terça-feira, fevereiro 12, 2013

CarnaRock e outras mumunhas


Felizmente, o mundo não acabou no Calaf.

(Veja post anterior).

A bem da verdade, não dá nem mesmo pra dizer que EU tenha me acabado no Calaf. Por mais que o power-trio brasiliense Passo Largo (vídeo abaixo) tenha se empenhado para nos dar oportunidade para isso.

A única coisa que acabou ontem a noite foi o estoque de freiras, diabinhas, policiais, Minnies e outras fetichistas lindas, leves, suadas e mais ou menos desimpedidas à solta no salão. Por sinal, acabou bem rápido. Resultado natural de festa cujo esquenta começa sete horas antes, com o bloco na rua, bêbados e equilibristas sob a sombra das raparigas em flor.

Tudo bem. Antes das fantasias, adereços e históricos de bons antecedentes virarem cinzas (vixi! desculpem o inoportuno mau-gosto da frase), vem a terça-feira gorda. O risco de pegar um resfriado e o suplício das últimas horas - e só - a me aproximar da personagem do conto em que Caio Fernando Abreu explica o sentido ritualístico da data.

Desperto com "a boca gosmenta de tanta cerveja morna" e me lembro que nem o Papa segurou a onda durante a festa pagã.

É como prescreve Xico Sá: "a vida não tem alvará, baby".

Vou indo, comer meus cereais. Porque, nos dias de hoje, é vital manter alguma regularidade. Nem que seja intestinal. (O que me faz lembrar de uma última citação, pra encerrar: "de dentro vem o que por fora se revela", preconizou o sábio Lao-Tsé há cerca de 2,6 mil anos, no belíssimo Tao Te King).

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

Deixa eu brincar



Verão. Flat em todo o Brasil. 

Carlos Leite (foto do arquivo pessoal), meu bom e prezado amigo, surfista prego brasiliense, anda solto por aí, percorrendo o litoral em busca de ondas que lhe permitam deslizar sobre as águas salgadas e poluídas.

No último e-mail que me escreveu, deu seu breve recado: "Sem mais o que fazer, emagreci três quilos, mas, em compensação, inchei algumas dezenas de litros e umas gramas". Como sugere o Fred D´Orey, não há nada que um surfista de verdade tema mais que a ideia de um verão sem fim (endless surf?!?!)

Já eu optei por ficar catando cavaco em Brasília mesmo. Ouvindo o mais melancólico disco de Bjork, torcendo para que Django conseguisse resgatar sua amada e encrenqueira Broomhilda, flagrando Barata no Aparelhinho e torcendo para que o mundo não acabe no Calaf. 

Afinal, mesmo que todo carnaval tenha seu fim, eu também quero  "brincar de ser feliz". (mesmo sendo adepto da antipática tese de que uma das maiores tristezas é a alegria imposta) 

sábado, fevereiro 09, 2013

Uma chacina ofuscada pela sanha novelesca da mídia brasileira


... então me deixa ver se eu entendi. 

1) O empresário Marcos Matsunaga foi morto por sua companheira, Elize Matsunaga, em maio de 2012, ou seja, há pouco mais de oito meses. A expectativa, agora, é de que, até março, a justiça paulista anuncie a data do início do julgamento de Elize, presa desde junho passado.

A imprensa nacional cobriu o fato em seus mínimos detalhes, destacando até mesmo aqueles mais irrelevantes para a vida prática, cotidiana, de seus telespectadores, ouvintes ou leitores. Houve até mesmo quem destacasse o "trágico fim" do que parecia um conto de fadas, lembrando sempre que Marcos era um homem riquíssimo e a assassina uma ex-prostituta tirada das ruas pelo próprio empresário. 

2) O ex-goleiro Bruno é acusado de, junto com mais quatro pessoas, entre elas seu amigo e secretário pessoal, Macarrão, ter matado Eliza Samudio, desaparecida desde 2010. Bruno, sua ex-mulher, Dayanne Souza, e outro réu, o policial Bola, vão ser julgados a partir do próximo dia 4, mas Macarrão e uma ex-namorada de Bruno, Fernanda Gomes de Castro, já foram julgados e condenados a, respectivamente, 15 e cinco anos de prisão (ela, em regime semi-aberto). 

A imprensa nacional cobriu o fato em seus mínimos detalhes, destacando até mesmo aqueles mais irrelevantes para a vida prática, cotidiana, de seus telespectadores, ouvintes ou leitores. Houve até quem destacasse que o garoto pobre que subiu na vida graças ao futebol sempre dera demonstrações de descontrole emocional, sugerindo ser evidente tratar-se de um criminoso. 

Sem entrar no mérito, meus parabéns às justiças paulista e mineira por apreciarem os casos com razoável celeridade. Enquanto isso...

3) O assassinato de quatro servidores públicos do Ministério do Trabalho - três auditores fiscais e um motorista - completou nove anos em 18 de janeiro passado sem que nenhum dos nove indiciados pela Polícia Federal tenha sido julgado. Pior. Às vésperas da chamada "Chacina de Unaí" (MG) completar nove anos, a juíza federal de Belo Horizonte que há quase dois anos responde pelo processo frustrou a expectativa de todos que esperavam que ela anunciasse a data do início do julgamento ao declinar da competência de julgar os acusados e determinar que os autos sejam remetidos para a subseção da Justiça Federal em Unaí.

Em virtude dessa decisão, só Deus sabe quando o tribunal do júri vai acontecer, já que o Ministério Público Federal, entidades de classe e organizações de defesa dos direitos humanos prometem recorrer da decisão da juíza, alegando que, em Unaí, não há como garantir a imparcialidade do júri, já que os principais réus desfrutam de prestígio político e econômico na cidade. A exemplo de Antério Mânica, acusado de ser um dos mandantes do crime. Um dos maiores produtores de feijão do país, ele foi eleito prefeito de Unaí poucos meses após a PF pedir seu indiciamento por envolvimento na chacina. E reeleito em 2008. 

