sexta-feira, dezembro 31, 2010

Desejo...

(Clichê ou não, todo ano, nesta época, me lembro da letra desta música escrita pelo Frejat e concluo que ela expressa muito bem algumas das coisas que eu julgo importante desejar para as pessoas de quem gosto. Então, vai lá, mais uma vez, Amor Prá Recomeçar. Feliz começo de ano para todos e que 2011 seja melhor, muito melhor que 2010)

Te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo

E que com os que erram
Feio e bastante
Você consiga
Ser tolerante
Que quando você ficar triste
seja por um dia
E não pelo ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo que você tenha a quem amar.
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor para recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar de duvidar

Desejo que você ganhe dinheiro
(Pois é preciso viver também)
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor prá recomeçar...

quarta-feira, dezembro 29, 2010

Rio-Santos (3 min)

De rolê pelo trecho Ubatuba (SP)-Cubatão (SP) da estrada Rio-Santos (BR-101), uma das mais belas dos país.

aparelho utilizado: Nokia E72

terça-feira, dezembro 28, 2010

Invasões Bárbaras


Conforme previsto, Eles chegaram.

Vieram em hordas. E embora avançassem lentamente, não podiam ser contidos nem mesmo pelas inúmeras praças de pedágio que separavam nossos mundos. Os homens cobriam suas vergonhas com peças ínfimas que não escondiam sua palidez. As mulheres, por sua vez, tinham as protuberâncias artificialmente hipertrofiadas e as faces pintadas.

Traziam caixas de isopor, cadeiras, esteiras, uma espécie de grande guarda-chuva, bolas, recipientes de alumínio, recipientes de plástico, mais plástico, boias, pranchas, comida e, sobretudo, dinheiro que, inicialmente, nos pareceu bom.
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Entoavam estranhos hinos que lhes motivavam e dos quais só entendiamos algo como “beber, cair, levantar” ou então “eu quero mais é beijar na boca”. Era comum que, quando combinados cânticos e o líquido contido nos recipientes de alumínio, os machos avançassem sem mais delongas contra nossas mulheres - muitas das quais, atraídas pela novidade, não ofereciam qualquer resistência.

Besuntadas com uma substância branca, as crianças temiam o mar. Já os machos se atiravam de barriga contra a água. Não raramente, um de nós tinha que socorrê-los para que não se afogassem. Quando não estavam na areia da praia, deitados sob o sol, gostavam de se reunir em um mesmo local, onde paravam em ordem anárquica, um atrás do outro. Não havia, nesta época, comida e água suficiente para todos. Ainda assim, nós não os rechassávamos. Pelo contrário. Inicialmente, nós os admirávamos. Principalmente as mulheres, cuja pele ainda não maltratada pela exposição contínua ao sol nos passava a falsa ideia de superioridade.

A admiração se tornou influência e não demorou para que muitos de nós passássemos a imitar alguns de seus hábitos. A maneira de vestir, a forma de construir, o jeito de falar...Tudo foi sendo assimilado e logo nós havíamos perdido parte de nossos hábitos e costumes. Já não éramos nós, mas não havíamos conseguido ser como eles. Nossas praias se deterioraram, os melhores terrenos já não nos pertenciam, nossas comunidades se agigantaram, nossos jovens já não mais se interessavam pelas antigas atividades, mas continuávamos apequenados, meros serviçais, trabalhando para Eles, para garantir sua comodidade de fim de semana em nosso próprio território. Em muitos pontos, até mesmo o acesso ao mar e a possibilidade de ver o céu e o horizonte nos foram negados.

Isso não faz muito tempo. Algumas décadas, apenas. Tempo suficiente para que a história quase esquecesse os caiçaras e sua rica cultura.
foto: Moacyr Lopes Junior / Folhapress
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(escrito após um fim de semana na praia das Toninhas, em Ubatuba (SP))

sexta-feira, dezembro 24, 2010

Maresias




23 47´30 S
23 33´23 W

Maresias. São Sebastião. Litoral Norte de São Paulo. Ou, para ser mais preciso, do interior do veículo 5673 da empresa Litorânea, a caminho de Caraguatatuba (53 km, mais de uma hora e meia devido à estrada sinuosa, R$ 10,20). e, dali, enfim para Ubatuba (R$ 5,30. A vida em rede...


Maresias, uma das muitas praias de São Sebastião, é Um dos lugares em que eu mais me sinto à vontade - ou em que eu melhor me sinto. Principalmente quando, apesar do feriado (que é, em geral, quando eu consigo passar uns dias por aqui), ela ainda não está tão cheia de turistas. A partir de amanhã, contudo, a estrada deverá estar cheia e aí acabou o sossego.

Dos muitos lugares em que já tive o privilégio de estar, poucos são tão cinematograficamente belos quanto o trecho litorâneo que vai da praia de Boracéa, ainda em São Paulo, à Paraty, já no Rio de Janeiro. E, por isso mesmo, me arrisco a afirmar que pegar a Rodovia Rio-Santos é trafegar por um dos mais fantásticos trechos da costa brasileira.

quinta-feira, dezembro 23, 2010

À Sombra de Brás Cubas...

...sigo de 4 para o Centro do meu velho universo por artérias congestionadas de monóxido e paranoias automotivas. Não há nada antigo aqui que eu não conheça como a palma das minhas mãos. Já farejei cada uma destas portas à procura *Da Boa*, experimentando a frustração enquanto esperava por uma demorada recompensa. Isso foi quando eu me dava ao luxo de me achar bom. Agora que a recompensa parece prestes a vir, sou apenas mais um cara de um outro lugar nenhum, torcendo por uma eficiente e prometida "onda verde".

quarta-feira, dezembro 22, 2010

Tetro: A dificuldade da crítica

Embora nos últimos tempos este blog esteja parecendo uma versão on-line do livro Clube do Filme (sem o viés de auto-ajuda), eu acho que jamais seria um crítico de cinema. Imagino que se uma publicação estivesse me pagando para assistir e dar minha opinião sobre algo como este último filme de Francis Ford Coppola, Tetro, não pegaria nada bem eu admitir que não o entendi direito e que precisaria ou de mais tempo ou de assistí-lo novamente para formar minha opinião.

No geral, a ótima fotografia em preto e branco e as boas atuações de Vincent Gallo, Alden Ehrenreich e Maribel Verdu me levaram a acompanhar com interesse a história do jovem garçom de navio de 17 anos que, em busca de informações sobre sua mãe morta e tentando compreender sua própria família, desembarca em Buenos Aires para encontrar o irmão mais velho, Tetro (Gallo), um escritor promissor, mas que, atormentado pela dimensão da figura paterna - um maestro mundialmente conhecido - e pelas relações familiares conturbadas, abandona seu país e rompe qualquer contato com quaisquer parentes. A indesejada chegada de Bennie (Ehrenreich), portanto, é algo que transtorna a rotina de Tetro.

Só que a trama do filme é complexa e, em certos momentos,a impressão que se tem é que Coppola tenta dizer mais do que dá conta de colocar na tela. Para isso, ele inclusive recorre à música, à dança e a elementos teatrais que, filmados com maestria pelo diretor, enriquecem a história.

O fato é que, hoje, Coppola já não depende das bilheterias de cinemas para complementar sua renda. Dono de vinícolas e de um hotel, além de detentor de alguns sucessos comerciais como Drácula de Bram Stoker, o diretor pode se dar ao luxo de financiar ele próprio seu projetos pessoais, filmando o que quer e como quer. Ou seja, cinema autoral de fato, o que, por si só já é um luxo. Felizmente, mesmo com a suposta liberdade, Coppola não faz fil
mes herméticos. Rebuscados sim, mas não incompreensíveis.

