quinta-feira, março 05, 2009

De: Carlos Leite leiteempedra@ig.com.br

Assunto : Saudaciones, compañero (7)

Para : semifosco semifosco@blogspot.com 03 de mar 2009 17:20



Camarada, sei que isso vai soar estranho, mas concluí que nós, brasileiros, precisamos conhecer melhor a história economica e política dos outros países sul-americanos. Esse tipo de papo nao é muito minha praia, mas percebi que nao sabia absolutamente nada sobre o Equador até iniciar o planejamento de minha viagem. Sequer sabia que este país nao tem uma moeda própria, que dirá o significado disso.


O Equador declarou-se independente em 1830, sete anos, portanto, após o Brasil ter se erguido contra o domínio portugues. Em 2000, em meio a uma crise inflacionária, o país dolarizou oficialmente sua economia, abolindo o uso do sucre. Na ocasiao, segundo o historiador equatoriano Enrique Ayala Mora, o dólar já valia 25 mil sucres. Apenas dois anos antes, a moeda norte-americana valia pouco mais de 5 mil sucres.


"O Equador é o único país sul-americano a ter cometido o desatino de abandonar uma instituicao fundamental: a moeda nacional, fixando a taxa de cambio, eliminando o sucre e transformando o dólar em moeda de curso legal", afirma o brasileiro Paulo Nogueira Batista Jr. no prefácio do livro Breve História Economica do Equador, do economista equatoriano Alberto Acosta.


Segundo Batista, a tomar a decisao, o governo do ex-presidente Jamil Mahuad Witt (1998/2001) converteu o país em uma província monetária dos EUA. "Os problemas acarretados por essa decisao sao, de fato, extremamente graves. Perde-se a receita de senhoriagem, isto é, os recursos que o governo obtém com a emissao monetária, que é entao transferida para o país emissor da moeda adotada, no caso, o dólar. Perde-se também o emprestador de última instancia, elemento central do sistema financeiro moderno".


Ainda de acordo com o economista, países que contam com bancos centrais e moedas nacionais podem se valer da emissao de dinheiro para socorrer o sistema financeiro em momentos de grande instabilidade e risco de corrida bancária, instrumento utilizado sempre que as instituicoes financeiras de um país se veem diante de crises de caráter sistemico.


Aqui, cabe dizer que, embora Batista Jr. entenda que a economia equatoriana está diretamente submetida as decisoes do Federal Reserve - que, ao tomá-las, nao leva em consideracao os efeitos que essas medidas terao sobre o pequeno país sul-americano - nem a populacao, nem o governo dao sinais de que uma mudanca esteja a caminho.


Dias antes de eu viajar, o presidente Rafael Córrea afirmou que a dolarizacao foi uma "cantinfla", algo como uma piada ruim, mas que, por enquanto, nao há forma de desfaze-la. Já para a maiorias das pessoas com quem conversei sobre o assunto, a dolarizacao foi uma boa medida para sair da crise que o país atravessava e nao deve ser desfeita. O dono de um dos albergues onde me hospedei inclusive me contou que a dolarizacao era uma medida já pensada anos antes do governo de Mahuad e que se houvesse sido implementada entao, quando o dólar valia pouco mais de 3 mil sucres, teria sido melhor.


De qualquer forma, como diz Batista Jr., o Equador se distanciou dos demais países sul-americanos ao submeter-se a dolarizacao. O exemplo mais drástico, escreve o brasileiro, foi o da Argentina, cuja economia esteve semi-dolarizada e, em meio a uma profunda crise economica, o governo decidiu restaurar o peso e adotar um regime de flutuacao da taxa cambial, a exemplo da maioria das economias mundiais.


Assim como Córrea fala na dificuldade para devolver o sucre as ruas equatorianas, Batista Jr. reconhece que o processo de restauracao é dramático. "Mesmo assim, os problemas provocados pela dolarizacao sao tao graves que o país pode ser levado, em algum momento, a optar pela volta de sua moeda".


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Estou em Baños


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