Chama a atenção que Antério e outros dois réus acusados de serem os mandantes dos crimes e que possuem dinheiro estão em liberdade, graças a habeas corpus que obtiveram da justiça. Já os três suspeitos de terem executado os servidores estão presos há nove anos, mesmo não tendo sido julgados. A legislação brasileira não estabelece um tempo máximo para a prisão preventiva, mas poucas vezes se ouviu falar que alguém ainda não condenado tenha passado tanto tempo encarcerado à espera de ser julgado. Já há quem classifique a medida como um "cumprimento antecipado da pena".

Bom. Aí, enfim, eu chego ao ponto que acho que não entendi direito. Porque apesar de se tratar de um crime hediondo praticado contra servidores públicos no cumprimento de sua missão; de um ataque ao Estado de direito planejado por pessoas poderosas contra pessoas encarregadas de combater a vergonha nacional que é o trabalho escravo ou análogo à escravidão... apesar de tudo isso, este caso a imprensa não está cobrindo nos mínimos detalhes. Para ser franco, passados nove anos, a impressão que se tem é que, salvo raras exceções, a mídia parece ter se esquecido do caso que chegou a repercutir internacionalmente. E nossos colegas parecem só se recordar dele a cada novo dia 18 de janeiro, quando a Chacina de Unaí completa anos sem que os responsáveis tenham sido julgados e punidos.  

"E o Brasil lá tem trabalho escravo!?!", parece gritar o pouco caso da imprensa com a demora da Justiça Federal.   

terça-feira, fevereiro 05, 2013

TRIP NA TV



Após 26 anos à venda nas bancas brasileiras, a revista Trip enfim chegou à TV. Estreou, há alguns meses, na Mix TV, o programa Trip TV, que também pode ser assistido no youtube.

É a fórmula bem-sucedida da revista, agora adaptada para as telinhas: lindas mulheres seminuas fazendo a linha "sou despojada, mas cool e interessante", enquanto mulheres com um pouco mais de "estrada" contam sobre o dia em que envelheceram (com 31 anos?!?!?).

A versão televisiva também conta com entrevistas de atletas como o capitão da seleção brasileira de vôlei, Murilo Endres, ou o mito do skate norte-americano Lance Montain dando seu depoimento sobre a necessidade de o skate ser mais abrangente que necessariamente grande e preservar a criatividade dos praticantes. E de artistas como as atrizes Maria Fernanda Cândido ou Isabel Filiardis estimulando a participação social ao falar de seu trabalho à frente das ongs Doe Seu Lixo e Força do Bem.

A exemplo das Páginas Negras, como são chamadas as grandes entrevistas da edição impressa, na revista eletrônica os bate-papos conduzidos pelo editor e criador da Trip, Paulo Lima, também sempre rendem um caldo no mínimo interessante, como o jornalista e escritor Xico Sá revelando que compõe seu peculiar figurino trocando camisas com parentes que ainda moram no Cariri. Ou a grande estrela da música brasileira em 2012, o rapper Criolo explicando o resultado de seus "23 anos de caminhada":

_ O que contribuiu muito para mim foi ser filho de nordestinos e morar num bairro chamado Grajaú [extremos sul de São Paulo]. Não é que eu seja triste ou melancólico. É que eu enxergo o que está acontecendo ao meu redor.

No meio da mesmice das tv abertas, os doze minutos de duração do programa são um breve, porém revigorante, alento.

terça-feira, janeiro 29, 2013

Portuguesas Assustadoras



Nesta segunda-feira (28), os havaianos Kealii Mamala e Garrett McNamara encararam ondas gigantes na Praia do Norte, em Nazaré, Portugal.

Na base do tow-in (modalidade em que o surfista é puxado para a onda por um jet-ski, já que seria impossível entrar na onda remando), Garret encarou ondas que, para alguns especialistas, são as maiores já surfadas na história. Em 2011, Garrett já havia inscrito seu nome no Guinness Book ao dropar, nesta mesma praia, uma bomba d´água de cerca de 78 pés, o equivalente a aproximadamente 25 metros.

Especialistas ainda tentam calcular o tamanho das morras portuguesas surfadas ontem.

* com informações do site Waves


segunda-feira, janeiro 28, 2013

Jamais verão estação igual a esta


Alguém aí viu o verão brasiliense que deveria estar aqui?

Visto pela última vez no início de janeiro, ele estava bem forte, todo vestido de azul e dourado. De repente, sumiu sem deixar vestígios.

Desde então, só se vê água nesta cidade. E eu, em pleno verão, dormindo com um cobertor e saindo às ruas, de noite, de blusa de manga comprida.

E eu que dizia a todos que na capital federal até a chuva parecia regulamentada por decreto; por um projeto de lei estabelecendo que só chova o necessário para aguar os jardins e que, mesmo quando forte, a chuva deve cessar em no máximo vinte minutos e, se necessário, só recomeçar após um espaço de tempo suficiente para eu continuar minha caminhada e chegar onde preciso.

Estrepei-me. Isso aqui este mês tá parecendo Santos. Pior. Tá parecendo Ubatuba. A ponto de na semana passada eu aceitar o conselho da madrinha Naninha e forrar meu sapato de legítimo couro italiano com sacolas plásticas do supermercado.

Como se vê, um sujeito semifosco pode até deixar a pobreza, mas a pobreza não o deixa.

domingo, janeiro 27, 2013

O compositor cronista


Enterrem meu cartão de crédito na curva do rio. Por favor! Eu vos imploro, pois estou sofrendo compulsivamente, compulsoriamente.

Já prometi a mim mesmo não voltar a comprar mais nenhum livro até conseguir pôr em dia a leitura e dar cabo da pilha de obras que vão se avolumando no meu compartimento secreto - uma dispensa transformada em biblioteca -, mas quem resiste a um Aldir Blanc no sebo.

Para quem não está juntando lé com cré, trata-se do compositor, psiquiatra e boêmio carioca da safra de Millôr, Jaguar e companhia (surfistas, skatistas e roqueiros, meus três habituais leitores talvez não os conheçam), de quem ele deve ter recebido boas dicas para escrever crônicas tão saborosas e divertidas quanto as reunidas neste Rua dos Artistas e Transversais (ed. Agir, 2006, 428 páginas). E para quem pensa não conhecer o moço nascido em 1946, bom, Aldir é compositor de diversas músicas conhecidas, parceiro de João Bosco, Ivan Lins, entre outros.

