sábado, abril 28, 2012

Falta Raul


Atenção. Nenhum animal foi ferido durantes as filmagens de Raul - O Início, O Fim E O Meio. Já a sutileza ou a sensibilidade de algumas pessoas, sobretudo das mulheres que viveram com Raulzito... 

Exagero? Pode ser. Mesmo porque o documentário de Walter Carvalho não é ruim, anti-ético ou coisa parecida, apesar de apelações como a de refilmar os passos da ex-empregada do compositor em sua volta ao apartamento onde ela o encontrou morto, em 1989.

A questão, pra mim (e, sendo eu o dono deste blog, posso me dar ao luxo de escrever meramente a partir da minha subjetividade), é que deixei o cinema não com  interesse  redobrado pela história já muito conhecida de Raul, mas sim com a impressão de que, para muitos dos entrevistados, principalmente para as ex-mulheres e filhas do cantor e compositor, falar sobre Raul parece ter sido muito dolorido. Não por acaso, todas - sim, todas - em algum momento choram (e, na maioria dos casos, vê-se que é um choro dolorido e aparentemente almejado pela produção). Uma inclusive se nega a dar seu depoimento, limitando-se a dizer que este é um capítulo encerrado em sua vida, sobre o qual não fala, e que está muito bem assim. 

O último parceiro de Raul, o ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, Marcelo Nova, também é envolvido em uma polêmica que - de novo, EU ACHO -, apesar de questionável, é a única novidade em termos de informação (não considerando, óbvio, as imagens inéditas ou pouco conhecidas de Raul, grande razão de ser de uma cinebiografia). 

E aqui entro com mais uma nota pessoal a justificar MINHA IMPRESSÃO. Eu tinha a fita K-7 de A Panela do Diabo, disco que os dois gravaram juntos e que se tornou o último registro de Raul. Jamais passou pela minha cabeça a possibilidade de que Nova tivesse se aproveitado de Raul e nunca tinha visto ninguém sequer sugerir isso publicamente. Até porque, como mostrado no próprio documentário, na época em que se reuniram, Nova estava no auge de sua popularidade, ao passo que Raul, doente, embora idolatrado pelos raulmaníacos, há quatro anos não subia num palco. Isso era perceptível quando se ouvia o disco. Assim como a admiração de Nova por Raul ficava clara nas entrevistas que os dois concederam juntos. 

Gostaria de ter ouvido mais histórias de Nova sobre as últimas apresentações de Raul e, principalmente, saber dele se é verdade que Panela do Diabo chegou às lojas no dia em que Raul morreu. Gostaria de saber o que Zé Ramalho e Tom Zé disseram, já que nada deles foi ao ar, em detrimento de cenas completamente dispensáveis (Pedro Bial declamando!?!?!). Enfim, gostaria de saber mais sobre o artista Raul e menos sobre o "homem, companheiro, pai, alcoólatra". Só Walter, sua equipe e, parcialmente, os entrevistados, contudo, sabem o que ficou de fora na hora da edição, a forma como as entrevistas foram conduzidas e porque de tal opção.

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O MAIOR ESPETÁCULO DA TERRA

Se o mundo de fato acabar no próximo dia 27 de agosto - como crêem os que citam determinada profecia - o dia 27 de agosto de 2011 terá sido um prenúncio ou uma mera coincidência? - Crendices à parte, o documentário Red Code, da Billabong, exibe uma das ondulações mais absurdas já surfadas em Teahupoo, no Tahiti. Ondas gigantescas que, por acaso, quebraram num dia 27 de agosto. E que produziram cenas impressionantes de homens desafiando a morte, que os espreita a não mais que um metro de profundidade, na forma de afiadissimos corais - o que fica patente aos 1:52 do vídeo, quando uma tomada aérea e a água translúcida deixam óbvio o porque de, na língua local, a temida onda ser apropriadamente chamada de "crânio quebrado", um palco para poucos seres humanos, totalmente insanos. Pena não haver ainda uma versão legendada do documentário.

sexta-feira, abril 27, 2012

"Em cima dos telhados, tocam música urbana"

Quarenta e três anos de rock´n´roll no telhado.

Em 1969, os Quatro de Liverpool foram os primeiros roqueiros a tocar no alto de um prédio, no caso, o da gravadora Apple...



Em 2009, foi a vez dos irlandeses do U2 pararem o trânsito para gravarem um vídeo que enche a qualquer um da fantasia de tocar numa banda



No ano passado, foram os RED HOT ChILI PEPPERS que decidiram subir ao telhado e presentear os frequentadores da mítica e louca praia de Venice, na Califórnia, com uma apresentação-relâmpago registrada em um dos vídeos mais legais de 2011. 



O OASIS também gravou um video-clip na King´s Cross, Supersonic, mas, ao contrário das outras bandas, usou o telhado como mera locação e não como palco de onde se apresentar ao público
 

Zé Peixe


Morreu ontem (26) (e já se tornou item da Wikipedia), um famoso personagem da náutica brasileira. O prático sergipano Zé Peixe, que exercia a profissão desde os 14 anos. Peixe ficou famoso por dispensar botes e apoio, nadar até os enormes navios transatlânticos e depois saltar deles direto para o mar, mesmo quando já tinha idade para se aposentar. Zé Peixe morreu aos 85 anos e deixou para trás uma história provavelmente inédita no mundo de maluquice e coragem. (fonte:sobreasaguas.blog.uol.com.brsobreasaguas.blog.uol.com.br)

Anderson Silva golpeia Globo



O lutador de MMA Anderson Silva decidiu aceitar a oferta (leia-se a proposta financeira) para enfrentar seu próximo adversário, Chael Sonnen, na capital das apostas, a cidade norte-americana de Las Vegas, ao invés de lutar no Rio de Janeiro, conforme inicialmente previsto. 

E daí? Daí que a decisão de Silva é uma rasteira na Rede Globo. Dona dos milionários direitos de transmissão do campeonato UFC para a tv aberta brasileira, a emissora apostava faturar alto com o combate, válido pelo título de campeão mundial dos pesos-médios e vendido como uma das maiores rivalidades esportivas da atualidade. Tomou um chute de seu mais recente queridinho.

Silva também contrariou os interesses da IMX, empresa de Eike Batista, parceira do UFC no Brasil e responsável por promover a luta no país. Falta saber se Ronaldo Nazário, atual membro do Comitê Organizador Local da Copa 2014 e aspirante à presidência da CBF, ficou contente ou frustrado com a decisão de um dos principais atletas agenciados por sua empresa de marketing esportivo.

Será o fim da lua-de-mel entre Globo e Anderson Silva e da exploração inconsequente da selvageria arbitrada pela emissora? Se bem conhecemos a Vênus Platinada, não será de estranhar que Silva nunca mais volte a botar os pés no Projac. Daí que, sem a presença do mais carismático lutador brasileiro, Ana Maria Braga, Serginho Groisman, Fantástico, Esporte Espetacular, etc  tenham que restringir a exposição das lutas as suas devidas proporções, de maneira isenta. 

