quinta-feira, dezembro 29, 2011

Nyom Nyom Nyom Nyom Nyomnyum



Caetano é um daqueles casos de artista cujo conjunto da obra só poderemos adjetivar com segurança daqui a um tempo. Até lá, resta aguardar e ouvir com certa resignação algumas de suas opiniões políticas. De qualquer forma, já é possível olhar para seus primeiros discos e se espantar positivamente com a modernidade tropicalista de suas composições. Ouça a primeira música do primeiro disco de Caetano, The Empty Boat e imagine o espanto que o arranjo musical, a forma de cantar e o uso da guitarra solando não deve ter causado no distante ano de 1969.

Caetano Veloso (1969) - o primeiro com sua assinatura

Empty Boat - Lost In The Paradise - Atrás Do Trio Elétrico - Carolina - Cambalache - Não Identificado - Chuvas De Verão - Alfômega


Caetano Veloso (1971) - O disco do exílio
A Little More Blue - London, London - Maria Bethânia - If You Hold a Stone - Shoot Me Dead - In The Hot Sun Of a Christmas Day - Asa Branca





Dar antes é melhor

"Matar pode matar. O corpo acaba, mas a terra nunca acabará"


O semifosco furou o prestigiado Le Monde Diplomatique.

Sete meses após este blog ter publicado uma entrevista exclusiva com o jornalista Cristiano Navarro e um mês após o semifosco ter voltado ao tema, disponibilizando o link do documentário À Sombra De Um Delírio Verde, a edição brasileira do periódico francês traz, este mês, uma matéria do jornalista santista Renato Santana com as contundentes opiniões de Navarro sobre o conflito fundiário e a resultante violência contra os indíos no Mato Grosso do Sul. 

Infelizmente, apenas assinantes do Le Monde tem acesso à matéria disponibilizada no site da publicação. A edição impressa de dezembro, contudo, ainda pode ser encontrada nas bancas de jornais. Já o curta-metragem continua disponível no site http://vimeo.com/32440717

Mês passado, eu próprio estive na região da Grande Dourados, próximo à fronteira com o Paraguai, e presencie a situação de extrema miséria em que vivem os guaranis kaiowás, vítimas da ação de pistoleiros contratados por donos de terras e alijados de suas terras pelas extensas fazendas de soja e cana-de-açúcar.

As fotos deste post foram tiradas durante minha passagem pelo estado.

Morte de estudante motiva protesto contra condições do sistema de saúde no DF



Enquanto a imprensa, sobretudo as tvs, dedicavam preciosos minutos para satisfazer o desejo de aparecer de boleiros, periguetes, policiais e advogados cariocas, 120 pessoas protestavam, ontem (28), em Brasília (DF), contra as péssimas condições de atendimento no Hospital de Base e o sistema público de saúde do Distrito Federal. A informação sobre o ato que não foi publicado por nenhum veículo é da Secretaria de Comunicação da Universidade de Brasília (UNB).  

A mobilização foi convocada por meio de um vídeo postado no You Tube por um primo do  estudante de ciências sociais Júlio Cesar Pinto Lima, de 22 anos. Dizendo se chamar Rafa [Gustavo], ele explica que Lima foi baleado em 26 de novembro, ao ser assaltado quando saía de uma festa organizada por estudantes da própria UNB para arrecadar fundos para a formatura. A festa aconteceu no Rotary Club, em Taguatinga. O autor do disparo que atingiu o pescoço de Lima levou o carro do estudante e ainda não foi preso. 

Após passar por uma cirurgia e deixar a UTI, Lima foi levado ao Hospital de Base, onde, de acordo com Rafa, foi tratado com extremo descaso pela equipe médica e sofreu um "choque pirogênico".

Não bastasse ser mais uma vítima da falta de segurança pública, o estudante, que se recuperou do tiro e chegou a apresentar melhoras, acabou contraindo uma pneumonia que o deixou em coma no último dia 20. Lamentavelmente, Lima morreu na véspera do protesto. "Ele foi vítima da rede hospitalar deficiente da capital do país e de um corpo clínico irresponsável", diz Rafael no vídeo.

terça-feira, dezembro 27, 2011


Este é para o Gugu e para o Flavinho


Cada geração de adolescentes se identifica com o "bruxinho" que merece. Eu e meus amigos de infância, por exemplo, discutíamos o quão amoral e esperto era John Constantine, o mago inglês (ou trapaceiro, dependendo do ponto de vista) que, para passar de mero coadjuvante em histórias do Monstro do Pântano a uma das principais personagens dos HQs, com seu próprio título, precisou de apenas algumas poucas aparições. E que voltou a atrair a atenção de uma nova geração de leitores graças ao relançamento de HellBlazer - Origens, pela editora Panini Comics. Boa leitura para encerrar o ano. Até o momento, a editora
já lançou dois volumes.

Criado em 1986 pelo gênio Alan Moore (V de Vingança, Watchmen), Constantine é um anti-herói fruto de sua época, os pessimistas anos 1980 de Margareth Tatcher, e da conturbada experiência política de seu criador (como o mercantilista e liberal Harry Potter parece ser da década passada). Para nós, amigos adolescentes, era a encarnação do ainda pouco conhecido conceito de "ser cool", o que, na época, para nós, significava que o cara podia ser um ferrado e, ainda assim, ser capaz de andar de cabeça erguida e mandar à merda os poderosos deste e de outros mundos com um estilo muito pessoal. E se safar.

Sempre com um cigarro aceso entre os dedos, Constantine era o único protagonista das histórias em quadrinhos (ou graphic novels) a conviver com um câncer enquanto outras personagens sugerem ter sido infectadas por um novo vírus mortal transmitido através de relações sexuais e erroneamente associado a uma suposta "promiscuidade gay". Seu cinismo, oportunismo e senso de preservação a todo custo era, em parte, atribuído à infância idealizada pelo roteirista inglês Jamie Delano, que concebeu  toda a vida pregressa de Constantine, um filho da classe operária  londrina, adolescente rebelde, ex-integrante de uma banda punk chamada Membrana Mucosa (Delano chegou a inventar que, em 1978, a banda lançou seu primeiro single, Venus of The Hardsell) que, em dado momento, passa a ser interessar pelo ocultismo e pelo sobrenatural. Fuga à realidade? Escapismo? Talvez, embora os autores fizessem questão de lembrar aos seus leitores que   
"Começo a pensar que a maioria dos místicos dos quadrinhos costuma ser de velhos, muito austeros, muito distintos, CLASSE MÉDIA em vários sentidos. Eles não dariam em nada nas ruas. Ocorreu-me que podia ser interessante fazer um buxo que fosse das ruas, classe operária, com um background diferente do padrão de místicos", explicou Moore sobre sua cria, desenhada originalmente por John Totleben e Steve Bissette com base em Sting, então baixista e vocalista da The Police.

