segunda-feira, junho 24, 2013

O Assombro



              
          "o remédio para os malefícios da extrema esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária"
           do primeiro presidente militar pós-abril de 1964, General Castello Branco


Helicópteros sobrevoam meu prédio. Ao longe, sirenes passam apressadas. Hoje, em Brasília, é a vez de motoristas e cobradores de ônibus protestarem bloqueando vias ao redor da Rodoviária do Plano Piloto em pleno horário de pico. Em outro canto da capital federal, manifestantes marcham rumo à casa do governador. Mais cedo, duas mulheres morreram atropeladas por um motorista em fúria durante um protesto de moradores da periferia da "ilha da fantasia". Em Porto Alegre, milhares se concentram debaixo de chuva. Cenas semelhantes acontecem no Rio de Janeiro, Campinas, São Luis,  Goiânia, Cubatão e em outras localidades.

De nada adiantaram os dois pronunciamentos feitos tardiamente pela presidenta Dilma Rousseff. Os protestos continuam e oficiais das PMs falam em "estado de comoção social". A única mudança veio dos jornalistas. Desde que viram seus pares feridos durante as manifestações, eles assumiram um outro tom, destacando o aspecto democrático das reivindicações e se esforçando para atribuir o quebra-quebra a vândalos que ninguém até agora conseguiu mostrar muito bem que são. Mesmo assim, cresce entre a população o sentimento de que a coisa está fugindo ao controle (se já não fugiu) e cada vez mais pessoas admitem querer mudanças, mas - contraditoriamente - não às custas da falsa ordem em que temos sobrevivido há séculos. 

Diante da feição indistinta que as manifestações vem ganhando nos últimos dias, o Movimento Passe Livre de Santos ajuizadamente decidiu que "devido à conjuntura nacional de instabilidade política", não vai organizar novas manifestações. Entre políticos receosos e especialistas perplexos, o MPL santista parece ter dado ouvidos ao apresentador Silvio Santos: quem protesta contra tudo protesta contra nada. Fato que comporta também o contrário. Ou seja, quem não tem clareza sobre sua(s) bandeira(s) pode acabar empunhando qualquer outra que lhe puserem nas mãos. Daí a importância de cada um saber pelo que está lutando e se o seu objetivo não é contraditório com o de quem está ao seu lado. Dá para respeitar as diferenças, mas não é possível pedir a destituição do pastor Marcos Feliciano da Comissão de Direitos Humanos e ao mesmo tempo xingar a presidenta de sapatão esquerdopata. 

É preciso estar alerta para isso. Afinal, a História não é um contínuo fluxo progressista de melhorias em que os erros do passado não mais se repetem. Os que fazem eco ao coro "Fora Dilma!", por exemplo, estão no seu direito. Mas como alertou o diretor teatral Luis Fernando Marques, devem estar cientes de que, mantida a lei e a ordem constitucional (que, até prova em contrário, é o que todos querem), o "Fora, Dilma!" significa o mesmo que "Viva, Michel Temer".  Isso é só um exemplo da complexidade do que está em jogo nas ruas. 

Daqui a oito meses vamos relembrar os 50 anos de nosso último golpe militar, deflagrado com vários objetivos ou bandeiras e apoio massivo da imprensa e de setores conservadores da sociedade. A mais cândida das metas militares era moralizar o país, combatendo a corrupção e a subversão.  O golpe começou muito antes de 31 de março (ou 1º de abril) de 1964 e um de seus principais arquitetos foi o coronel Golbery do Couto e Silva. Entre as estratégias do então coordenador do Serviço Federal de Informações e Contra-Informações (órgão que deu origem ao famigerado Serviço Nacional de Informação (SNI), hoje Abin) para desestabilizar o governo de Jango estava a guerra psicológica. Os homens de Golbery distribuíam nos quartéis uma circular apócrifa incitando os militares contra o presidente *

Consumado o golpe, o general Humberto Castello Branco, o Quasímodo, tomou posse alertando de que a Gloriosa levaria o país à frente "com a segurança de que o remédio para os malefícios da extrema esquerda não será o nascimento de uma direita reacionária, mas sim o das reformas que se fizerem necessárias".

A ditadura vigorou por 25 anos. Durante esse tempo, os milicos centraram todas suas forças no combate aos que classificavam como subversivos: estudantes, políticos de oposição, trabalhadores politizados, jornalistas imparciais, etc  Os corruptos? Bem, esses rapidamente se aliaram ao novo regime, como sempre fizeram desde que o mundo é mundo. (Não preciso lembrar o lamentável fato de que alguns dos civis que apoiaram os militares de 64 estão entre os que hoje apóiam o governo formado por pessoas perseguidas durante a ditadura). Entre os perseguidos, Dilma Rousseff.