Coincidentemente, esta isenção já havia sido exibida por ao menos um programa jornalístico da Globo. Na última terça-feira (22), o "Profissão Repórter" levou ao ar uma tentativa de humanizar os lutadores de MMA, vendidos pela própria emissora, como bem lembrou o UOL Esportes, como os "gladiadores do terceiro milênio". Segundo a imprensa, a atração irritou Silva, apresentado como um cara marrento. O episódio acabou ironizado na rede.


quinta-feira, abril 26, 2012

17:50


Luz perpendicular sobre o eixinho. 
Claro átimo de espanto 
- antes olfativo e sonoro -
impacta metálico a epiderme 
                           os músculos 
                                 os ossos 
a sensibilidade dos pedestres 
abduzidos à indiferença por minutos-vivazes 
instantes-limites
solidariedade fugaz. 

Cerrada a porta, 
acesa a sirene que corta as veias congestionadas,
tudo o que resta são os pedestres e sua indiferença.
(os motoristas? São passageiros)


(foto de Anderson Schneider publicada em série de matérias da revista Época por ocasião dos 50 anos de Brasília)

quarta-feira, abril 25, 2012

Notas cinematográficas

Lisbeth Salander é a heroína-síntese destes nossos tempos de Wikileaks. Filha de uma família disfuncional, ex-interna de uma instituíção de recuperação e vítima, quando criança, de abuso sexual e da ação de agentes públicos corruptos e pervertidos, a hacker "capaz de desencavar as informações mais obscuras" se tornou uma pessoa cética, revoltada e anti-social. Bissexual e com um visual andrógino e punk, a personagem de 24 anos criada por Stieg Larsson para a série Millenium é contraditória, egoísta, frágil e independente, mas ai de quem agredir ou ameaçar uma mulher. Aí ela é simplesmente fodona. Algumas locadoras se anteciparam e obtiveram cópias piratas do segundo episódio da trilogia sueca, A Menina Que Brincava Com Fogo. Não tem o clima noir do primeiro, Os Homens Que Não Amavam as Mulheres, e Salander praticamente não contracena com o jornalista Mikael Blomkvist, mas a trama da intrincada investigação de um esquema de prostituição internacional é tão envolvente quanto a do primeiro filme sueco - adaptado às pressas por Hollywood. Leia: Por que amamos tanto Lisbeth Salander
E o novo filme de Johnny Depp, Diários de Um Jornalista Bêbado? Alguém será capaz de, dois dias após tê-lo assistido, dizer do que trata a história? Da luta contra o alcoolismo (dirão os caretas)? Da resistência à especulação imobiliária (dirão os idealistas)? Da ingerência norte-americana na América Central (dirão os politizados)?De amor (dirão os românticos que não souberem nada sobre Hunter Thompson, o norte-americano que ficou conhecido como o inventor desta fajutice chamada jornalismo gonzo)? Do retrato do artista (?) quando jovem incompreendido em busca de se expressar (filmes assim devem ter um efeito catártico sobre a maioria, que acredita que lutar contra a mediocridade é exclusividade dos artistas doidões)? Medo e Delírio em Las Vegas, primeira tentativa do mesmo Johnny Depp de levar a obra de Thompson para as telas, ao menos tinha momentos engraçados e outros de puro nonsense. Já este...filme vazio, fadado ao esquecimento. Leva ao menos uns vinte minutos para que o espectador se identifique e começe a simpatizar com um personagem. E não é com o de Depp, mas sim com o fotógrafo Sal.
Ainda é cedo para falar (e também não muito importante), mas Xingu talvez seja o filme certo para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro. Um filme oportuníssimo dirigido com sensibilidade por Cao Hamburguer. Questão indígena, conflito agrário, preservação ambiental, Amazônia, política...tudo isso servindo como pano de fundo para uma história humana de despreendimento e aventura das mais cativantes, com a qual plateias de qualquer parte podem se identificar. E ainda por cima com direito à críticas sutis ao Pará e ao Mato Grosso (agora, do Sul).

segunda-feira, abril 23, 2012

Brasília: 52 anos


21 de abril de 2012. Esplanada dos Ministérios. Brasília. Distrito Federal. 

Até Paulo Freire compareceu para protestar contra a corrupção e por mais investimentos na Educação. À 3ª Marcha Contra a Corrupção se juntaram pessoas que estavam por ali, visitando a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, assistindo ao campeonato de balonismo, à prova de atletismo, o campeonato de vôlei de praia (!) ou simplesmente passeando pela Esplanada. Lugar que quem não conhece a realidade local insiste em dizer não concentrar "povo". Tudo isso sob este céu pelo qual Brasil é internacionalmente reconhecida.

"povo também são os sifilíticos / não só atletas e políticos / povo são as bichas, putas e artistas / e não só os escoteiros e heróis de falsas lutas, / são as costureiras e dondocas / e os carcereiros / e os que estão nos eitos e docas", já escreveu Affonso Romano de Sant´anna (Que País é Esse). Se  os skatistas, estudantes, professores, vendedores d´água e comida, jornalistas, servidores públicos, bêbados ao meio-dia sob o sol de 36º e nenhuma sombra de Niemayer e toda sorte de gente  que tomou à Esplanada no último final de semana não for tão "povo" quanto o que vai e vem pela Avenida Paulista ou se deita de bruços no Posto 9, então não sei o que é.




Visitantes da Bienal do Livro devem pesquisar se quiserem economizar, recomendam frequentadores

 
Quem for à 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura com a intenção de comprar livros deve procurar e pesquisar os preços se quiser economizar. O governo do Distrito Federal (GDF) distribuiu R$ 40 para alunos e R$ 80 para professores da rede pública gastarem na compra de livros na feira deste ano. De acordo com os educadores responsáveis para que seus alunos não gastem mais do que têm, os preços cobrados no evento, em muitos casos, são maiores do que nas livrarias de Brasília.

Professora de uma escola de ensino fundamental do Plano Piloto, Karen Helena estava com uma turma de 15 estudantes. Ela elogiou a iniciativa do GDF, mas lamentou o preço da maioria dos livros mais procurados pelos jovens.

"Um ou outro título está um pouco mais barato que nas livrarias, mas, de maneira geral, estão saindo ou pelo mesmo preço ou mais caros. Numa bienal ou feira do livro, principalmente se realizada por um governo, os livros deveriam ser mais baratos para estimular a compra e a leitura", disse Karen.

A professora explicou que os estudantes têm liberdade para escolher os livros, mas que, antes de pagá-los, verifica se a leitura está apropriada à faixa etária.

