quinta-feira, novembro 10, 2011

O Dia do Fico



Futebol não é o meu forte. Sequer posso dizer que tenho um time pra chamar de meu. Quando adolescente, torcia não para o "Timão", mas sim para a Democracia Corinthiana. A razão é que eu sempre fui daqueles que preferem Stones a Beatles. Daí a fácil identificação do então adolescente com a equipe formada por figuras como Biro-Biro, Wladimir, Casagrande, Sócrates, Ataliba, Zenon etc. 

Encerrada a singular experiência de atletas tentarem conquistar poder decisório em seus clubes, deixei de assistir a futebol. Nos últimos anos, contudo, me empolguei com o Santos Futebol Clube. A aproximação começou devagar, em 1995, quando a equipe do artilheiro Giovanni faturou o Paulistão e o vice-campeonato brasileiro, devolvendo a alegria à torcida alvinegra praiana e, consequentemente, a minha cidade natal. 

Desse período, ficou, para o clube, o aprendizado de que mais vale formar seus próprios talentos e investir numa equipe equilibrada do que em grandes medalhões. Pouco tempo depois,  essa mentalidade proporcionou  o surgimento de Diego e Robinho. Mesmo os  meus conterrâneos que não diferenciam um centroavante de um árbitro sentiam orgulho ao ver o nome da cidade associado a algo tão espontâneo quanto os dribles de Robinho e a raça de Diego. 

Veio então um novo período de ostracismo até que, há menos de três anos, o país foi apresentado a Neymar e a Paulo Henrique Ganso. Eu, então, já havia deixado a cidade e alimentava, a distância, a saudade e a necessidade de preservar e reafirmar minhas origens caiçaras. Não podendo falar das belezas das praias santistas e incapaz de impressionar os outros com as referências ao maior porto da América Latina e  ao maior jardim praiano do mundo segundo o Guinness Book (isso para não falar que mencionar sindicalismo, ex-cidade vermelha e Plínio Marcos também não surte efeito sobre a maioria das gatinhas), me restou fazer pilhéria com os dribles desconcertantes de Neymar e com o belo futebol apresentado pelo Santos.  E houve um breve momento no ano passado que praticamente todo brasileiro tinha dois times, o seu (por hábito) e o Santos (por amor ao futebol-espetáculo). 

Em 2010 o time venceu o campeonato paulista e a Copa do Brasil. Este ano, voltou a vencer o Paulistão e a Libertadores. No final do ano, disputa o Mundial de Clubes, no Japão. Em função da boa fase, sua torcida é a que mais cresceu nos últimos anos. Eu sou um destes tantos "maria-vai-com-as-outras", mas o motivo pelo qual acho importante comentar a renovação do contrato de Neymar com o Santos é outro. É que, como muitos, considero que é mais que hora de os brasileiros amantes do futebol (o que, admito, não é o meu caso) exigirem a saída de Luis Álvaro de Oliveira da presidência do Santos para que possa assumir a presidência da CBF. Sim. Eu me filio ao movimento Luis Álvaro para a presidência da CBF.

Quando digo que não amo, que não entendo e que não acompanho futebol, estou na verdade expressando minha indignação contra uma das pessoas mais arrogantes com quem já tive o desprazer de cruzar pelos corredores da vida, Ricardo Teixeira. Sempre joguei e continuo jogando religiosamente minhas peladinhas, mas, até voltar a me empolgar com o Santos, não assistia a nenhum jogo por considerar que há tempos  o futebol deixou de ser um esporte "das massas" para se tornar um negócio "de massa", administrado de forma a atender o interesse de poucos. Não sou eu que digo isso, mas sim quem entende do riscado, como, por exemplo, o antropólogo e professor da Universidade Federal Fluminense, Marcos Alvito, um dos fundadores da recém-criada Associação Nacional dos Torcedores: "A CBF é basicamente um gigolô da seleção brasileira e um parasita do futebol brasileiro pelo qual ela não faz nada"


Os clubes são deficitários. As condições em que a maioria dos jogadores exerce sua profissão são aviltantes. Os torcedores são desrespeitados, quer como cidadãos, quer como consumidores. O(s) governo(s) está (ão) sempre pronto(s) a socorrer os clubes, mas nunca para fiscalizá-los. Calendários e horários são definidos de forma a atender a conveniência de uma empresa de comunicação. E, para mim, o pior: a atenção dada à modalidade acaba por ofuscar todo o gigante potencial esportivo brasileiro. (Há anos prometo um dia constranger um ministro do Esporte ou um dito jornalista esportivo perguntando-lhes sobre qual a semelhança entre Sandro Mineirinho e Adriano Mineirinho para que ambos sejam fenônemos mundiais).

No Santos, Luis Álvaro provou ser a antítese de Teixeira, conforme apontou o jornalista Vitor Birner em seu blog. "Implementou conceitos modernos, de governança corporativa, no Santos. Não se cercou de amigos e parentes. O conselho gestor, formado por profissionais competentes e bem-sucedidos, toma decisões. Segurou Ganso e Neymar além do imaginado. Hoje há uma geração crianças ‘neymarzistas’. Os santistas estão felizes. O valor da transferência do atacante aumentou".

É isso. O anúncio de que Neymar fica em Santos até a Copa de 2014 é um golaço não do atacante, que será bem recompensado para permanecer em sua cidade, em seu país, perto de amigos e familiares e onde provou ser possível obter reconhecimento mundial, mas sim da diretoria do clube. Vai na contramão de tudo o que vinha acontecendo. E dá alguma esperança de que o Brasil possa de fato ser o país do futebol. Nem que apenas pelo tempo que durar a crise econômica internacional.