Frasista de mão cheia ("tudo em ordem na mais completa desordem"; "meu avô, comovido até os suspensórios"; tinha a cinematográfica segurança das pessoas falsamente virtuosas"; "a infância é uma idade na qual são permitidas só algumas das infantilidades dos adultos"), nos momentos mais inspirados Aldir chega a lembrar o Nelson Rodrigues das crônicas de Óbvio Ululante. Debochado ("Quando a mulher ia quase na esquina, partindo digna como uma vaca ao crepúsculo, o Pombo saiu feito louco na calçada. De camiseta, cuecas, meias brancas e sapatos-tanque, com as mãos em concha e lágrimas nos olhos, pôs-se a gritar: - Volta! Pelo amor de Deus. Voooltaaa! Que nem um beque [zagueiro] central de time de subúrbio"), me lembrou Lima Barreto. Apologista dos poderes revigorantes dos bons amigos, do bom copo e de um bom papo, Aldir consegue condensar em uma crônica parte do que mais relevante a vida tem a ensinar.



quarta-feira, janeiro 23, 2013

É o dinheiro, estúpido



Após sete anos vivendo em Brasília, uma das capitais com o mais alto custo de vida do país, acho que comecei a entender como se dá este tal de processo inflacionário - um fantasma que muitos insistem em dizer estar sob controle.

Pois então, vejamos.  Fundamentos não tão básicos para quem se ferra pela economia dos outros. 

Um belo dia, o dono de um apartamento de 48 metros quadrados em um prédio de algumas décadas acorda e decide pôr o imóvel à venda. Por alguma razão subjetiva, conclui que sua propriedade sem garagem vale R$ 550 mil. 

Ao ficar sabendo disso, o dono de um outro imóvel próximo avalia obtusamente que o seu apartamento de 157 metros quadrados e uma vaga de garagem deve valer no mínimo três vezes o do quase vizinho. E fixa em um milhão e setecentos mil reais o preço a ser pago por eventuais interessados.

Entre uma oferta e outra, os donos de outros imóveis vão pedindo diferentes preços, de acordo com a pressa em se ver livre do abacaxi. O problema é que há muita gente que compra imóvel não  para morar ou guardar seus livros e sim para "viver de renda", ou seja, do aluguel pago por quem não tem condições de comprar a casa própria. E como os especialistas sugerem que o investimento só vale a pena se for possível obter, mensalmente, algo entre 3% e 6% do valor total da morada, a exorbitância acaba pesando no bolso de todos, principalmente daqueles que sequer cogitam como alguém consegue juntar R$ 1,7 milhão. 

E então, um sujeito resolve pedir R$ 1,2 mil só de aluguel em um ... bem, em um esquisito apartamento de um quarto e um catre cujo dono insiste se tratar de outro quarto. O lugar fica em cima de um comércio, numa quadra não das mais seguras, não tem garagem e nem box no banheiro, mas, em compensação, tem um "terraço" que nada mais é que a laje do edifício, um espaço por onde um ladrão com disposição e algum tempo pode entrar e cortar a garganta do inquilino. 

Assim como no caso dos apartamentos à venda, uma vez que isso é anunciado não demora para que um outro proprietário/investidor que não quer passar atestado de otário decide que seu bem de dois quartos, sendo uma suíte, e três vagas na garagem, não pode valer menos de...R$ 6 mil. O ALUGUEL! E, novamente, surgem as ofertas intermediárias. 

Ocorre que, no caso das ofertas de aluguel, em Brasília há um outro interessante aspecto a contribuir para as distorções econômicas: o Estado enquanto indutor da inflação. Traduzindo: na capital federal, alguns privilegiados servidores públicos, incluindo parlamentares, recebem, além de seus salários, o chamado auxílio-moradia. E quando o preço dos aluguéis sobe, o benefício é reajustado de forma a compensar a alta. Somado ao fato de que a procura por apartamentos no Plano Piloto é maior que a oferta, o dinheiro público gasto em auxílio-moradia acaba por estimular os locatários a pedirem valores cada vez mais fora da realidade. 

A questão é que tudo isso acaba por se torna uma "inexorável realidade econômica" contra a qual não se pode lutar. Como o mercado é livre para se auto-regular, resta a quem não trabalha no serviço público, mas tem qualificação e é valorizado, incluir esses custos na negociação salarial. E para a maioria, que não se encaixa em nenhum dos dois casos anteriores? Resta o metrô ou o ônibus igualmente lotado para uma das cidades-satélites. 

Só que o Plano Piloto não é uma ilha auto-suficiente e mesmo que a manicure do salão onde você tira cutícula não more no Plano Piloto, o dono da padaria onde ela toma café ao chegar pra trabalhar mora. E para continuar morando, ele não hesita em repassar para o preço do pãozinho a alta do seu custo de vida. Assim como as companhias fornecedoras de água e luz, que contrata muita gente qualificada capaz de reivindicar e obter a reposição da perda inflacionária e que, ao conceder um aumento, acaba por compartilhar o prejuízo entre as contas que envia para a casa de milhares de cidadãos que não moram no Plano Piloto. Entre elas, a sua manicure. 

Agora, adivinha quem vai ajudar a moça a manter a luz e a água da casa dela? Ou a margem de lucro do banco onde você tem conta, já que a instituição também vai passar a pagar mais de luz, água e salários? 

E por aí vai, em um efeito cascata que termina por obrigar a quem vive de renda a cobrar mais de aluguel para continuar podendo pagar academia, escolinha de futebol do filho, plástica da esposa, eventuais presentes para a amante do marido e as compras em New Iorque. 

sexta-feira, janeiro 18, 2013

Reclamações ADES


A questão de consumir alimentos à base de soja se tornou um conflito ético desde que visitei o Mato Grosso do Sul, há alguns anos. Ao ver as extensas plantações da leguminosa e os efeitos que a crescente demanda do produto provoca não só para o meio-ambiente, mas também para as populações tradicionais, sobretudo para as comunidades indígenas, fiquei tentado a pelo menos reduzir a compra desses produtos.

