quinta-feira, janeiro 19, 2012

Furacão Elis

capa da biografia escrita pela jornalista e amiga de Elis, Regina Echeverria

Trinta Anos Esta Noite.

E a pergunta que não quer calar: como teria evoluído a música popular brasileira caso a Pimentinha tivesse vivido mais alguns anos?

Primeiro porque Elis Regina não só É uma das maiores cantoras mundiais e a melhor intérprete brasileira de todos os tempos, como também porque todos reconhecem sua capacidade de identificar novos talentos e alçá-los à fama, gravando suas composições ou convidando-os para gravar com ela.

Até hoje, regravar uma música eternizada por Elis é um desafio para qualquer artista. Poucos são os casos em que sua interpretação não é considerada a versão definitiva. E muito artista bamba foi apadrinhado pela gaúcha no início da carreira. Milton Nasciomento, Ivan Lins, Renato Teixeira são alguns dos que me recordo agora. Fora o "síndico" Tim Maia, agraciado com a oportunidade de fazer com Elis um dos mais belos duetos de nossa história em These Are The Songs. (sobre o paradigma que a eficaz interpretação de Elis representa para outros intérpretes, compare a gravação da mesma música por Marisa Monte e Ed Motta)

Mas... se o dueto com Tim Maia é UM dos mais belos  é porque o título de dueto mais memorável da MPB cabe, inquestionavelmente, à gravação de Águas de Março, de Tom Jobim, um de nossos hinos nacionais alternativos. Momento mágico que, de alguma forma, revela algo do que o país tem de melhor. E como amanhã (20) estreia o documentário A Música Segundo Tom Jobim, de Nelson Pereira dos Santos, nada mais oportuno que resgatar este clássico.




quarta-feira, janeiro 18, 2012

Até tu Roberto?!?


Assunto mais comentado pelos brasileiros nos últimos dias – menos pela Luisa, que está no Canadá – o suposto estupro de uma participante do programa Big Brother Brasil (BBB) vai ser tema do programa Ver TV,  que irá ao ar no domingo (22) a tarde, na TV Brasil. Especialistas vão dizer que blá-blá-blá. No fim das contas, vai ficar tudo como sempre esteve - nenhuma sanção para a  empresa concessionária responsável por levar ao ar as tais imagens  polêmicas (quer elas sejam verdadeiras, quer não). Empresa autorizada pelo Estado a funcionar sob uma série de condições e exigências cujo cumprimento jamais é exigido.

O Ministério Público Federal em São Paulo já se manifestou. O Ministério das Comunicações já se manifestou. A Secretaria de Políticas para as Mulheres já se manifestou. O delegado já se manifestou. O Rafinha Bastou já se manifestou (“Seis meses depois: Piadas de estupro estão na boca do povo. Cheguei cedo, é isso?!”, escreveu ele no twitter). Quem falta? Ah, os patrocinadores que financiam esta porcaria.

Equivocada armação global para atrair mais atenção ou não, prefiro o episódio português. Roberto Leal doidão de chá de cogumelo  em um reallity show luso era algo que eu não cogitava ver jamais. Muito mais original, convenhamos, que as pobres Mulheres Ricas sacudindo aquela taça de champagne até esquentar e perder o gás. (Ai! Que loucura. Se esta chuva  e minha gripe não passar logo, sei não.) 


Talvez só não chegue a ser tão inusitado quanto ver o maior  colecionador de títulos do surf brasileiro de todos os tempos , o santista Picuruta Salazar, participando do reallity show da Record, Amazônia. De qualquer forma, tomara que a madrinha Naninha não veja este vídeo. A decepção poderia matá-la. (Ela é fã antiga do portuga. Já a mim este gajo nunca enganou. Basta ver a foto ao lado. Pra este lance de tiro-liro-liro a pessoa tem que ser muito doida, já havia demonstrado Amália Rodrigues)




terça-feira, janeiro 17, 2012

novas salas de cinema e mostras animam público brasiliense


O ano começou bem para os brasilienses que gostam de cinema. Ainda que boa parte das melhores opções sejam reprises, não dá para reclamar da oferta de bons filmes disponíveis neste janeiro chuvoso de cidade vazia.    

Pra começar, aconteceu, no CCBB, a mostra “Clint Eastwood – clássico e implacável”, uma retrospectiva com 43 (!) filmes do ator e diretor norte-americano. Na sequência veio a mostra "De Bergman ao Moderno - Cinema Sueco", que reuniu no enorme Cine Brasília desde clássicos de Ingmar Bergman como Sétimo Selo e Gritos e Sussurros até algumas produções suecas recentes, caso de Os Homens Que Não Amavam As Mulheres, primeira parte da popular trilogia Millenium e cuja (desnecessária?) refilmagem norte-americana está prestes a chegar às telas. Além do bom público das sessões gratuitas, chamou a atenção a presença jovem. No final de semana, as sessões das 21h. pareciam o esquenta pra balada.

Na sexta passada, o até então renegado cinema do Shopping Liberty Mall reabriu após uma reforma de mais de dois meses, repaginado, rebatizado (agora se chama Cine Cultura Liberty) e prometendo qualificar a programação e manter o ingresso entre os mais baratos de Brasília (R$ 16 a inteira). No primeiro final de semana, foram exibidas uma produção francesa (Adeus, Primeiro Amor), uma alemã (Triângulo Amoroso) e o bastante comentado norte-americano O Espião que Sabia Demais. Pra turma da pipoca, Sherlock Holmes 2. Outra novidade é o Espaço Itaú de cinema, onde, pra minha surpresa (em Brasília eu ainda não tinha visto isso), há cerveja a venda na bomboniere e se pode entrar com ela na sala - fora a qualidade da programação: se ainda estiver em cartaz quando você por acaso ler isso, assista a O Conto Chinês (veja post)

E, hoje (17), teve início a mostra Lars von Trier. Praticamente toda a obra do cineasta dinamarquês será exibida até o dia 5 de fevereiro, parte no Cine Brasília, parte no CCBB, sempre na faixaonsiderado um dos diretores mais polêmicos e inovadores das últimas décadas, Trier é o diretor de, entre outros, Dogville, Manderlay e de Melancolia (este último foi exibido por duas vezes no Cine Brasília e teve gente que não conseguiu lugar, apesar da sala ser enorme). Alguns títulos da mostra são inéditos no Brasil.