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E já que falei da Democracia Corinthiana, mas sei que 66% dos meus três leitores não sabiam do que se tratava, segue uma foto ilustrativa de porque era fácil para um garoto que amava os Rolling Stones se identificar com os craques Sócrates, Vladimir e Casagrande curtindo ao lado de Rita Lee.

quarta-feira, novembro 09, 2011

A Maior Onda Já Surfada

Vinte e oito metros. Ou algo como um prédio de oito andares. Eis o tamanho da onda surfada pelo surfista havaiano Garrett Macnamara, em Portugal. É a maior onda já dropada com sucesso por um ser humano, cinco metros maior que a pega pelo norte-americano Mike Parsons, na Califórnia, em 2008. Apesar de a session histórica ter ocorrido no último dia 1º, só hoje a notícia correu mundo, deixando a todos boquiabertos e se perguntando sobre qual será o limite para estes malucos após a invenção do town-in, modalidade em que o atleta é rebocado para dentro da onda por um jet-sky.

Um XIX no 51


Santista workaholic que não consegue dedicar mais de 40 horas ao ócio criativo proporcionado por uma boa praia, Paulo Celestino vive do teatro desde 1994. Só viaja a trabalho, é verdade, mas junto com o premiado Grupo XIX de Teatro (Hysteria; Hygiene e Arrufos), do qual é um dos fundadores, encontrou uma maneira de se desenvolver fazendo aquilo em que acredita. Formado pela Escola de Arte Dramática (EAD) da USP,  também já atuou no CPT, de Antunes Filho. Em 2009, dirigiu a peça In Memoriam, inspirada no filme Wandafuru Raifu (Depois da Vida), do cineasta japonês Hirokazu Kore-eda. Nos últimos anos, passou a experimentar a linguagem audio-visual, já tendo filmado o experimental Qual Seu Filme de Amor Preferido, em que, além de registrar o processo de criação do espetáculo Arrufos, discute a concepção idealizada de amor romântico. Animal político, é um dos diretores da Cooperativa Paulista de Teatro, cargo que o obrigou a descobrir  Brasília (com a qual se surpreendeu positivamente), para aonde tem vindo com frequência a fim de participar dos debates em torno da reforma da Lei Rouanet. Na capital, além de chá de cadeira, já tomou Diabo Verde e Beira Bier (duas exclusividades do Bar Beirute).

terça-feira, novembro 08, 2011

Música Urbana

"Antes que eu confunda o domingo com a segunda" rolê de carrinho Eixão Setor Hospitalar Setor Comercial Norte e Sul "tudo está fechado" então é rock slide ollie in to tail estilêra brecha manêra no Conic submundo federal zoando passa a mulecada equilibrada sobre o shape rodinha poliuretano crassssssh no cimento liso [Ivan Presença? - ausente] calça rasgada tênis rasgados rasgando o tédio varando cinco degraus wallride na Dulcina de Moraes Rage Against The Machine e a batalha de Los Angeles na orelha "pleno domingão se o negócio é bom cê fica chinezim" esporte "afasta de mim as piteira" aproxima as biates eu tenho rodas sob os sapatos "as ruas têm cheiro de gasolina e óleo diesel por toda a plataforma" superior da Rodoviária dá para afundar o nose vendo tudo niemeyer à minha volta "tudo quase sempre como eu" nunca quis caldo de Viçosa pastel de vento mata-larica sexy a dois reais "matilha de crianças sujas no meio da rua" "zé-povinho é o cão" Brasil de Fato feio pra caraio!  nós é nós e o tempo vai distante na minha frente se distanciando cada vez mais o rolamento não dá conta de alcançá-lo música urbana na manchete outro crime outro bacana outra otoridade enquanto eu volto pros eixos papai-mamãe-filhinho donos de capitanias bacanais baganas e diplomas suo sujo suo demais suo na tarde de domingo toda a noite da véspera e os trucks tremem porque sei que "tudo é fase, irmão"...mas eu me equilibro e deslizo pra casa.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Outra ditadura, outras verdades


Estou há uma semana adiando escrever sobre o ótimo disco que o (ex?)rapper Criolo lançou no primeiro semestre e que só recentemente eu fui ouvir com calma. A intenção era recomendar aos meus três leitores que baixassem uma cópia de Nó na Orelha, disponível no site Musicoteca e tirassem suas próprias conclusões. Não tive tempo. E nem foi preciso porque, a esta altura, mesmo o menos antenado deles já leu ou ouviu falar sobre o paulistano. Principalmente após ele receber uma das maiores distinções que um letrista de rapper poderia esperar: ser citado por Chico Buarque. E não foi qualquer citação, tipo uma menção durante uma entrevista. Não. Chico simplesmente cantou todo um trecho da versão que Criolo fez para um de seus maiores clássicos, Cálice, composta junto com Gilberto Gil. O que levou muita gente - inclusive eu - a procurar a tal versão rapper do hino setentista antiditadura. E ela é realmente duca...E o episódio ,cheio de significados. Como em todas suas letras, Criolo fala da necessidade de outra Comissão da Verdade. Tanto que motivou Chico a voltar a incluir a música, agora adaptada a uma nova realidade, em seus shows, após anos sem tocá-la por considerá-la muito ligada ao período da ditadura militar. É isso.  A reinterpretação dos versos do clássico por quem conhece a atual realidade das ruas deixou Chico a vontade para voltar a cantá-la.



Confirmado: ke11y!

 Após a lambança da ASP (leia posts abaixo), o norte-americano Kelly Slater enfim confirmou seu DÉCIMO PRIMEIRO título de campeão mundial de surf, vencendo uma única bateria nas quartas de finais.

sábado, novembro 05, 2011

Slater não é campeão?!?!?!


