quarta-feira, dezembro 25, 2013

As cem coisas de Bonassi


Não é, certamente, o cartão de visitas do escritor Fernando Bonassi. Até porque, dez anos já se passaram desde a publicação de sua primeira edição. Ainda assim, este 100 Coisas é uma boa introdução ao universo temático e à narrativa ágil do autor paulistano. Além do mais, é um livro que se lê em um único fôlego, ideal para esta época do ano e para levar nas viagens curtas. Difícil é encontrá-lo nas livrarias. Mais fácil recorrer a um bom sebo.

Formado em cinema pela USP e autor de romances, crônicas e livros infanto-juvenis, Bonassi escreve também para o teatro e para o cinema. São seus, por exemplo, os textos dos espetáculos teatrais Apocalipse 1,11, montado pelo Teatro da Vertigem, e Woyzeck Desmembrado, encenado pelo ator Matheus Nachtergaele. Bonassi é co-autor dos roteiros dos filmes Cazuza – O Tempo Não Para e Carandiru. E das séries televisivas Força-Tarefa, da TV Globo, e Castelo Rá-Tim-Bum, da TV Cultura.

É o jornalismo, no entanto, uma das influências que mais saltam à vista dos leitores das crônicas de Bonassi. Não só pela atenção e predileção por cenas cotidianas e fatos aparentemente insignificantes, como pela objetividade do texto, que carrega consigo apenas o essencial para permitir ao leitor ressignificar o que é relatado. Não à toa, as 100 crônicas foram selecionadas dentre as mil que compõem o Livro da Vida e que vieram à luz sob a forma de textos para o jornal Folha de S.Paulo, com o qual Bonassi colaborou durante muito tempo.


42 - Jussara Foi Dançar

Cinto e sandália combinando, foi pro baile das dez às quatro. Mulher, não pagou ingresso. As paredes de fora sem reboco. As de dentro, uma luz negra maquiava. Ficou sozinha por duas seleções de tecno. Garrafas voaram. Tumulto murchou sozinho. No banheiro fez xixi de pé. Fora da privada. Molhou três dedos menores de cada lado. Não se enxugou. Tomou cerveja mexicana com limão, de canudinho, que subiu rápido. Dançou coladíssima as lentas. Então se arranjou. Deu telefone e endereço. Aceitou carona de estranho e morreu num acidente

Ferramentas


As mais brilhantes mentes de sua geração desenvolveram uma nova e avançada tecnologia que permitiu à humanidade romper os limites do tempo e do espaço e contactar o passado. Assim, ex-namoradas que ele talvez preferisse esquecer, conhecidos de infância que não perdiam uma oportunidade de fazê-lo parecer ridículo, parentes de terceiro grau e pseudo-vizinhos cuja existência ele ignorava subitamente estavam ao alcance de um click, clamando para que ele os curtisse em troca de algumas cutucadas e um monte de vc, tc, kkkkk, rsrsrs e desenhos infantis que supostamente simbolizavam o que sentiam, como se todos estivessem entupidos de Ritalina.

terça-feira, dezembro 24, 2013

Semifosco Virtualmente Socializado


Sempre muito bem-informado, o CEO da Facebook, Mark Zuckerberg, soube que o Semifosco estava prestes a ceder e a também aderir à rede social. Temendo o chamado "efeito orkutização" - ou seja, a depreciação de um bem ou serviço antes exclusivo a que a patuleia passa a ter acesso -, o norteamericano colocou à venda 41,4 milhões de ações. Abrir mão dessas ações pode ter reduzido de 58,8% para 56,1% o controle de Zuckerberg sobre o Facebook, mas, segundo especialistas em finanças, pode ter lhe poupado de um sério prejuízo. Com a operação, o CEO não só colocou nos bolsos cerca de US$ 2,3 bilhões, mas, principalmente, se antecipou a uma aguardada queda no preço das ações em consequência do ingresso do usuário míope e resiliente

Procurado pela reportagem para comentar o assunto, o Semifosco explicou que, apesar dos muitos apelos para se manter fora, decidiu criar um perfil após se inteirar de que o Facebook decidiu investir milhões de dólares em programas robóticos desenvolvidos pelo excelsior professor do Center for Data Science da Universidade de Nova York, Yann LeCun, com a finalidade de conhecer melhor seus usuários. Segundo agências internacionais de notícias, o pesquisador vai chefiar o novo laboratório de inteligência artificial da empresa a fim de "tornar a página mais interessante para os internautas".

O Semifosco também revelou ter ficado sensibilizado ao saber que, ainda de acordo com as agências, "o Facebook espera, com a pesquisa, não apenas poder analisar conteúdos, entender como os internautas se comunicam e classificar mensagens para atacar os usuários com anúncios personalizados", mas, PRINCIPALMENTE, "poder transformar o tempo gasto na rede social em UMA EXPERIÊNCIA MAIS CONSTRUTIVA E ATÉ MESMO EDUCATIVA

A primeira ação do semifosco ao ingressar na rede de Zuckerberg foi tentar convidar Edward Snowden para ser seu amigo. Infelizmente, o ex-agente do serviço de inteligência norteamericano parece não gostar da Rede. Ou vice-versa. A segunda iniciativa do semifosco foi enviar para o FAQ da Facebook a sugestão de o serviço também contar com um programa que simule uma fazendinha. Ainda não houve resposta.


fonte:https://www.facebook.com/profile.php?id=100007319649785&ref=tn_tnmn

sexta-feira, dezembro 13, 2013

Os Mulheres Negras


Após mais de um mês ausente, o semifosco ressuscita para registrar a passagem por Brasília da ex-menor big band do mundo, Os Mulheres Negras. Na já longeva década de 1980, a banda revelou à cena musical alternativa o saxofonista Maurício Pereira e o guitarrista André Abujamra, hoje mais conhecido por seu trabalho à frente do Karnak. Nessa quarta (11) e quinta (12), velhos e novos fãs dos dois puderam conferir que o trabalho conjunto continua divertindo e empolgando a plateia.  



domingo, novembro 03, 2013

CAMUS E A REVOLTA QUE SE MANTÉM

Na semana em que comemora a reciclagem da turma de Caco Antibes pela Vênus platinada sem novas ideias, o mundo lembra os 100 anos do nascimento do escritor Albert Camus.
Nascido em 7 de novembro de 1913, na Argélia, então colônia francesa, o autor de O Estrangeiro, A Peste, O Mito de Sísifo, entre outros importantes romances, ensaios e peças de teatro é considerado um dos mais influentes intelectuais do século XX.