A bibliotecária de Planaltina, Elisângela Rodrigues Costa, afirmou que o fato deste dinheiro só poder ser gasto na bienal faz que as editoras e as distribuidoras elevem os preços.

"Como estamos adquirindo livros para a biblioteca, já vinhamos pesquisando os preços em vários lugares. Estamos achando que, aqui, eles estão um pouco altos. Por isso já desistimos de comprar alguns títulos que encontramos. Lógico que a iniciativa é boa, porque, bem ou mal, os alunos estão adquirindo os livros, o que a maioria deles não tem como fazer. O ruim é a restrição de não podermos gastar o valor em outros lugares", disse a bibliotecária.

A Agência Brasil pesquisou, via internet, o valor de alguns dos livros comprados por estudantes que visitaram a bienal na manhã desta sexta-feira (20). O romance Para Sempre, de Alyson Noël, pelo qual uma aluna pagou R$ 24,90, foi encontrado por R$ 19,90. Um Dia, de David Nicholls, adquirido por R$ 29,90, poderia ter sido comprado por R$ 22,30.

Outros títulos muito procurados pelos jovens, como as coleções Diário da Princesa, de Meg Cabot, e A Lenda dos Guardiões, de Kathryn Lasky, não tiveram diferença em relação aos preços encontrados fora da bienal.

Já um livro para professores como 1922 - A Semana Que Não Terminou, de Marcos Augusto Gonçalves, sobre a Semana de Arte Moderna, que em um dos stands da feira estava sendo vendido por R$ 49, pode ser encontrado por R$ 41 em uma grande rede de livrarias.

A Agência também encontrou alguns títulos mais baratos na bienal, caso de Niketche - Uma História de Poligamia, de Paulina Chiziane, à venda no stand da editora por R$ 49,50, enquanto é encontrado por R$ 62,50 no site de uma das mais populares redes de livrarias. Há ainda, no evento, uma grande quantidade de obras em promoção. Alguns editores dizem ter concedido descontos de até 70% em determinados títulos.

A professora universitária Kleibe Brum diz ter gasto quase R$ 600 e garante que, em outro lugar, a conta sairia bem mais salgada.

"Compramos em torno de 25 livros técnicos de pedagogia e letras, mas cansamos de andar. Visitamos todos os stands até que eu encontrasse em promoção várias obras que eu já conhecia e sabia que, fora, custam muito mais caros", disse.

De acordo com a representante da Secretaria de Educação do Distrito Federal, Edriane Daher, a meta do governo distrital é beneficiar 24,9 mil professores e cerca de 25 mil alunos com a iniciativa, para a qual foram destinados R$ 3 milhões.

"Do ponto de vista pedagógico, possibilitar que o aluno e o professor comprem um livro na bienal tem um caráter simbólico de representar o direito de ambos de não saírem da bienal sem levar algo. Não fiz uma pesquisa de preços, mas o que eu sei é que, inicialmente, a Secretaria de Cultura (Secult), que é a responsável por esta parte da organização, estava negociando com os expositores o compromisso de eles oferecerem descontos em todos livros", informou Daher.

A Agência Brasil entrou em contato com a Secult, mas não teve resposta sobre a obrigatoriedade do desconto.

"Sinto quase que como um dever patriótico não abandonar Portugal", diz Miguel Sousa Tavares


O escritor português Miguel Sousa Tavares admitiu hoje (20) ter planos de viver no Brasil. Seu projeto era mudar-se ainda este ano, mas a grave crise econômica que seu país enfrenta o fez repensar.

"É um projeto sobre o qual ainda não me decidi. Planejava me mudar na metade deste ano e viver metade do ano no Rio de Janeiro, metade em Portugal. Só que Portugal anda tão ruim que eu sinto quase um dever patriótico de não o abandonar. Ficar e ao menos tentar resistir a esta crise até que possamos voltar a levantar a cabeça", disse o escritor à Agência Brasil, depois de sua palestra na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília (DF) até a próxima segunda-feira (23).

Autor de Rio das Flores, No Teu Deserto e Equador (adaptado para a televisão e exibido, no Brasil, pela TV Brasil), o escritor e jornalista afirma que seria a pessoa mais feliz do mundo se pudesse se dividir entre os dois países.

"O Brasil é um país que me fascina, com muita coisa ainda por descobrir. Há uma modernidade e, ao mesmo tempo, um primitivismo que me causa grande alegria quando venho ao país. Somando a esta, acho que já são 45 vindas", disse Tavares.

O escritor ainda comentou que a obra de autores brasileiros, com destaque para Jorge Amado e Érico Veríssimo, foi o que primeiro chamou sua atenção. Em seguida, a música e o cinema. No texto que leu durante sua apresentação, o português chegou a confessar sentir inveja dos autores brasileiros.

"[Inveja] da sua inesgotável matéria-prima de inspiração, das suas inacreditáveis histórias, que não seriam verossímeis em nenhum outro lugar senão aqui. Da sua infinita capacidade de romancear num país que, 500 anos depois da descoberta oficial, tem tanto ainda por descobrir. Eu sou filho de um imaginário gasto e cansado, de um continente velho e exaurido que é a Europa".

"Função da literatura é encantar crianças e contar histórias", diz Miguel de Sousa Tavares


"A função primeira da literatura é encantar crianças e contar histórias". Foi desta forma que o escritor e jornalista português Miguel Sousa Tavares definiu hoje (20), na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que acontece em Brasilía (DF), sua visão pessoal sobre a finalidade da literatura.

Para o autor de Rio da Flores, No Teu Deserto e Equador (romance adaptado para a tv e exibido, no Brasil, pela TV Brasil), a capacidade de cativar a atenção de alguém narrando algo é um privilégio e um desafio, independente do meio.

"Escrever é contar uma história, de maneira que todos os contadores de história são escritores, mesmo que não escrevam ou não saibam escrever", disse Tavares no texto que escreveu especialmente para ser lido durante sua apresentação no evento literário, que acontece até a próxima segunda-feira (23).

Filho de uma das mais importantes poetisas portuguesas do século passado, Sophia de Mello Breyner Andresen, vencedora do Prêmio Camões, em 1999, Tavares afirmou que a principal influência que recebeu de sua mãe foi entender a importância da sonoridade do texto e que esta deve ser simples.

"Há autores que acham que escrever não é necessariamente contar uma história. Acham que o que importa são as palavras, o estilo da escrita, a beleza da fórmula, não aquilo que se conta ou deixa por contar. Em minha opinião, estão enganados", disse Tavares, destacando que a simplicidade do texto não implica em empobrecimento de conteúdo. "Eu, por exemplo, gosto de criar ambiguidades em minhas histórias, pois acho que cada leitor pode ler um romance à sua maneira e que o escritor deve deixar que isso aconteça".

