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sexta-feira, julho 12, 2013

WikiRebels (documentario sueco sobre o WikiLeaks e Assange)


Se você acha que o assunto WikiLeaks não te diz respeito; se por desconhecer a história do soldado Bradley Manning você crê que o analista Edward Snowden é o primeiro e único a assumir o risco de passar o resto de seus dias na cadeia por ter vazado à imprensa documentos sigilosos norte-americanos; se não compreende que, sem transparência, o termo democracia não passa de uma palavra vazia e, principalmente, se você ainda não entendeu as implicações do provável monitoramento de telecomunicações pessoais e comerciais enquanto os governos fazem o possível para que as pessoas não tenham acesso integral à informações que deveriam ser públicas, bom... você deve assistir ao documentário WikiRebels, produzido pela emissora sueca SVT. E, se possível, também deve ler os livros WikiLeaks - A Guerra de Julian Assange Contra os Segredos de Estado (ed. Verus), e CypherPunks - Liberdade e o Futuro da Internet (Boitempo Editorial). 

O primeiro foi escrito por dois jornalistas do prestigiado periódico inglês The Guardian e coloca no chinelo a trilogia de ficção Millenium (aquela de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres) já que, por mais inacreditável que soe a história e os declarados propósitos do criador do site de compartilhamento WikiLeaks, Julian Assange, tudo aconteceu de fato. Já o segundo livro é mais difícil, técnico, por se tratar da transcrição de conversas de Assange com os ciberativistas Jacob Appelbaum, Andy Muller-Maguhn e Jéremie Zimmermann - especialistas que, há muito, vem denunciando o que agora parece estar se tornando óbvio: 

"Uma guerra furiosa pelo futuro da sociedade está em andamento. Para a maioria, ela é invisível. De um lado, uma rede de governos e corporações que espionam tudo o que fazemos. De outro, os cypherpunks [entusiastas do uso da criptografia, ou mensagens cifradas, nas telecomunicações, sobretudo na internet], ativistas e geeks virtuosos que desenvolvem códigos e influenciam políticas públicas [...] Empresas como Google e Facebook monitoram todas as atividades de seus usuários para melhorar a eficácia da publicidade dirigida. O crescimento deste mercado criou bancos de dados muito amplos e precisos que têm sido requisitados regularmente pelos governos para combater o crime, mas também para controlar a dissidência política. O barateamento das tecnologias de armazenamento de dados também tem estimulado órgãos de inteligência a fazer monitoramento massivo das comunicações de cidadãos, algumas vezes com expressa autorização do Legislativo e do Judiciário"  

Se ao ver a duração total do vídeo (57minutos) você imaginar que o assunto não vai te prender a atenção, que não te interessa, faça um teste: posicione o cursor sobre a barra de rolagem do vídeo em 24 minutos e 56 segundos, aperte o play e assista ao menos até 32 minutos e 35 segundos. Se não se sensibilizar para a importância do tema, então você realmente não irá compreender porque, agora, no caso de Edward Snowden, é incompreensível, para não dizer covarde, a dúbia posição das autoridades brasileiras, que alegam repudiar a hipótese da agência de inteligência norte-americana (NSA) ter 'grampeado' as comunicações por telefones e e-mails de milhares de brasileiros, mas, ao mesmo tempo, se negam a sequer analisar o pedido de refúgio de Snowden, que corre o risco de ser preso justamente por ter revelado o que o governo brasileiro considera inadmissível.



domingo, setembro 16, 2012

O Mundo Precisa do Wikileaks?



Ao contrário do que pode parecer, Wikileaks - A Guerra de Julian Assange Contra os Segredos de Estado (Verus Editora) não é uma biografia oportunista do polêmico hacker australiano, ganhador de dois importantes prêmios internacionais pela contribuição dada por sua organização ao jornalismo investigativo e atualmente perseguido pelos governos suecos e norte-americano.   