Na mesma hora em que a projeção começava no Cine Brasília, outra mostra começava perto dali. Pra ser exato, no Espaço Cultural Instituto Cervantes, na 707 Sul, onde, até esta quinta-feira, o público pode rever, de graça, três dos principais títulos do diretor mexicano Alejandro Iñarritu (pela ordem da programação, Babel, 21 gramas e o violentíssimo e cultuado Amores Perros). 

sábado, janeiro 14, 2012

"O Mundo está Gagá"

"Abandonar os preconceitos não é deixar de acreditar em valores"

A frase acima foi pinçada de uma excelente crítica do jornalista econômico português Tiago Freire sobre o sucesso mundial de Lady Gaga. No artigo Este Mundo Está Gagá, publicado na revista musical portuguesa Blitz, de setembro do ano passado, Freire conclui que a loira norte-americana, muito mais famosa por suas excentricidades midiáticas do que pelo conjunto de sua obra, é um "embuste" só relevante enquanto produto.
"Um mito global, supostamente musical, construído à base de 20 e poucas canções, nenhuma delas inovadora, nenhuma delas particularmente memorável, nenhuma delas merecendo sequer uma linha de rodapé na história da música pop"
É isso! Do alto de minha ignorância, mas dotado de um mínimo de bom-senso obtido graças a uma já considerável trajetória auditiva, várias vezes me questionei como uma artista cujo cartão de visita é a música Just Dance (primeira faixa de seu primeiro cd, cheio de modulações e sintetizadores) chega a se tornar o fenômeno mundial que a loira esquisita se tornou. A resposta, minha mesma trajetória como espectador me deu. E, lógico, ela é tão óbvia quanto o jornalista português aponta.
"Como é de pop que falamos, é evidente que nem tudo é (e muitas vezes, bem pouco é) acerca da música. É acerca da imagem, acima de tudo [...] Como tal, a única coisa que peço é: falem de Gaga que ela adora - e é para isso e só para isso que ela existe, mas não tentem legitimar uma gritante falta de originalidade e de talento através de apreciações musicais. Enquanto música, esta senhora é uma inexistência e sua relevância, por enquanto, é apenas enquanto produto. Assim como a Coca-Cola, que também vende camisetas, canetas e agendas com sua logomarca, embora nunca ninguém tenha dito que a Coca-Cola saiba cantar".
Embora possa soar a polêmica gratuita, a afirmação de Freire de que falta a Gaga originalidade e talento é precisa. Só deixando claro que o jornalista se refere à qualidades musicais, pois talento para criar factóides e se manter à tona a loira tem de sobra. De resto, quando vejo alguém dizer que Gaga trouxe alguma inovação para a música duas hipóteses me vem à mente: ou a pessoa tem menos de 25 anos ou então demorou muito a se interessar por música e pela cultura pop. Qualquer que seja o caso, acrescento que esta pessoa desinformada nunca se interessou pelo que a antecedeu e, portanto, não tem muitas referências.

Os vídeos de Gaga? Madonna só se tornou o que é graças ao surgimento da MTV e à consequente valorização e aprimoramento da linguagem audio-visual. Isso há 30 anos, quando poucos levavam à sério aquelas evoluções de ginástica aeróbica que, hoje, se confunde com dança. Gaga hoje se beneficia da evolução dos video-clips, embora o mérito maior seja do diretor e de sua equipe.

Atitude? Pesquise as biografias de Ella Fitzgerald, Nina Simone, Janis Joplin, Debbie Harry, Patti Smith, Chrissie Hynde, Elza Soares, Elis Regina e de tantas outras que, sem contar com as graças de produtores, tiveram que ralar muito para conquistar o direito de se dizerem cantoras. Orfã, Ella chegou a trabalhar como vigia de um bordel. Hoje, a Primeira Dama da Canção, como é chamada, é considerada a maior cantora do século XX. Para isso, no entanto, passou 59 anos sobre os palcos e em estúdios de rádio e de gravação. Já Gaga, como bem lembra Tiago Freire, passou a ser apontada como "a nova diva do pop" (no que já foi substituída por Adele, apesar de tudo, muito mais legítima) tendo lançado um único disco mediano, do qual eu, com alguma boa vontade, numa festa tocaria apenas Beautiful, Dirty, Rich ou The Fame (talvez também tocasse Poker Face para agradar aos amigos da mesma faixa etária já que este é o sucesso mais anos 80 das últimas estações e, como bem sabemos, o público gosta de aplaudir sua própria memória, daí o sucesso das festas revivals)

Ah, mas Ella, Nina, Janis e Elis estão ultrapassadas e construíram suas carreiras em um tempo em que "BASTAVA saber cantar bem", dirá a hipotética pessoa que considera Gaga inovadora. Já Debbie, Patti e Chrissie tomaram parte de uma cena em que dancinhas coreografadas não eram muito bem recebidas por seus público-alvo. Sinto informar, mas Gaga também não passa com louvor no quesito originalidade. Além de seguir em suas apresentações e vídeo-clips a trilha pavimentada por Madonna, a postura cool e performática lembra Grace Jones.

E por falar em Grace Jones, eis aí alguém realmente subestimado. O que, em última análise, pode ser um sintoma de como nos tornamos mais indulgentes já que, há três décadas, artistas muito melhores que Gaga não costumavam sequer ser merecedoras de críticas ou textos como este e, hoje, são lembrados por bem poucos. Em geral, por aqueles mesmos chatos que não enxergam nada demais em Gaga. Sinal dos tempos pop?
 