Tetro, evidentemente, não faz sombra aos filmes pelos quais o diretor será lembrado, clássicos como Apocalypse Now e a trilogia O Poderoso Chefão. E, aparentemente, alguns criticos não o perdoam por isso. Caso do santista enciclopédico Rubens Ewald Filho, que sustenta que Coppola "não existe mais" e em quem eu pensava ao, no início, citar a figura do profissional de quem se espera, de afogadilho, uma opinião definitiva sobre uma obra que permite diferentes leituras.
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É verdade que eu nunca espero nada muito profundo do meu conterrâneo, principalmente depois do que ele escreveu sobre o diretor David Fincher ("Nunca gostei muito de David Fincher porque ele fez Clube da Luta,um filme moralmente discutível que provocou, justamente no Brasil, um assassinato num cinema"), mas a crítica dele ao filme de Coppola é algo tão absurdamente equivocado que tive a impressão de que vimos a filmes diferentes.

"
Tetro é um primor de equívocos, começando por dar o papel central a Vincent Gallo", afirmou Filho, fazendo o que se espera dele, ou seja, emitir um parecer. O problema é quando o crítico "que mais entende de cinema no Brasil", segundo alguns, tem que justificar sua opinião. "Não sei porque [Coppola] insistiu em filmar em preto e branco, um convite certo ao suícido comercial já que os jovens não gostam". Putz!
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Também o que esperar de alguém que ao assistir Tetro se vê a vontade para revelar ter uma teoria de que "(infelizmente) os cineastas têm no máximo dez ou 15 anos de apogeu. Depois viram meros fotógrafos, imitações de si mesmo"? Além de Clint Eastwood e de Robert Altman, por ele mesmo citados como "exceções que confirmam a regra", eu perguntaria: e se incluirmos neste time os cineastas não-norte-americanos (que parecem ser o máximo referencial do crítico)? E Kurosawa? Almodóvar? Os franceses e outros tantos de que não me recordo agora, mas que, estou certo, somados, derrubam por terra esta teoria insustentável?

segunda-feira, dezembro 20, 2010

Nada a ver

Todos que me conhecem sabem do meu entusiasmo pelo cinema argentino. Nove Rainhas, Plata Quemada, o Cachorro, O Filho da Noiva, Clube da Lua, Elsa e Fred, O Pântano, Menina Santa, Abraço Partido, Las Viudas de Los Jueves, O Segredo dos Seus Olhos e tantos outros. Há anos eu não assistia a um único filme argentino ruim. Até este último domingo.

Nem mesmo o "muso" Ricardo Darín consegue salvar Abutres (Carancho), o 12º filme do diretor Pablo Trapero, responsável pelo bem-comentado A Família Rodante, que eu nunca consegui ver. E olha que o ator se esforça para dar credibilidade ao advogado caído em desgraça que, para sobreviver, tem de trabalhar para um pequeno escritório que se dedica exclusivamente a representar, contra empresas seguradoras, inúmeras famílias que, além de pobres e pouco instruídas, estão sob o impacto da morte ou grave acidente de trânsito envolvendo um parente.

Não apenas Darin se esforça bastante, como o entrosamento dele com Martina Gúsman é ótimo e consegue despertar alguma empatia do público. Infelizmente, qualquer envolvimento logo se esvai diante do roteiro arrastado, que parte de uma boa premissa - denunciar a existência de grupos que lucram em cima dos milhares de acidentes de trânsito que ocorrem todos os anos, sobretudo na capital portenha. Quer estes acidentes aconteçam, quer não -, mas não chega a lugar algum.

Ainda que algumas notícias publicadas no Brasil deem conta de que a história atingiu a um enorme sucesso em seu país, motivando inclusive o congresso argentino a discutir mudanças na legislação de seguros a serem pagos para vítimas de acidentes automotivos, o roteiro deixa muito a desejar. Não bastasse o roteiro fraco, ou por isso mesmo, o filme acaba deixando a sensação de que se alonga demais e se perde em detalhes e digressões desnecessárias para a boa compreensão da história, ao mesmo tempo que não explica alguns fatos que despertam a curiosidade do espectador.

Há, lógico, bons momentos ao longo da trama, mas nada que chegue a justificar os últimos minutos, patéticos, e a impressão de que Trapero não sabia exatamente o que queria contar. Pena.

Seguindo as curvas de Santos (vídeo completo)

Gravação feita e editada com um celular pelo surfista trotamundo Carlos Leite, no último final de semana, em Santos, no litoral paulista, terra deste semifosco que vos escreve. Se interessar, leia três posts abaixo deste o texto "Carlos Leite vê Santos"

aparelho utilizado: Nokia E72

sábado, dezembro 18, 2010

As coisas simples da vida

Praia, surf, um bom prato, um livro e um filme às vezes são o bastante para nos fazer lembrar de que a vida é simples e que nós é que a complicamos. Em essência, além da companhia da pessoa certa, não precisariamos de muito mais que um trabalho socialmente relevante (com o valor atribuído pela própria pessoa, que é quem deve saber o que acha relevante) que nos permitisse pagar o aluguel e bancar alguns prazeres modestos.

Eu, por exemplo, estou convencido de que toda a variedade de restaurantes existentes em São Paulo e a sofisticação dos melhores lugares de Brasília não são capazes de me proporcionar o prazer, o deleite, que é comer uma legítima e simples comida caiçara.

Um feijão bem temperado, um arroz soltinho, fritas e um filé de peixe empanado ou cozido em postas é o bastante para satisfazer meus fetiches gastronômicos. Da mesma forma que, para mim, terno é coisa de segurança de shopping e sucesso profissional seria chegar ao trabalho de bermuda, tênis e camiseta, numa bicicleta. Pena que, para a maioria de nós mortais, garantir esse mínimo não seja algo assim tão simples, de forma que nos vemos obrigados a aceitar esta ridícula roda-viva.

É como na piada em que um empresário urbano vai à praia e, ao encontrar um pescador habilidoso, tenta convencê-lo a pescar mais, vender o excedente e, com o lucro, expandir suas atividades para ganhar cada vez mais dinheiro e, assim, poder ter uma aposentadoria tranquila, na praia...pescando. Impossível não ver o absurdo desta lógica, por mais que estejamos conscientes de que, nas sociedades capitalistas, é assim que se constrói o progresso, algo positivo, desde que não seja obtido em detrimento de outros valores.

Lógico que é bom provar outros sabores, conhecer outras pessoas, ver outras paisagens, mas, no fim das contas, voltar ao que considero trivial é o que me dá maior prazer. Pode parecer uma viagem sem sentido, mas almoçar no Restaurante Cooks, no SuperCentro Boqueirão, em Santos, é, além de um prazer, uma forma de confirmar que sou sou uma criatura litorânea e que, mais dia, menos dia, voltarei a morar na praia. Se em Santos, ainda melhor.

sexta-feira, dezembro 17, 2010

Sangue e risos arrancados a machetadas

"MACHETE NÃO MANDA MENSAGENS"
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O cara abaixo é Danny Trejo, ator já conhecido de quem assistiu a filmes como Um Drink no Inferno e A Balada do Pistoleiro.
E estas são, da esquerda para a direita, Jessica Alba, a garota problema Lindsay Lohan e Michelle Rodriguez

Quem conseguiria arrancar dinheiro dos judeus de Hollywood para produzir um filme em que o "latin lover" aparecesse se dando bem com as três enquanto arranca cabeças, tripas, olhos e miolos de traficantes e policiais corruptos usando, na maior parte do tempo, apenas um...machete (uma espécie de peixera).