Escrito pelos jornalistas David Leight e Luke Harding, do prestigiado diário britânico The Guardian, o livro analisa parte da errante infância do australiano (nascido em 1971, da relação fugaz de dois jovens hippyes que se conheceram durante protestos contra a Guerra do Vietnã) para sugerir o que o motivou a criar o site destinado a receber cópias de documentos sigilosos de interesse público e divulgá-las garantindo absoluto sigilo às fontes. 

Além de descrever em minúcias o funcionamento do Wikileaks, os autores revelam um pouco mais sobre quem é e o que levou o soldado norte-americano Bradley Manning a copiar e repassar ao site informações militares sigilosas. 

Entre os milhares de arquivos e documentos copiados pelo soldado estava a íntegra do vídeo do momento em que um helicóptero Apache do Exército norte-americano, a quilômetros de altitude, dispara contra pessoas aparentemente desarmadas reunidas em um subúrbio da capital iraquiana, Bagdá. Entre os doze mortos estavam dois funcionários da agência de notícias Reuters. Entre os feridos, duas crianças. Ao saber da presença das crianças, um dos pilotos tenta se justificar: "Bem, a culpa é deles por trazerem os filhos para uma batalha". 

Embora não tenha causado a comoção pública que Assange esperava, o vídeo ajudou os críticos da guerra do Iraque a comprovar que a chamada "guerra cirúrgica" não passava de discurso oficial. 

Neste sentido, muito mais efeito tiveram as informações que Manning vazou e o Wikileaks publicou com a ajuda de cinco dos mais importantes veículos de imprensa do mundo a respeito do número de civis mortos durante a guerra do Afeganistão; das torturas, desmandos e atos covardes perpetrados pelas forças de coalizão no Iraque, além do imenso conjunto de documentos diplomáticos que obrigariam a opinião pública mundial a olhar de forma menos complacente e ingênua as interesseiras, intrincadas e pragmáticas disputas geopolíticas. 


O vazamento levou Manning à prisão, onde aguarda ser julgado pela acusação de "fornecer informações sobre a defesa nacional a uma fonte não autorizada, informações sigilosas cuja divulgação, se acredita, poderia trazer prejuízos aos Estados Unidos". Segundo seus defensores, mesmo que não seja condenado à execução sumária, o soldado corre risco de morte, pois o isolamento e as condições subumanas em que vem sendo mantido há anos vem provocando a deterioração de suas faculdades físicas e mentais.

"Se eu fosse alguém mal-intencionado poderia ter vendido as informações a Rússia ou a China e ganhado muito dinheiro. Não fiz isso porque são dados públicos. Pertencem ao domínio público", revelou Manning, em uma sala de bate-papo, ao hacker que em seguida o denunciaria às autoridades como traidor. "Acredito que a informação deve ser livre. Outro Estado simplesmente se aproveitaria das informações e tentaria conquistar alguma vantagem. Eu quero que as pessoas vejam a verdade, independentemente de quem são, porque, sem informação, você não pode tomar decisões fundamentadas".

Enquanto Manning, há 850 dias na prisão, recebe pouca atenção da mídia, Assange se encontra asilado na embaixada equatoriana no Reino Unido. Se for detido e extraditado para a Suécia, onde responde a dois controversos processos por estupro, Assange pode ser condenado à prisão perpétua. Ou, pior: à morte, conforme clamam alguns parlamentares republicanos, alegando que o australiano contribuiu com os inimigos dos EUA, colocando a vida de milhares de pessoas em risco ao divulgar documentos sigilosos. 

Sem tomar partido de Assange e não se furtando a apontar suas idiossincrasias, Leigh e Harding sugerem as mudanças impostas pela internet não só ao jornalismo, mas ao conceito de comunicação como um direito. A leitura do livro sugere tantas e diferentes discussões, que seria impossível resumir, com riqueza, tudo em um único post.