Hã? Como é que é? Dois dias após anunciar ao mundo que o rei-careca tinha batido seus oponentes e, mais uma vez, conservado a almejada coroa, a ASP (Associação de Surf Profissional) volta atrás e informa que o norte-americano Kelly Slater ainda não possui pontos suficientes para garantir, antecipadamente, seu 11º títúlo mundial? Putz!

Depois a gente reclama que a imprensa esportiva - sobretudo a brasileira - não dá o merecido espaço ao surf. Este é o tipo de erro que compromete não apenas a credibilidade da entidade máxima do esporte, como a imagem do surf profissional como um todo. Já o resultado, por si só, tem uma vantagem: manter o interesse e as atenções voltadas para as etapas restantes do circuito, sobretudo para a que deveria estar acontecendo hoje (5), em San Francisco (EUA), prejudicada pelo mau tempo. Em tese, a conquista do 11º título mundial por ke11y é agora uma uma mera questão formal. (A conferir se Owen Wright conseguirá surpreender e frustrar a expectativa geral)

LEIA: HENDA O QUÊ?!?!

Kelly Slater não é campeão

Por Ader Oliveira - http://www.waves.com.br/

A ASP acaba de lançar uma nota em que admite ter errado o cálculo do sistema de [pontuação do] ranking, anunciando equivocada e prematuramente a conquista do título do World Tour deste ano pelo norte-americano Kelly Slater.

"Nosso sistema de programação do ranking está projetado para desempatar os pontos baseado no sistema de cabeças-de-chave", diz o brasileiro Renato Hickel, tour manager da ASP.

"Kelly (Slater) e Owen (Wright) empataram nos nove melhores dos 11 resultados, então nós fomos para os oito melhores e o sistema deu o título a Kelly baseado em sua melhor posição no seed. Nós estávamos trabalhando com essa suposição e os cenários do título foram baseados nisso. Isso foi um erro. No fim, somos responsáveis por isso e devemos ser responsabilizados. Pedimos desculpas aos nossos fãs, aos surfistas e a Owen e Kelly", continua Hickel.

Ainda de acordo com o dirigente, o ranking costuma ser analisado por quatro pessoas. Porém, apenas Hickel percebeu o erro na última quinta-feira, quando o evento teve folga.

"Todo ano temos empates no ranking, mas essa situação foi inédita. Foi a primeira vez que chegamos à penúltima etapa com os dois primeiros do Tour empatados", explica Hickel.

Agora, Slater precisa vencer mais uma bateria no Rip Curl Pro Search ou na etapa seguinte, em Pipeline, Hawaii, para confirmar o titulo mundial da temporada. Para Wright permanecer na briga, ele deve vencer tanto o Rip Curl Pro Search como o Pipe Masters. Se isso acontecer, os dois travarão um duelo homem-a-homem para definir o novo campeão mundial da ASP.

A entidade assumiu o erro nesta sexta-feira, enviando release para a imprensa e destacando a notícia na capa do site Aspworldtour.com. Antes, o norte-americano Kelly Slater havia divulgado o erro em seu Twitter, depois de ler um comentário de um internauta no Surfline que apontava o erro da entidade.

"A calculadora da ASP deve estar quebrada. Eu ainda não sou o campeão mundial!", postou Slater. "Não estou brincando. Ainda não faturei o titulo. Continuo precisando vencer outra bateria. Peguem aquelas camisetas e bonés de volta", continua o atleta, em alusão ao material promocional distribuído pelo patrocinador.

sexta-feira, novembro 04, 2011

quinta-feira, novembro 03, 2011




A boa memória é um importante atributo para os que não tem imaginação



Vai furando, vai

Ouvidoria da SDH vai apurar denúncias de tortura contra presos catarinenses

Representantes da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos chegam a Santa Catarina nesta quinta-feira (3) para apurar denúncias de maus-tratos e torturas contra presos de unidades estaduais.


Chefiada pelo coordenador-geral da ouvidoria, Bruno Renato Nascimento Teixeira, a comitiva começa a visita pelo Presídio Regional de Blumenau. Já na sexta-feira (4), o grupo deve inspecionar unidades prisionais da região metropolitana de Florianópolis. Além disso, Teixeira se reunirá com representantes de organizações sociais que atuam na defesa dos direitos humanos, do governo estadual, do Ministério Público estadual e de outras entidades.

"Nossa ida ao estado é motivada por uma série de denúncias formuladas pelo Fórum de Defesa dos Direitos e Combate à Tortura no Presídio Regional de Blumenau [que reúne várias entidades e organizações da sociedade civil]. Nosso principal objetivo é mobilizar a rede de proteção dos direitos humanos da região e o governo estadual para, juntos, acharmos uma solução para o problema", disse Teixeira à Agência Brasil.

Entidades denunciam maus-tratos contra presos de Blumenau

Um mês após uma rebelião no Presídio Regional de Blumenau (SC), que deixou o saldo de um morto e ao menos 13 feridos, entidades de defesa dos direitos humanos continuam denunciando a superlotação e o uso sistemático de violência contra os presos. As denúncias vão ser apuradas pela Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos, da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, cujo cordenador, Bruno Renato Teixeira,  chega amanhã ao estado.