Entusiasta das obras de autores brasileiros, com destaque para Jorge Amado e Érico Veríssimo, cujas obras despertaram seu fascínio pelo Brasil, onde gostaria de viver parte do ano (veja post acima), Tavares revelou que as duas perguntas a que mais tem dificuldades de responder são quem são seus escritores preferidos e por que ele escreve.

"Como se tivesse que haver uma razão que não a mera vontade de escrever. Quem é meu escritor preferido? Dezenas, centenas deles. Todos os que um dia, em circunstâncias se calhar irrepetíveis, me amarraram a um livro seu", disse, completando sua definição pessoal sobre o papel das narrativas. "Ela também serve para distrair-nos do real e levar-nos até um mundo muito mais denso e rico, onde tudo se torna possível desde que alguém saiba contar uma história".

Embora admitindo sentir inveja dos autores brasileiros devido à "inesgotável matéria-prima de inspiração", em oposição a ele, "filho de um imaginário gasto e cansado", Tavares encerrou sua apresentação com uma forte declaração.

"Deem-me leitores deslumbrados, incrédulos, insaciáveis de histórias, tal qual crianças; deem-me uma história e uma página em branco e eu começarei: 'era uma vez'. É só isso que eu quero. É por isso que escrevo", concluiu.

Historiadores lamentam desinteresse brasileiro por biografias políticas


Especialistas na história brasileira, os ingleses Richard Bourne e Leslie Bethel apontaram os ex-presidentes Getúlio Vargas e Luiz Inácio Lula da Silva como as principais figuras políticas nacionais dos últimos cem anos, devido à importância deles para a trajetória política brasileira.

"Juscelino Kubitscheck e Fernando Henrique Cardoso podem ser incluídos nesta lista, mas há poucas dúvidas de que Vargas e Lula são os dois políticos mais influentes dos últimos cem anos", disse Bethel durante a 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorre em Brasília (DF) até o próximo dia 23.

"Lula é um elemento importantíssimo da vida política brasileira. Assim como Vargas, que, apesar de um certo embaçamento político, algo de vago em torno de sua figura, foi um grande líder", defendeu Bourne, que lançou na bienal o livro Getúlio Vargas do Brasil 1883-1954.

Em meio aos vários e antagônicos comentários feitos pelo público sobre o governo Lula, Bethel frisou que vai ser preciso aguardar mais algum tempo pelo julgamento histórico dos oito anos de Lula no poder.

"Há a possibilidade de que, no futuro, a figura de Lula, que deixou o governo com um índice histórico de aprovação popular, possa ser diminuída por historiadores. Da mesma forma que a [avaliação] de Vargas melhorou. Isso, contudo, é um pensamento especulativo. Só o tempo dirá", disse Bourne.

Os dois historiadores destacaram o pouco interesse dos brasileiros pelas biografias de políticos nacionais. Bethel ainda comentou o fato de poucos historiadores brasileiros se dedicarem ao gênero, quando comparado à quantidade de obras lançadas sobre vultos históricos em outros países.

"Gostaria que a realidade me contradissesse, mas minha impressão é que os líderes brasileiros não querem ser biografados e que os historiadores e jornalistas brasileiros não se dedicam a biografar políticos. Por que? Não sei, mas creio que pode estar ligado a um certo corporativismo e clientelismo brasileiro e ao fato de que, por ser a classe política tão rejeitada no Brasil, poucas pessoas queiram ler uma biografia política", disse Bethel, que além de ter estudado a América Latina e o Brasil por toda a vida, há quatro anos vive no país.

Bethel ainda mencionou o destaque internacional que o Brasil vem merecendo nos últimos anos, algo que, para os dois historiadores implica na necessidade não só de que o país passe a ser mais estudado nas universidades estrangeiras, como também que os brasileiros passem a se interessar cada vez mais pelas relações internacionais.

"Na Inglaterra, por exemplo, há mais grupos econômicos querendo investir no Brasil do que há cem anos. Os dois principais jornais econômicos [Financial Times e The Economist] têm dado maior destaque ao país. Até os taxistas ingleses têm a percepção de que a economia brasileira vai bem e que o país que antes era conhecido pela música e pelo futebol, hoje é um player internacional", concluiu Bethel.

Nando Reis e Fernanda Takai discutem música e literatura na Bienal do Livro de Brasília


Os músicos Nando Reis e Fernanda Takai participaram hoje (19) de um dos mais concorridos bate-papos da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura de Brasília. De forma descontraída, o ex-integrante da banda Titãs e a vocalista do Pato Fú atraíram um grande público, principalmente adolescentes, interessado em ouvir a opinião deles sobre a relação entre música e literatura, sobretudo a crônica, gênero ao qual Fernanda Takai se dedica.

"Nem toda crônica pode ser musicada. Algumas, se fossem musicadas, talvez se tornassem chatas. Há aquelas que têm ritmo, que fluem. Outras são mais introspectivas", disse Fernanda que, desde 2005, escreve crônicas que são publicadas por diversos jornais do país.

"No primeiro momento, eu hesitei porque todos os outros colunistas eram figuras superconsagradas. E todos homens. Eu me senti uma estranha no ninho, como se estivesse invadindo um local sagrado. Depois, achei que se eu, que vinha de uma outra escola, ocupasse com dignidade aquele espaço, daria às pessoas o exemplo de que é possível escrever", explicou a cantora.

Para ela, música e literatura exigem igual dedicação. A principal diferença é a resposta do público. "A música é mais glamurosa, mas, no jornal, o diálogo com o público é mais direto. Meu e-mail é publicado nas crônicas e quem as lê pode me responder imediatamente. Já com a música, o momento da resposta são os shows. As pessoas ouvem em casa no rádio, na TV e nos CDs, mas poucas vezes temos a reação direta de quem nos ouve".

Autor da letras consagradas pelo público, como Segundo Sol, gravada por Cássia Eller, e coautor de alguns dos maiores sucessos dos Titãs, como Bichos Escrotos e Polícia, Nando Reis se recusou a assumir o título de poeta. "Acho um pouco presunçoso. Não me considero um poeta e não publicaria como poesia o que escrevo para ser musicado". Mas ele só demonstrou certa irritação ao ser perguntado se as músicas que compõe estão deixando de ter o apelo da crítica social, que marcou o início da carreira dele, para virar uma obra mais "comercial".

"Não escrevo porque não tenho mais saco para escrever sobre estes assuntos [crítica social]. Não me interessa e acho que não resolve nada. Já escrevi, fui criticado, censurado, só não fui preso por que não nasci dez anos antes, mas, hoje, o que me interessa é o indivíduo".

Fernanda e Nando elogiaram a capital federal por promover o primeiro evento literário de grande porte da cidade, que segue até o dia 23, na Esplanada dos Ministérios. "Acho que demorou tempo demais para Brasília ter sua própria bienal", disse a cantora. "Quando falamos sobre a importância da leitura, o ponto é o direito à educação, já que, para ler, a pessoa tem de ser alfabetizada. Sabendo ler, a pessoa tem acesso a todo um mundo de informações que não se limita aos livros", completou Nando. Escrever, para ele, mais que talento, é uma questão de envolvimento e prática.