Só mesmo seu primo, o diretor Robert Rodriguez, que também produziu e colaborou na criação da história do herói latino-americano, defensor dos mexicanos e demais latinos que tentam ingressar ilegalmente nos Estados Unidos, onde, quando conseguem, se tornam reserva de mão de obra barata e são perseguidos e discriminados. O filme conta ainda com as participações de Robert De Niro e Steven Seagal.

"Eu queria usar a imigração ilegal como pano de fundo para mostrar a verdadeira corrupção que acontece e que é difícil de enfrentar. Na verdade, é tão difícil que ninguém quer falar sobre isso ou se envolver no assunto. As pessoas falam sobre imigração, mas não falam sobre a corrupção que existe entre México e Estados Unidos", disse Rodriguez ao site Collider, aqui reproduzido pelo Omelete.

Terminou por fazer um filme do gênero "exploitation", ao qual já se associava o recente A Prova de Morte, de Quentin Tarantino. O exploitation foi um filão de grande sucesso comercial durante as décadas de 1960 e 1970 e, usualmente, é associado a filmes produzidos com pouca ou nenhuma preocupação em termos de qualidade ou de mérito artístico, mas com ampla publicidade. Recentemente, Tarantino e Rodriguez se propuseram a produzir filmes esteticamente parecidos com os exploitations como mero exercício estilístico.

Ao G1, Rodriguez disse que o longa não é uma crítica direta às políticas de imigração adotadas pelos EUA, embora acabe chamando atenção para o tema. “Tudo o que quis fazer foi um filme divertido, sexy e com grandes atores. Agora, se veem mensagens nele... Sim, há recados para todos. E tudo aberto a interpretações”, avisa.

Sou, portanto, alguém próximo do espectador idealizado por Rodriguez: não vi mensagem alguma no filme. Assisti ao filme com um balde de pipocas, certo de que Machete serviria apenas de entretenimento. Neste sentido, valeu o ingresso, embora não seja o tipo de filme que muitas pessoas vão gostar.


segunda-feira, dezembro 13, 2010

Olhos Azuis

O cineasta José Joffily (Dois Perdidos Numa Noite Suja) acertou a mão em seu mais recente filme, Olhos Azuis. A mistura bem dosada de drama, suspense policial e denúncia social, mais um elenco afinado, tem garantido elogios de crítica e público, além de prêmios, como os cinco conquistados no Festival de Paulínia do ano passado, incluindo o de melhor filme.

Segundo o diretor, a motivação para se debruçar sobre os constrangimentos porque passam alguns dos muitos estrangeiros que, legal ou ilegalmente, chegam aos Estados Unidos a trabalho, passeio ou por qualquer outro motivo, surgiu com o relato de um amigo submetido a um interrogatório de mais de 30 horas, ao fim das quais foi impedido de entrar em solo norteamericano e obrigado a retornar ao Brasil.

A trama acompanha o último dia de trabalho do responsável pelo Departamento de Imigração do Aeroporto JFK, em Nova Iorque - David Rasche (“Queime depois de ler”) - cujo alcoolismo reforça sua paranoia antiterrorista e xenofobia. Pós-11 de Setembro, o burocrata e seus dois subalternos – uma negra e um chicano-americano – decidem se divertir às custas de um grupo de estrangeiros escolhidos aleatoriamente para prestar informações sobre suas reais motivações.

Além de uma cubana que diz ser bailarina convidada para dançar em uma companhia local, de um grupo de supostos lutadores hondurenhos também convidados para participar de um torneio e de dois poetas argentinos em busca do reconhecimento, há um professor universitário brasileiro, o excelente ator Irandhir Santos (Tropa de Elite 2 e Quincas Berro D´Água), que há cinco anos vive legalmente nos Estados Unidos e que tem consigo toda a documentação necessária para retornar ao país após ter visitado sua filha, que continuava vivendo em Recife.

A meu ver, embora entregue o final previsível desde a primeira cena, Joffily acerta ao tentar – com sucesso – prender a atenção do espectador pelo absurdo da situação, deixando claro que a situação em algum momento fugirá ao controle, com consequências imprevisíveis para todos. E, a partir daí, contar uma segunda história, que é da tentativa do agente Marshall, o Olhos Azuis, de se redimir, o que o faz viajar aos grotões nordestinos na companhia de uma prostituta, vivida pela ótima, mas ainda pouco conhecida, Cristina Lago, que, em breve, estará nos cinemas na pele de outra prostituta, no filme Bruna Surfistinha.

O filme não é novo – foi lançado comercialmente no primeiro semestre deste ano e, acredito, já está disponível em DVD -, mas eu só o assisti neste último final de semana, no Cine Arte de Santos (R$ 3 a inteira).


domingo, dezembro 12, 2010

Carlos Leite vê Santos

De: Carlos Leite leiteempedra@ig.com.br
Assunto : Valeu!
Para: semifosco semifosco@blogspot.com
11 de dezembro de 2010 22:50


Salve, semifosco. Acabo de chegar em casa, em Brasília, e, pra variar, não foi fácil encontrar, no aeroporto, um taxista disposto a transportar minha prancha. Eu poderia estar trazendo drogas, armas ou até mesmo uma bomba presa ao corpo que nenhum deles suspeitaria de nada. Já a prancha provoca, de cara, as mais diversas reações.... Outro dia, após conseguir convencer um senhorzinho de que a prancha caberia perfeitamente no interior do carro, ele me perguntou se a pesca tinha sido boa rs,rs,rs,rs,rs,rs,rs

Quero te agradecer mais uma vez por ter me recebido na casa dos teus pais. E me desculpar por não ter te ajudado mais enquanto teu velho esteve no hospital. Confesso que me senti um pouco culpado porque, apesar da preocupação inicial com o coroa, me deixei convencer muito facilmente de que você e sua mãe não precisavam de ajuda e logo estava me divertindo pra kct enquanto meus anfitriões se revezavam no hospital cuidando de soro e bolsas de urina. Mas o importante é que ele está bem e, no fim, até você conseguiu pegar umas ondas.

Acho que depois desses 12 dias em Santos, consegui compreender um pouco melhor não apenas algumas das coisas que você já havia comentado como também a própria cidade. E admito que, apesar de algumas ressalvas, comecei a gostar dela. Por isso, torço para que seu pessimismo em relação ao futuro seja um exagero, ainda que até um ignorante como eu note que, como você disse, "a conta não fecha".

Para mim, acostumado que estou com as facilidades do Plano Piloto de Brasília e com as possibilidades de um emprego bem-remunerado, foi estranho ver seus amigos, mais velhos que eu, contando sobre as dificuldades de se arranjar, na cidade, um emprego que pague mais de R$ 1.2 mil, enquanto o custo de vida local se compara ao do Distrito Federal.

Qual não foi minha surpresa ao pagar R$ 2.50 para andar de ônibus se, aqui, há dois anos pagamos os mesmos R$ 2 (a menor tarifa). E olha que ao descer em São Paulo, eu gastei R$ 2.25 para ir do aeroporto ao Jabaquara e lá, além das distâncias percorridas serem maiores, tem a integração, que permite ao usuário apanhar outra condução, de graça, dentro de um certo período de tempo. E os R$ 3 cobrados por um coco?!?!?! Na Asa Norte, você sabe, dá para encontrar por R$ 2. E quando pensei em deixar de dar trabalho pra sua mãe e ir para um hotel, não encontrei nada por menos de R$ 140, sendo que nenhum deles oferecia nada que justificasse os preços cariocas (Daí eu ter continuado na pensão dos Rodrigues). Isso para não falar da, como você disse, "especulação imobilária" causada pela expectativa com o Pré-Sal. Ou do reajuste de 11% do IPTU, praticamente o dobro da inflação. Agora, te pergunto, os orgulhosos santistas não reclamam desses disparates? Como viver numa cidade classe média alta com os salários pagos atualmente? E isso para não falar dos seus conhecidos da Associação dos Moradores de Cortiços do Centro - aliás, conhecê-los foi uma grande lição de vida.