 
1 - (Talvez você, como eu até há bem pouco tempo, não tenha tido a curiosidade de ouvir os discos de Lady Gaga, sendo-lhe suficiente tomar conhecimento do último modelito de roupa ou penteado criado por seus estilistas. Se achar oportuno ouví-lo para tirar suas próprias conclusões, clique aqui)
 
2 - O artigo de Tiago Freire é uma resposta a um texto publicado um mês antes pela mesma revista portuguesa, escrito por Mary Rose, que assume, "orgulhosamente", ser uma little monster (monstrinha), que é como Gaga se refere aos seus fãs ("uma forma de diminuí-los emocionalmente e  dar-lhes uma causa com que se identificar (o desajuste)", sustenta Freire). "A Mother Monster [Gaga] mudou a forma como encaro a Vida", aponta Rose, lembrando-no de que discussões como esta vão muito além do que parece já que vivemos todos sujeitos à cultura pop. "Gaga não é simplesmente um fenômeno pop que irá desvanecer ao longo do tempo. Não, ela representa a mudança, a esperança de um mundo sem preconceitos nem desigualdades, um mundo onde a diferença é aceita e valorizada, um mundo melhor. É provável que tudo isto não passe de um sonho, mas tenho a certeza que todos os Little Monsters estão empenhados em realizá-lo!" (tive uma demonstração deste mundo mais tolerante no último reveillón, durante uma festa estranha, com pessoas esquisitas, que não valorizaram meu set list composto por faixas lado B pouco conhecidas. Como disse, as pessoas amam aplaudir sua própria boa memória)

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Documentando pra esclarecer


Caraco! Com alguns anos de atraso e graças à TV Brasil (a tv PÚBLICA que muitos insistem em continuar chamando de a tv DO governo federal), assisti hoje ao excelente documentário Fabricando Tom Zé, de 2006. Fabuloso. Vou além: mesmo incorrendo no pecado de abusar dos adjetivos, escrevo que é um dos melhores documentários musicais já produzidos no Brasil.

Entre os vários depoimentos, Caetano Veloso revela que sua então esposa, Paula Lavigne, ao assistir a um show de Tom Zé disse, na lata, que por mais que Caetano fosse bom e merecesse todo o sucesso que tem, o também baiano (de Irará) Tom Zé fazia "uma outra coisa", superior, "genial". O músico David Byrne, ex-vocalista do Talking Heads e autor do livro Diários da Bicicleta, explica que quando questionado por brasileiros que estranhavam sua decisão de lançar, nos Estados Unidos, os discos do, aqui, na época, quase esquecido Tom Zé, respondia que a originalidade de um disco como Estudando o Samba era o que mais se aproximava ao underground norte-americano. Mas é o jornalista Cláudio Tognolli o autor da melhor definição para o arretado e criativo artista septuagenário: "É o único punk brasileiro. Se você lhe oferecer dinheiro, ele vai recusar se não puder continuar fazendo aquilo que faz".

Bem pesquisado, o filme acompanha Tom Zé em incursões por sua cidade natal e por São Paulo, onde o músico vive há décadas. Além de documentar trechos de apresentações em vários países europeus. E é justamente durante a passagem de som de um destes shows que acontece uma das cenas mais inusitadas e ao mesmo tempo reveladoras sobre a personalidade do artista.

É quando Tom Zé bate-boca e chega a empurrar um dos membros da organização do mítico Festival de Montreaux, na Suíça, por se considerar desrespeitado pelos técnicos que não conseguem equalizar o som satisfatoriamente. Dá para imaginar um outro artista brasileiro ameaçando abandonar o palco do mais prestigiado festival de música por razões técnicas? O mesmo festival em que Elis Regina disse ter tremido e que consolidou a carreira internacional de Hermeto Pascoal? Pois Tom Zé faz questão de deixar claro, aos gritos: "Têm que entender que esta banda é doida e que se a noite a coisa não estiver do jeito que queremos, deixamos o palco".

Baita documentário. Pena que na maior parte do país, o sinal da TV Brasil ainda só é captado na tv paga. Mais pena ainda dá saber que mesmo onde ela está disponível na tv aberta, tem pouca audiência. Não porque seja pública e equivocadamente (muitas vezes de má-fé) associada ao governo, mas sim porque não conta em seu elenco com "nossos heróis" hipertrofiados e sem cérebro dos reality-shows.

Se gostar de música e tiver condições, assista.
 


Leia mais e veja os vídeos feitos pelo semifosco:

maio/2011 - Baiano Cumprido(r)
setembro/2010 - Bailão do Tom Zé

quarta-feira, janeiro 11, 2012

Desbunde libertino



A cidade está fora do meu quarto, mas eu estou dentro da cidade. A hierarquia sensível da realidade é a seguinte: primeiro meu quarto, depois a cidade lá fora. Aí vem o país e o mundo, notícias impressas no jornal intacto jogado no chão. [...] Corrige-se: primeiro meu corpo.

Seu corpo. Seu quarto. Eis as duas principais fronteiras a delimitar os interesses imediatos (ou a egotrip, se preferirem) de Ricardo, o protagonista dos dois primeiros romances de Reinaldo Moraes, Tanto Faz (1981) e Abacaxi (1985). Esgotados e há muitos anos só encontrados em sebos, os dois títulos foram reunidos em um único livro de bolso e relançados ano passado pela Companhia das Letras, conquistando novos leitores.

A trama de um dos poucos "clássicos" da literatura de "contracultura" publicado em Pindorama: diante dos sinais inequívocos de que, gradual ou instântaneamente, o regime militar (1964-1985) estava por cair, a personagem, um paulistano classe-média cansado do clima político e cultural barra-pesada do final da década de 1970, dá uma banana pro trabalho, pra carreira, pra luta, pros milicos, pra literatura de gabinete e se manda pra Paris onde, graças a uma bolsa de estudos, passa dois anos experimentando toda e qualquer substância lícita ou ilícita que lhe abra "as portas da percepção". E intercambiando-se com garotas de nacionalidades diversas, sobretudo conterrâneas que, como ele, aproveitam a ordem e progresso à moda do Velho Continente para se libertar dos pudores conservadores terceiro-mundistas. A pesquisa etílica-alucinógena-sexual é concluída em NY, onde a personagem "dá um pulo" antes de retornar a Sampa. Ou seja, o tipo de "drama humano" dificilmente adotado nas aulas de literatura brasileira.