Não à toa, o filho de agricultores/operários recebeu, em 1957, aos 44 anos de idade, o Prêmio Nobel de Literatura. Uma distinção "pelo conjunto da obra que põe em destaque os problemas que se colocam em nossos dias à consciência do homem".

Camus morreu três anos depois de receber o Nobel, em um acidente de automóvel. (O absurdo do acaso, tema recorrente em sua obra, é que o escritor tinha em seu bolso uma passagem de trem de Sens para Paris. Desistira e alugara o carro em que morreria).

Após 53 anos de sua morte, a influência de Camus no ambiente intelectual ainda se faz sentir. Talvez porque as questões importantes à consciência humana se mantenham as mesmas. No Brasil, por exemplo, o ensaio O Homem Revoltado (1951) foi lembrado por muitos que analisam as manifestações populares que tomaram as ruas nos últimos meses.

Lembrança óbvia, já que no cerne de O Homem Revoltado se encontra "o problema mais cruciante da revolta, ou seja, a questão se existe alguma coisa que se possa fazer para melhorar este mundo de injustiça e sofrimento que não aumente a injustiça e o sofrimento?". Black Blocs?! 

Motivado pela efeméride, reli o romance O Estrangeiro. Escrito em meio a Segunda Guerra Mundial (1939/1945), quando Camus se dedicava ao jornalismo, o romance leva o leitor a identificar o absurdo da situação e do comportamento do protagonista, Meursault, um homem indiferente - ou insensível - às convenções sociais e às expectativas que os outros têm a seu respeito.

O problema é quando a aparente indiferença de Meursault - um aspecto, digamos, passivo, de sua personalidade -, que vai incomodar algumas das outras personsagens da história, se confunde à consciente resignação do protagonista diante de fatos contra os quais não tem poder algum.

"Hoje, minha mãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem". Reage Meursault diante do telegrama enviado do asilo para onde enviara a mãe. "`Sua mãe falecida. Enterro amanhã. Sentidos Pesâmes´. Isso não quer dizer nada. Talvez tenha sido ontem".

"...ao redor daquele asilo onde as vidas se apagavam, a noite era como uma trégua melancólica. Tão perto da morte, mamãe deve ter-se sentido liberada e pronta a reviver tudo. Ninguém, ninguém tinha o direito de chorar por ela. Também eu me senti pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera me tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais de estrelas, eu me abria pela primeira vez à terna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que tinha sido feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-me desejar que houvesse muitos espectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio".

O Estrangeiro é um livro que se lê de um único fôlego e ao qual dificilmente ficamos indiferentes. Agora, vou para as ruas atrás do Homem Revoltado, mas com cuidado para não contribuir para tornar este mundo ainda mais injusto.

segunda-feira, setembro 30, 2013

* 20/10/1990 + 30/10/2013

 
Em outubro de 1990, o então jovial e atlético Fernando Collor de Mello havia assumido a presidência da República poucos meses antes e acabara de liberar a importação de automóveis, proibida desde 1976. Eram tempos em que se falava, mundialmente, na ascensão da Geração Y - nicho de mercado extremamente visado pelo mercado publicitário. 
 
Os cds já eram vendidos no país há pelo menos cinco anos, mas, àquela altura, muita gente, como eu mesmo, ainda gravava suas músicas preferidas em fitas cassetes que gastávamos nos cabeçotes dos clássicos walkmans ou de aparelhos domésticos 3 em 1 (toca-discos, toca-fitas e rádio AM/FM). A fita cassete era então a forma mais democrática de trocarmos "arquivos musicais" (nunca, naquela época, alguém iria se referir À MÚSICA dessa forma). A gravação, muitas vezes, era feita diretamente do rádio, o que exigia que acompanhássemos a programação com paciência, sempre prontos a apertar o REC aos primeiros acordes da canção escolhida. Dificilmente alguém tinha gravado os primeiros segundos de qualquer música "pirateada" dessa forma. Em compensação, quase sempre a música era entrecortada uma ou mais vezes pela vinheta de identificação da rádio.
 
Implementada no Brasil poucos anos antes, a internet ainda era uma ferramenta de ficção científica, disponível apenas para alguns poucos membros da comunidade acadêmica  e do governo federal. Até porque, só um ano depois, em 1991, a reserva do mercado de informática chegaria ao fim e os microcomputadores começariam a se popularizar - muito gradativamente - entre os brasileiros. 
 
Nesse contexto, era muito difícil se manter atualizado sobre o que rolava musicalmente no restante do mundo. E mesmo no Brasil, já que a grande mídia estava ocupada com gêneros de sucesso comercial como lambada, brega e sertanejo. Quem curtia pop-rock ou algum outro gênero menos midiático ou queria saber algo sobre o sucesso que as "college radios" norte-americanas vinham conquistando com o espaço dedicado ao rock alternativo (REM era então o melhor exemplo), só preenchia as lacunas lendo as poucas revistas especializadas no país, como Bizz e Rock Brigade (mais voltada ao público metaleiro), os fanzines que ainda resistiam e eram enviado pelos Correios ou numa ou outra matéria inspirada de um jornalista mais descolado já à serviço de um grande jornal como a Folha de S.Paulo ou JB.
 