Mesmo assim, entendi que teu amor pela cidade não se deve apenas ao fato dali ser teu chão ou de tua história pessoal estar ligada a cada uma daquelas ruas e paisagens. Não bastasse isso, a cidade é, de fato, muito legal para se viver. Depois do terceiro dia pegando onda enquanto assistia, do mar, o sol se por detrás da Serra do Mar, com aquela enorme escultura da Lina Bo Bardi e a Ilha de Urubuqueçaba em primeiro plano, comecei a me perguntar como você conseguiu se adaptar tão bem a Brasília a ponto de estar voltando pra cá. A falta de melhor opção profissional não me parece o bastante? Ainda mais para um cara como você, que tem tão pouco a ver com o clima palaciano. Não à toa teus amigos riem quando você lhes diz que, agora, usa terno. Justo você, o caiçara que há apenas quatro anos comprou o primeiro celular, a primeira calça social, o primeiro terno e que resistia até mesmo a usar sapatos rs,rs,rs,rs,rs,rs

A sensação de deixar o mar no final de tarde, após duas ou três horas surfando, e voltar pra casa caminhando pela areia é algo indescritível e, brasiliense e surfista tardio, sinto como se a vida tivesse me negado algo. Assim como chegar ao jardim da praia e se deparar com um monte de gente caminhando, correndo, jogando bola e até nadando tarde da noite é algo estranho para quem cresceu acostumado às ruas vazias do Plano Piloto a noite. Não digo que seja melhou ou pior, mas percebo agora que estas são experiências determinantes na forma como vemos e lidamos com a realidade a nossa volta.

Bom, enfim, é isso. Adorei o bolinho de bacalhau do Toninho e o pf de arroz, feijão e pescada. A programação daquele cineminha do jardim da praia (R$ 3!!!) é ótimo e, de fato, a tão comentada roda de samba do Ouro Verde é divertidíssima, ainda mais por ser de graça. Tomara que a vizinhança não consiga acabar com ela e que se chegue a um acordo. A vista do alto do morro da asa delta é bonita pacas e ver o Neymar saindo tranquilamente do prédio em que mora, saudando a galera, foi algo bacana. E ainda confirmei o que você sempre me diz sobre a vida cultural santista ao saber que o genial Milo Manara tinha estado por lá poucos dias antes da minha chegada. Pô, Manara! Que eu saiba, o cara só passou por São Paulo e Rio de Janeiro. E pra não dizer que não falei de flores: ahhh! as santistas... Pena serem tão patricinhas.

Agora, as ondas podiam ser um pouco mais constantes, não acha?

Abraço, do seu amigo
Carlos Leite

segunda-feira, novembro 29, 2010

Plantão Médico

Sangue, fezes, urina, vômitos, lágrimas, a dor e o medo disfarçados. Eu já estava há quase 72 brutas horas acompanhando de dentro a rotina de um hospital público, em Santos (SP), sem que nada disso houvesse me tocado tanto quanto a melancolia de uma árvore de Natal montada no meio do corredor do centro cirúrgico hospitalar.
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Diante da árvore, do mural de recados com votos de boas-festas e dos penduricalhos na forma de sininhos e de botas enfeitando a porta de cada um dos quartos, senti um desamparo só comparável ao que senti quando, em junho deste ano, caminhava sozinho entre a multidão da Avenida Paulista, em São Paulo, poucas horas antes da seleção brasileira de futebol estrear na última Copa do Mundo.

Isso, pensei, com certeza foi idéia de algum funcionário bem-intencionado. Uma estratégia para "humanizar" o ambiente hospitalar. O que não foi levado em conta é que, naquele local, naquelas circunstâncias, a lembrança festiva servia para ampliar os efeitos do silêncio entrecortado por gemidos e lamúrias, dos cheiros e, principalmente, da suspeita de que o final do ano não é uma boa época para receber a visita indesejada.
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A visão da árvore de Natal hospitalar desencadeou em mim um daqueles instantes fugidios em que parecemos prestes a compreender algo a respeito do caráter inconcebível e insensato da realidade. Esse momento fugaz, contudo, passou. E se havia alguma lição a tirar dele, não fui esperto o bastante. Restou apenas a melancolia, uma vaga saudade de algo ainda não vivido. E o assombro pela confirmação de quão frágil é a vida.

quarta-feira, novembro 10, 2010

domingo, novembro 07, 2010

Atriz de Resident Evil é destaque de filme com De Niro e Edward Norton

Eu sabia! Após assistir aos quatro episódios de Resident Evil, filme baseado no famoso game de terror, eu sabia que a bela Milla Jovovich tinha algum talento. Apesar de que no primeiro filme em que a vi - O Quinto Elemento, de seu depois namorado Luc Besson – ela só fazia caretas, já na época eu desconfiei de que a ex-modelo não era de toda má e que tinha um pouco mais que um rosto bonito.
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Depois de demonstrar fôlego para viver Joana D´Arc e a já citada Alice, uma personagem cuja origem é nebulosa e que a cada novo Resident Evil agrega novos poderes, a ucraniana surpreende em Homens em Fúria, ao lado de dois dos melhores atores de duas gerações distintas: Robert De Niro e Edward Norton.

Dirigido por John Curran (de O Despertar de Uma Paixão), o filme mistura suspense e drama e eu me arrisco a classificá-lo como bom, ainda que sabendo que ele irá aborrecer a maior parte do público que pagar o ingresso atraído pelo péssimo título em português (o nome original é Stone, Rocha, referência à personagem de Norton, mas que também pode ser interpretado como uma metáfora à personagem de De Niro). Não se trata de um filme policial de ação. Embora a fúria esteja o tempo todo na iminência de irromper, há uma única cena de violência explícita, mas ela não é protagonizada por nenhum dos dois atores.

Enquanto De Niro está bem e Norton começa brilhantemente (detalhe para o sotaque e o maneirismo ao falar, principalmente em sua primeira cena) para perder o foco ao longo do filme, Milla surge quase irreconhecível com uma personagem que procura seduzir a todos sem deixar clara sua real motivação.

sábado, novembro 06, 2010

KS 10


Kelly Slater é 10! Dez vezes campeão mundial de surf. Um momento histórico para qualquer amante de esportes, qualquer que seja a modalidade. Aos 38 anos, o norte-americano garantiu o inigualável feito ao superar o brasileiro Adriano de Souza, o Mineirinho, nas quartas-de-final do Rip Curl Pro Search, encerrado hoje (6) em Porto Rico. Não tenho conhecimento de outro atleta de qualquer outro esporte que tenha obtido tantos títulos. Será que há?

Com o décimo título já em mãos, Slater chegou despreocupado à final da etapa disputada contra o australiano Bede Durbidge e simplesmente voou sobre as boas ondas da lotada praia de Middles. Com vários aéreos, inclusive um 360 sem as mãos, Slater obteve ao menos uma nota dez na final e faturou também o evento.

A dimensão do feito foi expresso de forma exagerada pela locutora da ESPN (que fez uma ótima transmissão do campeonato), que leu um texto divulgado hoje e que ainda não encontrei para checar sua autoria. "São dez os mandamentos. A mulher mais bonita é a nota dez. Beethoven não compôs uma, duas ou três sinfonias, mas sim dez. A obra de Slater agora também pode estar completa". Explicação: pode porque a discussão agora é se o floridiano irá abandonar o tour ou seguirá estendendo seu próprio recorde.