Vale dizer que, para mim, esse não é um conflito de fácil resolução, já que, recentemente, fui diagnosticado como tendo uma intolerância à lactose, o que me levou a aumentar o consumo dos sucos de soja. Além disso, é preciso considerar que o meu consumo não é assim tão impactante, já que boa parte da soja plantada é usada para...alimentar gado.

Esta semana, o que era apenas uma preocupação sócio-ambiental ganhou um importante componente para que eu tome uma decisão: agora é uma questão de saúde. Pública.

Na terça-feira (11), abri uma caixa de ADES que havia comprado pouco tempo antes, mas válida até o dia 03 de maio deste ano. Como já tinha jantado na rua, tomei um único copo (é comum eu virar 3/4 da caixa de uma única vez) e fui dormir. Já no dia seguinte comecei a me sentir indisposto. Inicialmente, achei que não fosse nada, que podia ter `misturado´ algo que não caiu bem, muito embora eu não tivesse comido nada suspeito.

A coisa piorou na quinta-feira (13), dia em que eu mal consegui me concentrar no trabalho devido à dor de cabeça e a um enjôo insistente. Mesmo sem muita fome, consegui empurrar o almoço pra dentro e segurar a onda até voltar pra casa no fim do dia. Tomei um Eparema, dei um tempo até que um indício de fome surgisse e pensei comigo: "Vou comer algo leve pra ver se melhoro". E apanhei na geladeira a caixa de Ades aberta apenas dois dias antes e da qual, lembrem, já havia tomado um copo.

Qual não foi minha surpresa ao levantar a tampa e notar pequenas manchas pretas no bocal da caixa. Não havia cheiro e o aspecto era normal, talvez apenas um pouco mais ralo que de costume. Mesmo assim, fui até o banheiro e despejei um pouco do líquido. E então, algo estranho, preto, começou a surgir.  Perplexo, peguei a tesoura e abri a caixa. O que havia dentro?

Veja as fotos abaixo e reflita sobre o quão saudável pode ser este produto. Outra surpresa foi ser informado pela Anvisa e pela Vigilância Sanitária do Distrito Federal que eles não aceitam denúncias diretamente contra o estabelecimento que produz o produto - no caso, a multinacional Unilever -, mas apenas contra o estabelecimento onde eu o comprei, mesmo eu dizendo que, aparentemente, não havia problema com a comercialização, mas sim com a fabricação, já que o prazo de validade não havia expirado e a caixa estava devidamente lacrada. Recomendaram que eu procurasseo Procon, mesmo eu insistindo que estava reclamando como cidadão preocupado com um problema de saúde pública, e não como um consumidor interessado em uma eventual reparação individual. Hoje é sexta e continuo mal.

Como disse outro dia, em um e-mail a amigos, "infelizmente, estamos nos acostumando com a tese de que é mais fácil fazer valer nossos direitos como consumidores do que como cidadãos, razão porque está mais fácil ver respeitado o Código de Defesa do Consumidor do que a Constituição Federal"

(Ah, Unilever. As fotos, sem qualquer manipulação, bem como a caixa e "corpos estranhos" estão em meu poder, à espera de uma resposta mais satisfatória do Poder Público)





Investimentos públicos em material escolar


                            Em 2012, 84 % dos estudantes do ensino básico do país estavam matriculados em escolas públicas

clique aqui para ouvir
Enquanto os pais de alunos da rede particular reclamam dos preços do material didático exigido pelas escolas de seus filhos, sobretudo dos livros, os governos federal, municipais e de alguns estados investem bilhões de reais para cumprir o que prevê a Constituição Federal e garantir material escolar gratuito aos estudantes das escolas públicas. Mesmo reconhecidos por pais de alunos da rede pública e por representantes do mercado editorial, os programas públicos de distribuição de livros e material escolar sofrem constantes denúncias e questionamentos.
No ano passado, somente o governo federal investiu mais de R$ 1 bilhão para garantir que os mais de 42 milhões de estudantes da rede pública de ensino básico do país recebam, gratuitamente, as obras didáticas que vão usar em salas de aula este ano. Neste ano, mais R$ 66 milhões deverão ser gastos na compra de obras literárias e técnico-científicas que vão ser distribuídas às bibliotecas da rede pública de ensino. Embora alta, a cifra é menor que os R$ 81 milhões que o Fundo Nacional de desenvolvimento da Educação (FNDE) informa ter investido no programa em 2012. Segundo a coordenadora-geral dos Programas do Livro do Fnde, Sônia Schawartz Coelho, isso não representa uma redução no total de livros comprados.
A estimativa do FNDE é de que, somados os programas nacionais do Livro Didático (PNLD) e Biblioteca da Escola (PNBE), cerca de 140 milhões de livros sejam distribuídos este ano em "regime de mútua cooperação" entre o fundo, as secretarias estaduais e municipais de educação e as escolas vinculadas ao programa.
Além dos livros, muitos estudantes recebem das prefeituras e de alguns governos estaduais parte do material escolar básico. Em São Bernardo do Campo (SP), por exemplo, a prefeitura promete investir R$ 20 milhões para garantir uniforme e material para 100 mil alunos das creches e do ensino infantil e fundamental da rede municipal. Os kits incluem cadernos, apontadores, giz de cera, borracha, jogo de canetas hidrográficas, régua, pastas com elástico, entre outros itens, além de dois conjuntos de uniforme escolar completos, incluindo meias e tênis.
"A distribuição do uniforme visa à inclusão social e à segurança dos alunos, já que na rede pública há muitos estudantes que não podem comprar esses itens. Segurança porque, com o uniforme, os alunos são mais facilmente identificados. Só que seria um absurdo a prefeitura [exigir isso] dos que não podem comprar", disse à Agência Brasil o secretário adjunto de Educação de São Bernardo do Campo, Rafael Cunha e Silva. Ele garantiu que, além de atender a todos os estudantes da rede municipal, a prefeitura compra material suficiente para eventuais necessidades ao longo do ano.
Santa Catarina é um dos estados cujo governo também promete distribuir material escolar para os alunos da rede pública estadual. Em 2013, vão ser investidos cerca de R$ 10 milhões para garantir que os mais de 550 mil alunos do ensino fundamental e médio recebam um kit com os itens básicos necessários em sala de aula.
De acordo com Censo Escolar da Educação Básica, do Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep), 84 % dos estudantes do ensino básico do país estavam matriculados em escolas públicas em 2012. As redes municipais respondiam por quase metade (46%) dos cerca de 42 milhões de matrículas em unidades públicas de ensino. As escolas estaduais atendiam a 37% desse total, enquanto a rede federal registrava 1% das matrículas.
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Quantidade de livros escolares comprados pelo governo garante preços menores e aquece mercado