Engraçado pensar nisso e lembrar que, lá fora, o grunge já havia dado à luz Bleach, do Nirvana (1989). E que Ten, do Pearl Jam, seria lançado ainda em 1991. Já com o Muro de Berlim no chão, a história, longe de chegar ao seu fim (Fukuyama), se aceleraria vertiginosamente. A ponto de, hoje, ao contrário, ser justamente a infinita oferta de informação a razão de não conseguirmos mais acompanharmos tudo o que rola na música e nas artes em geral.  
 
De qualquer forma, foi naquele contexto que estreou, em outubro de 1990, a MTV Brasil. Emissora destinada ao público jovem que encerrou hoje (30) suas transmissões na tv aberta. Com a devolução pelo grupo Abril da marca MTV à empresa Viacom, o canal será reformulado e transmitido apenas na tv paga. Pelo que vem sendo anunciado, a programação será muito diferente da que vinha sendo transmitida. Razão pela qual alguns telespectadores e vários apresentadores e funcionários demitidos se referem ao episódio como "o fim da MTV".
 
É inegável que há tempos a MTV Brasil já não era essa de que me recordo e não cumpria o mesmo papel. Com a facilidade das pessoas pesquisarem na internet, a música foi perdendo cada vez mais espaço para a comédia. Para mim, a coisa perdeu razão de ser quando vjs como Fábio Massari e Kid Vinil, ou até mesmo o Gastão, passaram a ser substituídos por patricinhas e programas de auditório como Beija Sapo entraram no ar. Aí veio o sucesso das produções na rede, como o Porta dos Fundos. Para onde mais iria a MTV, que, ao longo de todo esse tempo no ar, parece nunca ter conseguido sucesso publicitário? 
 
Muita gente comentou no twitter que já não assistia a MTV, mas que, diante do fim, lembrou de momentos marcantes, de bandas que conheceu na emissora, músicas preferidas, entrevistas. E, lógico, de VJs. Até quem não assistia à MTV, mas gosta de tv tem um tributo a pagar ou maldições à lançar à extinta emissora, já que dali saíram muitos profissionais hoje famosos em outros canais e atividades (Zeca Camargo, Soninha, Fernanda Lima, Marcelo Adnet, Tatá Werneck, Dani Calabresa, João Gordo (que, óbvio, já era figura conhecida graças ao Ratos de Porão, mas que ali descobriu sua verve de entrevistador televisivo) e muitos outros. Fora que muita experiência de linguagem foi depois incorporada por outras emissoras.
 
Passados 23 anos, a geração Y está grisalha, o vídeo-clip já não tem mais a mesma importância, a música se tornou algo quase banal dada à facilidade de obtenção...e a MTV saiu do ar. A julgar pelos programas exibidos para marcar o fim, creio que não vai deixar órfãos. Mesmo assim, não deixa de ser intrigante que o canal destinado ao público jovem que, dizem os estrategistas, são o público consumidor prioritário, quebre sem que nenhum grupo econômico interessado apareça para comprá-lo, e que sai do ar quase que imperceptivelmente, sem que outros veículos analisem as causas e o significado disso, enquanto Rede TV e SBT mantem a mesma caquética obsolescência no ar.

Eu vou sentir falta da Funérea, a personagem animada responsável por algumas das melhores entrevistas da tv brasileira.
  

sexta-feira, setembro 20, 2013

Baixio das Bestas


Não dou a mínima para o Oscar. Ponto. 

Imagino que, para um cineasta que não trabalhe nos Estados Unidos, receber um prêmio de "melhor filme" não-norte-americano concedido por membros de uma "Academia" cinematográfica que foi incapaz de premiar Charles Chaplin (em 72, ele ganhou, como consolo, um prêmio honorário) e Orson Welles (a estatueta por melhor roteiro não foi o suficiente para distinguir um gênio cinematográfico como Welles) não significa muita coisa além da efêmera visibilidade comercial. Puro marketing.

Alem do mais, a cerimônia de entrega dos prêmios é um troço chato cuja expectativa e repercussão tem muito mais a ver com o interesse mórbido pelas roupas e penteados dos astros e estrelas do que com a sétima arte.

Considerações feitas, o assunto hoje chamou minha atenção por causa do filme que a comissão do Ministério da Cultura escolheu para, entre indicados de todo o mundo, concorrer a uma das cinco vagas destinadas aos finalistas da categoria world movie (porque, para os yankees, há o cinema norte-americano e há o cinema do resto do mundo).

E o indicado brasileiro foi...O Som ao Redor. O que me deixou surpreso - não sei se pela ousadia ou pela falta de visão. Como apenas um dos meus três leitores assistiu ao filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho, fui ouvir outras pessoas para constatar que, de fato, a maioria das pessoas não viu o filme; muitas sequer tinham ouvido falar dele. O que, talvez, seja uma estratégia da comissão do MinC: já que ganhar o Oscar de melhor filme não-norte-americano nunca foi uma questão de Estado, aproveitemos o fato midiático para estimular a curiosidade do público interno para uma obra que valha a pena ser vista, mas que, de outra forma, passaria despercebida entre os blockbusters tão ao gosto da Academia.  

Se for essa a ideia, ponto para o grupo. Se não...bom, então não consigo pensar em um filme brasileiro menos indicado para o gosto dos profissionais da indústria cinematográfica responsáveis por escolher os ganhadores do Oscar 2014. 

No dia em que assisti a O Som ao Redor, fui abordado por um casal de argentinos que, embora vivam no Brasil já há alguns meses, não entenderam a fundo a trama e, por isso, não compreendiam as razões de tantas críticas elogiosas na imprensa. Difícil foi explicar aos dois, em espanhol, que o filme é complicado também para os brasileiros e que, de fato, sua força não está na estética, na forma, mas sim no roteiro. Sobretudo pelas meias palavras a atiçar os bons entendedores da História, da sociologia e da formação econômica brasileira.