Ícones da chamada "literatura marginal" produzida no país durante o período do desbunde (ressaca dos 60 na antesala da "década perdida" yuppie), Tanto Faz e Abacaxi revelaram aos leitores, na forma de uma prosa livre de amarras e preconceitos, a semente da teoria autoral revelada por Reinaldo Moraes em 2007 e que resultou no best-seller de quase 500 páginas e ritmo frenético, Pornopopéia (2009): não se faz boa literatura sem maus sentimentos. E sem uma boa dose de humor e muita libertinagem, faltou ele acrescentar. Pois vejamos:


"Atravessando em linha reta a noite americana, me bateram vários momentos de lucidez cósmica, instantânea compreensão da minha presença no mundo e do mundo em mim. Aos meus olhos eu era um santo grogue com o pé no sapato, na calçada, no espaço. Um santo sem milagres nos bolsos vazios. Na boca o travo azedo de tudo que eu tinha bebido, cheirado, fumado, comido, vomitado, mais o veneno do ressentimento por ter sido expulso do loft-paradise da morena milionária. Buáááááá!"
Anti-herói apolítico e amoral, Ricardo não parece se importar com nada que não seja uma maneira de extrair algum prazer da vidinha besta que o sistema tem a oferecer.


"Mas que porra: onde está escrito que a história tem que meter seu estúpido bedelho na minha anônima vidinha? Eu quero é o mel da vida, melodia e ritmo na vitrola, namoro, vadiagem. Flânerie, noites brancas, manhãs de sono no quarto escuro. Drogas, birita. Quem precisa de história? Tirem essa puta velha e assassina daqui! [...] Meu saco pra política anda a zero"

sábado, janeiro 07, 2012

Muito Prazer. Letícia Bufoni



A paulistana Letícia Bufoni, 18 anos, é um fenômeno esportivo tipicamente brasileiro que o radar da grande mídia nacional ainda não captou. Sem o apoio de grandes marcas e enfrentando a resistência paterna, ela começou a se destacar entre as atletas brasileiras até que, em 2007, com apenas 14 anos, foi convidada para participar do X-Games, o maior evento mundial de esportes radicais. Se deu bem e terminou na oitava colocação. No ano seguinte ela não só voltou a disputar o mesmo evento, terminando em quinto lugar, como também se fixou nos Estados Unidos, passando a disputar o circuito feminino mundial. Terminou o ano em terceiro. A partir daí, passou a consolidar seu nome entre as melhores do planeta na modalidade. Em agosto do ano passado, Letícia venceu a última etapa do circuito mundial, o Air Attack, disputado na Bélgica, sagrando-se bi-campeã mundial da categoria Street. Hoje, em todo o mundo, meninas se inspiram na paulistana. Em parte também um pouco por conta da força da imagem acima, parte da campanha publicitária de uma marca internacional de desodorante que concilia radicalidade e feminilidade.

segunda-feira, janeiro 02, 2012


Meninas que cheiram como um coador de café?
Plantadores de café em Santos??
Ketchup de café???

Sinatra pode ter sido A Voz, mas, definitivamente, nem ele, nem Bob Hilliard, autor da irônica letra de The Coffee Song, tinham a mais vaga ideia sobre nosso patropi no distante ano de 1946. E olha que já então os Estados Unidos da América estavam entre os maiores consumidores de nosso valioso produto.



A Música do Café

Caminhando entre brasileiros
Grãos de café aumentam aos bilhões
Então eles têm que achar xícaras extras para encher
Eles têm uma quantidade horrível de café no Brasil


Você não consegue refrigerante de cereja
Porque eles têm que encher a cota
E pelo jeito que as coisas vão aposto que nunca vão conseguir
Eles têm um zilhão de toneladas de café no Brasil


Nada de chá ou suco de tomate
Você não verá suco de batata
Porque todos os plantadores em Santos dizem não, não, não


A filha de um político
Foi acusada de beber água
E foi multada com a grande multa de cinquenta dólares
Eles têm uma quantidade horrível de café no Brasil


Você sai com uma menina e descobre depois
Que ela cheira como um coador
Seu perfume foi feito no torrador dos grãos
Por que eles conseguiram coar o oceano no Brasil?


E quando seu presunto e ovos precisam de sabor
Ketchup de café lhes dá gosto
Picles de café venderam mais que salsinha
Por que eles botam café no café, no Brasil?


Então você lidera para a cor local
Servindo café com churros
Embeba-lo não exige muita habilidade
Eles têm uma quantidade horrível de café no Brasil

Feliz Ano Novo

Muitas felicidades e saúde pra dar e vender. 
São os votos da família Barbalho pra patuleia.
 

quinta-feira, dezembro 29, 2011

Nyom Nyom Nyom Nyom Nyomnyum



Caetano é um daqueles casos de artista cujo conjunto da obra só poderemos adjetivar com segurança daqui a um tempo. Até lá, resta aguardar e ouvir com certa resignação algumas de suas opiniões políticas. De qualquer forma, já é possível olhar para seus primeiros discos e se espantar positivamente com a modernidade tropicalista de suas composições. Ouça a primeira música do primeiro disco de Caetano, The Empty Boat e imagine o espanto que o arranjo musical, a forma de cantar e o uso da guitarra solando não deve ter causado no distante ano de 1969.

Caetano Veloso (1969) - o primeiro com sua assinatura

Empty Boat - Lost In The Paradise - Atrás Do Trio Elétrico - Carolina - Cambalache - Não Identificado - Chuvas De Verão - Alfômega


Caetano Veloso (1971) - O disco do exílio
A Little More Blue - London, London - Maria Bethânia - If You Hold a Stone - Shoot Me Dead - In The Hot Sun Of a Christmas Day - Asa Branca





Dar antes é melhor

"Matar pode matar. O corpo acaba, mas a terra nunca acabará"


O semifosco furou o prestigiado Le Monde Diplomatique.

Sete meses após este blog ter publicado uma entrevista exclusiva com o jornalista Cristiano Navarro e um mês após o semifosco ter voltado ao tema, disponibilizando o link do documentário À Sombra De Um Delírio Verde, a edição brasileira do periódico francês traz, este mês, uma matéria do jornalista santista Renato Santana com as contundentes opiniões de Navarro sobre o conflito fundiário e a resultante violência contra os indíos no Mato Grosso do Sul. 