De acordo com o Fórum de Defesa dos Direitos e Combate à Tortura no Presídio Regional de Blumenau, que reúne diversas organizações e entidades da sociedade civil e parentes de presos, as condições estruturais da unidade são subumanas, com celas superlotadas e sem ventilação adequada. A entidade também diz que os apenados não recebem assistência jurídica apropriada e que muitos dos que continuam presos já cumpriram suas penas. Além disso, o fórum sustenta que os presos não dispõem de atendimento médico e, muitas vezes, são privados de comida. Objetos eletroeletrônicos como televisores e ventiladores foram recolhidos pela atual administração, mas não foram entregues às famílias dos presos.

Governo catarinense rebate denúncias

Surpreendido pela informação de que representantes da Ouvidoria Nacional de Direitos Humanos irão a Santa Catarina checar denúncias de que os presos catarinenses estão sendo vítimas de maus-tratos e até de tortura, o diretor do Departamento de Administração Prisional de Santa Catarina, Leandro Soares Lima, negou qualquer irregularidade nas unidades carcerárias do estado.


Por telefone, Lima disse à Agência Brasil que as reclamações de parentes de detentos, acolhidas pelo Fórum de Defesa dos Direitos de Combate à Tortura no Presídio Regional de Blumenau, são motivadas pela perda de privilégios que eram concedidos irregularmente aos presos e que a atual direção da unidade prisional vem combatendo com mais rigor, conforme determina a lei. "Até há pouco tempo, havia uma situação de absoluto descaso e de falta de controle disciplinar. Havia certas regalias, como a entrada de material e objetos não permitidos e a atual diretoria, que assumiu há cerca de três meses, está fazendo uma faxina, coibindo as ilicitudes. Isso tem gerado queixas”, disse Lima.

Celas-contêineres ainda são usadas, revela diretor de Departamento Penitenciário

O diretor do Departamento de Administração Prisional de Santa Catarina, Leandro Soares Lima, disse que as celas-contêineres - estruturas metálicas usadas como alternativa temporária à superlotação das prisões - estão espalhadas por "todo o estado", inclusive no Presídio Regional de Blumenau, onde, segundo entidades de defesa dos direitos humanos, os apenados são submetidos a maus-tratos.

"Existem celas-contêineres em todo o estado", disse Lima. Há dois anos, o ex-diretor do departamento Hudson Queiroz também admitiu a existência de contêineres sendo usados como celas. À época, entrevistados de diferentes estados disseram que Santa Catarina foi a primeira unidade da Federação a adotar, ainda em 2003, a “solução provisória” para a falta de vagas no sistema carcerário, um problema que atinge  todos os estados.

"Hoje, a forma como os contêineres estão sendo usados para a custódia de presos não se constitui por si só  uma atitude agressiva. Ele [o contêiner] é extremamente seguro, tranquilo, tem solário individual, é muito mais adequado e não tem cheiro como nas penitenciárias com paredes de alvenaria", disse o diretor.

quarta-feira, novembro 02, 2011

Henda o quê?!?!?!

"O esporte produziu uma seleta lista de atletas cujos feitos transcenderam os limites de suas respectivas modalidades, transformando-os em mitos. No surf, este cara se chama Kelly Slater. [...] O floridiano é o profissional mais bem-sucedido da história do surf e, na semana passada, ensinou jornalistas e surfistas a pronunciarem a palavra OCTACAMPEÃO"
Octopus Surfer - 20 de outubro de 2006

"Kelly Slater é 10! Dez vezes campeão mundial de surf. Aos 38 anos de idade, o norte-americano garantiu o inigualável feito [...] Não tenho conhecimento de um outro atleta de qualquer outro esporte que tenha obtido tantos títulos mundias. Será que há?"



Já escrevi aqui, neste blog, que é um privilégio ser contemporâneo de Kelly Slater. Para um surfista, é algo semelhante aqueles que curtem futebol e viram Pelé jogar. Ou então quem viu Hendrix, os Beatles, Miles Davis ou os Stones tocarem ao vivo ainda na década de 1960. Como estes, o surfista floridiano extendeu os limites de sua atividade, estabeleceu novos valores e redefiniu parâmetros. Também já escrevi que não fosse a miopia da chamada mídia esportiva, todos saberiam que Slater é o atleta do milênio. Nenhum outro esportista de qualquer outra modalidade ganhou tantos prêmios na carreira como ele.  Hoje (2), Slater ganhou seu 11º título mundial. Aos 39 anos, disputando com alguns garotos que têm a metade de sua idade. Um fenômeno de longevidade em um esporte radical e de explosão. E o pior é que, para alguns especialistas, por mais alguns anos, Slater só perderá para si mesmo. Ou seja, se o careca estiver motivado e desejando vencer, ainda vai demorar a aparecer quem o pare. É esperar para ver. 



domingo, outubro 23, 2011

FURO!


Justiça autoriza 33 mil crianças a trabalharem em lixões, fábricas de fertilizantes e obras

OUÇA:

Juízes e promotores de Justiça de todo país concederam, entre 2005 e 2010, 33.173 mil autorizações de trabalho para crianças e adolescentes menores de 16 anos, contrariando o que prevê a Constituição Federal. O número, fornecido à Agência Brasil pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), equivale a mais de 15 autorizações judiciais diárias para que crianças e adolescentes trabalhem nos mais diversos setores, de lixões a atividades artísticas. O texto constitucional proíbe que menores de 16 anos sejam contratados para qualquer trabalho, exceto como aprendiz, a partir de 14 anos.
Os dados do ministério foram colhidos na Relação Anual de Informações Sociais (Rais). Eles indicam que, apesar dos bons resultados da economia nacional nas últimas décadas, os despachos judiciais autorizando o trabalho infantil aumentaram vertiginosamente em todos os 26 estados e no Distrito Federal. Na soma do período, São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Paraná e Santa Catarina foram as unidades da Federação com maior número de autorizações. A Justiça paulista concedeu 11.295 mil autorizações e a Minas, 3.345 mil.