Kleber foi bastante ousado e abriu várias frentes de discussão em seu filme (o coronelismo, os códigos familiares, o consumismo como símbolo de progresso, a insegurança pública, a velha luta de classes...), fazendo valer o ingresso para aqueles que gostam de um filme que incomode e faça pensar. A ousadia, contudo, tem um preço. Nesse caso específico, o custo é a dificuldade de perceber aonde o diretor quer chegar com as tomadas de tvs de tela-plana e de acompanhá-lo buscar sentido numa Recife encastelada. Para compreender além do que é explicitado na tela, o telespectador precisa de uma ampla gama de informações prévias. Principalmente sobre a última década. Informações que, talvez, não digam nada aos "acadêmicos" de Hollywood que irão avaliar a indicação brasileira. 

Tudo bem. Se a indicação servir para que os piratas passem a vender O Som ao Redor nos bares e rodoviárias, terá valido à pena a ousadia da comissão.    

quinta-feira, setembro 19, 2013

Sensibilidade Rara!

Tinha decidido não mais comentar estreias cinematográficas. Por causa dos esquemas de distribuição e exibição, em algumas cidades os lançamentos demoram a chegar ou sequer são exibidos. Daí que, como dois de meus três leitores moram em outras paragens, tratar de certos filmes soa a mero exibicionismo ou, na melhor das hipóteses, a estímulo à pirataria.

Mesmo assim, às vezes eu não resisto e começo a pensar no que escrever sobre algo de que gostei. Caso do sutil Flores Raras, filme a que assisti há algumas semanas - onze anos após ver, em Santos, a excelente peça Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes. Dirigido pelo brasileiro Bruno Barreto, o filme trata da relação e do convívio de 15 anos da poeta norteamericana Elizabeth Bishop (1911-1979) com a arquiteta brasileira Lota de Macedo Soares (1910-1967), interpretadas, respectivamente, pelas atrizes Miranda Otto e Glória Pires.

Não sou fã do trabalho de Barreto, mas, nesse caso, seu, digamos, tradicionalismo estético contribuiu para a trama, já que Bishop e Lota se conheceram e se apaixonaram no Rio de Janeiro da década de 50, período de grandes mudanças na cultura e na própria sociedade brasileira. Anos cujos reflexos ainda se fazem sentir e que ainda não foram completamente absorvidos (vide a construção de Brasília), mas que as produtoras cinematográficas brasileiras e as telenovelas tratam como nossa belle epoque.

Além das sensacionais atuações de Glória Pires (merecedora de prêmios e homenagens) e de Miranda Otto, o filme tem recebido elogios unânimes não só por tratar com rara sensibilidade a relação amorosa de Bishop e Lota, mas também pela produção e pela reconstituição de época.

No plano pessoal, a história de amor e companheirismo de Bishop e de Lota coincide com o período mais frutífero da vida das duas intelectuais: a poetisa ganhou o Prêmio Pulitzer (1956), um dos mais importantes da literatura mundial, durante sua estadia no Brasil. Enquanto isso, a brasileira concebia e recebia do governador da Guanabara a tarefa de supervisionar a construção do Parque do Flamengo, no Rio de Janeiro. Como pano de fundo histórico, o Brasil se industrializava, se tornava mais urbano e atravessava um de seus mais conturbados períodos políticos (o recente suicídio de Vargas, renúncia de Jânio, impedimento da posse de Jango, golpe militar), com reflexos estimulantes para as artes em geral, sobretudo para a música, com o surgimento da Bossa-Nova.

De polêmico mesmo, só a opção do bem-comportado Bruno Barreto de humanizar o "corvo" Carlos Lacerda, político responsável pelo suicídio de Vargas, crítico ferrenho de Jânio e apoiador de primeira hora dos militares e grande amigo de Lota, de quem `fez a vontade´ ao aprovar a construção do Aterro do Flamengo. Sobre isso, contudo, não encontrei nenhum comentário ou crítica.

segunda-feira, setembro 02, 2013

Dicionário de Expressões Idiomáticas Conservadoras



"VERDADEIROS ÍNDIOS" - (1) indivíduos PACÍFICOS originários de um grupo indígena e por este reconhecido; (2) esses mesmos indivíduos (1) que NÃO PROTESTAM, NÃO RETOMAM TERRAS OCUPADAS, NÃO INVADEM O PLENÁRIO DO CONGRESSO NACIONAL e NÃO CRITICAM OS GOVERNANTES PELA DEMORA NA CRIAÇÃO DE NOVAS RESERVAS INDÍGENAS

terça-feira, agosto 13, 2013

I Love Jazz


Dentre a diversidade musical que caracteriza Brasília (DF), os único segmento que talvez não se veja contemplado pelos empresários locais seja o que reúne os aficionados ou interessados por jazz. Não há, na capital federal, uma única casa em que se possa ouvir o gênero com regularidade. Isso apesar de haver vários excelentes jazzistas na cidade - se não sabe, fique sabendo que há tempos a grande Rosa Maria (ou Rosa Marya Colin, sim, aquela da versão de California Dreamin) decidiu se fixar em Brasília.

A falta de "inferninhos" jazzies (se é que este adjetivo existe e se escreve assim), contudo, não impede milhares, sim, eu disse MILHARES de pessoas de todos os anos se reunirem no Parque da Cidade durante as tardes de um fim de semana para curtir o que há de melhor em termos de jazz tradicional. São pais com filhos, idosos, casais de namorados deitados sobre cangas, turmas de amigos que aproveitam a oportunidade para fazer um piquenique, gente acompanhada de garrafas e mais garrafas de vinho, ciclistas e atletas que corriam no parque...enfim, toda sorte de pessoa que dá ao menos uma paradinha para ouvir boa música e apreciar o pôr do sol ou as mornas noites brasilienses ao som de jazz.

Enquanto isso, no palco, os instrumentistas e cantores provam sem nenhum esforço que o jazz nada tem de pernóstico, pedante ou hermético. É sim sofisticada, mas é também empolgante, como tão bem diziam os escritores beatniks que, na distante década de 1950, nos Estados Unidos, escreviam sob a influência do gênero obras que, pouco depois, influenciariam uma revolução comportamental. Sobre isso, vale a pena assistir ao ótimo filme Na Estrada, adaptação norte-americana do clássico On The Road, de Jack Kerouac, dirigida pelo brasileiro Walter Salles.