Ao sair do mar, Slater fez questão de dedicar a vitória ao havaiano Andy Irons, morto esta semana. Pelo título, Slater leva para casa um cheque de US$ 100 mil dólares, mais bônus (que devem ser polpudos) de seu patrocinador, a Quiksilver, que antes mesmo do final da etapa portoriquenha já exibia produtos com a logo KS10, numa grande sacada de marketing.
Além de ser o mais jovem surfista a levar o título mundial, com então 20 anos, Slater se mantém como o mais velho atleta a se sagrar rei do WCT. Agora, pense bem nos anos de 1992, 1994, 1995, 1996, 1997, 1998, 2005, 2006, 2008 e 2010. Slater estava faturando títulos.

quinta-feira, novembro 04, 2010

A Suprema Felicidade

O Rio de Janeiro era a capital federal e nós assistíamos a tudo com nosso olhar ingênuo. A Segunda Guerra Mundial nos parecia uma aventura de revistas em quadrinhos ou de filmes como os que assistíamos no cinema com papai e mamãe elegantemente vestidos. Era a época de ouro do rádio. Não sabíamos nada sobre a vida em Madureira do pipoqueiro que nos ensinava piadas infames, nem mesmo se ele era casado. Assim como não sabíamos nada sobre nossos pais e como logo deixaríamos de saber do destino de nosso melhor amigo (bastaria ele manifestar sua predileção por meninos para sumir de nossa história). Intuíamos que nossa `belle epóque´ não era real e que não iria durar muito quando iamos à zona ou quando um valentão nos batia na saída do colégio. Mas éramos jovens e aproveitávamos estas ocasiões longe da proteção familiar para nos darmos ao luxo de termos crises de identidade. Que não duravam muito, pois, milagrosamente, nestas circunstâncias nossa rua se tornava um Carnaval como a indicar que não havia então tristeza debaixo do sol dos trópicos. E assim seguíamos felizes em nossa inocência, ansiosos por nos livrarmos de nossa virgindade. Nossa tarefa era estudarmos e nos distinguirmos de nossos pais. Não queriamos parecer conservadores. Tínhamos pavor de que nos chamassem de reacionários. E por isso aderíamos a todos os ismos da moda. E buscávamos a originalidade. A maioria de nós almejava ser artista em um país majoritariamente analfabeto. E como bem notou alguém, era fácil falar de coisas belas de frente para o mar e de costas para a favela.

Só que então nos tiraram o status de capital nacional, as coisas começaram a sair dos trilhos, a Rádio Nacional foi perdendo prestígio, os filmes italianos perderam cartaz, os tempos mudaram, a violência grassou e por mais que nossa marra disfarce, nós também perdemos algo de nossa antiga bossa. O pipoqueiro então deixou Madureira e se instalou com mulher e dois filhos em um quarto e sala de Copacabana. A filha dele ingressou na faculdade pública graças ao sistema de cotas enquanto algumas universitárias outrora acima de quaisquer suspeitas passaram a fazer programas. As ruas se encheram de compactos carros populares, a Panair faliu, surgiram filas nos aeroportos, os negros se tornaram orgulhosos, a presidência da República foi ocupada por um operário semianalfabeto e por uma mulher que nunca soube se por no seu lugar e nós envelhecemos e perdemos relevância frente ao Capitão Nascimento e ao Dadinho. Já há inclusive quem diga que nossa arte se tornou absolutamente desnecessária.

quarta-feira, novembro 03, 2010

A morte do tri-campeão Andy Irons

Dentro d´água, deslizando sobre ondas, Andy Irons foi um gênio. Ponto.

Se você não sabia disso é porque, provavelmente, ainda não tinha ouvido falar do havaiano de 32 anos, tricampeão mundial de surf. E não há porque se recriminar. Há muita gente que talvez só tenha ouvido falar do maior astro do surf, o norte-americano Kelly Slater, quando este apareceu no programa do Luciano Huck. Ou em alguma revista de fofoca, como o ex-namorado da Gisele Bundchen. E olha que o cara é um dos maiores atletas de todos os tempos, estando prestes a conquistar seu décimo título mundial. Se NA TERRA DA MONOCULTURA FUTEBOLÍSTICA NEM MESMO O MAIOR ATLETA DO SÉCULO CHEGA A RECEBER O DESTAQUE QUE MERECE, é natural que um "mero" tricampeão mundial de surf fosse quase um desconhecido para os não iniciados (mesmo que os iniciados sejam milhares).

Esta manhã (4), contudo, Irons foi destaque em notíciários de todo o mundo. E, consequentemente, também do Brasil. Infelizmente, não por seu talento, relegado aos programas especializados em surf ou às transmissões de campeonatos via internet, mas sim por sua trágica e até agora inexplicável morte.

Imagino a correria nas redações dos grandes jornais impressos e televisivos. As notícias desencontradas chegando via agências de notícias internacionais e a galera sem saber exatamente de quem se tratava. E aí? Ligar para quem? Para o Galvão? Para o Bassan? Quem sabe para o Ceará? Alguém tem que dizer algo afinal o cara era um jovem bem-sucedido que superou uma história difícil e após um tempo distante dos campeonatos lutava para voltar ao topo e que, quando parecia prestes a conseguir isso, morre de modo misterioso.

Óbvio que em muitas das redações há ao menos um surfista, nem que seja um ex-surfista. Nestas, finalmente caras como Edinho Leite, hoje na ESPN, tiveram a mesma chance de mostrar competência que costuma ser dada a muito mané que só sabe falar de futebol, no máximo de vôlei ou fórmula 1, e diz ser Jornalista Esportivo, mesmo não sabendo distinguir um Minerinho de outro Mineirinho.

Sobre uma prancha, Andy Irons foi um gênio. Competitivo ao extremo, foi dos poucos que conseguiu atingir o topo durante à permanência de Slater nas competições. Fora d´água, era um sujeito aparentemente pacato, mas controverso como todo bom havaiano que surfa e que se sente na obrigação de defender e representar o templo sagrado das ondas, berço da prática de correr ondas, dos "haoles". O tamanho de seu talento pode agora ser notado nos muitos vídeos dele destroçando as ondas com um surf potente e radical e no espaço que a imprensa hoje decidiu dar a ele.

domingo, outubro 31, 2010

santos (SP), 9h do dia em que nosso próximo (a) mandatário (a) será eleito. É isso mesmo? Onde está a festa democrática, a militância, os santinhos? Um brasileiro que por acaso, após muito tempo fora, estivesse retornando ao país, chegando pelo Porto de Santos, demoraria para perceber que as eleições 2010 se encerram hoje (31). A impressão que se tem é que, no afã de coibir excessos e limitar o poder econômico, a Justiça Eleitoral terminou por desmotivar a maior participação do eleitor, que há não mais de dez anos tomava as ruas vestindo as cores de seu candidato e do partido com que mais se identificava.