A injustiça é que Hollywood tenha feito um filme tão ruim ao levar Constantine às telas, com Keanu Reeves no papel do mago.

segunda-feira, dezembro 26, 2011

Presente Natalino



SURF ALL DAY
ROCK ALL NIGHT


Carlos Leite estava certo. Ou melhor, a previsão das ondas estava. Cheguei a Santos no sábado (24), junto com uma frente fria que se por um lado gerou turbulências e nuvens que me fizeram calcular as probabilidades do meu voo até São Paulo ser justamente aquele um dentre os tantos mil a que os especialistas se referem quando asseguram que voar é seguro, por outro trouxe ondas para todo o litoral Sul e Sudeste do país.

As ondas chegaram no domingo, de repente, geradas por uma ondulação Sul vinda de territórios distantes. Mesmo previstas com antecedência, surpreenderam pela rapidez com que se ergueram. Acordei as 7 horas e o mar estava laconicamente liso. Não havia sequer marolas. Tomei meu café e me entretive um pouco com a tv e com o micro. Duas horas mais tarde, quando voltei a olhar da janela, séries que ultrapassavam um metro quebravam em frente a minha casa, no canal 4, indicando que, em outro ponto da praia, mais adiante, as ondas estariam maiores.

Corremos para a praia, eu e meu amigo prego brasiliense, Carlos Leite (foto). E algo inédito aconteceu. Ao invés de seguirmos em direção ao canal 1, sentido no qual as ondas vão aumentando gradativamente, fomos na direção oposta, rumo ao canal 5. Com o ombro machucado e meses sem cair no mar, eu queria surfar um primeiro dia em frente de casa, para recuperar o ritmo. Só que como uma correnteza forte como eu não me lembro de já ter visto nas praias santistas arrastava a tudo e a todos para o fundo e no sentido do canal 1 (e, portanto, das séries maiores), convenci o Leite a caminharmos vergonhosamente 400 metros à esquerda. Entramos no mar pulando da ponta do canal 5, onde ondas cavadas de pelo menos um metro quebravam cerca de 100 metros distantes da areia. Com a correnteza, não foi necessário sequer remar, mas quando chegamos no fundo, já havíamos sido levados de volta pelos quase 400 metros, quase até diante do meu prédio.

Em 18 anos, esta foi a primeira vez que surfei naquele ponto da praia. Também foi a primeira vez que vi ondas enormes se formando em alto mar e avançando em direção a Ilha das Palmas e a Fortaleza da Barra, onde explodiam contra o paredão de pedras do morro  e quebravam diante da comunidade da Pouca Farinha. Como também não me recordo de ter enfrentado, em Santos, uma corrente tão forte quanto a deste sábado, desconfio que o aprofundamento do canal de acesso ao porto a fim de permitir o tráfego de navios de maior calado, como os transatlânticos, está modificando as condições martítimas locais, influenciando no comportamento das marés e fazendo com que as ondulações cheguem com mais força até encontrar a resistência do fundo. Será quem um novo tempo de surf está para começar em Santos?

A previsão é de que as ondas durem até pelo menos o meio da semana. Infelizmente, o chuvisco também ainda não vai parar até amanhã.  Hoje (26), o mar já está bem menos mexido, sem correntezas, e surfamos entre os canais 4 e 3, onde não havia quase mais ninguém, talvez devido à chuva. Poderíamos ter ido um pouco mais além, mas, olhando da areia, as ondas ali nos pareceram bem divertidas. Optamos por surfar sem ninguém a menos de 50 metros de nós, que temos procurado treinar intensamente para nos tornarmos alguns dos melhores surfistas...de Brasília.


Após as últimas idas e vindas, é como que uma satisfação sexual voltar a deslizar sobre uma onda. Melhor ainda foi ter pego algumas boas ondinhas das séries, principalmente levando em consideração que além de não cair no mar há vários meses, havia ido dormir as 4 horas, comemorando o Natal e o encontro com velhos amigos no tradicional Bar do Torto, um fenônemo onde metade dos frequentados parecem se conhecer e a outra metade, da próxima vez, já terão se conhecido. Um ótimo lugar que parece estar lotado quando há 50 pessoas e onde até eu me divirto, mesmo ouvindo mais uma banda tocando (bem) Capital Inicial, Rappa, entre outras obviedades.  

Quem sabe, talvez Papai Noel seja surfista.

domingo, dezembro 25, 2011

Pronto?



_ “Are you ready?”

Pronto? Para quê? Perguntei ao meu amigo globetrotter (ou giramundo), o surfista-prego brasiliense Carlos Leite, que após meses sem dar notícias, me ligou na sexta-feira (23) a noite de algum lugar abaixo do céu e acima do chão.

_ “Para o surf, véio. Tô de passagem pelo litoral paulista e decidi que este ano vou cear com seus pais e assistir à queima de fogos na República Caiçara” – soltou o cara de pau, elevando a voz acima dos risos femininos audíveis ao fundo. “A previsão é de que uma frente fria chegue no domingo, levantando as ondas. Preparado?”

Para o surf? Após quatro meses sem enfrentar uma arrebentação eu poderia tranquilamente dizer que não, mas sabemos, eu e ele, que a expectativa de uma ondulação é o bastante para injetar em qualquer surfista fissurado a necessária adrenalina para encarar as ondas. Além do mais, em se tratando de Santos, para onde eu viajaria no dia seguinte (24), e sendo Verão, duvido que as ondas cresçam assim como Leite espera. Sendo assim, vamos lá. O surf eu encaro.

_ “Que mal lhe pergunte, onde você vai ficar?”, dissimulei, já aguardando a resposta.

_ “Ué. Na casa dos seus pais. Liguei para a tua mãe como quem não quer nada, para desejar feliz Natal e um próspero ano-novo e ela me convidou”, disse ele, concluindo a frase com uma sonora gargalhada.

Então é isso. Mais um ano vai chegando ao fim. Por sinal, um ótimo ano. E as chances de encerrá-lo com chave de ouro, pegando onda, parecem promissoras. Foi um excelente ano profissional. Viajei um pouco. Conheci novos lugares (Itacaré, Ilhéus, Santarém, Alter do Chão, Dourados e uma cachoeira em pleno coração de Santos) e algumas pessoas maravilhosas. Estreitei amizades. Mantive-me são sem deixar de curtir um bocado e estou satisfeito com a quantidade de bons livros, shows, filmes e festas que marcaram meu 2011. Portanto, só posso ser grato a tudo e a todos. E voltar a compartilhar os mesmos votos dos últimos anos, da mesma forma. Pode não ser muito original, mas acho que esta mensagem tem, ano após ano, dado conta de traduzir o que desejo a todos que de alguma forma contribuem para que tudo valha a pena. E que em 2012, a exemplo do Carlos Leite, continuemos dropando as das séries.