"Falta, no Brasil, um grande escritor capaz de se comunicar com a nova geração", diz editor


Berço de grandes autores como Machado de Assis, Jorge Amado, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Cecília Meirelles, o Brasil e o mercado editorial brasileiro aguardam pelo surgimento de um escritor contemporâneo capaz de dialogar com a nova geração. A opinião é do editor Júlio Silveira, 40 anos, um dos participantes do debate Como Ampliar o Consumo do Livro no Brasil, que ocorreu hoje (19), na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília (DF).

"Há autores brasileiros sensacionais que precisam ser lidos, mas de quem os novos leitores estão se distanciando um pouco porque os assuntos [abordados pelos escritores] talvez já não ecoem tanto entre os jovens. Há um hiato geracional e eu acredito que o público e o mercado editorial brasileiro esperam o surgimento de um escritor de qualidade capaz de dialogar com a nova geração. Um autor em pé de igualdade com as pessoas que estão se comunicando nas redes sociais", afirmou à Agência Brasil.

Citando a última pesquisa Retratos da Leitura, na qual cerca de 80% dos entrevistados disseram que não leem porque não gostam, Silveira disse que percebeu que as pessoas de sua faixa etária, quando perguntadas, costumam apontar autores brasileiros entre os que marcaram sua infância. Nomes como Monteiro Lobato e Lygia Bojunga.

"Se formos perguntar o mesmo a uma criança, hoje, a quantidade de obras nacionais será muito pequena", argumentou o editor. Para ele, isso é resultado não apenas da "pressão muito forte dos mega best-sellers", enfrentada por autores brasileiros de literatura infanto-juvenil, mas também pelo fato de nenhum escritor contemporâneo nacional conseguir se comunicar com uma grande parcela do público jovem.

"Mesmo que numa linguagem pouco compreensível, os jovens estão escrevendo dia e noite nas redes sociais. Se as pessoas estão lendo e escrevendo, estão aptas a se apropriar da linguagem literária. E como há mais gente podendo comprar livros, que estão mais baratos que há algumas décadas, acho que falta surgir um escritor capaz de absorver naturalmente essa cultura e se aproveitar deste cenário", disse Silveira.

"Talvez esse novo galvanizador [animador] da literatura e da linguagem atual já esteja por aí e caiba às editoras identificá-lo, embora eu ache que os novos fenômenos vão surgir naturalmente da internet", disse Silveira, citando escritores que, a exemplo do que já ocorre há pelo menos uma década na música, atingiram sucesso comercial explorando as possibilidades de divulgação da rede mundial de computadores, como André Vianco e Thalita Rebouças, autores que já venderam mais de 1 milhão de exemplares de suas obras e são cultuados entre muitos adolescentes.

"Cada um em seu segmento já está atingindo em cheio aos anseios de um público específico, mas são sucessos subterrâneos, surgidos na internet,e só posteriormente absorvidos pela indústria. Ainda não temos o grande escritor brasileiro dos anos 2010", destacou.

Silveira classifica suas próprias observações de audaciosas e diz que está à procura de um título ou autor capaz de vender muito bem o que, segundo ele, é importante para as editoras, mas também para os leitores.

"Não estou falando em simplificações [de linguagens]. Guimarães Rosa conseguiu se comunicar muito bem mesmo tendo praticamente inventado uma linguagem. Não estou preocupado que o autor queira escrever de forma condenável pelos acadêmicos. Quero é abraçar a qualquer um que venda 1 milhão de livros, mesmo que alguns considerem sua obra subliteratura, porque, no Brasil, isso [vender 1 milhão de livros] é heróico e contribui de alguma maneira para a cultura brasileira", destacou.

domingo, abril 22, 2012

Nilma Lacerda comenta a importância de vencer o Prêmio Brasília de Literatura

Vencedora da categoria infanto-juvenil do 1º Prêmio Brasília de Literatura com a obra Sortes de Villamor, a escritora carioca Nilma Lacerda destacou a importância dos concursos como este feito simultaneamente à 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorre em Brasília (DF) até o próximo dia 23. 

"Um prêmio permite que o autor tenha um pouco mais de conforto e possa dedicar mais tempo à escrita. Sempre há alguma repercussão, o que leva os editores a prestarem maior atenção a estes escritores ao menos por um tempo, gerando a possibilidade de uma produção que dê a quem tem acesso ao livro a opção de ler literatura de qualidade". Pelo primeiro lugar na disputa entre 506 inscritos, Nilma recebeu um troféu e R$ 30 mil. 

Para a escritora, os autores que prezam pela qualidade nem sempre obtêm reconhecimento comercial, mesmo quando premiados. "Nem sempre os autores que oferecem um texto mais refinado vendem bem. São autores de excelência e ler sua obra exige um esforço maior", declarou à Agência Brasil.

Autora de mais de uma dezena de livros, sendo cinco deles para o público infanto-juvenil, Nilma Lacerda confessa ter certa dificuldade para escrever para crianças. Não por causa da linguagem, já que diz não ter dúvidas de que os jovens, apesar de menos experiência, estão aptos a apreciar um texto de qualidade que não seja simplista.

"Minha dificuldade está mais relacionada às minhas experiências. Eu sinto precisar de um leitor sofisticado, já que, na maioria das vezes, minha forma de comunicar pede uma intervenção muito grande do leitor, uma experiência de mundo que o permita construir determinados sentidos a partir do que escrevo", diz a autora de Dois Passos Pássaros. E o Vôo Arcanjo, livro juvenil que trata do suicídio de uma mãe, narrado por seu marido e filhos, um deles excepcional. 

"A morte é um tema tabu na literatura para crianças". Nilma diz que os jovens brasileiros estão lendo bastante, embora obras de pouca qualidade. "Viajo bastante pelo Brasil, dou muitos cursos e vejo que os jovens lêem bastante. Só que, hoje, há uma oferta muito grande não só de opções de leitura, mas de entretenimento em geral. E ler literatura de qualidade é trabalhoso. Existe prazer, óbvio, mas ao ler um bom texto nós construímos o sentido, acessamos a outros textos que já lemos. A televisão, a auto-ajuda, o best-seller e o blockbuster vão ser sempre mais fáceis", acrescentou a autora, defendendo que há hoje, no Brasil, vários autores comprometidos em oferecer uma experiência estética aos jovens.

Autora infantil emociona plateia da Bienal do Livro

Escritora, professora, cantora, atriz, artista plástica e, segundo ela própria, "uma contadeira de histórias fascinada pelas palavras e pelas entrelinhas", a mineira Stella Maris encantou o público que acompanhou hoje (18) a sua apresentação ao fazer palestra sobre o tema Texto Literário Para Crianças e Jovens, como parte da programação do quinto dia da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, que ocorre em Brasília (DF) até segunda-feira (23).