Para sanar problemas, programas do livro estão em constante aperfeiçoamento, diz coordenadora

terça-feira, janeiro 15, 2013

Networking



Fiz faculdade pra´rticular, atendendo aos conselhos de gente mais `ixperta´ que yo.

Faltei à minha própria festa de formatura e saí à francesa com um diploma embaixo do braço. Talvez, por isso, eu deva dizer que fui reprovado no objetivo inicial de me bem-articular.

Embora tenha conhecido - de relance - futuros secretários-adjuntos, apresentadores, empresários, bigriders profissionais e um monte de gostosas, não me tornei amigo de ninguém que me aceite em seu gabinete ou escritório para um particular sem hora marcada.

Currículo pra arranjar um trabalhinho, deu, mas articular que é bom não articulei.

Restaram uns amigos assim meio gauches, também desarticulados e quase tão semifoscos quanto yo.

Aos dois, um abraço.

sábado, janeiro 12, 2013

Epopeia Candanga


Brasília

Já escrevi e volto a repetir: fosse nos Estados Unidos, Hollywood já teria produzido mais de uma dezena de filmes explorando a história da construção de Brasília sob todos os ângulos: um louvando o "empreendedorismo" de JK. Outro defendendo a "genialidade" de Niemeyer. Um demonstrando que a história tende a "relegar a segundo plano" a importância do arquiteto e urbanista Lúcio Costa;  e vários para contar a saga dos candangos, os trabalhadores vindos de outras regiões, cuja maioria, pobre, pôs a mão na massa e efetivamente construiu Brasília conforme projetada por um comunista para, no fim, ser expulsa para a periferia, que, aqui, recebe o nome de cidades-satélites. Haveria outros tantos remontando no melhor estilo Vidas Secas a aventura que foi "marchar para o Oeste" e "domar" o Cerrado inóspito. Talvez houvesse até produtor disposto a denunciar o quanto se desviou de dinheiro público ou então a forma como, pré-legislação ambiental, se destruiu de vegetação local. Não duvido sequer que houvesse quem gastasse celuloide (isso é só uma expressão, já que, agora, é tudo filmado digitalmente) para divagar sobre a dificuldade técnica de se criar um lago artificial de 48 quilômetros quadrados de extensão, o Lago Paranoá, para garantir o suprimento inicial de energia elétrica para a cidade, mas, principalmente, para aumentar a pouca umidade da região, sem o que seria praticamente inviável para quem viesse de fora (sim, porque cabe lembrar que, antes de Brasília, muita gente já vivia nas fazendas então existentes) viver aqui. 

Como (graças a Deus?) não somos norte-americanos e nosso cinema não se ocupa dessas histórias, resta a quem se interessar e puder pesquisar por sua própria conta em livros ou na internet. Ou torcer para que a sensacional exposição As Construções de Brasília, que resultou em um belíssimo e instigante livro de 240 páginas publicado pelo Instituto Moreira Salles, continue rodando o país e chegue a sua cidade. Eu a vi em São Paulo, mas acho que nem mesmo em Brasília o conjunto das valiosas fotos históricas de Marcel GautherotPeter Scheier e Thomaz Farkas foram exibidas. Em todo caso, quem entre meus três leitores tiver interesse, pode clicar aqui para ver parte das fotos, além de ouvir algumas das canções usadas na exposição.



    

No e Infâncias Clandestinas



Dois filmes em cartaz no Cine Liberty, em Brasília, lançam novos olhares sobre o velho tema das sangrentas ditaduras latino-americanas da segunda metade do século passado. E, por tabela, reforçam a tese de que, mesmo com poucos recursos, é possível fazer um excelente longa-metragem desde que se tenha um bom roteiro em mãos - enquanto o contrário só muito raramente acontece.

Indicado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, No (do espanhol não) é o mais divertido, instigante e tecnicamente bem-resolvido dos dois. Dirigido por Pablo Larraín (do também ótimo e inusitado Tony Manero), é uma coprodução chilena, francesa e norte-americana baseado em uma obra do escritor chileno Antonio Skármeta (O Carteiro e o Poeta). Premiado no Festival de Cannes e estrelado por Gael Garcia Bernal, o filme trata do referendo convocado em 1988, pelo governo militar chileno, que tinha a a pretensão de, com o resultado das urnas, legitimar perante a opinião pública internacional o mandato do general Augusto Pinochet, que tomou o poder após um golpe de Estado, em 1973, eliminando violentamente parte dos que se opuseram ao seu governo. 

Descretentes de que o regime aceitasse uma eventual derrota e certos de que parte dos chilenos não teriam coragem ou interesse de votar pela destituição de Pinochet, líderes da oposição aceitam participar da campanha prévia ao referendo apenas para firmar posição e para aproveitar o espaço de rádio e tv para, dentro do possível, denunciar a violência institucional, a censura e a desigualdade então existente, mas que não podiam ser noticiadas. Para isso, apostam em um discurso carregado de ideologia, mas pouco atraente para as massas. Até que um jovem publicitário, interpretado por Gael, é convidado a opinar e acaba se engajando na campanha do Não a Pinochet e ao regime.  