(Amor Pra Recomeçar - Frejat)
 
Te desejo
Não parar tão cedo
Pois toda idade tem
Prazer e medo

E que com os que erram
Feio e bastante
Você consiga
Ser tolerante

Que quando você ficar triste
seja por um dia
E não pelo ano inteiro
E que você descubra
Que rir é bom
Mas que rir de tudo
É desespero...

Desejo que você tenha a quem amar.
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor para recomeçar

Eu te desejo muitos amigos
Mas que em um
Você possa confiar
E que tenha até
Inimigos
Prá você não deixar de duvidar

Desejo que você ganhe dinheiro
(Pois é preciso viver também)
E que você diga a ele
Pelo menos uma vez
Quem é mesmo
O dono de quem

Desejo que você tenha a quem amar
E que quando estiver bem cansado
Ainda exista amor prá recomeçar...

Ahhhh, o Verão...(brasiliense)

sexta-feira, dezembro 23, 2011

Um Conto Chinês

É argentino. Tem Ricardo Darín no elenco. E parte de uma premissa absurda, implausível, mas significativamente simples - a exemplo dos melhores filmes que los hermanos produziram nos últimos anos (Clube da Lua, Filho da Noiva, Nove Rainhas, Segredo de Seus Olhos, etc). 

Isso já seria o bastante para que alguém que goste de boas histórias apostasse seu valioso dinheiro no ingresso. A comédia dirigida  pelo ainda pouco conhecido Sebastián Borensztein, contudo, é mais uma obra a confirmar que o sucesso recente da cinematografia argentina se sustenta na qualidade do conjunto. Do roteiro ao elenco, passando , óbvio, pela produção.

A atuação de Darín é o filme, é certo. Em parte porque  sua personagem, o misantropo Roberto, um ex-combatente da Guerra das Malvinas cheio de manias que herda a loja de ferragens do pai, fornece ao atual muso e embaixador do cinema argentino mais uma chance de brilhar. Mas é  justamente a atuação precisa de todo o elenco que torna  crível  o trabalho de Darín. Em especial Ignacio Huang, que dá vida ao jovem chinês que após se envolver em um acidente absurdo em seu país, se vê zanzando perdido e sozinho pelas ruas de Buenos Aires, sem entender uma só palavra em espanhol. 

Sem grandes arroubos artísticos, Um Conto Chinês é mais uma prova  dada pelo cinema argentino de que para conquistar audiência e a empatia do público, não importa o que se conta, mas sim como se conta. De preferência dando ao mínimo recurso absurdo um significado para que apareça em cena.


segunda-feira, dezembro 19, 2011

Setembro é a melhor coisa de dezembro


"Safada, és meu vício. Morro em você pra viver em mim"
-
É isso mesmo. Setembro está, a meu ver, entre as melhores coisas deste dezembro chuvoso que resiste a se despedir do frio mesmo que o Verão já esteja batendo à porta. Quer entender melhor isso? Então acabe de ler o texto, volte a este parágrafo, clique aqui e ouça o quanto antes o segundo e mais recente álbum do pernambucano bissexto Junio Barreto.

Produzido pelo baterista da Nação Zumbi, Pupilo, o excelente disco chegou à internet quase sete anos após o lançamento do homônimo Junio Barreto (disponível na Rádio Uol) - primeiro trabalho solo do talentoso compositor e motivo de especialistas terem passado a chamá-lo de o "Dorival Caymmi de Caruaru", ainda que se for para citar alguém, a associação mais inequívoca seja com Chico Buarque, tanto pela harmonia e melodia, quanto, em alguns momentos, pela voz ou maneira de cantar. Embora, como bem notou Ronaldo Bressane (Trip), ouvintes atentos lembrarão mesmo é de Guimarães Rosa e, principalmente, de Manoel de Barros.

Meu lance aqui é escrever pouco, deixando espaços silenciosos para o desfrute de Setembro. Algo a que me dedico enquanto miro o céu nublado de Brasília e as mangueiras, jaqueiras e limoeiros que tampam a visão da minha janela. O que, de certa forma, também combina com a música ensolarada de Barreto.



quinta-feira, dezembro 15, 2011

Andando de Skate Em Cabul


Mursa não é um profissional e não disputa campeonatos representando grandes marcas de sportwear. Devido à violência, sua família deixou sua vila natal e se mudou para a capital de seu país, onde encontrou um ambiente tão hostil e violento quanto o que deixara para trás, mas onde o garoto de 17 anos adquiriu novos hábitos. 

Com apenas 12 anos de idade, a jovem Fazilla não aparece em revistas como a Transworld ou a Trasher. Não tem um shape com seu nome. Longe disso. Ela trabalha na rua, vendendo chicletes. E embora sua família às vezes não tenha o que comer, ela compartilha com Musa a descoberta de uma válvula de escape que lhes ajuda a lidar com a pobreza e a violência: equilibrar-se sobre um skate e saltar os obstáculos de ollie.

"No Skateistan eu não sinto que o meu redor está destruído. Me sinto em um lugar seguro", diz a garota sobre o projeto social responsável por manter a primeira (e, acredito, única) skatepark de Cabul, capital e mais populosa cidade do Afeganistão, país com mais de 3 mil anos de história e há dez anos ocupado por tropas militares da Otan, graças à declaração norte-americana de guerra ao terror, após os atentados de 11 de setembro de 2001. Guerra que, segundo algumas estimativas, já tirou a vida de mais de 12 mil civis, além de destruir de vez a já combalida economia local. 

"O skate se tornou um hábito. Se eu não andar, fico doente" diz Musa. O garoto, Fazilla e outros jovens afegãos que frequentam o projeto Skateistan ou que se divertem pelas ruas de Cabul andando de skate são as estrelas de um documentário, um curta-metragem de 10 minutos dirigido por Orlando Von Einsiedel e exibido no Brasil durante o último Festival Rocky Spirit, dedicados aos chamados esportes de natureza (ou outdoor). Reconheço no olhar e na expressão deles o prazer e a satisfação que os esportes radicais individuais podem proporcionar.

O filme mostra de forma original como o esporte, em particular o skate, pode, se não resolver a pobreza e os problemas cotidianos, ao menos contribuir para o aumento da auto-estima, indicando alternativas à criminalidade e dando esperanças de dias melhores. 

Vale a pena assistir e depois confrontar com um outro vídeo sobre jovens andando de skate, só que este bem mais estilizado, gravado em Brasília (DF) a fim de apresentar a capital brasileira como um destino turístico com espaços além dos normalmente exibidos nos telejornais.

Da minha parte, só posso prometer reclamar menos do péssimo asfalto brasileiro.




sexta-feira, dezembro 09, 2011

Futebol e organizações criminosas: uma mistura que dá samba


"Crescimento econômico brasileiro e crise europeia tornam futebol nacional atraente  para organizações criminosas internacionais lavarem dinheiro ilícito"


Talvez porque não acompanhe futebol (embora jogue) e não me ufane de nossas chuteiras milionárias, vejo a modalidade com muitas ressalvas. Não se trata de ter espírito de porco, mas sim de achar que se  nossa pretensa habilidade futebolística reflete muito do que chamamos brasilidade, a gestão do futebol brasileiro reflete o que temos de pior em nosso país: a corrupção, a apropriação privada dos bens e patrimônios públicos, o desmando, a falta de transparência e de respeito aos direitos mínimos, o enriquecimento de uns poucos, o compadrio.