sábado, outubro 30, 2010

Insolação resulta no filme mais chato dos últimos tempos

A capacidade de alguns artistas brasileiros de desperdiçarem tempo, talento e, o mais grave, dinheiro público para não dizer nada é impressionante e indica a eventual necessidade de uma revisão das leis de incentivo cultural.
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Se por um lado há os que acusam a atual política de renúncia fiscal de promover a "mercantilização" da produção cultural, com as empresas apoiando e patrocinando apenas obras e eventos capazes de atrair grandes públicos, há, evidentemente, um outro lado, graças ao qual os beneficiados pelas leis de incentivo podem simplesmente ignorar o público. Tanto faz que o filme não seja visto por ninguém mais que críticos e amigos dos envolvidos.
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Não sou grande conhecedor destes mecanismos, mas pensava nisso enquanto assistia ao filme "Insolação", de Felipe Hirsch e Daniela Thomas, mais uma destas obras pretensiosas que tentam transformar o hermetismo em arte e que conseguem nada além de aborrecer os espectadores.
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Quando entrei na pequena sala do Cine Arte, na orla da praia de Santos (SP), eu não sabia absolutamente nada sobre o filme. Nem mesmo que a história se passava em Brasília. Vendo o elenco de atores escalados (Simone Spoladore, Leonardo Medeiros, Maria Luisa Mendonça, Leandra Leal e o consagrado Paulo José) e o próprio nome de Hirsch, diretor de teatro consagrado (Sutil Companhia), imaginei que não podia ser algo ruim. Estrepei-me.
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Já não tenho mais paciência para este tipo de "obra autoral". Para mim, duas falas resumem bem o filme: "Você não sabe o que está acontecendo aqui" (da personagem de Simone Spoladore) e "Não aconteceu nada", de Paulo José. Também, o que esperar de "pessoas" que "confundem a sensação febril da insolação com o início delicado da paixão"....
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A única coisa que se salva é a fotografia e a opção por explorar a arquitetura modernista de Brasília sem localizar onde se passa a história, não mostrando em nenhum momento a qualquer dos pontos turísticos da capital.

quarta-feira, outubro 27, 2010

Topetudos Esquecidos - Stray Cats

Embora tenham nascido nos Estados Unidos, na década de 1960, Brian Setzer (guitarra), Lee Rocker (baixo) e James McDonnell (bateria) amavam Eddie Cochran, Carl Perkins e Jerry Lee Lewis, ícones precursores do rock´n´roll feito por brancos, lá nos idos de 1950.


Ainda que tenham chegado aos palcos com quase 30 anos de atraso, numa época em que o estilo que mais os interessava – o rockabilly - já não possuía qualquer atrativo comercial, os três não tiveram vergonha de se apropriar dos topetes, ternos e da musicalidade imortalizada por seus ídolos para conseguir a atenção da mídia, das novas gerações e de alguns saudosistas da picardia e da sonoridade “perdida” em meio à lisergia dos anos 60.

Juntos, eles formaram a Stray Cats (clique aqui para ouvir o cd The Best Of...). Não encontrando boa receptividade nos Estados Unidos, os três se mudaram para a Inglaterra, onde, em 1981, já haviam conquistando suficiente número de fans e receberem um convite para gravarem seu primeiro disco. A partir daí, foi questão de tempo para que os Stray Cats voltassem a se apresentar em seu próprio país. De volta aos Estados Unidos, contaram com o providencial surgimento de um novo veículo e do aprimoramento técnico de uma então incipiente linguagem artística: a MTV e os videoclips.

Apesar dos três (principalmente Lee Rocker) serem excelentes músicos, a energia da banda aos poucos foi se extinguindo e o resultado final do trabalho começou a soar engessado, repetitivo. Hoje, embora a banda continue contando com um site oficial, cada integrante tem sua carreira solo e agenda de shows própria.
O irônico é que, assistindo hoje aos clipes da banda, chega-se à conclusão de que o visual retrô dos Cats não consegue ser tão estranho nem tão irônico quanto os modelitos e os cortes usados pela parcela do público vestido conforme à moda dos anos 80.

sábado, outubro 23, 2010

Weslian Roriz - A nova musa da MPB

O Brasil há muito tempo tem demonstrado ser solo fértil para o surgimento de grandes vozes femininas. Outrora marginalizadas, as cantoras tem dominado as paradas de sucesso nas últimas décadas e novas candidatas à musa da vez não deixam de surgir, saltando das redes sociais para as páginas dos cadernos culturais quase todos os dias.

A última grande revelação feminina a arejar o mercado fonográfico vem do Centro-Oeste, mais precisamente do Distrito Federal. Embora não seja exatamente uma "garotinha" - pois demorou um longo tempo apurando seu estilo até que seu marido, o ex-senador ficha-suja Joaquim Roriz a convencesse de que ela estava pronta para encarar o público - Dona Weslian Roriz é detentora de uma musicalidade moderna, mesclando elementos da sonoridade tradicional da região centro-oeste à música eletrônica.

Cool, mas sem afetação, Weslian é a prova de que o público brasileiro está ávido por artistas com personalidade própria e responsáveis perante a Arte. E de que a característica de opinar sobre assuntos polêmicos e antever a direção que o vento vai tomar amanhã é natural de quem se propõe a ocupar o papel de "antena da raça".
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Biscoito fino para as massas, Weslian é o novo Ídolo do Brasil. Foi só a música "Eu Quero Defender Toda Aquela Corrupção" vazar na internet para ela se tornar febre em todo o país, tocando das festas mais bombadas do Jurerê Internacional às carrapetas de Belém.



E confirmando que Dona Weslian não é apenas só mais um rostinho bonito a contar com as benesses de um marido rico e produtores competentes (Dino Mars e Faroff), ela já emplacou um segundo hit no You Tube, As Laranja, bem-humorada crítica que conta com diversas participações especiais, incluindo Tiririca, candidato a deputado federal mais votado nas últimas eleições.

sábado, outubro 16, 2010

Diálogos com Jean Plantu

Em exposição no Sesc Consolação, em São Paulo (SP), até o próximo dia 30, a mostra Diálogos com Jean Plantu reúne charges do francês Plantu as dos brasileiros Angeli, Chico Caruso e Loredano, estabelecendo uma espécie de diálogo entre os quatro chargistas. A exposição é parte do projeto São Paulo Polo de Arte Contemporânea, que integra à 29ª Bienal de São Paulo, e está aberta à visitação de segunda a sexta-feira, das 10h às 22h, e aos sábados e feriados, das 9h às 18h. (R. Dr. Vila Nova, 245 - Vila Buarque).
(impressionante o que se pode fazer com um celular moderno)

Francisco Alambert - curador da exposição

O chargista francês Plantu (Jean Plantureux) é um homem do mundo, um realista curioso. Mesmo que seu mundo seja a França, ele gosta muito de desenhar o que se passa em outras partes (o que vem fazendo desde 1972 no jornal Le Monde). "Sou totalmente dependente da realidade", já disse ele. Só que por mais realista que seja, a utopia não lhe escapa.

Plantu acredita na força da imagem esclarecedora e na entrega total do desenhista, como artista e como militante. Seu traço é definido pela crença no poder de fogo da representação. Seu gesto pode ser poético e divagante ou afirmativamente decidido. Crítica sem rancor e leveza sem pieguice: esse poderia ser seu lema.

Seus temas centrais poderiam ser resumidos assim: a Justiça para (e no) o Terceiro Mundo, a crítica geral do racismo e do preconceito (sobretudo religioso), a busca da verdade na política e a defesa dos direitos humanos. Uma moral social-democrata e republicana, muito francesa, que a própria França nem sempre seguiu.

Se a política é o terrorismo das convenções, a charge é o seu desvelamento e, por isso, é uma forma de guerrilha contra o poder. Isto porque a política não teme o ridículo (que é sua profissão de fé), mas teme muito a sua representação. Um político como Jean Marie Le Pen, o líder da extrema direita francesa, não vive sem exprimir seu racismo odioso, mas sempre se incomodou com o fato de Plantu desenhá-lo como algo próximo a um nazista. Isso porque ele quer ser entendido como um nazista à francesa, mas não quer ser mostrado como tal.

O que a arte de Plantu faz é coincidir expressão com representação. Ele não faz caricatura: ele dá conteúdo à imagem. A grande charge política é sempre uma crítica ao cinismo.

sexta-feira, outubro 15, 2010

Notas sobre um velho safado

Charles Bukowski

Tempos atrás eu tentei reler Kerouack. Além do On The Road (Pé Na Estrada - que está sendo adaptado para o cinema pelo brasileiro Walter Salles), não deu. Aí então eu tentei voltar a Hermann Hesse. Também não rolou. "Quem sabe André Gide... Os Subterrâneos do Vaticano ou mesmo o Frutos da Terra", pensei? Qual o quê. Emperrei na nona ou décima página do segundo.