Infelizmente, apenas assinantes do Le Monde tem acesso à matéria disponibilizada no site da publicação. A edição impressa de dezembro, contudo, ainda pode ser encontrada nas bancas de jornais. Já o curta-metragem continua disponível no site http://vimeo.com/32440717

Mês passado, eu próprio estive na região da Grande Dourados, próximo à fronteira com o Paraguai, e presencie a situação de extrema miséria em que vivem os guaranis kaiowás, vítimas da ação de pistoleiros contratados por donos de terras e alijados de suas terras pelas extensas fazendas de soja e cana-de-açúcar.

As fotos deste post foram tiradas durante minha passagem pelo estado.

Morte de estudante motiva protesto contra condições do sistema de saúde no DF



Enquanto a imprensa, sobretudo as tvs, dedicavam preciosos minutos para satisfazer o desejo de aparecer de boleiros, periguetes, policiais e advogados cariocas, 120 pessoas protestavam, ontem (28), em Brasília (DF), contra as péssimas condições de atendimento no Hospital de Base e o sistema público de saúde do Distrito Federal. A informação sobre o ato que não foi publicado por nenhum veículo é da Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB).  

A mobilização foi convocada por meio de um vídeo postado no You Tube por um primo do  estudante de ciências sociais Júlio Cesar Pinto Lima, de 22 anos. Dizendo se chamar Rafa [Gustavo], ele explica que Lima foi baleado em 26 de novembro, ao ser assaltado quando saía de uma festa organizada por estudantes da própria UNB para arrecadar fundos para a formatura. A festa aconteceu no Rotary Club, em Taguatinga. O autor do disparo que atingiu o pescoço de Lima levou o carro do estudante e ainda não foi preso. 

Após passar por uma cirurgia e deixar a UTI, Lima foi levado ao Hospital de Base, onde, de acordo com Rafa, foi tratado com extremo descaso pela equipe médica e sofreu um "choque pirogênico".

Não bastasse ser mais uma vítima da falta de segurança pública, o estudante, que se recuperou do tiro e chegou a apresentar melhoras, acabou contraindo uma pneumonia que o deixou em coma no último dia 20. Lamentavelmente, Lima morreu na véspera do protesto. "Ele foi vítima da rede hospitalar deficiente da capital do país e de um corpo clínico irresponsável", diz Rafael no vídeo.

terça-feira, dezembro 27, 2011


Este é para o Gugu e para o Flavinho


Cada geração de adolescentes se identifica com o "bruxinho" que merece. Eu e meus amigos de infância, por exemplo, discutíamos o quão amoral e esperto era John Constantine, o mago inglês (ou trapaceiro, dependendo do ponto de vista) que, para passar de mero coadjuvante em histórias do Monstro do Pântano a uma das principais personagens dos HQs, com seu próprio título, precisou de apenas algumas poucas aparições. E que voltou a atrair a atenção de uma nova geração de leitores graças ao relançamento de HellBlazer - Origens, pela editora Panini Comics. Boa leitura para encerrar o ano. Até o momento, a editora
já lançou dois volumes.

Criado em 1986 pelo gênio Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Constantine é um anti-herói fruto de sua época, os pessimistas anos 1980 de Margareth Tatcher, e da conturbada experiência política de seu criador (como o mercantilista e liberal Harry Potter parece ser da década passada). Para nós, amigos adolescentes, era a encarnação do ainda pouco conhecido conceito de "ser cool", o que, na época, para nós, significava que o cara podia ser um ferrado e, ainda assim, ser capaz de andar de cabeça erguida e mandar à merda os poderosos deste e de outros mundos com um estilo muito pessoal. E se safar.

Sempre com um cigarro aceso entre os dedos, Constantine era o único protagonista das histórias em quadrinhos (ou graphic novels) a conviver com um câncer enquanto outras personagens sugerem ter sido infectadas por um novo vírus mortal transmitido através de relações sexuais e erroneamente associado a uma suposta "promiscuidade gay". Seu cinismo, oportunismo e senso de preservação a todo custo era, em parte, atribuído à infância idealizada pelo roteirista inglês Jamie Delano, que concebeu  toda a vida pregressa de Constantine, um filho da classe operária  londrina, adolescente rebelde, ex-integrante de uma banda punk chamada Membrana Mucosa (Delano chegou a inventar que, em 1978, a banda lançou seu primeiro single, Venus of The Hardsell) que, em dado momento, passa a ser interessar pelo ocultismo e pelo sobrenatural. Fuga à realidade? Escapismo? Talvez, embora os autores fizessem questão de lembrar aos seus leitores que   
"Começo a pensar que a maioria dos místicos dos quadrinhos costuma ser de velhos, muito austeros, muito distintos, CLASSE MÉDIA em vários sentidos. Eles não dariam em nada nas ruas. Ocorreu-me que podia ser interessante fazer um buxo que fosse das ruas, classe operária, com um background diferente do padrão de místicos", explicou Moore sobre sua cria, desenhada originalmente por John Totleben e Steve Bissette com base em Sting, então baixista e vocalista da The Police.

A injustiça é que Hollywood tenha feito um filme tão ruim ao levar Constantine às telas, com Keanu Reeves no papel do mago.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Presente Natalino



SURF ALL DAY
ROCK ALL NIGHT


Carlos Leite estava certo. Ou melhor, a previsão das ondas estava. Cheguei a Santos no sábado (24), junto com uma frente fria que se por um lado gerou turbulências e nuvens que me fizeram calcular as probabilidades do meu voo até São Paulo ser justamente aquele um dentre os tantos mil a que os especialistas se referem quando asseguram que voar é seguro, por outro trouxe ondas para todo o litoral Sul e Sudeste do país.

As ondas chegaram no domingo, de repente, geradas por uma ondulação Sul vinda de territórios distantes. Mesmo previstas com antecedência, surpreenderam pela rapidez com que se ergueram. Acordei as 7 horas e o mar estava laconicamente liso. Não havia sequer marolas. Tomei meu café e me entretive um pouco com a tv e com o micro. Duas horas mais tarde, quando voltei a olhar da janela, séries que ultrapassavam um metro quebravam em frente a minha casa, no canal 4, indicando que, em outro ponto da praia, mais adiante, as ondas estariam maiores.