Parte da responsabilidade por este quadro é, a meu ver, da chamada imprensa futebolística (há pouco de jornalismo realmente ESPORTIVO). Um exemplo? Imagine como os jornalistas políticos reagiriam caso alguém na mesma situação do presidente do Corinthians, André Sanches, fosse convidado a assumir a secretaria ou o departamento de um ministério ou de um órgão público. Qual a situação de Sanches? Ele é alvo de diversas denúncias e, segundo matérias recentes (a maioria delas feita por jornalistas de outras áreas que não a esportiva) está sendo investigado até pela PF. Ainda assim, foi nomeado diretor de seleção da CBF. Se bem que é ingenuidade minha questionar uma decisão desta natureza quando a entidade máxima do futebol brasileiro é comandada por Ricardo Teixeira.

Para mim, o maior legado que a Copa do Mundo pode deixar para o país é uma nova forma de enxergar o futebol, menos passional e ingênua. 

Bird alerta que muito dinheiro e fiscalização frouxa dos países emergentes atraem o crime organizado para o futebol
Da Agência Brasil

A crise financeira europeia e o bom momento da economia brasileira têm favorecido o futebol brasileiro. Embora endividados, os clubes do país oferecem salários cada vez maiores não só para trazer de volta atletas que jogam no exterior, mas também, para manter os novos talentos, como Neymar, que recusou várias propostas para se transferir para clubes europeus e decidiu permanecer no Santos. Este bom momento do futebol nacional, contudo, acaba sendo um atrativo também para organizações criminosas internacionais.
O alerta é da consultora do Banco Mundial (Bird) Brigitta Maria Jacoba Slot. Uma das autoras do primeiro estudo a avaliar mundialmente o envolvimento do crime com o futebol, Brigitta garante que países emergentes como Brasil, Rússia e China estão na mira de quadrilhas internacionais que precisam legalizar o dinheiro obtido de forma ilegal.
De acordo com Brigitta Slot, que é holandesa, a lógica é simples: quanto mais dinheiro circular no mundo do futebol, mais interesse esse mercado despertará o interesse do crime organizado. “É necessário que o país combata o problema desde já, pois, mais tarde, será ainda mais difícil. O futebol segue o dinheiro, de forma que as mudanças na economia global levarão a mudanças também na destinação do dinheiro dessas organizações criminosas”, disse ela em um seminário sobre lavagem de dinheiro no futebol brasileiro, promovido pelo Ministério da Justiça, em Brasília.
Segundo a consultora, o estudo concluído em 2009 identificou que os mecanismos de regulação e fiscalização do futebol são frágeis e insuficientes em praticamente todo o mundo. Além disso, falta transparência na condução dos negócios futebolísticos, como contratação de atletas e investimentos feitos por dirigentes de clubes e federações.
“Concluímos que o futebol é vulnerável à lavagem de dinheiro e a outros crimes, como tráfico de pessoas e corrupção”, disse Brigitta Slot. Para ela, o endividamento e a má governança dos clubes – inclusive os milionários times europeus, que também têm alto grau de endividamento -, a falta de fiscalização adequada por parte dos governos e a paixão que o esporte desperta são alguns dos fatores que contribuem para agravar o problema.
Como os demais palestrantes que participaram do seminário, a consultora do Bird classificou como injustificáveis e insustentáveis os altos salários pagos a jogadores e treinadores, além dos valores envolvidos nas transações entre clubes. “O futebol é intocável na maioria das sociedades. Às vezes, as pessoas se perguntam quem controla quem? São os governos que impõem regras aos clubes ou é o contrário?”, perguntou ela, provocando na plateia.
A íntegra do estudo do Bird está disponível, em inglês e em espanhol na página eletrônica do banco.

segunda-feira, novembro 28, 2011

Uma outra paisagem santista

Uma queda d´água de cerca de dez metros escondida em meio à vegetação, na região central da cidade? Assistir, do barranco, a uma pelada, torcendo pelo Juventude E.C.? Nadar fugindo de jacaré numa  lagoa no topo do morro antes que a especulação imobiliária a polua ou a privatize? Desfrutar de uma visão panorâmica dos grandes e feios espigões almejando arranhar os céus? Sentir o cheiro de uma enorme plantação de banana na cidade que vai cedendo espaço as boulangeries e empórios? Ver os chalés? 


Pois é. Mesmo em Santos, onde os caiçaras foram extintos, isso ainda é possível. Basta subir o  Morro da Nova Cintra. Dizem os historiadores que o próprio Martim Afonso de Sousa teria organizado a construção de um engenho d´água no local, determinando que fosse construída uma capela dedicada a São Jorge , o Engenho dos Erasmos, cujas ruínas ainda existem até hoje, a oeste do morro.

Só que para ver estas coisas não basta subir de carro, à noite, durante a época da famosa festa junina que se celebra no local, comer um churrasquinho e descer. É preciso bater perna, subir e descer ruas atento à paisagem e, principalmente, vencer o preconceito - pai do medo - e se misturar.  

sexta-feira, novembro 25, 2011

Versões e cópias


Há cerca de uma semana, registrei no post Mal Adaptado À Falta de Inspiração minhas impressões sobre a mais recente peça de Denise Stoklos, Preferiria Não?, aventurando-me a fazer algumas considerações a respeito de adaptações artísticas como a que a diretora/atriz/coreógrafa fez do conto de Herman Melville, O Escriturário.

Ontem (24), o jornal Folha de S.Paulo publicou no caderno Ilustrada duas matérias que embora tratem do `plágio artístico´ como método de criação -  o que não é o caso de Denise Stoklos -, me fizeram enxergar o tema por outro prisma. Sei que os especialistas discutem a aplicação e os efeitos da reprodução, da apropriação e da citação há décadas, de maneira que tudo aqui indicado é muito superficial. Mesmo assim, achei o assunto interessante e decidi, além de pesquisar mais, compartilhar os links aos meus três leitores que possam se interessar.

Copiar e Colar - Artista e escritor cria o manifesto da literatura não criativa e garante que a literatura do futuro será feita a partir de novas versões e cópias do que já estava escrito      

Conceito Atual de Plágio Divide Especialistas - Para professor de teoria literária, achar que `copia e cola´ refresca métodos de criação é inocente. "Que há uma crise na produção cultural atual não há dúvida. Mas achar que esse `copia e cola´ pode funcionar como base para um novo método de criação é muito inocente", alfineta Alcir Pécora, professor de teoria literária da Unicamp.

quinta-feira, novembro 24, 2011

Stiller sabe


Eu sou gay.
[...]
Quer dizer, eu acho que talvez eu seja gay.
[...]
Não sei ao certo. Eu também estou surpreso com a revelação. Até porque, continuo não sentindo atração alguma por homens. Ao menos conscientemente. Além do mais, toda minha experiência sexual até hoje se limita ao "convencional" homem/mulher. Mesmo assim, eu talvez seja gay e ainda não saiba. E tudo por causa de Hollywood.