Há livros, autores, filmes e diretores aos quais não devemos retornar sob pena de nos desapontarmos não pela qualidade da obra, mas por ela já não nos arrebatar como no primeiro contato. Em alguns casos, óbvio, o problema é mesmo com a qualidade, já que, com o acúmulo, estabelecemos parâmetros e nos tornamos mais exigentes. Não foi isso, no entanto, o que sucedeu entre mim e os autores citados.

O que aconteceu é que, para mim, os escritores acima parecem ter perdido o viço. Tentar reler um de seus livros, mesmo um que tenha marcado minha adolescência, como O Lobo da Estepe, do Hesse, foi como almoçar com uma ex-namorada e descobrir que, apesar de bonita, sua presença já não me diz muita coisa. E há casos em que nem mesmo um encontro fortuito para verificar os efeitos do tempo que passou me interessa.

Estou certo de que, hoje, não riria tanto quanto da primeira vez que li a O Grande Mentecapto, do Fernando Sabino, ou mesmo a Feliz Ano Velho, do Marcelo Rubens Paiva. E de que os livros do hoje deputado Fernando Gabeira, que por algum tempo me inspiraram o desejo de viajar e ver o que se passava em outras terras, na melhor das hipóteses me causariam uma brutal indiferença. Justo o Gabeira que ao retornar do exílio arrebatou a uma penca de leitores jovens com suas observações a respeito da política, do regime militar, luta armada, desbunde, contracultura, drogas, sexo livre e do então incipiente movimento ambientalista que começava a ganhar corpo nos países desenvolvidos.

É inevitável. Há obras que, apesar de longevas, parecem estar cincunscrita ao públ
ico de uma determinada fase ou classe social. Não me ocorre agora exemplos de bons autores consumidos exclusivamente por jovens, mas no caso dos livros, lembro de O Apanhador no Campo dos Centeios, As Aventuras de Tom Sayer e Revolução dos Bichos e 1984 como casos cuja leitura parece ser quase que obrigatória entre adolescentes que descobrem o prazer da cultura.

Apesar de tudo isso, imagino que todos tenham ao menos um autor, um diretor, um músico ao qual podem voltar frequentemente a fim de reencontrar-se não apenas com a obra, mas com algo entre o que eram e o que se tornaram graças a um acúmulo de experiências do qual a própria obra faz parte. Para mim, este cara é Charles Bukowski (Alemanha, 1920 – EUA, 1994).

Pode até soar estranho que eu diga isso do autor de livros entitulados "Notas de Um Velho Safado", "Ereções, Ejaculações e Exibicionismo" ou "A Mulher Mais Linda da Cidade", mas é verdade. Não há nada de Hesse que eu releia com o prazer de uma frase de Bukowski como "Deus é um anzol a nossa espreita". E o bom é que como no Brasil sua obra demorou muito para ser levada a sério, desde sua morte por pneumonia, em 1994, não param de surgir novidades suas.

Comparado a Henry Miller e a Ernest Hemingway e apontado como o último autor beatnik - movimento do qual o já citado Kerouack é o simbolo máximo, formando a tríade sagrada junto a Allen Ginsberg e Willian Burroughs - Bukowski faz parecer fácil escrever. Seus textos soam autobiográficos, se amparam em muitas experiências de uma vida errática de quem teve que trabalhar como carteiro, catador de uvas e se sujeitar a toda sorte de subemprego, para mostrar o outro lado do American Way of Life.

Mesmo que muitos só percebam seu humor negro e considerem seu estilo irremediavelmente tosco, a mim Bukowski demonstra ter um olhar apurado para as questões sociais e comportamentais. Até hoje, quando leio notícias sobre algum jovem norte-americano que decidiu descarregar todo o pente de uma arma semi-automática no pático escolar, lembro de Bukowski contando o quanto ele quando criança sofria com o que apelidou de Síndrome do Pátio, primeiro sintoma do modelo de estímulo à concorrência de um contra todos que marcará a vida de uma Nação individualista e egocêntrica.

Morto aos 73 anos, na Califórnia, o velho Buck teve uma vida de muitos excessos, sempre tentando conciliar as ressacas e o relógio de ponto com a literatura e as mulheres. Escreveu quase 50 livros de crônicas, poesia e romances além de ter colaborado com jornais alternativos. Teve ao menos uma filha reconhecida. Há dois filmes inspirados em sua obra, mas nenhum é lá grande coisa: Barfly (tradução: mosca de bar), com Mickey Rourke e Faye Dunaway, e Factótum, com Matt Dilon. Bukowski parecia não se levar a sério. E por isso mesmo eu diria que, em dias como estes, isso é absolutamente imprescindível.

quarta-feira, outubro 13, 2010

Aos amigos que ainda acreditam na Veja


"Existem duas formas de tentar intimidar a imprensa: uma é vindo a público e colocando de forma infeliz uma série de críticas, outra é aquela que, de forma velada, tenta agredir jornalistas, pedir cabeça de jornalista, o que dá na mesma, porque o respeito pela democracia e pela liberdade de imprensa é permitir que a informação circule. Durante a campanha eu tenho ouvido relatos sobre momentos em que, quando são feitas perguntas que não são consideradas agradáveis, há uma atitude de intimidação dos jornalistas".
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Da candidata à Presidência da República, Marina Silva, equiparando a pouco conhecida faceta do candidato tucano, José Serra, a tão criticada "postura autoritária e intervencionista" do PT, acusado de, entre outras coisas, ameaçar a liberdade de imprensa. Acho desnecessário qualquer outro comentário à matéria e aos vídeos abaixo.

Serra se irrita com pergunta sobre ex-diretor da Dersa
Ao ser questionado sobre Paulo Preto, candidato diz que assunto é "pauta petista" e abandona entrevista

13/10/2010 18:47
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O presidenciável tucano José Serra irritou-se nesta quarta-feira em Porto Alegre (RS) ao ser questionado sobre a denúncia contra o ex-diretor da Dersa, Paulo Vieira Souza, conhecido como Paulo Preto, que teria desviado R$ 4 milhões da campanha do PSDB.

Primeiro, Serra classificou de "preconceito odiento" a forma como o jornalista se referiu ao ex-diretor, como Paulo Preto, e afirmou que o preconceito estava "embutido na pergunta". Em seguida, o presidenciável disse que o assunto faz parte da "pauta petista”.

Depois, Serra perguntou ao repórter para qual veículo de comunicação ele trabalhava. Ao ouvir que o profissional era do jornal Valor Econômico, Serra afirmou que o jornal não se interessava pelo o que estava acontecendo na Casa Civil e que “faz manchetes para o PT botar no horário eleitoral”.

Quando o repórter do Valor Econômico rebateu dizendo que as afirmações eram preconceito da parte dele, Serra decidiu encerrar a entrevista coletiva e deixou o local.

No último domingo, a presidenciável petista Dilma Rousseff usou a denúncia sobre o ex-diretor para atacar Serra no debate organizado pela TV Bandeirantes. Ontem, em Aparecida, Serra defendeu Paulo Souza e negou que tenha havido desvio de verbas de sua campanha. Antes disso, Serra havia negado conhecer Paulo Souza.
A série de "mal-entendidos" do candidato












terça-feira, outubro 12, 2010

Reencontrando Carlos Leite

Como é bom rever os amigos.
Em especial quem compartilha comigo a paixão por praias, viagens e pelo surf, caso do meu brother Carlos Leite. Não nos víamos desde que me mudei para São Paulo, há pouco mais de quatro meses. Neste meio tempo eu já retornei várias vezes à capital federal, mas ele sempre estava em meio a uma de suas expedições em busca da onda perfeita (que ele já sabe que não existe) ou então numa viagem às custas de um trabalho maluco qualquer.