Já sobre o festival I Love Jazz, que este ano chegou à quinta edição e que acontece, simultaneamente,  em Belo Horizonte (MG), a quem não foi só resta assistir aos vídeos abaixo ou aos vários outros disponibilizados na internet para sacar a qualidade dos feras que tocaram de graça durante o último fim de semana. Não faço nem ideia de quanto eu  pagaria para assistir a um show de uma cantora como Niki Haris - para mim, a grande estrela desta edição. Só no sábado, segundo os jornais, cerca de 4 mil pessoas prestigiaram o evento, dando mais vida ao Parque da Cidade (local onde, no passado, Mônica, de moto, se encontrou com Eduardo, de camelo).









O vídeo da pianista norte-americana Judy Carmichael e seu quarteto eu tomei emprestado da conta de Marcelo Ledes no youtube. O da empolgante apresentação do Niki Haris Quintet é de Henrique Behr, que, mesmo com o som de palmas próximas e repentinamente cortado, ficou infinitamente melhor que meu, gravado à distância e poluído pelas conversas de  pessoas a minha volta que não pararam de tagarelar um minuto sequer.  O da Orange Kellin´s New Orleans Deluxe Orchestra eu mesmo gravei, quando, enfim, consegui, por pouco tempo, um lugar próximo ao palco. O do Pink Turtle então, nem se fala. Foi o que gravei da maior distância. Mesmo assim, é uma versão de Get Up, Stand Up, de Bob Marley, e não achei outro. Mas acho que vale registrar que, no geral, não curti Pink Turtle, que, mesmo com o repertório moderninho, me lembrou a orquestra de Ray Conniff. Ficou faltando apenas Butch Miles and the Jazz Express Big Band. Quem sabe ano que vem. 

domingo, agosto 11, 2013

De Lá Até Aqui



tempos eu não compartilhava uma playlist com músicas que estivera ouvindo. Estava e ainda estou sem tempo para selecionar algumas a fim de dividi-las com meus três leitores.Mesmo assim, aqui está uma nova playlist. Criada graças à facilidade de que, ao contrário das cinco anteriores, temáticas (música de auto-ajuda; músicas que separei para ouvir na praia, de férias; músicas para me estimular a encarar mais um dia; música brasiliense e música paraense - veja, e acesse, relação ao lado direito) esta traz um único artista, ou melhor, grupo. 

Trata-se do Móveis Coloniais de Acaju, grupo brasiliense que meus três leitores já conhecem bem e que, a esta altura, após 15 anos de existência, já conquistou muita gente no Brasil inteiro. 

"Mas por que um playlist inteiramente dedicado a um grupo?". A resposta é que, na verdade, esta lista é exclusivamente dedicada a um único cd: De Lá Até Aqui, que chega às lojas amanhã (12), mas que já está disponível para audição no Deezer (e aqui, lógico). E que eu passei o domingo inteiro ouvindo. Logo, se este espaço é para compartilhar com meus três leitores o que anda fazendo minha cabeça...(para ouvir as faixas na íntegra é necessário se inscrever no Deezer, o que te permitirá pesquisar sons que a maioria dos programadores de rádio e e tv nem sequer sonham pesquisar, ocupados que estão com o último sucesso descartável da semana)

Mais calmo e bem-produzido que os anteriores (o enérgico, mas desigual, Idem (2005) e o excelente C_mpl_te (2009)), De Lá Até Aqui renova a certeza de que o Móveis está entre os artistas mais interessantes e empolgantes da nova safra da música brasileira.

Assim como o disco anterior, quanto mais eu ouço este, mais eu gosto das canções e descubro versos em cujo alcance eu não tinha reparado a princípio. Destaques para o arranjo da belíssima Campo de Batalha (Meu campo de batalha sou eu / A culpa que me espera morreu / Meu corpo é onde a luta viveu / Meu campo de batalha sou eu / Vontade é combater ilusão) e para a alegria contagiante de Vejo Em Teu Olhar e Saionara. 

terça-feira, agosto 06, 2013

"ONDE ESTÃO MURILO E OS OUTROS 38 DESAPARECIDOS GOIANOS?"

fonte: Agência Brasil

(clique para ouvir)