Segundo o chefe da Divisão de Fiscalização do Trabalho Infantil do MTE, Luiz Henrique Ramos Lopes, embora a maioria dos despachos judiciais permita a adolescentes de 14 e 15 anos trabalhar, a quantidade de autorizações envolvendo crianças mais novas também é “assustadora”. Foram 131 para crianças de 10 anos; 350 para as de 11 anos, 563 para as de 12 e 676 para as de 13 anos. Para Lopes, as autorizações configuram uma “situação ilegal, regularizada pela interpretação pessoal dos magistrados”. Chancelada, em alguns casos, por tribunais de Justiça que recusaram representações do Ministério Público do Trabalho.
“Essas crianças têm carteira assinada, recebem os salários e todos seus benefícios, de forma que o contrato de trabalho é todo regular. Só que, para o Ministério do Trabalho, o fato de uma criança menor de 16 anos estar trabalhando é algo que contraria toda a nossa legislação”, disse Lopes à Agência Brasil. “Estamos fazendo o possível, mas não há previsão para acabarmos com esses números por agora.”

ATIVIDADES INSALUBRES

Apesar de a maioria das decisões autorizarem as crianças a trabalhar no comércio ou na prestação de serviços, há casos de empregados em atividades agropecuárias, fabricação de fertilizantes (onde elas têm contato com agrotóxicos), construção civil, oficinas mecânicas e pavimentação de ruas, entre outras. “Há atividades que são proibidas até mesmo para os adolescentes de 16 anos a 18 anos, já que são perigosas ou insalubres e constam na lista de piores formas de trabalho infantil.”

No início do mês, o MPT pediu à Justiça da Paraíba que cancelasse todas as autorizações dadas por um promotor de Justiça da Comarca de Patos. Entre as decisões contestadas, pelo menos duas permitem que adolescentes trabalhem no lixão municipal. Também no começo do mês, o Tribunal de Justiça de São Paulo anulou as autorizações concedidas por um juiz da Vara da Infância e Juventude de Fernandópolis, no interior paulista.

De acordo com o coordenador nacional de Combate à Exploração do Trabalho de Crianças e Adolescentes, procurador do Ministério Público do Trabalho (MPT) Rafael Dias Marques, a maior parte das autorizações é concedida com a justificativa de que os jovens, na maioria das vezes de famílias carentes, precisam trabalhar para ajudar os pais a se manter.

“Essas autorizações representam uma grave lesão do Estado brasileiro aos direitos da criança e do adolescente. Ao conceder as autorizações, o Estado está incentivando [os jovens a trabalhar]. Isso representa não só uma violação à Constituição, mas também às convenções internacionais das quais o país é signatário”, disse o procurador à Agência Brasil.

Marques garante que as autorizações, que ele considera inconstitucionais, prejudicam o trabalho dos fiscais e procuradores do Trabalho. “Os fiscais ficam de mãos atadas, porque, nesses casos, ao se deparar com uma criança ou com um adolescente menor de 16 anos trabalhando, ele é impedido de multar a empresa devido à autorização judicial.”

Procurado pela Agência Brasil, o Conselho Nacional de Justiça (CNJ) não se manifestou sobre o assunto até a publicação da matéria.

Leia também:
Juízes que autorizam trabalho infantil ignoram realidade, diz chefe da Fiscalização do Ministério do Trabalho

Autorizações são uma grave lesão do Estado aos direitos da criança e do adolescente, diz procurador

terça-feira, outubro 18, 2011

Guarujaense volta a vencer e continua sendo principal promessa brasileira de título mundial




Único surfista brasileiro a já ter ocupado, ainda que temporariamente, o primeiro lugar do ranking mundial, o guarujaense Adriano Mineirinho voltou a vencer uma etapa da primeira divisão do circuito profissional de surf. Nesta terça-feira (18), o atleta de 24 anos não apenas faturou o título do Rip Curl Pro, como calou os que ainda não haviam engolido sua vitória na terceira etapa do World Tour Masculino (WTC), em maio deste ano.

Se em maio as ondas da Barra da Tijuca não estavam tão boas e Mineirinho contou com o apoio da torcida local - o que motivou críticas de quem achou que uma de suas ondas não merecia a pontuação que os juízes lhe deram -, desta vez o brasileiro derrotou ninguém, ninguém menos que o mito, o dez vezes campeão mundial, Kelly Slater. E isso ocorreu em ondas perfeitas e tubulares de mais de dois metros, na praia de Supertubos, em Peniche, Portugal, valorizando o feito de Mineirinho.

Além de um cheque de US$ 75 mil, o guarujaense conquistou 10 mil pontos, o que lhe permite saltar da sexta para a terceira posição no ranking do World Tour. Ainda durante as quartas-de-final, Mineirinho surfou um tubo perfeito, obtendo a primeira nota dez de sua carreira.

 Outro brasileira a ir bem no campeonato foi o cearense Heitor Alves, que terminou em quinto lugar, barrado por Kelly Slater nas quartas-de-final. 

Apesar de perder para Mineirinho, Slater também não tem do que reclamar. Com o segundo lugar obtido hoje, o norte-americano está muito perto de conquistar o 11º título mundial de sua carreira. Para isso, basta que ele avance à quarta fase na próxima etapa, que acontecerá em São Francisco (EUA), entre os dias 1 e 12 de novembro.

leia também: Um Brasileiro no Topo do Surf Mundial (clique aqui)

segunda-feira, outubro 17, 2011

Desocupem Wall Street

Três vivas à madrinha Naninha. Uma das poucas ou pelo menos a única pessoa que conheço que não tem cartão de banco, celular, contas em redes sociais e que não sabe dirigir. Limitada? Talvez, mas posso lhes garantir que ela não parece nem um pouco infeliz por não saber usar um caixa eletrônico.

