau, Carlos Leite, frustrados. Após tanto tempo tentando conciliar nossas agendas e organizar uma surf-trip, a primeira etapa de nossa `lua-de-mel´ foi decepcionante. Durante uma semana no litoral paulista não conseguimos nem ao menos colocar as pranchas no mar para surfar meio metrinho de ondas que fosse. Mar colado, parecendo uma piscina. 

Como quem não tem cão caça com gato, Leite teve que se contentar com aquilo que a "sonífera ilha", Santos, tem a oferecer além das ondas. Ou seja, pouco. Tomar sol na praia, cinema, tomar vento na praia, encontrar velhos amigos meus, tomar sereno na praia, comer os bolinhos de bacalhau no Toninho, mais cinema (o Cine Arte, que é mantido pela prefeitura e onde vimos o francês O Garoto da Bicicleta e o argentino Medianeras, ainda custa R$ 3. A inteira), um show no Sesc, uma peça em Sampa (Feriado de Mim Mesmo. Bem fraquinha)...ah! e, lógico, tomar caipirinha na praia. 

Resta-nos agora contar com a boa-vontade divina a fim de termos mais sorte na segunda etapa de nossa surf-trip de férias.

****


Por outro lado, bastou um dia em Brasília para que eu, sozinho, pudesse desfrutar do privilégio de visitar a belíssima exposição de parte das obras do pintor equatoriano (Oswaldo) Guayasamín, aberta na última sexta-feira, no Museu Nacional da República.

Imperdível. São cerca de 350 obras produzidas pelo "O Pintor da América Latina), conforme a Unesco sugeriu, em 1999, que Guayasamím fosse tratado por se tratar de um dos mais importantes artistas plásticos latino-americanos da história, autor de uma obra de viés político e questionadora.

"Minha pintura é para ferir, para arranhar e atacar o coração das pessoas. Para mostrar o que o homem faz contra o homem", registrou o autor de Lágrimas de Sangue (reproduzida acima), talvez sua obra mais conhecida, uma homenagem "do povo" ao presidente chileno assassinado durante o golpe militar de 1973, Salvador Allende, ao poeta Pablo Neruda (perseguidos pelo regime e assassinados em 23 de setembro de 1973, apenas 12 dias após o golpe que depôs e tirou a vida de Allende) e ao cantor Victor Jara, morto com vários tiros na cabeça no dia 15 de setembro do mesmo ano.   

Tal como o colombiano Botero, Guayasamim pintou impressionantes caricaturas dos poderosos de forma a ridicularizá-los - o que se vê na série (foto ao lado) composta pelas telas O Presidente; O Macuto ou o Militar; O Ditador ou o Gamonal e O Cura. Este último, por exemplo, tem a cabeça gorda e disforme vista pelas costas, de forma que só um dos olhos, visto de perfil, permite adivinhar se tratar de uma pessoa. 

Guayasamim também pintou a paisagem de seu país, sobretudo a capital, Quito, hoje Patrimônio Cultural da Humanidade. E quem já esteve na cidade histórica a reconhece facilmente ao ver de longe os borrões de óleo sobre tela do equatoriano. 

Além da já conhecida Lágrimas de Sangue, chamaram muito minha atenção as telas Cabeça de Montanha; A Marimba (devido à clara influência cubista); A Angústia; o esboço em papel Soldado e o tríptico A Mãe, cujo sofrimento, hoje, traz à mente as imagens cotidianas de mães velando seus filhos nos programas policiais. 

A exposição ficará em cartaz até 14 de outubro, mas vale muito a pena ir o quanto antes. 

domingo, julho 15, 2012

Tulipa Ruiz - nada efêmera


                                   "Vou ficar mais um pouquinho para ver se eu aprendo alguma coisa nesta parte do caminho"

Olha, amigo,  insisto: não acredite no chavão de que a música popular brasileira anda uma merda só porque as rádios e os programas de auditório `só querem tchu, só querem tchá´ pensando em `se te pegam´ a fim de lobotomizar sua atenção, sedando seu espírito crítico e lançando-o em um estado de baixa reatividade emocional. (como já sabem meus três leitores, odeio clichês do tipo, "ah, mas Brasília não tem o que fazer!")  

Os verdadeiros artistas da nova safra musical ainda não chegaram aos comerciais anti-pirataria produzidos pela Abert ou à programação da maioria das rádios do país. E, talvez, nunca cheguem, embora sejam muitos, diversos entre si e estejam oxigenando a cena contemporânea. 

De Norte a Sul, de Leste a Oeste, os criadores com alguma chance de produzir algo que não seja tão efêmero quanto o maior sucesso mensal de todos os tempos estão nos palcos de pequeno e médio porte, nos blogs de opinião como A Musicoteca, nos palcos de entidades sócio-culturais como o Sesc e no youtube, disputando sua atenção com muita porcaria chancelada por quem segue a máxima que ninguém jamais deixou de ganhar dinheiro por subestimar a inteligência do público. E só alguns poucos receberão o visto para adentrar as terras da Grande Família, em Jacarepaguá, ou o Reino de Deus, por exemplo.

Cabe aos interessados pesquisar e fugir ao fast-food cultural servido frio pelos programadores desinteressados. Porque estes só querem manter as coisas como antes, indiferentes à realidade de que, embora não pareça, estão gradualmente perdendo audiência - já que, com mais e novos canais de comunicação, inclusive direta e pessoal, muita gente já se deu conta de que nem só de Big Mac vive o homem e decidiu montar seu próprio playlist.  

É a tal da Teoria da Cauda Longa, conforme divulgada, em 2006, pelo então editor-chefe da revista Wired, Chris Anderson.

 

A cantora paulista Tulipa Ruiz é uma destas "novas vozes brasileiras". Embora tenha lançado um único disco (o segundo já está pronto e deve sair em breve), já conquistou uma legião fiel de fãs e inscreveu ao menos uma composição (Efêmera, registrada acima) entre as mais queridas e lembradas por quem curte a nova cena. 

Filha de pai músico, a ex-jornalista e ilustradora de 33 anos demorou a decidir enveredar pela música. Quando o fez, precisou de pouco mais de um ano para lançar o elogiadíssimo cd Efêmera (2010) e ganhar o público com a qualidade de suas composições e sua simpatia.

Sempre acompanhada por bons instrumentistas, Tulipa conquista de cara. Na última sexta-feira (13), em Brasília (DF), ao se apresentar de graça na abertura do Festival Internacional de Humor e Arte em Aids, entrou no palco aplaudidíssima pelo público já devidamente entusiasmado com os shows anteriores do rapper Gog e da, para mim, maior aposta musical do país, a brasiliense Ellen Oléria. Bastou uma canção e ela já tinha a todos nas mãos, se permitindo inclusive ousadias como a louca e arrastada interpretação da música Da Maior Importância, do Caetano Veloso - algo que poderia ter custado a perda do interessa da plateia até mesmo para artistas com muito mais tempo de estrada que ela. 

No dia seguinte, conversando com amigas que estiveram na área externa do Museu Nacional, uma constatação que comprova minha impressão de que o show foi ótimo: todos acordamos assoviando ou cantando alguma das músicas de Tulipa. Um bem-estar nada efêmero.