É do choque e do resultado do trabalho conjunto desenvolvido pelo "comercial" e apartidário publicitário, os radicais de esquerda e os líderes pragmáticos que irrompe a força do filme e seu ineditismo. Destaque para o complexo papel de Gael, cuja personagem não é nem o salvador da pátria, nem um alienado político. Embora aposte todas suas fichas na capacidade de convencer os chilenos a votarem pela não permanência de Pinochet na presidência desde que usando as mesmas bem-sucedidas técnicas de marketing que emprega para vender refrigerantes, o jovem conhece muito bem as mazelas da ditadura: ele próprio teve que deixar o país e se exilar no México devido à resistência política de seu pai (que só é mencionado). Conflito que, a certa altura, Gael sugere com um olhar, quando sua personagem é obrigada a se separar do filho de quem cuida quase que sozinho. Nessa cena, fica a sugestão de que a tentativa de não tomar partido e permanecer alheio, brincando com o trenzinho do filho enquanto fatura alto servindo ao patrão governista, pode não passar de uma tentativa de escapismo.

E por falar no patrão, o dono da agência de publicidade, há entre os vários bons diálogos um que merece uma reflexão no caminho de volta para casa: a declaração do chefe - que, além da agência, comanda a campanha do sim à permanência de Pinochet no poder, representando além de uma publicidade que, embora ainda eficaz, começa a ficar ultrapassada, assim como o próprio regime militar e dos carcomidos, obsoletos e sisudos militares - discursa sobre a importância de associar a campanha do Não à anarquia, à violência e, principalmente, embora sem pronunciar a palavra, ao comunismo. Para, em seguida, destacar a segurança da manutenção do já estabelecido e do capitalismo, regime que "proporciona a qualquer um a chance de melhorar de vida. Mas atenção, a qualquer um. Não a todos". Segundo ele, é por causa da esperança de vir a ser este qualquer um que, no capitalismo, a maior parte das pessoas não se revoltam com as desigualdades, que aprendem a imaginar que só prejudicam aqueles que não se esforçam o baste para ser este "qualquer um".    

O outro filme é argentino. Dirigido por Benjamim Ávila, Infâncias Clandestinas aborda os efeitos da ditadura argentina, que durou de 1976 até 1983 e é considerada a mais sangrenta do período. Ao contrário dos muitos filmes argentinos que tratam do assunto, o longa também busca inovar ao optar por, ao invés de mirar o conflito a partir do ponto de vista dos adultos, envolvidos ou não com a resistência e com a luta armada, questionar quais os efeitos do exílio, da clandestinidade, do medo e da coragem para os filhos dos militantes de esquerda, crianças que não escolheram a vida que levam. 

Embora lembre muito o brasileiro O Ano Em Que Meus Pais Saíram de Férias, de Cao Hamburguer, se diferencia por colocar as crianças no centro da ação, em risco direto. Enquanto no primeiro o filho é deixado pelos pais guerrilheiros em suposta segurança, neste, as crianças seguem junto a família, ouvindo desde cedo que mais vale morrer lutando pela liberdade do que viver escravo de um sistema sanguinolento. 

terça-feira, janeiro 08, 2013

Leite Derramado


Desde que empaquei antes de chegar à metade do primeiro romance publicado por Chico Buarque, devidamente intitulado Estorvo (prêmio Jabuti de melhor romance de 1992, embora eu ache que foi o jornalista Paulo Francis quem disse que o livro era realmente um estorvo) nunca mais havia me interessado por ler qualquer outro livro escrito pelo genial compositor. Até ganhar um exemplar de Leite Derramado, lançado em 2009.

A história do idoso preso a uma cama de hospital que relembra episódios de vida misturados à saga da própria família, desde ancestrais fidalgos portugueses, passando por um barão, um senador, até chegar a um neto, garotão do Rio de Janeiro atual, é tão envolvente que me bastaram dois dias para dar conta das 195 páginas. 

Ou Chico aperfeiçoou-se como ficcionista ou eu, como  acho mais provável, tornei-me capaz de apreciar sua prosa. A ponto de estar pensando em me dar mais uma chance  de ler o Estorvo. (Pensei também em ler Budapeste, muito embora, como já escrevi aqui, a adaptação do livro para o cinema seja sofrível e afugente o neófito na obra literária de Chico)


"Quando eu sair daqui, vamos nos casar na fazenda da minha feliz infância, lá na raiz da serra. Você vai usar o vestido e o véu da minha mãe, e não falo assim por estar sentimental, não é por causa da morfina. Você vai dispor dos rendados, dos cristais, da baixela, das joias e do nome da minha família. Vai dar ordens aos criados, vai montar no cavalo da minha antiga mulher. E se na fazenda ainda não houver luz elétrica, providenciarei um gerador para você ver televisão. Vai ter também ar condicionado em todos os aposentos da sede, porque na baixada hoje em dia faz muito calor. Não sei se foi sempre assim, se meus antepassados suavam debaixo de tanta roupa. Minha mulher, sim, suava bastante, mas ela já era de uma nova geração e não tinha a austeridade da minha mãe.(clique aqui para ler todo o primeiro capítulo)"


terça-feira, janeiro 01, 2013

Passagem Salgada

parte de uma queima de fogos que, ao todo, durou mais de 15 minutos




Dane-se que está chovendo, há neblina, e, consequentemente, os já habituais congestionamentos nas estradas rumo ao litoral vão estar ainda mais infernais. Dane-se que meia São Paulo vai estar onde só caberia uma décima parte disso. Que vai haver filas nos mercados, padarias, restaurantes, sorveterias. Pouco importa que o trânsito esteja caótico e andar de ônibus se torne impossível dado o úmido calor senegalesco de 39º. Aliás, temporariamente, danem-se os escorchantes R$ 2.90 da passagem de ônibus mais barata. Danem-se o carros de portas abertas tocando alto gangnam style. Danem-se ainda mais os sertanejos. Danem-se os filmes dublados em cartaz nos cinemas. As cervejas a R$ 4 e a água de coco a R$ 3.5. Os banheiros infectos. Boa parte das praias impróprias. Gente besuntada de uma substância indefectível.

Dane-se.