Toda vez que precisa sacar um dinheirinho da pensão que o governo deposita em uma conta que ela foi obrigada a abrir contra sua vontade a madrinha apresenta o RG às "mocinhas" da casa lotérica, onde aproveita para trocar suas Telesenas. E quando uma irmã ainda mais "vivida" se põe a criticá-la dizendo que ela perde tempo em filas, ela se limita a lembrar que máquina não precisa de emprego, salário, comida, nem moradia. "Imagina, meu filho. É tanto velho conversando fiado na fila que a gente se põe a par de tudo de que precisa saber para ir tocando a vida". 

Se alguém precisa falar com ela sabe onde, como e quando encontrá-la. E a própria madrinha reconhece: na sua idade, nada mais é tão urgente que não possa esperar até ela voltar das compras. Além do mais, sua rede social está ao alcance de uma boa caminhada ou, na pior das hipóteses, de uma viagem de ônibus. Ônibus que, apesar do descaso público e com um pouco de paciência, pouparam a ela o sacrifício de ter que ter um carro. 

Sim. O mundo da madrinha Naninha é anacrônico, ultrapassado e aos poucos vai desaparecendo. Ela não sabe o que é um Ipod, um Iphone ou um tablet. Por outro lado, já viveu o bastante para saber que independentemente de sua indiferença ou entusiasmo pelas últimas invenções do homem, elas se tornarão peças de museu antes dela. Mais rapidamente que o bip, o walkman ou o orkut que ela nunca chegou a usar, mesmo todos dizendo que eram imprescindíveis. 

Se precisasse se justificar, a madrinha diria já ter vivido o bastante para saber que estar a par da última tendência não é o bastante para retardar a passagem do tempo. Ela, no entanto, nunca refletiu sobre isso. Assim como não pensa nos custos dos empréstimos bancários, na Bolsa de Valores ou em Wall Street. Ainda assim, provocada pelo seu repórter de tv preferido, a madrinha vaticina à televisão ligada sobre o altar da santa de sua devoção. 

"Ocupar [Wall Street]?!?! Se esses homens fazem o que eles [os manifestantes] estão dizendo que fazem, as pessoas deviam era estar brigando para DESOCUPAR este lugar. Imagina todos estes prédios transformados em moradia para quem não tem casa". Imagina, madrinha, imagina.


Leia também:
Nomes Anacrônicos (clique aqui)   
Madrinha Naninha e o Pós-Sentimento (clique aqui)
E agora, José (clique aqui)

Peso Instrumental

Há um ano não via o Macaco Bong tocar. Daí minha surpresa ao fim do show que a banda deu nesse domingo (15), em Brasília. O som do power trio (e bota power nisso!) parece ter ficado ainda mais rápido e pesado durante este meio tempo. Além de complexo. Por mais que a atitude soe rock´n´roll, seria difícil e injusto compartimentar a banda instrumental de Cuiabá (MT) em um único gênero. A ouvidos atentos (e olha que este não é o meu caso) é fácil identificar algo de jazz em em meio a toda técnica e improviso. Assim como dá para notar os ótimos músicos, cada qual a seu jeito, distorcendo harmonias tradicionais. O som dos caras é tão porrada que sai cansado só de ouvir e vê-los tocar. O que eu ainda não consegui assimilar é o comportamento do público brasiliense. Tudo bem que as poltronas da Funarte e estupefação geral diante da massa sonora vinda do palco desestimulavam a maior parte do público a coreografar espasmos corporais, mas se levantar e sair sem pedir bis....isso já é ser blasé demais. Da vez anterior que vi a banda ao vivo, em São Paulo, as músicas finais deram espaço a uma verdadeira catarse, com a platéia pedindo bis e mais bis.


Outra boa surpresa foi conhecer a banda acreana Caldo de Piaba, que abriu para o Macaco Bong a última noite do projeto Novas Fronteiras. Seja nas composições próprias, seja na releitura instrumental de clássicos do cancioneiro popular (sobretudo da Região Norte), o grupo tempera seu rock ligeir com toques de lambada, guitarrada e até ska. O cd dos caras pode ser baixado gratuitamente no site Na Agulha.


Ação Afirmativa


Porque os caiçaras não têm direito à cotas, a um dia nacional, um site ponto gov., à programa na tv, à preservação de territórios originais (alô, Ilha Diana, aquele abraço. Alô, povo do Ribeira), a mensagem oficial das autoridades constituídas...

sábado, outubro 15, 2011

Música Paraense - Muito Alem do Calypso (2)

Ainda descobrindo pérolas musicais do Pará, estado onde os artistas, conforme assinalou o crítico Pedro Alexandre Sanches, compõem um caldeirão heterogêneo cujo único ponto cem por cento em comum é a bandeira paraense. 

leia também: Música Paraense - Muito Alem do Calypso


Um produtor musical e dj com mais de dez anos de estrada. Uma jovem cantora com uma voz impressionantemente madura. Pro.efX e Nanna Reis uniram seus talentos e deram asas ao Projeto Charmoso
, com o qual vão misturando ritmos paraenses (como, óbvio, a guitarrada) e outros à música eletrônica. O resultado é um trabalho dançante e envolvente que não esconde a bela voz de Nanna.