Corremos para a praia, eu e meu amigo prego brasiliense, Carlos Leite (foto). E algo inédito aconteceu. Ao invés de seguirmos em direção ao canal 1, sentido no qual as ondas vão aumentando gradativamente, fomos na direção oposta, rumo ao canal 5. Com o ombro machucado e meses sem cair no mar, eu queria surfar um primeiro dia em frente de casa, para recuperar o ritmo. Só que como uma correnteza forte como eu não me lembro de já ter visto nas praias santistas arrastava a tudo e a todos para o fundo e no sentido do canal 1 (e, portanto, das séries maiores), convenci o Leite a caminharmos vergonhosamente 400 metros à esquerda. Entramos no mar pulando da ponta do canal 5, onde ondas cavadas de pelo menos um metro quebravam cerca de 100 metros distantes da areia. Com a correnteza, não foi necessário sequer remar, mas quando chegamos no fundo, já havíamos sido levados de volta pelos quase 400 metros, quase até diante do meu prédio.

Em 18 anos, esta foi a primeira vez que surfei naquele ponto da praia. Também foi a primeira vez que vi ondas enormes se formando em alto mar e avançando em direção a Ilha das Palmas e a Fortaleza da Barra, onde explodiam contra o paredão de pedras do morro  e quebravam diante da comunidade da Pouca Farinha. Como também não me recordo de ter enfrentado, em Santos, uma corrente tão forte quanto a deste sábado, desconfio que o aprofundamento do canal de acesso ao porto a fim de permitir o tráfego de navios de maior calado, como os transatlânticos, está modificando as condições martítimas locais, influenciando no comportamento das marés e fazendo com que as ondulações cheguem com mais força até encontrar a resistência do fundo. Será quem um novo tempo de surf está para começar em Santos?

A previsão é de que as ondas durem até pelo menos o meio da semana. Infelizmente, o chuvisco também ainda não vai parar até amanhã.  Hoje (26), o mar já está bem menos mexido, sem correntezas, e surfamos entre os canais 4 e 3, onde não havia quase mais ninguém, talvez devido à chuva. Poderíamos ter ido um pouco mais além, mas, olhando da areia, as ondas ali nos pareceram bem divertidas. Optamos por surfar sem ninguém a menos de 50 metros de nós, que temos procurado treinar intensamente para nos tornarmos alguns dos melhores surfistas...de Brasília.


Após as últimas idas e vindas, é como que uma satisfação sexual voltar a deslizar sobre uma onda. Melhor ainda foi ter pego algumas boas ondinhas das séries, principalmente levando em consideração que além de não cair no mar há vários meses, havia ido dormir as 4 horas, comemorando o Natal e o encontro com velhos amigos no tradicional Bar do Torto, um fenônemo onde metade dos frequentados parecem se conhecer e a outra metade, da próxima vez, já terão se conhecido. Um ótimo lugar que parece estar lotado quando há 50 pessoas e onde até eu me divirto, mesmo ouvindo mais uma banda tocando (bem) Capital Inicial, Rappa, entre outras obviedades.  

Quem sabe, talvez Papai Noel seja surfista.

domingo, dezembro 25, 2011

Pronto?



_ “Are you ready?”

Pronto? Para quê? Perguntei ao meu amigo globetrotter (ou giramundo), o surfista-prego brasiliense Carlos Leite, que após meses sem dar notícias, me ligou na sexta-feira (23) a noite de algum lugar abaixo do céu e acima do chão.

_ “Para o surf, véio. Tô de passagem pelo litoral paulista e decidi que este ano vou cear com seus pais e assistir à queima de fogos na República Caiçara” – soltou o cara de pau, elevando a voz acima dos risos femininos audíveis ao fundo. “A previsão é de que uma frente fria chegue no domingo, levantando as ondas. Preparado?”

Para o surf? Após quatro meses sem enfrentar uma arrebentação eu poderia tranquilamente dizer que não, mas sabemos, eu e ele, que a expectativa de uma ondulação é o bastante para injetar em qualquer surfista fissurado a necessária adrenalina para encarar as ondas. Além do mais, em se tratando de Santos, para onde eu viajaria no dia seguinte (24), e sendo Verão, duvido que as ondas cresçam assim como Leite espera. Sendo assim, vamos lá. O surf eu encaro.

_ “Que mal lhe pergunte, onde você vai ficar?”, dissimulei, já aguardando a resposta.

_ “Ué. Na casa dos seus pais. Liguei para a tua mãe como quem não quer nada, para desejar feliz Natal e um próspero ano-novo e ela me convidou”, disse ele, concluindo a frase com uma sonora gargalhada.

Então é isso. Mais um ano vai chegando ao fim. Por sinal, um ótimo ano. E as chances de encerrá-lo com chave de ouro, pegando onda, parecem promissoras. Foi um excelente ano profissional. Viajei um pouco. Conheci novos lugares (Itacaré, Ilhéus, Santarém, Alter do Chão, Dourados e uma cachoeira em pleno coração de Santos) e algumas pessoas maravilhosas. Estreitei amizades. Mantive-me são sem deixar de curtir um bocado e estou satisfeito com a quantidade de bons livros, shows, filmes e festas que marcaram meu 2011. Portanto, só posso ser grato a tudo e a todos. E voltar a compartilhar os mesmos votos dos últimos anos, da mesma forma. Pode não ser muito original, mas acho que esta mensagem tem, ano após ano, dado conta de traduzir o que desejo a todos que de alguma forma contribuem para que tudo valha a pena. E que em 2012, a exemplo do Carlos Leite, continuemos dropando as das séries.


(Amor Pra Recomeçar - Frejat)
 
Te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo

E que com os que erram
Feio e bastante
Você consiga
Ser tolerante

Que quando você ficar triste
seja por um dia
E não pelo ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo que você tenha a quem amar.
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor para recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar de duvidar

Desejo que você ganhe dinheiro
(Pois é preciso viver também)
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor prá recomeçar...

Ahhhh, o Verão...(brasiliense)

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Um Conto Chinês

É argentino. Tem Ricardo Darín no elenco. E parte de uma premissa absurda, implausível, mas significativamente simples - a exemplo dos melhores filmes que los hermanos produziram nos últimos anos (Clube da Lua, Filho da Noiva, Nove Rainhas, Segredo de Seus Olhos, etc). 