"Declaro que é de minha vontade a intervenção das forças armadas na atual crise nacional com fins de restaurar a ordem". "Eu quero um presidente militar e vc?". "O que está se delineando na realidade, é um golpe de esquerda, para transformar nosso país em uma nova Cuba!, e, o primeiro passo para isto foi a campanha do desarmamento [...] mas a real intenção deste plano era desarmar a população , para que em um momento como este que está acontecendo, não poder reagir ao golpe que se anuncia". "A punição é fechar o congresso, senado, prender todos os políticos, todos são ladroes e corruptos, e juizes corruptos, e fazerem devolver o dinheiro desviado dos cofres públicos". 

Essas são apenas algumas das várias manifestações anti-democráticas com que me deparei nas redes sociais. Há muitas outras. Inclusive de palpiteiros que não tendo aprendido nada com o resultado do apoio da imprensa ao golpe de 64, seguem dando opiniões irrefletidas. "Paralisado com os protestos e aparentemente sem comando [...] Quem está tomando conta da loja?”, questiona o ex-assessor de imprensa do presidente Collor, Cláudio Humberto, que, já em 29 de maio passado, informava seus leitores de que circulava na internet um abaixo-assinado então com 800 assinaturas de pessoas que pedem a volta dos militares ao poder. A iniciativa "tem como objetivo acordar os nossos militares, os nossos generais a dar um golpe de estado imediatamente, antes que seja tarde demais”, diz o abaixo-assinado, que deve ter encorpado bastante nos últimos dias.

É preciso ter cuidado. Nunca se sabe que fantasmas nos espreitam. 


* Figueiredo, Lucas - Ministério do Silêncio (A História do serviço secreto brasileiro) 

2 comentários:

luiza_oliveira5 disse...

O que eu penso sobre isso tudo... O processso em curso no Brasil é repleto de contradições, como não poderia deixar de ser. Não existe um levante popular nesse momento pedindo a volta da ditadura militar ou defendendo bandeiras reacionárias. Pelo contrário, o que querem os milhões que saem as ruas é o fim da corrupção, mais investimentos em educação e saúde, transporte de qualidade e por aí vai. E quais dessas pautas não são pautas de esquerda?

Portanto, o muito que se tem falado sobre golpe está muito mais associado a um discurso governista para desmobilizar o movimento do que à realidade. É certo que existem setores de ultra-direita que são minoritários e que tentam se utilizar do vácuo de direção política do movimento, para incentivar ações que se choquem contra as bandeiras e as organizações políticas dos trabalhadores.

Evidentemente, que para a direita clássica trata-se de acumular o desgaste do governo do PT para as próximas eleições. Mas não está colocado um golpe nessa conjuntura, pois não existe partido ou uma figura que canalize pra si o desgate do regime político, e o governo Dilma segue atendendo muito bem os interesses do grande capital no Brasil.

Mas diante essa realidade, que é contraditória, onde o movimento não tem uma direção clara e existe uma amálgama de reivindicações que tem sido levantadas, qual seria o melhor posicionamento para as organizações de esquerda? Definitivamente, o inverso do que fez o MPL, que patinou diante a magnitude das mobilizações, e teve que voltar atrás dizendo que seguirá nos protestos.

É hora de colocar os trabalhadores e a juventude em cena, de forma organizada, por meio de suas entidades de classe. Assim os milhões que tem saído as ruas poderão atingir vitórias concretas que sintetizem as bandeiras históricas dos movimentos sociais.

No mais, saudade de você. Beijos,

Luiza Oliveira

Semifosco disse...

Luiza, obrigado pelo oportuno comentário. Admito que, como quase todo mundo, estou maravilhado e perplexo com tudo que está acontecendo e, principalmente, com a forma como isso tudo se deu. Acho que vai levar um tempo para a gente compreender o que de fato possibilitou que a insatisfação popular há tanto represada viesse à tona neste exato momento. Essa incógnita torna o assunto ainda mais interessante para quem é curioso e atento.

Quanto a suas observações, concordamos em que não há, no momento, clima ou motivos reais para se falar em golpe. Eu não creio sequer que os militares pensem nisso. Ainda assim, confesso um certo "assombro" com algumas manifestações contraditórias vistas nos últimos dias. Como você mesma observa, o processo em curso é repleto de aparentes contradições - contradições vistas e acolhidas dentro das manifestações, e não só de fora como seria de se esperar.


É o caso das manifestações pelo fim da corrupção. Algo vago que você identifica como uma velha bandeira das esquerdas, mas da qual, hoje, você bem sabe quem se apropriou. E sem querer defender A ou B, eu não me sentiria à vontade marchando ao lado de alguém que gritasse isso de boa-fé, mas sem refletir sobre sua real motivação. Justamente por achar que A e B tem contas a prestar.

De resto, não tenho certeza alguma sobre tudo o mais, só curiosidade, esperança e alguns temores. Estes últimos, contudo, não são maiores que a convicção nos cartazes que afirmam que "cidade muda não muda".

Beijo