Desta vez eu o avisei previamente e ele me garantiu que estaria na cidade, de forma que eu não esperava menos do que ele de fato fez, ou seja, que ele fosse me encontrar no aeroporto. E ele foi. De ônibus. E ficou lá, com sua cara de pau, me aguardando com um papelão onde se lia "seme-fosco".

"Seu analfabeto! É semi. Com i. Semifosco", eu disse enquanto o abraçava efusivamente. O bronco me pareceu mais forte. Ou então fui eu que emagreci com a correria da paulicéia desvairada.

"Não tão te dando o que comer, não, ô semifosco? Tô te achando pálido, hein, rapaz!", provocou o prego, passando um dos braços em torno do meu ombro e fingindo querer me dar um golpe. Deixei cair no chão a blusa que tirei tão logo sai do avião e pensei para que merda eu havia trazido aquele volume desnecessário. O relógio marcava 32 graus e eu tive vontade de ir ao banheiro trocar a calça por uma bermuda.

Olhei o céu enquanto caminhávamos para o ponto de ônibus e falei baixo, "depois de saber que ele está aí em cima você passa a dar um valor enorme para isso. E depois que está habituado você passa a sentir a falta quando não o vê". Leite pareceu não entender, mas riu como se estivesse chapado. Na verdade, ele me pareceu estar chapado.

A caminho da casa da minha namorada meu corpo foi acusando o efeito do sol, do ar mais puro, da claridade. Era como se cada músculo meu passasse por um descompressão. "E aí? O que veio fazer nesta terra desolada pela seca?", perguntou Leite querendo tirar uma onda ao perceber minha reação ao ritmo particular da cidade. De fato, a vegetação do Cerrado ainda não havia se recuperado da severa seca deste ano, mas bastou as primeiras chuvas cairem para o verde começar a ressurgir. E também para que as cigarras dessem o ar da sua graça. A cidade, como todos os anos, parecia pulsar no ritmo do canto das cigarras.

"Ué! Eu ainda tenho uma garota aqui", respondi. "E eu tinha quatro dias de folga e a previsão era de chuva e frio em São Paulo e litoral e, pior, sem ondas". Rimos os dois, lembrando de nossas conversas anteriores - Não queremos ser profissionais ou ases do surf. Queremos apenas nos divertir. Portanto, sol, água quente e ondas nem muito pequenas, nem muito grandes para nós. "Atualmente, de fria já me basta a rotina", completei.

Para comemorar o reencontro, assaltei duas cervejas do que seria minha própria geladeira caso ela não estivesse no que hoje é a casa da minha namorada (isso é uma outra história). Saquei da bolsa dois novos vídeos de surf (The Drifter e The September Sessions) para a minha dvdteca que permanece em Brasília junto com todos os meus livros e cds e colocamos a conversa em dia enquanto admiravamos Rob Machado, Kelly Slater, Luge Egan, Brad Gerlach e outros deslizando, entubando e voando sobre ondas de sonho na Indonésia. E enquanto isso Leite ia me pondo a par dos últimos fatos.

Quem vai ser pai. Quem vai ser mãe. Quem está saindo com quem. As últimas piadas e a vergonha decorrente de a candidata ao governo Weslian Roriz ter passado para o segundo turno. O medo de quem ocupa cargo comissionado na esfera federal de perder a boquinha. As festas que aconteceriam no sábado, uma no Conic (Frenéticas), outra na Velvet (Bizarre Love Triangle). Os shows. E, principalmente, suas últimas e próximas viagens. E então seus olhos brilharam, seu rosto se transfigurou e ele deu um salto. "Véio! Você tem que quer meu quiver novo", agitou-se. "Quiver?!?! Você agora tem um quiver?", ironizei. "YEAH! Euagoratenhoumquiver. E vou testar meus foguetinhos na semana que vem, em Floripa. Uma semana pegando onda em Florianópolis".

Rapaz, é em momentos como este que você entende o sentido do termo inveja incontida. Senti um despeito profundo por aquele prego, aquele calango do Cerrado a quem eu mesmo havia incentivado a começar a pegar onda e que agora dizia ter não uma ou duas pranchas, mas sim várias. "Uma para cada tipo de onda que eu espero encontrar em Floripa e no litoral Norte de São Paulo, onde devo passar outra semana", arrematou Leite já me puxando pelo braço para irmos a sua casa ver as pranchas novas, esculpidas por um shaper carioca para quem Leite fez o servicinho de contrabandear parte da fibra usada na confecção de pranchas.

As pranchas de fato eram bacanas. Quatro triquilhas brancas, variando entre uma 5'11 e uma 6'4, sendo duas fish e duas round-pin. Dignas de serem levadas para a cama durante a noite. A beleza da proporcionalidade entre a espessura, a largura e as curvas me fez sentir algo como despeito. Pra que diachos esse cara precisa de cinco pranchas (pois ele mantinha a antiga, que chamava de Geniosa) morando em Brasília se eu que estou vivendo a pouco mais de 80 quilômetros da praia não peguei onda uma única vez nestes últimos meses.

E, então, algo clareou a minha frente. Dei-me conta de algo que ainda não havia notado, algo inexorável: eu já não surfava há pelo menos oito ou nove meses. Sendo que, há quatro meses, esta tinha sido uma das razões de maior peso na hora de aceitar me transferir para São Paulo. Desde então, nem surf, nem skate, nem academia, nem estudo, nem nada que não trabalho. Além disso, tirando meu companheiro de apartamento, vi muito pouco meus amigos de São Paulo. A maior parte do tempo, ou quase todo ele, eu passei foi trabalhando. De forma que devo ter olhado para Carlos Leite com uma expressão de desalento.
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Fiquei mais uma meia hora conversando com Leite sobre sua ida para Floripa na semana que vem e então voltei pra casa da minha namorada. Voltei a pé, pensando em todas aquelas pessoas que as cinco e meia da tarde faziam cooper ou uma caminhada após um provável dia de trabalho. Liguei para minha namorada, pedi (sem dar muita bandeira) para que não demorasse e sugeri um cinema para mais tarde. Enviei um e-mail confirmando minha presença no futebol de todos os sábados. E então sai para correr em meio à sinfonia das cigarras. O resto da história se resume a uma personagem refletindo durante os três dias seguintes, mas para bom entendedor...a parábola do surfista prego brasiliense ajuda a entender porque se diz que a onda do vizinho nos parece sempre mais verde e tubular. Mesmo que ela esteja quebrando em meio ao Planalto Central.

sábado, outubro 09, 2010

A capital de Nicolas Behr

São Paulo, 08/10/2010, 10 horas, 22 graus

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Brasília, 08/10/2010, 15 horas, 31 graus

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desço aos infernos

pelas escadas rolantes

da rodoviária de Brasília

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duas asas partidas

duas pistas falsas

dois traços invisíveis

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blocos melancólicos

supequadras sem superegos

eixos se retorcendo

monumentos em agonia

gramados deprimidos

linhas suicidas

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a cidade é isso mesmo que você está vendo

mesmo que você não esteja vendo nada

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anunciaram a utopia

mas foi Brasília que apareceu

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a incapacidade do contato afetivo

entre a laje e o concreto

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merda de cidade

bosta de cidade

porcaria de cidade

Amo esta cidade


* (colagem com trechos de vários poemas do poeta brasiliense Nicolas Behr)