Isso já seria o bastante para que alguém que goste de boas histórias apostasse seu valioso dinheiro no ingresso. A comédia dirigida  pelo ainda pouco conhecido Sebastián Borensztein, contudo, é mais uma obra a confirmar que o sucesso recente da cinematografia argentina se sustenta na qualidade do conjunto. Do roteiro ao elenco, passando , óbvio, pela produção.

A atuação de Darín é o filme, é certo. Em parte porque  sua personagem, o misantropo Roberto, um ex-combatente da Guerra das Malvinas cheio de manias que herda a loja de ferragens do pai, fornece ao atual muso e embaixador do cinema argentino mais uma chance de brilhar. Mas é  justamente a atuação precisa de todo o elenco que torna  crível  o trabalho de Darín. Em especial Ignacio Huang, que dá vida ao jovem chinês que após se envolver em um acidente absurdo em seu país, se vê zanzando perdido e sozinho pelas ruas de Buenos Aires, sem entender uma só palavra em espanhol. 

Sem grandes arroubos artísticos, Um Conto Chinês é mais uma prova  dada pelo cinema argentino de que para conquistar audiência e a empatia do público, não importa o que se conta, mas sim como se conta. De preferência dando ao mínimo recurso absurdo um significado para que apareça em cena.


segunda-feira, dezembro 19, 2011

Setembro é a melhor coisa de dezembro


"Safada, és meu vício. Morro em você pra viver em mim"
-
É isso mesmo. Setembro está, a meu ver, entre as melhores coisas deste dezembro chuvoso que resiste a se despedir do frio mesmo que o Verão já esteja batendo à porta. Quer entender melhor isso? Então acabe de ler o texto, volte a este parágrafo, clique aqui e ouça o quanto antes o segundo e mais recente álbum do pernambucano bissexto Junio Barreto.

Produzido pelo baterista da Nação Zumbi, Pupilo, o excelente disco chegou à internet quase sete anos após o lançamento do homônimo Junio Barreto (disponível na Rádio Uol) - primeiro trabalho solo do talentoso compositor e motivo de especialistas terem passado a chamá-lo de o "Dorival Caymmi de Caruaru", ainda que se for para citar alguém, a associação mais inequívoca seja com Chico Buarque, tanto pela harmonia e melodia, quanto, em alguns momentos, pela voz ou maneira de cantar. Embora, como bem notou Ronaldo Bressane (Trip), ouvintes atentos lembrarão mesmo é de Guimarães Rosa e, principalmente, de Manoel de Barros.

Meu lance aqui é escrever pouco, deixando espaços silenciosos para o desfrute de Setembro. Algo a que me dedico enquanto miro o céu nublado de Brasília e as mangueiras, jaqueiras e limoeiros que tampam a visão da minha janela. O que, de certa forma, também combina com a música ensolarada de Barreto.



quinta-feira, dezembro 15, 2011

Andando de Skate Em Cabul


Mursa não é um profissional e não disputa campeonatos representando grandes marcas de sportwear. Devido à violência, sua família deixou sua vila natal e se mudou para a capital de seu país, onde encontrou um ambiente tão hostil e violento quanto o que deixara para trás, mas onde o garoto de 17 anos adquiriu novos hábitos. 

Com apenas 12 anos de idade, a jovem Fazilla não aparece em revistas como a Transworld ou a Trasher. Não tem um shape com seu nome. Longe disso. Ela trabalha na rua, vendendo chicletes. E embora sua família às vezes não tenha o que comer, ela compartilha com Musa a descoberta de uma válvula de escape que lhes ajuda a lidar com a pobreza e a violência: equilibrar-se sobre um skate e saltar os obstáculos de ollie.

"No Skateistan eu não sinto que o meu redor está destruído. Me sinto em um lugar seguro", diz a garota sobre o projeto social responsável por manter a primeira (e, acredito, única) skatepark de Cabul, capital e mais populosa cidade do Afeganistão, país com mais de 3 mil anos de história e há dez anos ocupado por tropas militares da Otan, graças à declaração norte-americana de guerra ao terror, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Guerra que, segundo algumas estimativas, já tirou a vida de mais de 12 mil civis, além de destruir de vez a já combalida economia local. 

"O skate se tornou um hábito. Se eu não andar, fico doente" diz Musa. O garoto, Fazilla e outros jovens afegãos que frequentam o projeto Skateistan ou que se divertem pelas ruas de Cabul andando de skate são as estrelas de um documentário, um curta-metragem de 10 minutos dirigido por Orlando Von Einsiedel e exibido no Brasil durante o último Festival Rocky Spirit, dedicados aos chamados esportes de natureza (ou outdoor). Reconheço no olhar e na expressão deles o prazer e a satisfação que os esportes radicais individuais podem proporcionar.

O filme mostra de forma original como o esporte, em particular o skate, pode, se não resolver a pobreza e os problemas cotidianos, ao menos contribuir para o aumento da auto-estima, indicando alternativas à criminalidade e dando esperanças de dias melhores. 

Vale a pena assistir e depois confrontar com um outro vídeo sobre jovens andando de skate, só que este bem mais estilizado, gravado em Brasília (DF) a fim de apresentar a capital brasileira como um destino turístico com espaços além dos normalmente exibidos nos telejornais.

Da minha parte, só posso prometer reclamar menos do péssimo asfalto brasileiro.




sexta-feira, dezembro 09, 2011

Futebol e organizações criminosas: uma mistura que dá samba


"Crescimento econômico brasileiro e crise europeia tornam futebol nacional atraente  para organizações criminosas internacionais lavarem dinheiro ilícito"


Talvez porque não acompanhe futebol (embora jogue) e não me ufane de nossas chuteiras milionárias, vejo a modalidade com muitas ressalvas. Não se trata de ter espírito de porco, mas sim de achar que se  nossa pretensa habilidade futebolística reflete muito do que chamamos brasilidade, a gestão do futebol brasileiro reflete o que temos de pior em nosso país: a corrupção, a apropriação privada dos bens e patrimônios públicos, o desmando, a falta de transparência e de respeito aos direitos mínimos, o enriquecimento de uns poucos, o compadrio.