Em seu depoimento pessoal, Stella Maris fez uma defesa apaixonada da leitura e da criatividade. "O ser humano é sofisticado por natureza. Ele só precisa ser lembrado disso. Todos gostam de coisas boas", disse a autora de Último Dia de Brincar (1987). 

Perguntada sobre a especificidade de escrever para os jovens, a escritora disse que esta é uma dúvida permanente entre os autores infantojuvenis. "A meu ver, a coisa mais importante é tentar fazer arte e não subestimar a inteligência das crianças e dos jovens. É preciso trabalhar a linguagem, procurar dizer as coisas ao seu modo, buscar uma forma pessoal de expressão. E, talvez, falar sobre assuntos que achamos que possam interessar aos jovens, embora, neste aspecto, nós sempre possamos errar. Por isso, eu primeiro falo para mim mesma". 

Para estimular o gosto pela leitura, a autora recomendou aos pais que leiam e contem, desde cedo, histórias para seus filhos. E, aos governos, ela pediu que invistam na criação e na melhoria das bibliotecas. A escritora também sugeriu aos jovens muita leitura e, para isso, pediu que os pais e professores criem as condições para que eles busquem, gradualmente, a leitura de obras de qualidade. 

"Os jovens estão lendo bastante, mas livros sobre vampiros ou de autoajuda, obras sobre relacionamentos [interpessoais], que ensinam a beijar e coisas do tipo. Daí a importância do professor. Cabe a nós mostrar a eles que a melhor literatura não quer ensinar nada, mas sim encantar, fazer sonhar, o que, como tudo na vida, vai possibilitar que ele também aprenda algo, embora esta não seja a principal função da literatura". 

Ao final da palestra de Stella Maris, ocorreu a cerimônia de entrega do Prêmio Brasília de Literatura a Nilma Lacerda, autora de Sortes de Villamor, vencedora na categoria infantojuvenil.

quarta-feira, abril 18, 2012

Uma voz angolana na Bienal


Cerimónia de Passagem

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu lume"

a rapariga provou o sangue
o sangue deu fruto

a mulher semeou o campo
o campo amadureceu o vinho

o homem bebeu o vinho
o vinho cresceu o canto

o velho começou o círculo
o círculo fechou o princípio

"a zebra feriu-se na pedra
a pedra produziu o lume"

Poema do primeiro livro da poetisa angolana Paula Tavares, presente a 1ª Bienal do Livro e da Leitura de Brasília, extraído da coletânea Amargos Como Os Frutos, lançada no Brasil pela editora Pallas.  

terça-feira, abril 17, 2012

Softwares de código fechado são potencial ameaça ao acesso da memória pessoal digitalizada, diz sociólogo

Defensor ferrenho do software livre, o sociólogo especialista em cultura digital, Sérgio Amadeu, associou a defesa dos programas de computador de código aberto ao direito individual à preservação da memória pessoal e coletiva. "Lutar ou defender o formato aberto é um movimento vital para este mundo, já que vivemos uma revolução informacional que mal começou", declarou Amadeu ao participar, com o especialista em tecnologias da informação, Marcelo Branco, do debate A Revolução da Internet e as Transformações Sociais, na 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, evento que vai até o próximo dia 23, em Brasília.

Para explicar sua tese, o sociólogo citou a popularização das ferramentas de armazenamento digital, como hard disks (HDs) de computador, CDs-ROM e pen drives. Segundo ele, hoje, com apenas três HDs externos de computador de 1 terabit cada, cada qual do tamanho de um celular, seria possível a qualquer pessoa reunir, em sua própria casa, um conteúdo equivalente ao atualmente espalhado por todas as bibliotecas existentes no Brasil.

"Há 30 anos, isso não existia. E, daqui a dez anos, a maioria das nossas fotos, dos nossos dados, não estarão mais gravados em mídias analógicas. Estará tudo digitalizado, guardado em formato digital. Vamos conseguir acessar essas informações após dez anos delas terem sido digitalizadas? Vai depender do formato [do arquivo eletrônico em que a informação foi salva]", observa Amadeu.

O especialista entende esse processo como um eventual conflito entre a preservação da memória digital e os interesses comerciais das empresas que se opõem aos programas de código livre, que defendem os chamados softwares restritivos, cuja programação é criptografada e protegida por leis de direitos autorais, como, por exemplo, o sistema operacional Windows, da Microsoft.

"Estamos construindo uma sociedade dependente de formatos. E, no mundo digital, esses formatos delimitam, controlam, bloqueiam, aprisionam e criam dependências. Se um software desses for descontinuado [deixar de ser produzido], toda informação armazenada já era. Por isso, é vital lutar para que os formatos em que guardamos nossos arquivos estejam acima dos interesses comerciais de uma empresa que, detendo os softwares, em breve será detentora de nossa memória digitalizada", concluiu o sociólogo.

Novelas brasileiras passam imagem de país branco, critica escritora moçambicana

"Temos medo do Brasil." Foi com um desabafo inesperado que a romancista moçambicana Paulina Chiziane chamou a atenção do público do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF). Ela se referia aos efeitos da presença, em Moçambique, de igrejas e templos brasileiros e de produtos culturais como as telenovelas que transmitem, na opinião dela, uma falsa imagem do país.
 
"Para nós, moçambicanos, a imagem do Brasil é a de um país branco ou, no máximo, mestiço. O único negro brasileiro bem-sucedido que reconhecemos como tal é o Pelé. Nas telenovelas, que são as responsáveis por definir a imagem que temos do Brasil, só vemos negros como carregadores ou como empregados domésticos. No topo [da representação social] estão os brancos. Esta é a imagem que o Brasil está vendendo ao mundo", criticou a autora, destacando que essas representações contribuem para perpetuar as desigualdades raciais e sociais existentes em seu país.
 
"De tanto ver nas novelas o branco mandando e o negro varrendo e carregando, o moçambicano passa a ver tal situação como aparentemente normal", sustenta Paulina, apontando para a mesma organização social em seu país.

A presença de igrejas brasileiras em território moçambicano também tem impactos negativos na cultura do país, na avaliação da escritora.

"Quando uma ou várias igrejas chegam e nos dizem que nossa maneira de crer não é correta, que a melhor crença é a que elas trazem, isso significa destruir uma identidade cultural. Não há o respeito às crenças locais. Na cultura africana, um curandeiro é não apenas o médico tradicional, mas também o detentor de parte da história e da cultura popular", detacou Paulina, criticando os governos dos dois países que permitem a intervenção dessas instituições.