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Enquanto cidadãos e organizações de defesa dos direitos humanos cobram das autoridades do Rio de Janeiro o esclarecimento sobre o que ocorreu com o pedreiro Amarildo de Souza, desaparecido há 23 dias, a dona de casa goiana Maria das Graças Soares luta quase que sozinha, há oito anos, para saber o paradeiro de seu filho Murilo Soares. O garoto é umas das 39 pessoas que, segundo organizações sociais de defesa dos direitos humanos, desapareceram após serem abordadas por policiais militares na região metropolitana de Goiânia nos últimos anos.
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"Eu também queria saber onde está o meu filho. Eu queria que os governantes, as autoridades, também me ajudassem”, disse Maria das Graças à Agência Brasil. “São 39 famílias de desaparecidos após abordagem policial que até hoje não tiveram respostas”, comentou a dona de casa, referindo-se aos números parcialmente revelados no ano passado, em um relatório da Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Goiás.
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Morador da Rocinha, Amarildo desapareceu no dia 14 de julho deste ano, após ser levado por policiais militares para a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade, no bairro de São Conrado, na zona sul do Rio. O caso gerou protestos de moradores da Rocinha aos quais, depois, se somaram os de segmentos da sociedade fluminense. Após chegar às redes sociais, a pergunta "Onde está Amarildo?" atraiu a atenção da imprensa brasileira e internacional. Já o caso de Murilo e das outras 38 supostas vítimas da abordagem policial goiana atraem cada vez menos a atenção da opinião pública. 
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Murilo tinha 12 anos quando, em 22 de abril de 2005, policiais do grupo Rondas Ostensivas Táticas Metropolitanas (Rotam) pararam o carro dirigido pelo servente Paulo Sérgio Pereira Rodrigues, de 21 anos. A pedido do próprio pai (que, na época, já estava separado de Graça), Murilo voltava para casa de carona com Paulo. Várias pessoas presenciaram o momento em que os policiais revistavam o motorista enquanto o garoto permanecia de pé, ao lado do veículo. Foi a última vez que Murilo e Paulo foram vistos. O carro foi encontrado no dia seguinte, carbonizado e sem a aparelhagem de som e as rodas. Os corpos dos dois ocupantes, no entanto, jamais foram localizados. Paulo tinha antecedentes criminais.
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Oito policiais acusados de latrocínio (roubo seguido de morte) e ocultação de cadáver foram absolvidos pela Justiça de Goiás por falta de provas materiais. O Ministério Público recorreu da sentença e o resultado do julgamento foi anulado pela Justiça Estadual, que decidiu levar os policiais ao Tribunal de Júri por duplo homicídio qualificado e ocultação de cadáveres. Por falta de indícios, a nova decisão também foi anulada e o novo julgamento não aconteceu.
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Passados oito anos, Maria das Graças diz ter perdido a esperança de que alguém seja punido pelo sumiço de seu filho. Por já não acreditar que o garoto esteja vivo, ela diz alimentar unicamente a esperança de dar um enterro digno ao seu filho. “Minha expectativa é que um dia eu possa enterrar os restos do meu filho. Este é meu sonho. Eu quero encontrar o Murilo, não importa o jeito que ele esteja”.
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Há três meses, ao pedir que a investigação e o julgamento das mortes de moradores de rua de Goiânia fossem federalizados, a ministra dos Direitos Humanos, Maria do Rosário, sugeriu que também as denúncias de desaparecimentos após abordagens policiais na região metropolitana da capital goiana também fossem federalizados. O pedido da ministra foi encaminhado ao Superior Tribunal de Justiça (STJ) pelo procurador-geral da República, Roberto Gurgel, no começo de maio.
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No pedido, é mencionada a suspeita de violência policial e atuação de grupos de extermínio em Goiás que, desde 2000, resultaram em “sistemáticas violações aos direitos humanos, diante da inércia estatal para investigar, julgar e punir os possíveis autores”. A cargo do ministro Jorge Mussi, do STJ, o deslocamento da competência ainda não foi julgado. Na ocasião em que o pedido de federalização foi apresentado, a Polícia Militar de Goiás informou, por meio de sua assessoria, que acompanha os desdobramentos do caso, classificado como “extremamente complexo”, e que tem o maior interesse no esclarecimento dos fatos para que, se comprovadas as acusações, os eventuais responsáveis sejam punidos.

sexta-feira, agosto 02, 2013

A Humilhação do Futebol Brasileiro

  • 8
    X
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    Camp Nou
    JOGO EM ANDAMENTO!


"O principal motivo deste amistoso é vermos este menino [Neymar] jogando ao lado do Messi". 

Sério que isso é tudo que um comentarista esportivo brasileiro, supostamente um amante do futebol, tem a dizer a respeito de mais um vexame do Santos diante do clube espanhol Barcelona?

"Ah, mas perder do Barça de Messi não é vergonha". Perder não, mas voltar a protagonizar um tragicômico espetáculo que confirma o atual desnível entre o futebol brasileiro e o de outras potências mundiais... ah, isso é sim uma vergonha que deveria ser compartilhada por todos os que realmente gostam do esporte. 

Não entendi a tolerância, a condescendência dos comentaristas globais (ou fingi não entender. Sabe como é, né? Muito dinheiro envolvido em um espetáculo desses). Independente de se tratar de um amistoso, quem estava em campo representando o futebol brasileiro não era um folclórico Ibis. Não. Era o ex-time com o qual Pelé se consagrou, equipe oito vezes campeã brasileira, três vezes vencedora da Libertadores e bi-campeão Mundial Interclubes. Não bastasse esse passado de glórias, os entusiastas brasileiros deveriam lembrar que, ainda hoje, o Santos é uma das principais equipes brasileiras. E se preocupar. Pois se uma forte equipe brasileira passa, pela segunda vez, um vexame como o que o Santos passou hoje diante do Barça, há muito o que pensar sobre a qualidade do futebol nacional.

Não somos o país do futebol? Não somos um celeiro de craques? O futebol e o brasileiro não são tão indissociáveis a ponto de justificar a realização da Copa do Mundo? Não nascemos todos já com a ginga necessária para driblar os adversários e adversidades? Por que, então, enquanto os jogadores do Barça constroem coletivamente verdadeiras obras-primas de jogadas eficientes, nossos atletas se vêem perdidos em campo, contando com o talento individual e arriscando chutões pra frente? Isso para não falar na nossa visível falta de estratégia tática. Por que nos conformamos com a vergonha de uma de nossas principais equipes?

Será que nos conformamos com a vergonha de uma de nossas principais equipes porque continuamos apostando no indivíduo? Nas personalidades? Como disse o juiz Arnaldo, "vamos deixar a tristeza de lado e falar da alegria deste menino [Neymar, mais uma vez]. Quanto mais você fizer, quanto melhor você vier a ser, melhor será para o futebol brasileiro". E nada mais, somente umas palavras do Galvão, que, a certa altura, deu uma leve estocada nas Polianas apontando "a vergonha para um time tão importante quanto o Santos".

A questão é que se o futebol deve ser tema de interesse (e ação) dos governos conforme costuma defender o ministro do Esporte, Aldo Rebelo, a humilhação do Santos deveria ser vista como uma vergonha do futebol brasileiro, administrado de forma amadora. E a vitória do Barça deveria ser interpretada como a vitória do "futebol apolíneo" da velocidade e da eficiência coletiva sobre o futebol dionisíaco que praticamos com cada vez menos sucesso (só não vou escrever sem nenhum sucesso pelas recentes vitórias do Corinthians e do Atlético Mineiro).

quinta-feira, agosto 01, 2013

Malafaia vai `às cordas´ na moral


Os manos diriam "perdeu, playboy". Os estrategistas gritariam a plenos pulmões, entusiasmados, "xeque-mate!". Madrinha Naninha suspiraria entre dentes: "um dia a máscara cai". Sinuca de bico, senti eu. 