Parte da responsabilidade por este quadro é, a meu ver, da chamada imprensa futebolística (há pouco de jornalismo realmente ESPORTIVO). Um exemplo? Imagine como os jornalistas políticos reagiriam caso alguém na mesma situação do presidente do Corinthians, André Sanches, fosse convidado a assumir a secretaria ou o departamento de um ministério ou de um órgão público. Qual a situação de Sanches? Ele é alvo de diversas denúncias e, segundo matérias recentes (a maioria delas feita por jornalistas de outras áreas que não a esportiva) está sendo investigado até pela PF. Ainda assim, foi nomeado diretor de seleção da CBF. Se bem que é ingenuidade minha questionar uma decisão desta natureza quando a entidade máxima do futebol brasileiro é comandada por Ricardo Teixeira.

Para mim, o maior legado que a Copa do Mundo pode deixar para o país é uma nova forma de enxergar o futebol, menos passional e ingênua. 

Bird alerta que muito dinheiro e fiscalização frouxa dos países emergentes atraem o crime organizado para o futebol
Da Agência Brasil

A crise financeira europeia e o bom momento da economia brasileira têm favorecido o futebol brasileiro. Embora endividados, os clubes do país oferecem salários cada vez maiores não só para trazer de volta atletas que jogam no exterior, mas também, para manter os novos talentos, como Neymar, que recusou várias propostas para se transferir para clubes europeus e decidiu permanecer no Santos. Este bom momento do futebol nacional, contudo, acaba sendo um atrativo também para organizações criminosas internacionais.
O alerta é da consultora do Banco Mundial (Bird) Brigitta Maria Jacoba Slot. Uma das autoras do primeiro estudo a avaliar mundialmente o envolvimento do crime com o futebol, Brigitta garante que países emergentes como Brasil, Rússia e China estão na mira de quadrilhas internacionais que precisam legalizar o dinheiro obtido de forma ilegal.
De acordo com Brigitta Slot, que é holandesa, a lógica é simples: quanto mais dinheiro circular no mundo do futebol, mais interesse esse mercado despertará o interesse do crime organizado. “É necessário que o país combata o problema desde já, pois, mais tarde, será ainda mais difícil. O futebol segue o dinheiro, de forma que as mudanças na economia global levarão a mudanças também na destinação do dinheiro dessas organizações criminosas”, disse ela em um seminário sobre lavagem de dinheiro no futebol brasileiro, promovido pelo Ministério da Justiça, em Brasília.
Segundo a consultora, o estudo concluído em 2009 identificou que os mecanismos de regulação e fiscalização do futebol são frágeis e insuficientes em praticamente todo o mundo. Além disso, falta transparência na condução dos negócios futebolísticos, como contratação de atletas e investimentos feitos por dirigentes de clubes e federações.
“Concluímos que o futebol é vulnerável à lavagem de dinheiro e a outros crimes, como tráfico de pessoas e corrupção”, disse Brigitta Slot. Para ela, o endividamento e a má governança dos clubes – inclusive os milionários times europeus, que também têm alto grau de endividamento -, a falta de fiscalização adequada por parte dos governos e a paixão que o esporte desperta são alguns dos fatores que contribuem para agravar o problema.
Como os demais palestrantes que participaram do seminário, a consultora do Bird classificou como injustificáveis e insustentáveis os altos salários pagos a jogadores e treinadores, além dos valores envolvidos nas transações entre clubes. “O futebol é intocável na maioria das sociedades. Às vezes, as pessoas se perguntam quem controla quem? São os governos que impõem regras aos clubes ou é o contrário?”, perguntou ela, provocando na plateia.
A íntegra do estudo do Bird está disponível, em inglês e em espanhol na página eletrônica do banco.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Uma outra paisagem santista

Uma queda d´água de cerca de dez metros escondida em meio à vegetação, na região central da cidade? Assistir, do barranco, a uma pelada, torcendo pelo Juventude E.C.? Nadar fugindo de jacaré numa  lagoa no topo do morro antes que a especulação imobiliária a polua ou a privatize? Desfrutar de uma visão panorâmica dos grandes e feios espigões almejando arranhar os céus? Sentir o cheiro de uma enorme plantação de banana na cidade que vai cedendo espaço as boulangeries e empórios? Ver os chalés? 


Pois é. Mesmo em Santos, onde os caiçaras foram extintos, isso ainda é possível. Basta subir o  Morro da Nova Cintra. Dizem os historiadores que o próprio Martim Afonso de Sousa teria organizado a construção de um engenho d´água no local, determinando que fosse construída uma capela dedicada a São Jorge , o Engenho dos Erasmos, cujas ruínas ainda existem até hoje, a oeste do morro.

Só que para ver estas coisas não basta subir de carro, à noite, durante a época da famosa festa junina que se celebra no local, comer um churrasquinho e descer. É preciso bater perna, subir e descer ruas atento à paisagem e, principalmente, vencer o preconceito - pai do medo - e se misturar.  

sexta-feira, novembro 25, 2011

Versões e cópias


Há cerca de uma semana, registrei no post Mal Adaptado À Falta de Inspiração minhas impressões sobre a mais recente peça de Denise Stoklos, Preferiria Não?, aventurando-me a fazer algumas considerações a respeito de adaptações artísticas como a que a diretora/atriz/coreógrafa fez do conto de Herman Melville, O Escriturário.

Ontem (24), o jornal Folha de S.Paulo publicou no caderno Ilustrada duas matérias que embora tratem do `plágio artístico´ como método de criação -  o que não é o caso de Denise Stoklos -, me fizeram enxergar o tema por outro prisma. Sei que os especialistas discutem a aplicação e os efeitos da reprodução, da apropriação e da citação há décadas, de maneira que tudo aqui indicado é muito superficial. Mesmo assim, achei o assunto interessante e decidi, além de pesquisar mais, compartilhar os links aos meus três leitores que possam se interessar.

Copiar e Colar - Artista e escritor cria o manifesto da literatura não criativa e garante que a literatura do futuro será feita a partir de novas versões e cópias do que já estava escrito      

Conceito Atual de Plágio Divide Especialistas - Para professor de teoria literária, achar que `copia e cola´ refresca métodos de criação é inocente. "Que há uma crise na produção cultural atual não há dúvida. Mas achar que esse `copia e cola´ pode funcionar como base para um novo método de criação é muito inocente", alfineta Alcir Pécora, professor de teoria literária da Unicamp.