Cantor, compositor e jornalista paraense, Arthur Nogueira já lançou dois cds, Arthur Nogueira [2007] e Mundano [2009]. O segundo, premiado no tradicional Projeto Pixinguinha, da Fundação Nacional de Artes [Funarte], pode ser baixado gratuitamente no site do artista.


O melhor é deixar que Coletivo Rádio Cipó fale por si próprio ..."pensar que tudo teve início meio que na brincadeira, em 2001. Quando o produtor e músico Carlinhos Vas, mais o engenheiro agrônomo Erik Martinez começaram a brincar com barulhinhos estranhos tirados de um microcomputador. Quem também tava na bagunça eram o radialista e compositor Rato Boy, figurinha das antigas, além do percussionista Luis Bolla. Nesse "conjunto de idéias coletivas", foi um passo pra que a comunidade da Álvaro Adolfo, da Pedreira, entrasse na onda e participasse das ações do grupo. Não parou de chegar moleque desocupado querendo participar das oficinas de percussão e ritmos eletrônicos.  Ensaios abertos eram realizados, inserindo um canal de intercomunicação sócio-cultural e proporcionando ações de entretenimento e lazer na comunidade. E não parou por aí – na real, tava era longe de parar"



Já escrevi aqui que, salvo algumas exceções, não curto o reggae brasileiro. Pura implicância com as letras e com o fato de achar que, em geral, musicalmente, as bandas nacionais não conseguem agregar nada de novo ao ritmo jamaicano. Juca Culatra, para mim, se encaixa nesta situação. Só que suas letras são tão nonsense que se tornam engraçadas (ouça Dino Sapiens). Além disso, a chance de quem gosta do ritmo e discordar da minha tese quanto à qualidade do reggae brasileiro curtir seu som é muito grande. Até porque, ele não deixa nada a desejar em comparção com a maioria das bandas brasileiras do gênero. Ou seja, minha avaliação é totalmente pessoal (como tudo mais neste blog) e sei relativizá-la. No calor de Belém, com uma Cerpinha em mãos, deve ser bom para dançar.



Projeto Secreto Macacos. Este som eu achei duca. Conheci um dos integrantes da banda numa das lojas da Na Music. Inicialmente eu não entendi nada sobre o que ele tentava me explicar ser a proposta do grupo - fazer um som diferente de tudo que já tinham feito, conforme a banda admite em sua página da banda no myspace. Depois, já em Brasília, ouvindo o som dos caras, entendi a dificuldade de definir o que eles fazem. Dava tudo para ver um show deles com o Macaco Bong


Como escrevi no início, a vocalista do Projeto Charmoso, Nanna Reis, tem uma já longa carreira solo, já tendo vencido vários festivais regionais de música. Apesar disso, a julgar pelas músicas disponíveis em sua página no myspace, a jovem ainda está em busca de sua personalidade artística, de forma que talvez seja cedo para apostar em que raia ela vai disputar um lugar na música popular brasileira. Talento (e, por que não dizer, beleza) para chegar lá ela tem.


Acho que, a esta altura, os experimentos musicais de Pio Lobato já são bastante conhecidos do público que acompanha a música independente nacional. Músico licenciado pela Universidade Federal do Pará, o artista obteve destaque ao misturar os elementos regionais, sobretudo paraenses, à música eletrônica. Duas de suas músicas compõem a trilha do filme Deus é Brasileiro, de Cacá Diegues.



Para voltar a algo mais calmo, vá de Lu Guedes

Floresta Sonora me empolgou deveras....rs,rs,rs,rs Uma faixa como esta do vídeo abaixo, Futurando, dá vontade de se jogar na pista (de dança ou de skate. É das bandas que eu mais tenho ouvido no meu micro enquanto trabalho, dando asas à imaginação ao sabor do som viajeiro do trio que diz fazer "musica para reconstrução de sensações e imagens de dentro para fora do corpo". Portanto, colegas de serviço, se me virem com o fone na orelha, batendo os pés e sacudindo a cabeça, é Floresta Sonora.

Merengue, cúmbia (a música típica colombiana), dub, forró. É a "Lambada do Povão" no som do Metaleiras da Amazônia, um projeto de resgate e preservação das tradições culturais paraenses

sexta-feira, outubro 14, 2011

Fim da "greve de bom-senso" do Correio

Após cometer a barbaridade de publicar que os ... (ahmm....ééé´....)... que as pseudo-celebridades Fiuk e Wanessa (ex-Camargo) decidiram “agitar” o pop nacional “trazendo elementos novos para a música brasileira”, o jornal Correio Braziliense enfim abre a janela para permitir que novos ares ventilem a redação. E descobre (assim como o semifosco aqui – veja os posts abaixo) a nova música paraense.

A música produzida no Norte e Nordeste do Brasil ganhou visibilidade há alguns anos; principalmente, depois do movimento mangue beat, que teve como ícone o músico Chico Science. Hoje, uma das cenas mais comentadas, fora do eixo centro-sul, é a paraense, que lançou nomes como Gaby Amarantos (observação minha: tem muita, mas muita coisa melhor que a "Beyoncé paraense" rolando no estado). Outra cria dessa ebulição musical é o CD Kistch, pop, cult, do músico Felipe Cordeiro.
(para ler o restante da matéria `Músico paraense procura aliar proposta conceitual e ritmos´, clique aqui)
Goste ou não das letras de Cordeiro e do recurso (a meu ver equivocado) das backings vocals, há um aspecto inegavelmente positivo em seu trabalho, que é o enraizamento na musicalidade paraense, que não se perde em meio às referências pop do compositor. 

quarta-feira, outubro 12, 2011

A Cinematografia da Crise

O mundo inteiro ainda sofre com os desdobramentos da crise econômica mundial que teve início em 2008, nos Estados Unidos. Nações atingidas pela turbulência causada pelo verdadeiro tsunami que paralisou a economia mundial, varreu milhares de postos de trabalho e levou de bancos à empresas dos mais diversos setores à bancarrota continuam procurando formas de evitar uma quebradeira geral. E pagando a conta. Principalmente os países hoje mais severamente endividados por terem socorrido financeiramente setores da economia que estavam em risco de falência, como os bancos.