Descobri minha latente homossexualidade enquanto olhava para a tv, ao lado dos meus pais. O que, convenhamos, é algo minimamente suspeito, concordo, mas isso não vem ao caso. Na verdade, eu estava de férias, entediado, trocando de canais e parei só por alguns minutos diante de uma cena de mais um destes filmes vulgares estrelados pelo tal de Ben Stiller (a exceção são os dois primeiros Entrando Numa Fria, mas não por mérito dele, né? Afinal, um filme com Robert De Niro e uma sequência com ele e Dustin Hoffman não pode ser de todo ruim. Embora seja um sinal dos tempos dois ícones do cinema toparem fazer figuração ao lado de um cara destes).

Nos poucos minutos que durou a cena eu pensava que só mesmo Stiller e o tal Adam Sandler para imbecilizar de tal forma a todo um gênero cinematográfico - no caso, a comédia. Depois do apogeu destes dois e de sucessos como Todo Mundo em Pânico, a classificação comédia se tornou, para muitos, o equivalente a um aviso de mantenha distância dos cinemas. Para os estúdios de Hollywood, no entanto, estes muitos espectadores arredios são compensados por outros tantos que levaram os mais de 50 (!) filmes estrelados por Stiller a, juntos, arrecadarem mais de R$ 2 bilhões em todo o mundo.  

Continuando...eu estava pensando nisso quando fui apresentado a uma inequívoca forma para se descobrir se um sujeito é "gay", mesmo que ele próprio ainda não saiba. Segundo o filme (que eu não me dei ao trabalho sequer de descobrir o nome) basta lhe perguntar se ele prefere Brad Pitt ou Russel Crowe. Se o tipo de que desconfias optar por Pitt, Bingo!, ele é homossexual. RS,RS,RS,RS,RS,RS,RS Engraçado, né? Como assim? Não entendeu? Ôrra, sujeito chato, meu!

Diante de minha recém-adquirida insegurança sexual, já sabem meus três leitores a quem eu prefiro, não? Agora, talvez valha dizer que antes de ouvir a explicação para a engraçadissima, hilária e fundamentada piada (não por acaso, no filme, a pergunta é feita à personagem de Stiller por um garoto de cerca de dez anos, que eu acho que deve ser o público alvo deste tipo de obra, daí, portanto, a razão dos produtores fazerem-no parecer mais inteligente que o adulto em questão), antes de ouvir a piada inteira, eu fiz um cálculo muito simples e pessoal. E confesso ter resistido um pouco para dar meu voto já que não pega bem para caras metidos a sabidos admitir admirar o talento de Pitt (estou me referindo ao talento como ator!).

O cálculo que fiz foi o seguinte: Pitt brilhou em Clube da Luta, um de meus filmes preferidos. Fez questão de atuar em Snatch - Porcos e Diamantes, do ainda pouco conhecido Guy Ritchie, mais tarde o sr. Madonna. Deu show em O Curiosos Caso de Benjamin Button e também em Doze Macacos. Seven - Sete Crimes Capitais é, hoje, um cult-movie. Ainda modelo e inexperiente, ele conseguiu se destacar com uma pequena ponta em Thelma & Louise. E se até mesmo um filme menor, como Sete Anos no Tibet, ganha com sua presença, o que não dizer daqueles em que é dirigdo por grandes diretores. Quem não se lembra da cena de Bastardos Inglórios em que o norte-americano tenta se passar por um italiano  ou de sua atuação precisa em Entrevista com o Vampiro?

Já Russel Crowe, pelas minhas contas, traz, no currículo, apenas dois grandes filmes merecedores de serem comparados aos com Pitt que mencionei: Dália Negra e Intrigas de Estado (Isso mesmo. O Gladiador não é um dos dois, ainda que Crowe esteja perfeito no papel. Papel para o qual, não tenho dúvidas, ele foi escolhido em função da atuação em Dália Negra).

Ambos são excelentes atores, sem dúvida, mas basta comparar a lista de filmes em que atuaram e outro aspecto pesará a favor de Pitt: ele ousa mais. Não sei se em função de receber mais (afinal, ele também fez muita coisa mediana) e melhores convites, mas quantos galãs correm o risco de frustrar suas fãs como ele, fazendo filmes difíceis como o recente Árvore da Vida ou Babel.

E foi assim que eu descobri minha verdadeira opção sexual, segundo mais um péssimo filme de Ben Stiller. Continuo gostando de mulheres, mas acho que não se pode conciliar isso com reconhecer que Brad Pitt é um bom ator.  

*****
Lógico que estou exagerando e que não era nada disso que Ben Stiller, o(s) sagaz(es)roteirista(s) de seus filmes ou o garotinho de dez anos tinham em mente. Mas Stiller e os seus, como legítimos representantes dos machos da espécie, sabem que o que seus pares gostam mesmo é de atores viris como Vin Diesel, Steven Seagal e, no limite, Russel Crowe que, apesar de bom ator, é macho pacas e não é tão galã quanto Pitt. Lógico que não dá para tê-los em todos os filmes. Portanto, às vezes é necessário recorrer à perseguições automobilísticas ou a piadinhas infames incapazes de arrancar uma risada de quem tem um mínimo de inteligência.

segunda-feira, novembro 21, 2011

À Sombra de um Delírio Verde


Um triste e sangrento episódio marcou o lançamento na internet, hoje (21), do documentário À Sombra de Um Delírio Verde, sobre o qual já escrevi aqui, após conversar com um dos diretores, Cristiano Navarro.

Há apenas três dias, mais um ataque criminoso contra uma aldeia indígena foi registrado no Mato Grosso do Sul. O documentário denuncia justamente o processo de genocídio contra o povo indígena Guarani Kaiowá, vítima da ação de um grupo fortemente armado.

“Os guarani kaiowá são, talvez, hoje, o povo indígena em pior situação no Brasil. Segundo denúncias de organismos internacionais, o que há [em suas aldeias] é um processo de etnocídio. Enquanto isso, o outro lado se opõe a qualquer tipo de demarcação de uma reserva, uma reação nada sensível”, afirma
Navarro, que antes de assumir a edição do jornal e do site Brasil de Fato, foi o responsável por publicar o jornal Porantin entre os anos de 2002 e 2006, período em que visitava aldeias guaranis kaiowás com frequência.