Ao participar do programa Na Moral, da tv Globo, o pastor Silas Malafaia enrolou, enrolou, enrolou e, após tentar convencer a todos que é tolerante, não aceitou o convite de um representante umbandista, o babalorixá Ivanir dos Santos, para participar de uma caminhada ecumênica que, em resumo, prega o respeito à diversidade religiosa e o reconhecimento da laicidade do Estado. A presença de Malafaia, afirmou o autor do convite, seria um claro recado aos evangélicos que o ouvem. 

Mesmo liso como sabonete, Malafaia ficou sem saída: ou aceitava o convite ou inventava uma desculpa qualquer para o fato de ser um dos líderes do único segmento que não aceita participar do evento. Se aceitasse, precisaria, daqui a alguns meses, caminhar lado a lado com os umbandistas que alguns pastores evangélicos demonizam e com lideranças católicas com quem disputa fiéis. Enrolou e não respondeu objetivamente, escolhendo, assim, a segunda opção. Para tentar se justificar, disse querer evitar corroborar atos que, segundo ele, têm motivações políticas. Logo ele que, nos últimos tempos, tem frequentado Brasília mais que muitos parlamentares.

E foi isso. Um único momento digno de nota durante o debate. O que levou uma internauta de ironizar, no twitter, que "se o país é laico, deviam ser proibidos estes tipos de debates religiosos ridículos que só servem para dar ibope pra barraco". Não dá para dizer que seja um comentário insensato. Principalmente quando alguém assistindo ao programa decide escrever "Entenda, Deus comanda tudo!!! Sua existência é por permissão DELE". Aí, meu amigo, certo está o outro que declarou "laico é meu sono. Respeito".

Mesmo com a camada de verniz que o ex-ministro do STF, Carlos Ayres Britto, emprestou à atração, a simples presença de Malafaia entre os debatedores indicava, de cara, que a conversa não ia muito longe. Mas é da lógica do show business. Tanto quanto o apresentador Pedro Bial exibir os mesmos arroubos verbais pretensamente poéticos pelos quais ficou marcado no comando do Big Brother - essa sim uma atração laica. 

quarta-feira, julho 31, 2013

World Press Photo



Últimos dias para visitar e conhecer, no Teatro da Caixa, em Brasília (DF), as fotos premiadas no World Press Photo deste ano (2013). Conflitos, muitos conflitos - a organização responsável por selecionar as mais tocantes fotos publicadas pela imprensa mundial durante o ano passado não perderia a oportunidade de "denunciar" as mazelas decorrentes de guerras e confrontos armados como os da Faixa de Gaza, Síria e de outras paragens.  

O mundo é foda! Sim, é. Um homem violento abandonado por sua mulher pode jogar ácido no rosto da ex-esposa e da própria filha, desfigurando-as. Há conflitos armados por toda a parte. Doenças, etc, etc. Por sorte, há também assuntos mais amenos: ensaios sobre pinguins,  atletas olímpicos em ação; cenas cotidianas. E tome mais desgraça. Mesmo assim, é um programa imperdível. E gratuito.  

Ao sabor da seca e torta poesia do Cerrado


"A idéia de uma cidade do futuro atravessa os séculos"

Nova oportunidade dos brasilienses assistirem ao documentário Sob o Signo da Poesia (2011), de Neto Borges. O filme de 77 minutos traz depoimentos de artistas que ou nasceram na capital federal ou adotaram a cidade. Gente como o  poeta Nicolas Behr, o cineasta Vladimir Carvalho, o livreiro Ivan Presença, o músico Renato Matos, o artista plástico Bené Fonteles, o rapper Gog, entre muitos outros. Às 20h, no Espaço Cultural do Shopping Brasília, de graça.




O semifosco foi conferir e atesta: EX-CE-LEN-TE. Impossível a quem vive na cidade não sair se sentindo um pouco mais brasiliense depois de assistir ao inspirado documentário de Neto Borges e acolher a definição do cineasta Vladimir Carvalho, para quem Brasília, fruto do encontro de gênios do modernismo brasileiro, por muito tempo foi como que um "tubo de ensaio da utopia" - utopia interrompida com o golpe militar de 1964. 

Já para quem não conhece a capital federal e tiver a oportunidade de assistir a essa homenagem visual à cidade e a seus artistas, creio que ficará a curiosidade de descobrir se Brasília vai além dos velhos clichês repassados a todo instante nos meios de comunicação e, de fato, possui a pujança criativa revelada por Borges. 

Filmadas com apuro técnico e bom gosto, as imagens são belíssimas (homenagem aos artistas plásticos do Cerrado?). Os depoimentos, por sua vez, são carregados da verdade de quem vive a cidade, abrindo-se para o que ela tem de bom e de ruim. Poesia inspirada. Muitas histórias: o texto do projeto arquitetônico de Lúcio Costa, vencedor do concurso que escolheu a concepção da futura capital revisado por Carlos Drummond de Andrade; JK hospedando Tom Jobim e Vinicius de Moraes no Catetinho quando tudo não passava de barro e os dois, além de atenderem à encomenda de compor uma sinfonia (menor), compondo Água de Beber, Camará à beira de uma fonte. Tantos personagens...   

A certa altura, alguém (não me recordo quem. Bené Fonteles? Carvalho?) afirma que Brasília não é para principiantes. Lógico. Se isso, à época, era o moderno, a vanguarda que (talvez) não vingou, poucos, ainda hoje, entendem a dura poesia concreta do urbanismo local e a deselegância discreta do cerrado (nem tudo que é torto é errado: vide as pernas do Garrincha e as árvores do cerrado-Nicolas Behr). 