Primeira mulher a publicar um livro em Moçambique, Paulina procura fugir de estereótipos em sua obra, principalmente, os que limitam a mulher ao papel de dependente, incapaz de pensar por si só, condicionada a apenas servir.

"Gosto muito dos poetas de meu país, mas nunca encontrei na literatura que os homens escrevem o perfil de uma mulher inteira. É sempre a boca, as pernas, um único aspecto. Nunca a sabedoria infinita que provém das mulheres", disse Paulina, lembrando que, até a colonização europeia, cabia às mulheres desempenhar a função narrativa e de transmitir o conhecimento.

"Antes do colonialismo, a arte e a literatura eram femininas. Cabia às mulheres contar as histórias e, assim, socializar as crianças. Com o sistema colonial e o emprego do sistema de educação imperial, os homens passam a aprender a escrever e a contar as histórias. Por isso mesmo, ainda hoje, em Moçambique, há poucas mulheres escritoras", disse Paulina.

"Mesmo independentes [a partir de 1975], passamos a escrever a partir da educação europeia que havíamos recebido, levando os estereótipos e preconceitos que nos foram transmitidos. A sabedoria africana propriamente dita, a que é conhecida pelas mulheres, continua excluída. Isso para não dizer que mais da metade da população moçambicana não fala português e poucos são os autores que escrevem em outras línguas moçambicanas", disse Paulina.

Durante a bienal, foi relançado o livro Niketche, uma história de poligamia, de autoria da escritora moçambicana.

"Sou escritor de expressão angolana e não portuguesa", diz Ondjaki

Convidado a participar de um seminário para discutir a literatura africana de expressão portuguesa, o angolano Ondjaki criticou hoje (17) a falta de conhecimento a respeito da diversidade cultural do Continente Africano. Ele rejeitou o rótulo de “escritor de expressão portuguesa”.

"Este é um erro comum. Vamos a um evento como este e nos apresentam como africanos de expressão portuguesa. Não. Somos países africanos de língua portuguesa, mas não temos que ser de expressão portuguesa. Eu sou angolano, de expressão angolana. Fica feio, é desagradável dizer que sou de expressão portuguesa. Chamem-nos, se necessário, de países africanos de língua portuguesa, o que é um espaço afetivo", disse Ondjaki, ao lado da escritora moçambicana Paulina Chiziane, durante evento da 1ª Bienal do Livro e da Leitura, em Brasília (DF).

Com a obra traduzida para vários idiomas e há quatro anos vivendo no Brasil, Ondjaki se consagrou como uma das novas vozes de expressão de seu país. Não só pela ironia de seus textos, mas principalmente pela visão crítica com que descreve os problemas angolanos, país que se tornou independente de Portugal em 1975.

"A generalização que se faz a respeito da África cria expressões como ‘fulano é estudioso das literaturas africanas’. Caramba. Esse fulano precisaria ser um estudioso que se dedicasse a algo que nunca acaba, abarcando a todo um continente heterogêneo. Temos que começar a designar melhor as coisas", declarou Ondjaki, criticando também o conceito de lusofonia.

"Não sei o que é lusofonia. Para ir a qualquer outro destes países eu preciso de visto. Por que um senegalês é francófono e um francês não é senagalófono? No meu caso, ou sou angolano ou sou cidadão do mundo", destacou o autor. "Eu pertenço a um espaço que não obedece a vistos, a conceitos políticos, a reuniões de ministros, que é a comunidade de língua portuguesa, um espaço de amizade, de preferência com letras minúsculas".

O escritor lamentou o fato de não poder optar, quando jovem estudante em Luanda, por aprender idiomas locais como o quibundo ou o ombundo, ainda hoje muito falados em seu país. Ele disse ainda que escreve suas obras utilizando o que chama de “Língua Desportuguesa”.

"Um idioma artístico no qual tenho a necessidade de escrever. O escritor, enquanto artista, deve poder trabalhar a língua de uma maneira que ela gere uma linguagem estética que acompanhe seu processo criativo. É isso que gera uma marca identitária que é só dele. E isto é uma urgência pessoal que vem de dentro.

Partimos de pressupostos semelhantes, de uma gramática comum, mas, no fundo, aquilo que faz a literatura de cada um nem sequer é o fato de ser angolano, moçambicano ou brasileiro. São coisas muito mais profundas, são as urgências, os anseios e os sonhos de cada um".

Perguntado sobre sua visão pessoal a respeito do Brasil, Ondjaki revelou que ela mudou muito, e para melhor, desde que passou a vivenciar a realidade do país. Ele chamou atenção, entretanto, para algumas contradições.

"Eu via o Brasil de uma maneira quando estava em Angola, onde as informações chegam por meio das novelas e da música brasileira. Hoje, vejo o país como uma potência cultural, uma potência que vai muito além do fato de ter o pré-sal ou coisas assim. No entanto, há momentos em que o país me parece ser extremamente aberto e outros em que ele parece ser extremamente xenófobo".

"Vejo o Brasil discutir a pobreza, o racismo, as desigualdades sociais da forma como gostaria que Angola fizesse, mas também vejo gente aqui dizendo que esses problemas não existem. Países que acham que são só brancos, só negros, estão mais atrasados que o Brasil", completou o autor, que dividiu as atenções do público com a romancista moçambicana Paulina Chiziane.

A mesa também deveria ter contado com a participação de Abdulai Sila, mas ele cancelou sua participação após um golpe de Estado militar em seu país, Guiné-Bissau.

Autor cabo-verdiano comenta o pouco conhecimento a respeito da literatura de seu país


Um dos maiores expoentes da literatura cabo-verdiana, embora pouco conhecido pelo público brasileiro, o escritor Germano de Almeida convidou os brasileiros a conhecer a produção literária de seu país.

Um dos presentes no seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, Almeida afirmou que Cabo Verde tem não só uma literatura com características próprias, mas “toda uma ciência da qual somos extremamente orgulhosos".

"Em termos de literatura, produzimos bastante e já há muitos jovens escrevendo textos agradáveis e alegres. Há um núcleo comum que nos identifica a todos e faz nos sentirmos e nos reconhecermos como cabo-verdianos", disse o escritor.

Segundo ele, existe uma dificuldade em encontrar obras de autores cabo-verdianos fora do país. O próprio Almeida, ainda que traduzido para diversos idiomas, teve um único livro lançado no Brasil.

"Não sei como está neste momento o conhecimento brasileiro a respeito de Cabo Verde, mas quando meu livro foi publicado, se conhecia muito pouco a respeito da literatura cabo-verdiana. Vendi pouco e nenhum outro livro meu foi lançado por aqui. Não critico as editoras por isso", afirmou.
 
Crítico das contradições existentes no seu país, seu livro O Meu Poeta é apontado como o primeiro romance legitimamente cabo-verdiano.

"Há um Cabo Verde anterior e outro posterior à independência. E esse é um processo ainda em marcha".