O documentário está disponível no link http://vimeo.com/32440717

domingo, novembro 20, 2011

"Há viagens sem regresso nem repetição"


Narrativa breve (um "quase romance", conforme indicado pelo próprio autor) e autobiográfica, No Teu Deserto é um dos mais recentes livros do jornalista português Miguel Sousa Tavares. Como esta é a primeira obra que li do autor, fui pesquisar na internet e notei que a história dividiu opiniões. Achei desde os que se disseram decepcionados até os que consideraram o livro um dos melhores de Tavares. Eu, particulamente, gostei e me animei a ler outras coisas dele.

Para quem, como eu, sabe pouco ou nada a respeito do autor que, ainda em 2009, dizia já ter vendido mais de um milhão de cópias de seus livros e que pode viver exclusivamente dos direitos autorais recebidos, vale ler a entrevista ao português Diário de Notícias, "Estou a pensar ir-me embora para o Brasil"

Abaixo, uma colagem de trechos selecionados por mim. (espero que isso seja divulgação e não pirataria)

Essa história que vou contar passou-se há vinte anos. Passou-se comigo há vinte anos e muitas vezes pensei nela, sem nunca contar a ninguém, guardando-a para mim, para nós que a vivemos [...] lembro-me exactamente quando foi e que idade tinha: tinha trinta e seis, e lembro-me por isso mesmo, porque foi o ano da minha vida em que me senti mais novo [...] E, se eu era jovem, tu, a meus olhos, eras a própria juventude. Tudo em ti, não apenas os teus absurdos vinte e um anos.

[...] A ideia de começar finalmente a contar esta história a alguém nasceu-me quando procurava uma fotografia qualquer, numa das gavetas onde guardo (nunca percebi bem para quê) centenas de fotografias e slides de memórias [...] E foi assim, abrindo a gaveta à procura de qualquer outra coisa, que, sem aviso, me escorregou para as mãos uma fotografia tua tirada durante aqueles quatro dias. Fiquei a olhar-te longamente, longa, longa, longamente. E longamente me fui dando conta de que tudo aquilo acontecera mesmo.

[...] Muitas vezes me lembro dos nossos diálogos, durante as longas horas daqueles sofridos e gloriosos dias, interminavelmente aos saltos e solavancos dentro do jipe, navegando no vazio, num horizonte despido de qualquer vaidade e presunção. Dias de inocência, de iniciação, de descoberta, pelo deserto do Sahara adentro.

Então, com o passar dos anos, fui pensando que um dia teria de contar esta história. Não a história de como atravessamos o deserto e voltamos, mas a história de como conseguimos chegar ao deserto. Por isso escrevo esta história. Porque sinto a sua falta, muitas vezes. E porque gostaria de lhe perguntar se ela se lembra como eu me lembro, mas sei que sim. Sei que ela se lembra. Sei que foi feliz então, como eu fui, mas deve achar que eu me esqueci, que me fechei no meu silêncio, que me zanguei com seu último desaparecimento. Não é verdade.

[...] _ E por que é que ficam calados depois?

_ Porque já não têm mais nada de importante para dizer.

E fiquei a pensar [nos] sahraoui que, como não têm nada, absolutamente nada, poupam tudo. Poupam a água, a comida, poupam as energias viajando de noite para evitar o calor [do deserto]. Até poupam nas palavras.

_ Mas tu não poupas as palavras: tu escreves. Todas as noites gastas uma hora a escrever um diário nesse teu caderno...

_ Escrever não é falar.

_ Não? Qual é a diferença?

_ É exactamente o oposto. Escrever é usar as palavras que se guardaram: se tu falares de mais, já não escreves, porque não te resta nada para dizer.

sábado, novembro 19, 2011

Mal adaptado à falta de inspiração


Desde que, há cerca de 15 anos, assisti a uma peça do então ainda homem de teatro Cacá Rosset, no teatro da Fiesp, em São Paulo, tornei-me desconfiado em relação à obras teatrais ou cinematográficas "adaptadas" ou "livremente inspiradas".

Não consigo lembrar qual era a peça (O Avarento, de Moliére? Sonhos de Uma Noite de Verão, de Shakespeare?), mas não esqueço da desagradável sensação de ter sido enganado. Era como comprar catupiry e receber um requeijão genérico, de segunda; não ter visto à Legião Urbana e ter que se contentar com um show da Catedral ou, sem dinheiro para contratar a Beyoncé para uma exibição particular, levar pra casa a Gabi Amarantos (a "Beyoncé do Pará").

A sucessão de palavrões e piadinhas "livremente" inseridas no texto que resistiu ao longo de séculos despertando o interesse e a admiração de sucessivas gerações me parecia evidenciar a superficialidade de nosso tempo. Então era necessário "adaptar" os clássicos a fim de torná-los palatáveis à plateia? E essa adaptação significava contar umas piadas fora do contexto original, falar uns palavrões, vestir as personagens com um figurino moderninho ou, no cinema, adotar uma edição de video-clip?

Não que não haja adaptações bem-feitas. Há as que são respeitosas em relação à obra original. E quando digo respeitosa não quero dizer que sejam fiéis. Pelo contrário. Em algumas, só com esforço é possível identificar traços das que lhes deram origem. Só que, quando alertados, localizamos os principais aspectos, ou seja, a essência, aquilo que faz da obra original algo digno da admiração de todos, principalmente daqueles mesmos que se propõem a, à partir dela, criar algo totalmente novo ou a buscar uma nova forma de contar o que já foi exibido milhares de vezes sem que suas possibilidades se esgotassem. A não ser quando a motivação para a adaptação não passa de preguiça (para dizer o mínimo).

Esta semana, dois episódios me fizeram reviver a mesma sensação de inadequação, levando-me a refletir sobre o assunto (para algo então eles serviram).

No teatro, ocorreu, infelizmente, durante o mais recente espetáculo de Denise Stoklos, Preferiria Não?, baseado no texto Bartleby, O Escriturário, do norte-americano Hermam Melville (autor de Moby Dick). Digo infelizmente primeiro porque é quase injusto comparar a proposta de Denise Stoklos à de Cacá Rosset (mas fazer o quê se o resultado das peças, para mim, foi quase o mesmo?). Há anos a defensora do "teatro essencial" vem sendo bem-sucedida em fundir a dramaturgia a sua própria experiência biográfica, a exemplo dos espetáculos Vozes Dissonantes e Desobediência Civil (este último, um dos melhores a que já assisti).

Neste mais recente, contudo, a coisa não funciona. Ou, ao menos, não funcionou na apresentação da última quinta-feira (17), no Sesc Santos. Embora a própria atriz/diretora/coreógrafa/dramaturga sustente no folder da peça de que não há, no espetáculo, "simples cacos (invencionices teatrais que apareçam aqui e ali com a simples e fortuita intenção de distrair)" deixei o teatro com a sensação contrária. Não entendi no que fazer piada com o ministro do Trabalho Carlos Lupi, com Palloci ou colocar o escriturário Bartleby na condição de motoboy contribuíram para o texto de Melville.