Quando há ondas no dia 30 e você pode permanecer no mar, surfando, até perto das 20h30, quando já não é mais possível enxergar as ondas antes delas arrebentarem e a espuma branca avançar sobre você, tudo isso se torna irrelevante.

Após quase três horas pegando onda, você deixa o mar e volta pra casa exausto, com os braços pesados, o pescoço dolorido e a panturrilha parecendo que vai ceder ao peso do seu próprio corpo. A alma e a cabeça, contudo, vão leves, satisfeitas, realizadas. E enquanto caminha de volta pra casa chutando a água do mar, você agradece por este presente, este privilégio, de poder se despedir de um ótimo ano deslizando sobre as ondas. E mesmo sem querer abusar, pede aos céus que repitam a dose no dia 1º, afinal, que melhor forma de começar bem um ano novo que dentro do mar, surfando.

sexta-feira, dezembro 28, 2012

O TEMPO É...




A ficha cai e você saca que está amadurecendo quando:

Se pega pensando que está muito calor para viajar para a praia.

Descobre que não há nenhum jogador profissional de futebol mais velho que você em atividade (Peduzzi).

Ao ver três garotas lindas passando, imagina que bom seria ter dez anos a menos, mas logo se dá conta de que mesmo com uma década a menos, as jovens provavelmente ainda o achariam um "tiozinho".

Trabalha ao lado de uma gata que jamais enviou uma carta, com selo e carimbo, pelos Correios.

Comenta com alguém que, quando garoto, você achava a atriz Irene Ravache uma gata.

Foi aos shows do Bomb The Bass e do Tecnotronic no Brasil.

Tem medo de estar abusando ao tomar um copo de café com leite pois seu médico garantiu que, após algum tempo, todos vão perdendo a capacidade de produzir a enzima necessária à digestão da lactose.

Na rua, começa a receber folhetos publicitários sobre lançamento de imóveis.

A caixa do supermercado te trata por senhor. 


Reconheces um surfista fora da praia?



"A pluralidade também existe na cultura surf. Podemos citar três tipos de surfistas facilmente encontrados em metrópoles como São Paulo, Porto Alegre e Brasília, exemplos de cidades com massiva presença de surfistas que vivem afastados do litoral e a partir de onde as pessoas têm que viajar no mínimo 200 quilômetros para surfar nos fins de semana. Um desses grupos é o dos que chamamos surfistas realizados, grupo de pessoas mais ligadas à natureza, espiritualidade e contemplação; pessoas com a auto-imagem independente e que, portanto, não são tão sugestionados por grupos de referência e para quem o consumo é motivado pelos benefícios de uso e funcionalidade. Estes homens e mulheres não vivem em uma sociedade secreta. São médicos, engenheiros, cientistas, publicitários. Talvez ele esteja do seu lado e você nem perceba".

Enfim, uma obra inspirada que consegue  analisar a  imensão econômica e social da grande paixão de "quem tem sal nas veias", sem perder de vista que o "surf é a alma de nosso negócio".



Reconhecendo o surf from Surfari on Vimeo.

quarta-feira, dezembro 26, 2012

Um Papai Noel Às Avessas



A TV Bandeirantes exibiu ontem (25) a noite o melhor filme natalino feito desde sempre, Um Papai Noel Às Avessas (Bad Santa, 2003). Politicamente incorreta, a comédia produzida pelos irmão Cohen e dirigida por Terry Zwigoff traz o ex-Angelina Jolie, Billy Bob Thornton, no papel de um ladrão alcoólatra e viciado em sexo que todos os fins de ano se emprega como Papai Noel em shopping-centers apenas para roubar as lojas de departamento. Para isso, ele conta com a ajuda de seu comparsa, um anão negro e malandro que faz às vezes de elfo enquanto planeja os golpes. O problema é que, a cada ano que passa, o consumo com as drogas e o descontrole diante das mulheres (sobretudo as gordinhas) o levam a se tornar mais e mais imprevisível, chegando bêbado ao trabalho e assustando as crianças levadas pelos pais para fazer o pedido a Santa Claus. A coisa se complica após ele resolver assaltar a casa onde um garoto levemente retardado, vítima de bullying, vive sozinho com a avó esquizofrênica enquanto o pai está preso.

Apesar de ter sido lançado em 2003 e de ter muitos fãs, eu sequer o conhecia. É como se Charles Bukowski tivesse criado a personagem e escrito o roteiro. Sensacional. 

terça-feira, dezembro 25, 2012

O Cinema da Melhor Idade


              “Ser velho significa que, apesar e além de ter sido, você continua sendo. E a consciência de continuar sendo é tão avassaladora quanto a consciência de ter sido”.

Philip Roth - in “O Animal Agonizante” (citado por Matheus Pichonelli, em Carta Capital)



O fato de que a população mundial está envelhecendo vem sendo apontado por demógrafos e especialistas do mundo todo há tempos. Já em 2002, a ONU previa que, até 2050, a quantidade de pessoas com mais de 60 anos vai superar a de jovens abaixo dos 15 anos de idade pela primeira vez na história.

Tal fenômeno produziu uma série de mudanças culturais, econômicas e políticas, como o surgimento de novas profissões,  bens e serviços voltados para o público da chamada terceira idade, que, muitas vezes, é um consumidor privilegiado.

Quem ainda parece não ter se dado conta disso são os produtores de cinema. Hollywood, por exemplo, produz poucos filmes com e para o público mais velho. Do cinema brasileiro, então, nem se fala. 

Há, óbvio, alguns bons títulos, como o excelente argentino Elza e Fred, mas basta passar os olhos na programação dos cinemas para identificar qual é o público prioritário para os produtores e diretores. Além do que, em meio ao que muitos classificam como a `infantilização da cultura´, mesmo quando os protagonistas da trama já passaram dos 60 anos, a história pouco tem a ver com as preocupações, os problemas e as alegrias  desta faixa etária. Na maioria das vezes, tanto faria se as personagens tivessem 30, 40 ou 70 anos. A abordagem seria a mesma. Em geral, pelo viés cômico, como em Alguém Tem que Ceder (Something's Gotta Give, 2003), com Jack Nicholson e Diane Keaton, ou o recente Um Divã Para Dois (Hope Springs, 2012). Daí que é mais fácil ver, nas telas, "a visão" de um iraniano sobre determinado conflito do que o ponto de vista de um idoso sobre a "aceleração" das comunicações e o "encolhimento" do mundo. 