Em meio a este cenário - apocalíptico, diriam alguns -, dois filmes recentemente lançados em DVD abordam as causas e as consequências da crise. Ou melhor, as consequências da ganância e da soberba dos operadores do sistema financeiro e da recente desregulamentação do setor, que se desassociou do mundo real, conforme diz um dos personagens do primeiro filme. (Obs: o mercado imobiliário brasileiro também não andará desassociado da realidade, pergunto eu)

Indicado ao Oscar deste ano, o documentário Trabalho Interno é um filme esclarecedor, embora não seja nada fácil acompanhá-lo. Isso porque o diretor Charles Ferguson optou por ouvir algumas das maiores autoridades no assunto, algumas delas credenciadas a falar sobre o tema justamente por terem participado ativamente das discussões e decisões equivocadas que levaram à crise do setor imobiliário norte-americano, à falência de bancos como o Lehman Brothers, à necessidade de o governo norte-americano socorrer a seguradora AIG e outros países fazerem o mesmo com suas instituições bancárias e empresas. Tudo isso sem que ninguém fosse responsabilizado e punido.

Narrado pelo ator Matt Damon, Trabalho Interno sustenta a tese de que a crise poderia ter sido evitada caso os governos não tivessem adotado cegamente, nas duas últimas décadas, o credo liberal de que o mercado pode regulamentar a si próprio. Caso da Islândia, outrora considerada um porto seguro. O documentário expõe as relações nada republicanas existentes entre governantes, agências reguladoras, lobistas, banqueiros, agências de ratting e até mesmo acadêmicos pagos para endossar fragilíssimas teses e argumentos. E registra a denúncia de que enquanto milhares de pessoas perdiam seus empregos, suas casas e condições para pagar por seu bem-estar social, diretores de empresas que só sobreviveram à crise graças à injeção de recursos públicos continuaram recebendo salários imorais de tão altos e gratificações sabe-se lá pelo quê. Além de deixar claro a total falta de credibilidade das agências de ratting, que, poucos dias antes de empresas falirem, continuavam apontando-as como excelentes investimentos.

Para Ferguson, os principais culpados pela derrocada são os homens que ocuparam a presidência dos Estados Unidos entre os anos de 1981 e os dias atuais, ou seja, Ronald Reagan, George Bush (pai e, mais recentemente, filho)e Barack Obama. Mas não só. O diretor também é enfático ao entrevistar assessores do segundo escalão dos sucessivos governos e cientistas.

 
Já o segundo filme é uma obra de ficção, embora não seja difícil imaginá-lo livremente inspirado nas muitas histórias reais registradas diariamente nos jornais. Com elenco de famosos (Ben Affleck, Tommy Lee Jones, Kevin Costner, Chris Cooper, entre outros rostos conhecidos), A Grande Virada conta a história de bem-sucedidos executivos que, diante da crise, perdem os empregos quando o conglomerado que ajudaram a construir ao longo de décadas decide fechar o departamento de construção naval sob o argumento de que a empresa precisa conter gastos e se adequar aos novos tempos, nos quais a "indústria pesada" perde atratividade.

O personagem central é Bobby Walker (Affleck), o pai de família de 37 anos há tempos afastado dos bancos escolares e mais jovem dos três personagens centrais da trama (os outros dois são Jones e Cooper). E também o que mais demora a perceber que os tempos mudaram e que não vai ser fácil conseguir voltar ao mercado. 

Apesar do final esperançoso, o filme é capaz de despertar em qualquer espectador realista a lembrança de que tudo que é sólido se desmancha no ar, ou seja, que os períodos de crise não são uma excepcionalidade, mas sim uma constante para a qual devemos estar preparados.

Quem assistir aos dois filmes não deixará de notar tal tese. Enquanto um dos entrevistados para Trabalho Interno aponta a contradição de um engenheiro civil ganhar muito menos que um engenheiro financeiro já que "o primeiro constrói pontes e o segundo, sonhos, mas se os sonhos dos financistas viram pesadelos são os outros que pagam", em A Grande Virada um personagem decepcionado caminha por um estaleiro abandonado comparando o passado e o presente. "Tinhamos milhares de homens trabalhando dia e noite aqui. Eles construiam navios. Podiam tocá-los, sentir seu cheiro. Hoje, fabricamos números".


Pode não parecer, mas neste momento que o Brasil atravessa uma fase de bonança e relativa estabilidade (embora a inflação insista em voltar a mostrar os dentes) é oportuno assistir a este tipo de filme. 


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Para quem se interessar, também vale procurar um filme um pouco mais antigo, Segunda-Feira ao Sol (2001), com Javier Bardem, sobre a crise do início da década passada na Europa e o desemprego na Espanha.
 
Há também uma produção argentina, As Viúvas das Quintas-Feiras (Las Viudas de Los Jueves), que descreve os efeitos da crise argentina para a emergente classe média. Creio que o filme não foi lançado no Brasil, mas nunca se sabe que surpresas se pode encontrar na net. Além do mais, o livro original da escritora argentina Cláudia Piñeiro, que é muito melhor que o filme, foi sim publicado por aqui. Eu mesmo já falei sobre ele há cerca de dois anos