Em segundo lugar, digo infelizmente porque Denise Stoklos é tão boa atriz que é capaz de prender a atenção da plateia mesmo o texto não funcionando. Além do domínio técnico pleno, ela parece estar sempre possuída por uma verdade, de tal forma que nos ilude, nos envolve, quase não nos deixando dar-nos conta de que nada de mais aconteceu no palco durante a mais de hora em que acompanhamos sua tentativa de fazer Bartleby e ela própria se confundirem. Mas o engodo é fácil de desmontar. Basta, passada a surpresa do truque, se perguntar sobre o que era a história. Enquanto me lembro de Vozes e Desobediência anos após assistí-las, já na manhã seguinte eu não sabia explicar as idas e vindas de Preferiria Não?. Estou até agora tentando sacar o que afinal de contas Denise queria dizer com a história que dissesse respeito a nós (com certeza ela não me instigou a sair de casa para vê-la reclamar dos editais com que são selecionados os artistas que receberão recursos das leis de incentivo fiscal). Ainda que tudo estivesse muito bem costurado.

*****

Ah, o outro episódio? Dez minutos dentro da sala de cinema onde se exibia o novo Os Três Mosqueteiros, com Orlando Bloom e a bela Milla Jovovich. Sim. Dez minutos foi tudo que eu suportei desta constrangedora adaptação da bela história escrita no século XIX por Alexandre Dumas e agora transformada em um misto de Piratas do Caribe com Resident Evil (razão, talvez, para a escolha de Bloom e de Milla, protagonistas dos dois). E o engraçado é que a menção aos Três Mosqueteiros é uma mera fórmula preguiçosa do estúdio de obter uma chancela para a porcaria do filme. Porque se trocasse o nome das personagens e substituísse algumas cenas, poderia muito bem anunciar uma nova obra descartável, tamanha a distância entre as duas. Ou pelo menos entre a história original e os dez minutos iniciais que eu aguentei antes de sair e pedir para o lanterninha me deixar entrar em qualquer outra sala, mesmo que o filme, qualquer que fosse ele, já tivesse começado. (Acabei assistindo a Reféns, com Nicolas Cage e Nicole Kidman. Fraco, mas diante do que eu havia deixado para trás, pode-se dizer que é uma obra-prima) 

quinta-feira, novembro 17, 2011

Universo Almodovariano


Só mesmo um cineasta como Pedro Almodóvar para levar às telas, com maestria, uma trama como a de A Pele que Habito. Um filme difícil até de classificar, que dirá resenhar sem com isso estragar a surpresa do roteiro. Um terror sem um "monstro" unidimensional? Um suspense sem grandes sustos? Um insólito "Frankstein" almodóvariano? Ou uma ode e um alerta às obsessões 

Acho que, atualmente, apenas o espanhol e os norte-americanos Quentin Tarantino e Terence Malick (A Árvore da Vida) gozam da necessária liberdade para transformar suas particularíssimas visões em filmes que agradam a uma considerável parcela do público adulto (há outros importantes e comercialmente bem-sucedidos diretores como, por exemplo, Clint Eastwood, mas estes se associam a uma outra corrente cinematográfica, muito mais próxima à tradição hollywoodiana, na qual a mão do diretor não é tão perceptível - Eastwood é uma exceção, uma avis-rara, daí sua grandeza).      

A Pele não é, a meu ver, o melhor de Almodóvar. E, ainda assim, é surpreendente. Principalmente porque aponta para a aparentemente infinita capacidade do diretor se reiventar e fugir aos estereótipos que, a cada novo ciclo, vão surgindo em torno de seu nome. Ao fim de 133 minutos, as luzes da sala se acendem e deixam ver o sorriso no rosto do público. E a expressão nada tem que ver com a história do cirurgião plástico Richard Ledgard (Antonio Banderas). Não. O quase imperceptível sorriso é provocado pela constatação de que Almodóvar é um raro contador de histórias capaz de não só manipular a trama, mas a própria plateia, envolvendo-a e conduzindo-a por seu universo particular. 

Conselho: Se possível, não assista a nenhum trailler do filme. Além de excepcionalmente ruins, são capazes de estragar parte da surpresa.

terça-feira, novembro 15, 2011

O Palhaço


O prolífico Selton Mello acertou a mão em sua segunda incursão por detrás das câmeras, ou seja, no papel de diretor. E olha que, apesar da aparente simplicidade do roteiro de O Palhaço, há certa ousadia artística na forma como Selton conta a história de um palhaço deprimido e em crise de identidade, sem fazer concessões ao humor rasteiro.  Nada, contudo, tão denso quanto seu primeiro filme, Feliz Natal, de 2008. Falta, é verdade, ritmo, unidade, a algumas cenas, mas isso não chega a comprometer o resultado final de seu novo longa-metragem.

Abrilhantado pela atuação do excelente Paulo José (que interpreta o palhaço Puro Sangue, pai de Pangaré, a personagem corporificada pelo próprio Selton) e por ótimas participações de uma turma há muito ou nunca vista nas telas (Jackson Antunes, Tonico Pereira, Ferrugem (!) e um surpreendente Moacir Franco, hilário em sua pequena ponta), O Palhaço é uma boa surpresa.

domingo, novembro 13, 2011

Só O Ouro


Chego em Santos e o primeiro lugar a que a saudade me leva é à roda de samba do Ouro Verde, no Marapé. Após duas horas e meia, saio leve e faceiro, mas ainda disposto a tentar a sorte em outro lugar. Apenas para constatar que, aparentemente, o Ouro Verde se tornou um dos poucos lugares de boa música brasileira nesta "sonífera ilha". O outro é o Bar do Torto, próximo a minha casa (sim. Para mim, Santos continua sendo minha casa. Por isso me dou ao direito de criticar a falta de criatividade dos donos de casas noturnas que convidam para tocar bandinhas que fazem cover do Rappa e do J.Quest; a falta de coragem dos músicos santistas que não ousam surpreender seu público e o desinteresse de quem sai de casa a noite somente para aplaudir sua boa memória musical e capacidade de reconhecer refrões de grandes hits).



O Descobrimento do Brasil



Após passar por diversos cargos em indústrias de diferentes setores, meu pai dedicou os últimos vinte anos de sua vida profissional aos negócios de uma família empreendedora, destas tantas que ajudaram a desenvolver não apenas a cidade de Santos, mas o país. Por acaso, tanto os donos do negócio quanto seu delegado eram portugueses, mas quero crer que isso foi circunstacial. Poderiam ser espanhóis, japoneses, chineses, judeus-brasileiros e até mesmo, com menores chances, santistas.