Imagino que isso seja intencional, pois, assim, o filme tem mais chances de atingir a uma maior parcela do público, que se identifica mais facilmente com os percalços enfrentados pelo velhinho simpático ou mesmo pelo coroa antipático que, no fim, se redime da quase misoginia. Principalmente se a preocupação estiver relacionada a questões de sexualidade. Vale lembrar que, já nos anos 1970, o filósofo Edgar Morin destacava que “a cultura de massa desagrega os valores gerontocráticos, acentua a desvalorização da velhice, dá forma à promoção dos valores juvenis e assimila uma parte das experiências adolescentes”. O que há de mais representantivo da nossa cultura de massa que o cinema blockbuster?



Passei a atentar para isso após assistir, ainda no primeiro semestre, a um bom filme, uma exceção ao quadro descrito acima. E que, talvez por isso mesmo, por fazer menos concessões, parece ter passado batido por críticos e público. Trata-se de O Amor Não Tem Fim (Late Bloomers, 2011). Dirigido pela francesa Julie Gavras, filha do ícone cinematográfico Costa-Gavras e diretora do também excepcional A Culpa é do Fidel, o filme marca a volta da ainda bela Isabella Rossellini aos cinemas. Além de resgatar um dos grandes atores norte-americanos, Willian Hurt.  

No filme, os dois interpretam um casal em que cada um lida de forma diversa com a crise dos 60 anos. Para a mulher, simbolizada no fato de o marido receber, na primeira cena do filme, um prêmio pelo conjunto de sua obra, como se a fatura estivesse fechada e ele já não fosse produzir mais nada de importante. E é na forma como cada um vai lidar com o inevitável que se dá o grande choque da vida conjungal. 

Mais recentemente também assisti a O Exótico Hotel Marigold - espécie de Comer, Rezar, Amar da terceira idade, cujo grande mérito é reunir um elenco de primeira, com destaque para o jovem ator inglês Dev Patel, de Quem Quer Ser Um Milionário.

Tomara que isso simbolize uma mudança. 

segunda-feira, dezembro 24, 2012

300 Dias de Noite


UMA OBRA VERÍDICA BASEADA EM FATOS FICTÍCIOS


Refém das almas sebosas que a noite se arrastam pelas ruas da cidade futurista de traços sinuosos, o semifosco consumiu o último pacote de mantimentos que conseguira reunir em casa antes do declínio da civilização, quando a cidade era ora apontada como a de maior poder aquisitivo, ora como a mais socialmente desigual do país.

Trancado no bunker, o semifosco já se via obrigado a beber a água infecta que o Poder Público continuava a oferecer apenas para o asseio dos sobreviventes, sem conseguir tratá-la para que ficasse apta a ser ingerida.

Bem guardado por militares, o depósito comercial onde os sobreviventes se arriscavam a chegar sempre que precisavam reabastecer a dispensa fica a menos de 400 metros do bunker do semifosco. Vista do posto de observação, a rua parece deserta e segura. O semifosco, contudo, sabe que os zumbis estão lá fora, à espreita da próxima vítima. E que só com muita sorte ele conseguiria chegar intacto ao depósito.

Na véspera, um outro sobrevivente esfomeado tentara sair. Mal chegou ao veículo pessoal terrestre estacionado na entrada do bunker e foi alcançado por um dos zumbis de alma sebosa. Eram 21 horas e as luzes dos postes mal atravessavam a copa das árvores que lançavam sombras bruxuleantes sobre o veículo. Enquanto a vítima choramingava diante do inevitável, outros sobreviventes se arriscaram a abrir as janelas blindadas e começaram a gritar, bater panelas e fazer barulho, tentando desviar a atenção do zumbi e, assim, dar tempo para a infeliz vítima escapar ao seu trágico destino. Deu certo, embora o zumbi tenha ficado com o veículo pessoal. Chorando, esfomeado e sem conseguir comida, o sobrevivente voltou para seu bunker, onde o aguardavam uma mulher e duas crianças igualmente sem esperanças. Ao longe, um outro zumbi saiu das sombras e atravessou furtivamente a superquadra. 

Vez ou outra, as forças de segurança passam tentando espantar os zumbis, mas, apesar da manifesta melhora dos índices sociais, eles se multiplicam e parece não haver o que fazer. Nem mesmo os bunkers são totalmente seguros. O do próprio semifosco já fora invadido uma vez. Por sorte, ele não estava na parte invadida, ou, provavelmente, teria o mesmo destino que outros sobreviventes, como o jovem que adormecera e fora surpreendido pela invasão dos almas sebosas, que o agrediram, amarraram com o fio do aparelho telepático e o mantiveram vivo enquanto se banqueteavam com seu cérebro.

Enquanto isso, a Nulidade Executiva pedia calma e prometia aos sobreviventes resolver o problema dos zumbis. Apesar de, tempos atrás, um especialista ter garantido que não haveria solução, que estamos todos fadados a nos tornarmos zumbis de almas sebosas, tese que exemplificou com os episódios do restaurante self-service obrigado a cobrar os clientes antes que eles almoçassem a fim de impedir que saíssem sem pagar;  do jogador brasileiro punido no exterior por falta de espírito esportivo e, óbvio, dos antigos mandatários e parlamentares, entre os quais parece ter começado, há muito tempo, a se proliferar o vírus que transformava a todos em zumbis. 

Um estampido, um choro, uma sirene distante...O semifosco pensou que super-herói nenhum manteria os sobreviventes a salvo por  muito mais tempo. Uma hora, os zumbis perceberiam que não havia mais nada nem ninguém que pudesse impedi-los. Então, aos sobreviventes, já não restaria outra opção que não se misturar aos almas sebosas e vagar pelas ruas da Nação.