Daí que, ainda hoje, como bem diz o músico Renato Matos (pai da cantora-rapper brasiliense Flora Matos, bombando em Sampa entre os alternativos do Baixo Augusta) tem muita gente que chegou a Brasilia e até hoje não abriu as malas, deixadas fechadas em um canto, prontas para partir em um breve sempre adiado.  Esses precisariam fazer um esforço de compreender esse filme. 

segunda-feira, julho 29, 2013

E a Anglo American, hein?




Quase quatro meses após o acidente que matou pelo menos quatro trabalhadores de um terminal portuário privado perto do Porto de Santana, a cerca de 20 quilômetros de Macapá (AP), dois funcionários continuam desaparecidos e as autoridades seguem tentando identificar as causas do acidente. O deslizamento de parte do terreno onde a empresa multinacional Anglo American armazena milhares de toneladas de minério de ferro ocorreu na madrugada de 28 de março. O material caiu sobre o píer flutuante onde atracavam os navios que transportam o minério vendido pela empresa a países do Oriente Médio, Ásia e Europa.

sábado, julho 27, 2013

Let´s Don´t Worry


KCT! O que dizer? Atraso, problemas com o som, dois corpos tentando ocupar o mesmo lugar, banho de cerveja quando você não está podendo beber nem água gelada, baforada de cigarro na cara, patricinhas de salto agulha fazendo social e tagarelando sem parar... nada foi capaz de ofuscar o brilho da apresentação gratuita dos músicos do projeto/banda Playing For Change, ontem (26) a noite, em Brasília. Afinal, "let´s don´t worry my brother [...] we must find a peace [...] and you have got the good vibration"* Agora, o semifosco aqui,ainda sonado, inadvertidamente deletou o outro e melhor vídeo já editado, de forma que, para meus três leitores que não estiveram lá, resta esse aí abaixo e o arrependimento.




* Permita não se preocupar meu irmão [...] Temos de encontrar a paz [...] e você tem uma boa vibração

quinta-feira, julho 25, 2013

Soul Samba de Sá


Eu ia escrevendo "esta noite, a potente voz grave de Sandra de Sá preencheu de swing e simpatia o teatro lotado da Caixa Cultural, em Brasília, levando os fãs a cantarem junto com ela os maiores sucessos da carreira desta carioca que já faturou cinco prêmios Sharp como melhor cantora brasileira (88; 90; 93; 95 e 2005)"..., mas quer saber, além de já ser tarde, todos - até meus três leitores - conhecem a nêga. E melhor que ler uma pretensa e rudimentar crítica musical minha é conferir a própria Sandra de Sá cantando durante o show. Outra coisa é que, além do vídeo-testemunho da apresentação (abaixo), este texto vale pelo título. Ou não, embora eu modestamente defenda que Sandra deveria me pagar um royaltie e usá-lo em um próximo disco em que explicitasse ainda mais suas influências de soul e samba.

Eis um primeiro vídeo. Depois baixo outro. Pra quem não foi, é isso ou conseguir um ingresso e ir pessoalmente conferir amanhã (26/07) este "aperitivo" acústico que a cantora está apresentando na companhia de dois excelentes instrumentistas, ansiosa, conforme ela mesma demonstrou, para trazer o show e a banda completa à capital federal.    

 

quarta-feira, julho 24, 2013

(Republicando) Nomes Anacrônicos




Enquanto a madrinha Naninha se ocupava da cozinha...
Muito se falou em Fonseca, Braz, Pessoa, Bernardes, Vargas, Dutra, JK, JQ, JG, Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, em ambos os Fernandinhos, em Itamar e em outros cujos nomes o tempo encarregou de apagar do seletivo caderno goiabada da dinda.
Foram tempos conturbados durante os quais a Tia Mariquinha ficou viúva, doou todos os seus bens e passou a morar com os filhos. E Noeme, após se casar com Ocozias, deu à luz Edilva, Edjanira, Edila, Edirce, Esmênia e Edsonina. 
Longe dali, Hitler se casou com Stalin e gerou Franco, Salazar, Peron, Getulio Vargas, Mussolini e uns outros tantos ainda em processo de reconhecimento.
O tempo passou na janela e Maurício, que sempre achou seu nome extremamente comum, decidiu que seu filho se chamaria Hermenegildo. Gildo nasceu à mesma época que Otogilson, Otovilmo e Otomilton. Que, além de serem irmãos, são primos dos também irmãos Edson, Edla, Edvane e Edlene. Ingborg não. Embora só brincasse com eles e até se parecesse um bocado, Ingborg é irmão dos gêmeos Ricobert e Rigobert. Com quem não se parece nem um pouco.
Mas Pinochet, Videla, Stroessner, Castello Branco e Fidel também não se pareciam. Pelo menos, não fisicamente.
Orozimbo Neto afina motores automotivos, vive em Santos, onde enche a cara de cachaça e não tem absolutamente nada que ver com a história pessoal da madrinha Naninha. Mas entrou na dança porque Bimba, que também se chama Orozimbo, afina pianos e tem parentesco com os supra-citados. Desconfio que ambos jamais saberão da existência um do outro. 
Os amigos só chamam Formaggio pelo carinhoso apelido de...queijo. 
Ainda hoje se fala muito de Vargas, Dutra, JK, JQ, JG, Castello Branco, Costa e Silva, Médici, Geisel, Figueiredo, Tancredo, Sarney, de ambos os Fernandinhos, de Itamar, de Pinochet, Videla, Stroessner e de Fidel. Mas as pessoas os chamam por nomes nem um pouco carinhosos.
Quando fundou a Fazenda Bom Jardim dos Cristais - onde fica a cozinha em que, ainda hoje, em tempos pós-modernos, a madrinha Naninha segue se ocupando de seus doces e bolos - Zezeca não imaginava que iria dar início a esta pitoresca saga familiar em busca do nome mais esdrúxulo. 
Tampouco Cabral, o portuga, sabia.