(Engraçado, mas nas lembranças de minha infância os santistas mais bem-sucedidos eram cosipanos, estivadores ou profissionais liberais como médicos e advogados. Quando muito, tinham uma lojinha, uma papelaria ou um boteco com um único empregado também ele explorado)

Ao longo de duas décadas, meu velho dedicou ao menos doze horas diárias, seis dias por semana, ao trabalho. Não tinha horário certo para almoçar - algo que fazia no próprio local de serviço, entre uma tarefa e outra. Não tinha sábados, domingos e feriados de folga. Nas suas férias, não viajávamos. Na verdade, até meus 15 anos eu havia deixado o estado uma única vez, para ir a Minas Gerais, com minha mãe, comprar roupas para revender. O trabalho, muito, era para custear poucas coisas.

Mas voltando ao meu pai, vale dizer que ele treinava sozinho, em casa ou no trabalho, o inglês que aprendera quando jovem e que desenvolvera trabalhando a bordo de um navio mercante e, depois, já de volta ao Brasil, como tradutor técnico. Ainda hoje ele continua traduzindo para o português, em bloquinhos de recados, todo o Velho Testamento. Só para praticar o idioma que, acredito eu, domina como poucos. Não bastasse isso, há alguns anos ele encasquetou com o japonês. Em pouco tempo já conseguia identificar ideogramas e conversar um pouco com a família de japoneses dona de um lava-rápido (acho que era circunstancial e que eles poderiam ser espanhóis, japoneses, chineses, judeus-brasileiros e até mesmo, santistas). Meu pai ainda é capaz de citar, de memória, os trechos de Os Lusíadas de que mais gosta. Infelizmente, os patrões estavam pouco familiarizados com os versos do autor dos maiores épicos da língua portuguesa, de forma que meu pai jamais recebeu qualquer distinção por esta particularidade.

Além do dinheiro recebido em troca da sua força de trabalho, todo ano meu pai e os outros funcionários recebiam uma cesta de Natal como reconhecimento à dedicação aos negócios da família portuguesa. Na pesada cesta que pai trazia para casa de ônibus havia um pacote de passas, um vidro de azeitonas, uma caixa de bombons, alguns itens de que não me lembro, torrones, jujubas, um panetone barato e uma indefectível garrafa de Sidra ou Espuma de Prata. Por uns três anos, após a chegada de Collor ao poder e à abertura do mercado brasileiro ao exterior, a coisa se sofisticou e os espumantes foram provisóriamente substituídos por garrafas azuis de vinho Liebfraumilch (que, traduzindo, significa Leite de Mãe, de onde se deduz tudo. Como na época havia poucas opções nacionais à disposição do brasileiro médio, o alemão fez um grande sucesso, iniciando-nos nos segredos da enologia, o que possibilitou o advento das tábuas de queijo e cantadas envolvendo foundue. Isso, contudo, não durou muito e logo voltamos a Sidra).

A cesta devia ser dada como um verdadeiro ato de generosidade patronal, mas nunca entendi porque os chefes não entregavam aos seus funcionários o dinheiro correspondente para que os próprios comprassem o que quisessem ao invés de pagar para quem uma empresa comprasse torrones e jujubas de Natal)

Como é de conhecimento geral, a maioria das criaturas que habitam o litoral brasileiro não dão aos festejos natalinos a mesma importância que dão ao Reveillón. Por isso, se fôssemos bancar a família feliz estourando a champagne genérica para a foto, a ocasião seria a comemoração do Ano-Novo. A questão é que, na maioria das vezes, meu pai ou estava trabalhando ou estava tentando vencer o trânsito e voltar para casa após mais um dia de trabalho. De forma que as garrafas nunca eram abertas e terminavam indo parar em um armário, deitadas como se fossem vinhos caros acondicionados em uma adega climatizada. Os anos passaram, as garrafas se tornaram um acervo sem qualquer valor ou sabor, seus rótulos amarelados. Quando chegaram a vinte, meu pai se aposentou.

O paradoxo é que, ao deixar de trabalhar para a família de portugueses, meu pai viu não só a sua situação financeira, mas a própria economia do país se estabilizar. E tal como outros 30 milhões de brasileiros, conheceu a sensação de ascender um degrau que fosse na escala social. Aos iogurtes que, graças às doze horas diárias de trabalho, nunca faltaram em casa, acrescentamos ocasionais garrafas de vinho chileno e, vez ou outra, um português. Dentro da desigual ótica brasileira, acho até que já podemos nos dizer classe média. Com isso, não só os hábitos de consumo mudaram como a própria compreensão da realidade. O que não mudou foi o fato de eu, ainda hoje, ouvir vozes sussurrando conceitos ultrapassados como luta de classes e mais-valia sempre que vejo um rótulo de Sidra.

Por isso, foi como um ato de libertação, uma alforria, algo como a lei áurea, estourar, ontem, todas as garrafas que havia na casa dos meus pais e, sob o olhar consternado da minha mãe, despejar o conteúdo na privada. "Será que não é bom para temperar uma carne?", ainda tentou me impedir ela.

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sexta-feira, novembro 11, 2011

11/11/11

Um dia ímpar: férias (ou o que resta delas)                                    - Coisa constrangedora circular por Brasìlia com uma prancha de surf -

quinta-feira, novembro 10, 2011

Popular e bem-humorado

As capas do carioca Meia Hora são simplesmente sensacionais. Isso sim é humor popular e inteligente.

Isso é Rap?

Rap, do inglês, Ritmo e Poesia. Poesia, ainda que a seu modo, o rapper paulistano Criolo já provou que sabe fazer. Ritmo (e boa voz) tá ficando óbvio para cada vez mais gente que ele também tem de sobra.



Meu primeiro contato com a música de Criolo foi através do clipe da música Subirusdoistiozin. Ouvi e chapei. Pensei que se estivesse começando hoje, Adoniran Barbosa faria algo parecido, se apropriando do dialeto das ruas como já fazia em seu tempo. (O clipe é bom, mas é uma pena que interrompa a ótima música a todo instante)



Antes, porém, Criolo já havia estourado com Não Existe Amor em SP. "São Paulo é um buquê. Buquê são flores mortas, num lindo arranjo". "Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel". Quem conhece a dor e o prazer que é viver na maior cidade brasileira há de concordar ao menos parcialmente com a poética seca e ressentida do rapper.



A verdade é que o mais recente disco do Criolo, Nó na Orelha, foi um dos mais surpreendentes lançamentos musicais recentes. Até porque, embora tenha mais de vinte anos de carreira, Kléber Gomes, antes conhecido como Criolo Doido, pensava em lançar um último trabalho e então abandonar a música. Deu no que deu. O material caiu na mão do produtor Daniel Gajaman que, junto com o também produtor Marcelo Cabral, convenceram o MC (mestre de cerimônia) a, além do rap, se aventurar por outros gÊneros musicais como samba e bolero. Botaram cordas, sopros, teclados na história, mas preservaram a musicalidade e a poética do rapper, que se revela um bom cantor.

O disco pode ser baixado no site amusicoteca, no link www.amusicoteca.com.br/?p=4194