Cabo Verde é um arquipélago de dez ilhas localizado a cerca de 650 quilômetros da costa do Senegal, com aproximadamente de 600 mil habitantes. O país se tornou independente de Portugal em 1975.

Diferenças línguistas e culturais distanciam autores dos diversos países africanos


Convidada a participar do seminário A Literatura Africana Contemporânea, que integra a programação da 1ª Bienal Brasil do Livro e da Leitura, em Brasília, a poetisa e historiadora angolana Ana Paula Tavares cobrou hoje (16) que governos e instituições privadas assumam um papel mais ativo na divulgação da literatura africana, sobretudo a produzida em países de língua portuguesa.
 
Ana Paula admitiu que, devido à má divulgação da produção contemporânea, os próprios escritores africanos têm dificuldades para falar sobre o que é feito em outros países além dos seus. Segundo a poetisa, a falta de conhecimento de outras "línguas imperialistas" - conforme ela se refere aos idiomas impostos aos povos africanos a partir do século dezenove, quando o continente foi dividido entre as potências europeias - e questões de ordem econômica impedem que mais autores sejam traduzidos, o que dificulta a troca de informações.
 
"Há barreiras de todo o tipo que dificultam a divulgação da produção literária dos vários países africanos não só para outros continentes, mas entre nós mesmos, africanos. Há barreiras linguísticas, problemas ligados à atividade editorial e ao dinheiro, ao sistema capitalista", afirmou Ana Paula.

Ela ainda cobrou ações da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) para estimular a circulação de livros de autores do idioma entre os países que compõem o grupo.

"Em Angola, por exemplo, não conhecemos a produção de Moçambique, de Cabo Verde, de São Tomé e Príncipe e dos demais. E o mesmo acontece com eles. Conhecemos os grandes nomes, mas não os mais jovens e os movimentos literários que estão surgindo", comentou a poetisa.
 
Segundo ela, durante muito tempo, os escritores angolanos foram mais influenciados por autores brasileiros do que pelos de países vizinhos.

Apesar das ressalvas, Ana Paula comemorou por autores angolanos – como, por exemplo, José Eduardo Agualusa, Pepetela e Mendes de Carvalho – terem conquistado mais reconhecimento no exterior, nos últimos anos, principalmente no Brasil.

A poetisa afirmou que são os poetas angolanos que, nas últimas três décadas, têm sido mais ousados na experimentação de novas possibilidades de temáticas e linguísticas. Segundo ela, essa experimentação está intrinsecamente ligada ao processo de independência do país, proclamada em 1975.
 
"Há um antes e um depois dos anos 80 do século passado para a literatura angolana. Essa ruptura é mais clara na poesia, nas escolhas feitas pelos poetas, do que nos romances. Embora haja muitos bons novos romancistas, os que continuaram a surpreender após esse período são os nomes já consagrados desde a década de 1960, ainda durante o período colonial", disse Ana Paula.

Autora de Ritos de Passagem (1985), O Lago da Lua (1999) e Dizes-me Coisas Amargas Como os Frutos (2001), Ana Paula nasceu em 1952, na província de Huila, "uma região pastoreira". Durante o seminário, em que dividiu a mesa com o cabo-verdiano Germano Almeida, contou ter sido criada por uma madrinha branca que a obrigava a só falar em português, por não considerar educado que "uma menina que foi a escola e usava garfo e faca" falasse qualquer um dos dialetos locais.

"Ainda hoje ouço aquelas vozes maravilhosas das mulheres falando numa língua que eu não entendia, mas que até hoje busco resgatar na minha poesia. Hoje, tento fugir dos estereótipos e falar das mulheres angolanas reais. Se possível, trazendo suas vozes para minha obra, porque desde sempre eu percebi que era diferente da grande maioria das mulheres angolanas pelo simples fato de ter conseguido ir à escola".

Milton Hatoum critica descaracterização urbanística das cidades brasileiras

O romancista Milton Hatoum criticou a descaracterização urbanística das metrópoles brasileiras durante palestra, ontem (15), na 1ª Bienal do Livro e da Leitura. "É um crime o que aconteceu com as nossas cidades", destacou Hatoum, que é arquiteto de formação.

"A Manaus da minha infância já não existe mais. Nem a Brasília que eu conheci em 1968", disse Hatoum sobre a cidade onde nasceu e sobre aquela para onde se mudou em 1967, quando tinha 15 anos, e onde chegou a ser detido ao participar de uma manifestação contra o governo militar.
 
"A especulação imobiliária, em conluio com políticos safados, acabou com nossas cidades. Aconteceu com Manaus, com São Paulo, está acontecendo com Brasília e com o Rio de Janeiro, onde você já não vê mais a paisagem. E só vai piorar", acrescentou o autor, classificando prédios recém-inaugurados ou em construção em Brasília como horríveis, por destoarem da proposta urbanística e arquitetônica modernista pela qual a capital federal foi declarada Patrimônio Cultural da Humanidade.
 
"Vejam esses hotéis horríveis construídos no setor hoteleiro. É uma cópia de São Paulo, que também já se tornou uma cópia horrível de Miami, da mesma forma que Manaus. Isso não é Brasília. Isso é a antiarquitetura. Quanto a Manaus, não conheço mais minha cidade. Tudo lá está poluído. Cada vez que eu volto, tenho que tomar um antidepressivo", contou o autor, convidado para falar sobre ficção e memória na literatura.

Hatoum recordou que, na adolescência em Brasília, teve um poema publicado por um importante jornal da cidade. "Foi uma experiência muito bonita. Nessa mesma época eu ganhei meu primeiro prêmio literário, mas quando falei aos meus pais que queria ser escritor, eles tremeram. Ser escritor no Brasil?", brincou o autor, antecipando a possibilidade de narrar, em seu próximo livro, algumas das experiências "um pouco heterodoxas" que vivenciou quando jovem, na capital federal.

"Imagine o que era um grupo de jovens vivendo em Brasília em 1968. Estávamos enlouquecidos. Tinha ditadura, não se podia estudar direito. Perdemos a conta do número de invasões à Universidade de Brasília [UnB]. Refugiávamo-nos em muitas coisas. Até nas drogas. Não sou político e posso dizer: nós experimentamos tudo e essas experiências talvez sejam narradas."

Perguntado sobre a receita para escrever bem, Hatoum destacou a necessidade de encontrar seu próprio tom ou voz literária e criar um universo ficcional característico que permeie o conjunto da obra e permita o reconhecimento por parte do leitor. Ele destacou ainda a necessidade de que o aspirante a escritor goste de ler e de escrever. Além de não ter medo das críticas. "A resenha mais venenosa não é capaz de destruir um bom livro", receitou Hatoum, antes de revelar que só se deu por satisfeito com um de seus maiores sucessos de crítica e público, o romance Dois Irmãos, após reescrevê-lo 19 vezes.